terça-feira, 21 de setembro de 2010

Lota do Patane

Legenda: "Lota do Patane. Séc. XX, anos 70". 
Fotografia de Lei Chiu Vang.
Colecção: "Memória Colectiva dos Residentes de Macau - Imagens Antigas de Macau"

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O bairro do Patane

O Largo do Pagode do Patane e o templo de Tou Tei. 
Fotografia de Lei Iok Tin, ca. de 1949 (publicada no catálogo da exposição Macau: 150 anos em Fotografia, Leal Senado, 1991)


Diz-nos Gonzaga Gomes* que, entre os residentes chineses, o bairro do Patane encontra-se subdividido em duas zonas: a de Sá Lei T'âu (ou Cabeça de Pera), "que abrange o emaranhado labirinto de travessas, calçadas, becos e pátios que existem nas ruas da Pedra, da Palmeira e da Ribeira do Patane" e a de Sân K'iu, na qual "se entrecruzam as ruas da Espectação de Almeida, de Corte Real, do Capão, da Erva, da Barca, de Inácio Pessoa, de Marques de Oliveira, da Alegria, de Martinho Montenegro e a Estrada do Repouso". A separar, mais ou menos, as duas zonas, a Rua de João Araújo. 
Refere ainda o mesmo autor que a zona de Sân K'iu foi, em tempos bastante recuados, terreno baldio "onde só medravam a esteve, a urze e quejandas plantas agrestes", o que justifica a designação atribuída a duas das principais artérias da zona: a Rua da Erva e a Rua de Entre-Campos. Este terreno, posteriormente transformado numa alagadiça várzea, era irrigado por uma pequena ribeira, a Ribeira do Patane ou Canal de Sân K'iu.
Esta Ribeira do Patane ou Canal de Sân K'iu possuiu uma ponte, primeiro construída em madeira e bambú, de foma enviesada - designava-se por K'ók K'iu ou Ponte Sinuosa -, destruída por um tufão e substituída por outra que passou a designar-se por Ponte Nova ou de Sân K'iu. Da ponte, já há muito desaparecida, perdura apenas o nome numa pequena travessa, a Travessa da Ponte.
Muitas destas ruelas, travessas e becos recordam, na sua toponímia, quer a sua anterior localização ribeirinha - Becos do Coral e da Concha, da Doca e da Ribeira, por exemplo - ou antigos ofícios ligados às actividades marítimas, à pesca e à construção naval, tais com as Travessas dos Calafates, dos Cordoeiros e dos Estaleiros, o Largo da Cordoaria ou o Beco dos Anzóis.


* Luís Gonzaga Gomes. Lendas Chinesas de Macau. Notícias de Macau, 1951.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

navegação

rio do Oeste, em cujas águas pardas
lavo o olhar errante, faço dos dias barcos
e das noites com luzes, nas Cem Ilhas
lugar-comum do meu pranto.
Fernanda Dias. chá verde. Círculo dos Amigos da Cultura de Macau, 2002 

Areia Preta

Praia de Hac Sá ou da Areia Preta. Coloane, Setembro de 2010

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Auguste Borget: gentes e costumes de Macau

"Jogadores". Cerca de 1839.
Lápis sobre papel.
Auguste Borget (1808-1877)
Colecção Quadros Históricos. Museu de Arte de Macau

"Vagabundo". Cerca de 1839.
Lápis sobre papel.
Auguste Borget (1808-1877)
Colecção Quadros Históricos. Museu de Arte de Macau


Durante dez meses, nos anos de 1838-39, o artista francês Auguste Borget (1808-1877) permaneceu em Macau onde, tal como o pintor inglês George Chinnery, se dedicou a desenhar a cidade, as suas ruas e edifícios, templos e igrejas, acompanhando os seus desenhos e esboços de observações ou pequenas descrições sobre a cidade, as suas gentes e os seus costumes.

Auguste Borget: na Wikipédia (em francês) e no Museu de Arte de Macau

Bocage

"É quanto Portugal tem em Macau."
Bocage

Naquele ano fatal da Grande Perdição
Que deflagrou, no mundo, un nouvel âge,
Chegou aqui, surgido de Cantão,
Pra onde o arrebatara o furor de um tufão,
O poeta Bocage.

Achou a terra decadente e estranha
E a gente ora mendiga ora devassa.
E enquanto, num soneto, a satiriza, entoa
Meigas estrofes à "magnânima Saldanha"
(Marília, ao celebrar-lhe a formosura e a graça)
E um hino de lisonjas à "preclara Hulhosa"

Quase um ano inteiro (quase uma vida inteira!)
Por Macau bocejou e vagueou à toa.
Mas, por mercê de Lázaro Ferreira,
Um dia, enfim, pôde enrolar a esteira
E voltar a Lisboa.

A cidade, porém, não lhe esqueceu o vulto
(Esqueceu o soneto que é justo, sem ser mau):
Hoje, uma rua, rende-lhe culto.
- É quanto o poeta tem em Macau.

António Manuel Couto Viana. "Bocage", No Oriente do Oriente. in Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. ICM, 1996

sábado, 11 de setembro de 2010

Panorâmica de Macau


Legenda: "Vista panorâmica da cidade de Macau e da Colina da Guia" 
Fotografia: Santana. Edição: Livraria Kuong Meng. Data: s/ data (c. 1970)

Vista da Baía da Praia Grande - a partir da igreja da Penha - já prolongada com os aterros do Porto Exterior, concluídos por volta de 1938. A estátua do governador Ferreira do Amaral foi inaugurada em 1940, o Liceu Infante D. Henrique em 1958 e o Hotel Lisboa em 1970.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Lugar dourado e encantador

Macau sã assi, com lugares como este: dourado e encantador...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O edifício dos Correios de Macau

O edifício dos Correios e as avenidas de Almeida Ribeiro e Infante D. Henrique, nos anos 30 do século XX. 
(Bilhete Postal publicado por Plaza Cultural Macau, Lda,  Colecção The past. Romantic memories)

"Estava na forja a construção doutro edifício considerado imponente: o dos Correios e Telégrafos no Largo do Senado, considerado na altura majestoso e pleno de modernidade. Ninguém apontou, então, que o seu perfil pesado, sem estilo arquitectónico definido, iria contrastar com a fachada do Leal Senado, nem com outros edifícios do largo, todos cheios de arcadas e varandas, duma airosidade que só agora se reconhece".
Henrique de Senna Fernandes. "O Cinema em Macau - II. 1930-31. A Emoção do Sonoro. in RC - Revista de Cultura, nº 18, II Série, Janeiro / Março 1994


O edifício dos Correios, projecto do arquitecto Chan Kun Pui, foi construído em 1929 e aberto ao público em 1931. Encontra-se classificado "Edifício de interesse arquitectónico".


quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O tio Lam


O "tio Lam" e os seus bonecos de farinha.
Fotografia de Lei Iok Tin (ca. 1960), publicada no catálogo da exposição Reminiscências - Fotografias de Macau Antigo. Museu de Arte de Macau.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A última viagem do "Dong Shan"


Legenda: "Última viagem do ferry "Dong Shan" entre Macau e Hong Kong. O Ferry foi o meio de transporte mais utilizado nas viagens entre Macau e Hong Kong. Foi posteriormente substituído pelo Hydrofoil".
Data: 1 de Janeiro de 1974.
Fotografia de Lei Chiu Vang.
Colecção: Memória Colectiva dos Residentes de Macau - Imagens Antigas de Macau.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Convento do Precioso Sangue


Legenda: "Antigo Convento do Precioso Sangue, actual Autoridade Monetária de Macau".
Data: Século XX, anos 70. Fotografia de Lei Chiu Vang.
Colecção: Memória Colectiva dos Residentes de Macau - Imagens Antigas de Macau.


Construído em 1917, o edifício do antigo Convento do Preciosos Sangue encontra-se classificado Património Cultural (Edifício de Interesse Arquitectónico). Inicialmente residência de Luís Nolasco da Silva, filho do sinólogo Pedro Nolasco da Silva, foi adquirido, nos anos 30 ou 40, pela Ordem das Irmãzinhas do Precioso Sangue, passando a designar-se por Convento do Preciso Sangue.
É, desde 1996, sede da Autoridade Monetária de Macau.


Lei Chiu Vang, que por mais de quarenta anos trabalhou para o jornal "Macao Daily News", fotografou, ao longo de décadas, ruas e gentes de Macau. Membro honorário e executivo da Associação Fotográfica de Macau, encontrando-se também associado à Royal Photography Society de Hong Kong, à Hong Kong 35mm Photography Research Society e à Hong Kong Chinese Photography Society, Lei Chiu Vang ofereceu, em 2003, 143 fotografias da sua colecção ao Museu de Arte de Macau, que posteriormente organizou a exposição "Visita ao Passado - Fotografias de Lei Chiu Vang".

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Macau: Praia Grande

Macau: Praia Grande. Artista Chinês Anónimo.
Guache sobre papel. Ca. 1840
Colecção "Quadros Históricos" do Museu de Arte de Macau

"Bocage no Extremo Oriente", por António Manuel Couto Viana


"(...)
A 7 de Abril de 1789, o poeta sadino chega a Damão, nomeado tenente do regimento de infantaria de Terço, ali aquartelado.
Mas, no dia seguinte, desertor, escapa-se para Surrate, de onde embarca para Macau.
Andava neurasténico, dominava-o uma doença grave, detestava a terra e as gentes, padecia com o silêncio de Gertúria, a mulher amada que deixara no distante Outão, entre laranjais e águas de safira.
Pensara mesmo no suicídio. O espírito pedia-lhe liberdade, novos horizontes e aventura e de olvido. Lá pela Europa soprava, forte, destruidor do velho mundo, o furacão francês da Revolução. Um outro, mais benigno, nascido dos mares irrequietos da China, arrebatava o poeta ("Até que aos mares da longínqua China / Fui por bravos tufões arrebatado") para Cantão, por onde vagueia esfarrapado e faminto ("E mais mísero eu, que habito o remoto Cantão"); "Mísero de mim que em terra alheia..."; "A fértil China... / Te viu com lasso pé vagar mendigo"). Muito provavelmente acolhido numa das feitorias estrangeiras dessa fabulosa cidade, quiçá a inglesa, não tardou a arribar a Macau, governada interinamente pelo desembargador Lázaro da Silva Ferreira, após o falecimento do governador Francisco Xavier de Mendonça Corte Real, em 1789.

(...)
É o comerciante Joaquim Pereira de Almeida que recebe, com a maior gentileza, Manuel Maria Barbosa do Bocage e se presta a apresentá-lo, quer a Lázaro Ferreira, quer a algumas famílias importantes da terra.
O poeta não se esquece de agradecer a todos com um punhado de versos elogiosos.
A Joaquim Pereira de Almeida dedicou uma elegia, chamando-lhe "bom benfeitor, bom caro amigo".
À Senhora D. Maria Saldanha Noronha e Menezes, dama distintíssima de distintíssima família, então vivendo em Macau, casada e com filhos, de exemplar virtude, Bocage não deixa de rogar-lhe, numa ode a que deu o título significativo de Esperança, que o auxilie a regressar a Portugal. Marília é, à maneira árcade, o nome que atribui à nobre Dama, dotada de grande beleza física e, igualmente, de grande beleza moral.
Eis parte da composição, naturalmente hiperbólica, que o poeta depõe aos pés daquela de quem aguardava poderosa intervenção para alívio das suas inquietações e solução da sua grave situação de desertor:
"Musa, não gemas, ergue, ó desgraçada
O rosto macilento
Da vista a frouxa luz, quase apagada.
Nas lágrimas que vertes, Musa, alento!
Move trémula planta,
Pisa receios, e a Marília canta.

Canta da ilustre Dama a gentileza,
A prole esclarecida,
Os dons da sorte, os dons da natureza,
As prendas com que a vês enriquecida:
E, depois de a louvares,
Torna os teus choros, torna os teus penares.

Ah, que já sinto, milagroso objecto,
Quanto pode o teu rosto!
Da malfadada Musa o torvo aspecto
Já cora, já se vai do meu desgosto
Sumindo a névoa densa.
Que desfaz, como o sol, a tua presença.

Inclina, pois, magnânima senhora,
Os clementes ouvidos
Á voz que não profere, aduladora,
Altos encómios de razão despidos:
A verdade celeste
Com seu cândido manto os orna e veste.

A ti, dignos de ti, Marília, voam;
A ti, bela heroína
Cujas mil graças mil virtudes c'roam;
A ti, que enches de glória a fértil China,
Enquanto a que te adora,
Mísera Pátria, tua ausência chora.

As deidades, criando-se, exauriram o seu cofre divino;
Os seus encantos para sempre uniram
Em aúreo laço o mais feliz destino.
E eis os dons com que brilhas
Reproduzidos nas mimosas filhas."
E o poeta, depois de tecer floridas capelas de versos às filhas de D. Maria Saldanha, para enternecer-lhe o coração de mãe, implora o seu favor, com emocionante inspiração:
"Com suspiros, ó triste, implora, implora
De Marília a piedade;
Ela é justa, ela sente, ela deplora
Os erros da infeliz humanidade;
Contra o fado inimigo
Na sua compaixão procura abrigo.

Roga, roga-lhe, enfim, que te destrua
As ânsias, os temores;
Que a pátria, ao próprio lar te restitua,
Ah! já diz que sim: não mais clamores;
Musa! Musa! descansa,
Cantemos o triunfo, ó Esperança."
(...)
A outra dama, D. Maria de Guadalupe Topete de Ulhoa Garfim, oferece Bocage igualmente uma ode, mas não pedinchona, sim de louvor à beleza da musa, que eu adivinho de ascendência castelhana, quer pelos apelidos, quer pelas referências ao pequeno rio Mançanares, que banha Madrid, unido ao "aprazível Tejo", em cuja "ruiva margem" o poeta tem o seu "tugúrio pobre".

(...)
Por fim, a Lázaro Ferreira, que escutara, benévolo, as pretenções de Bocage, intercedendo junto das cimeiras Senhorias, e permitindo ao poeta, após tais diligências, regressar a Portugal, sem castigo de monta; Lázaro Ferreira é brindado, pelo deneficiado, com nova ode, A Gratidão, que conclui deste jeito encomiástico:
"Tudo a ti devo, ó benfeitor, ó grande,
Que a roçagante, venerável toga
Mais venerável pelos seus preclaros
Méritos fazes.

Tudo te devo: a gratidão não sofre
Que teus favores generosos cale;
Julga tu mesmo se o silêncio é crime,
Árbrito excelso.

Aos estrelados, aos cerúleos globos
Sempre em meus hinos subirá teu nome,
Ó céu! ó fados! conservai Ferreira,
São necessários os heróis no mundo;

E tu ferrolha os porcelosos monstros,
Eólo amigo.
(...)
Durante o tempo que permaneceu na pequena parcela portuguesa do Extremo Oriente, ou seja de Setembro ou Outubro de 1789 a Março de 1790, o poeta observou a cidade com perspicaz exactidão, a ponto de a retratar num soneto.

(...)
Eis o soneto de Elmano:
"Um governo sem mando, um bispo tal;
De freiras virtuosas um covil,
Três conventos de frades, cinco mil
Nhons e chinas Cristãos, que obram muito mal;

Uma sé que hoje existe tal e qual;
Catorze prebendados sem ceitil,
Muita pobreza, muita mulher vil;
Cem portugueses, tudo num curral;

Seis fortes, cem soldados, um tambor;
Três freguesias cujo ornato é pau;
Um Vigário-Geral, sem promotor;

Dois colégios, e um deles muito mau;
Um senado que a tudo é superior;
É quanto Portugal tem em Macau"
O sábio historiador Monsenhor Manuel Teixeira, no seu livro Macau no Século XVIII, ocupou-se a analisar o soneto bocagiano e conclui pelo rigor dos traços de retrato.
Julgo de maior interesse histórico este comparar cada verso com a realidade de Macau nessa época: Assim:
"'Um governo sem mando'. É exacto: o governador não tinha poder ou mando civil; era chamado Peng-t'au (cabeça de Tropa) ou comandante militar; mandava, apenas nos soldados e nas fortalezas."
(Eu atrevo-me a sugerir que Bocage podia também referir-se ao facto de, durante a sua estada em Macau, haver apenas um Governador interino.)
"'Um Bispo tal'. Não havia bispo. D. Alexandre da Silva Pedrosa Guimarães partira para Lisboa a 10.1.1780, deixando como governador do Bispado o Padre António Jorge Nogueira".
(A ausência de Bispo, tal como a ausência de Governador é, quanto mim, o que o poeta quis mencionar neste primeiro verso do soneto).
"'De freiras virtuosas um covil'. Refere-se às clarissas do Mosteiro de Santa Clara. (...) A palavra 'covil' deve referir-se à clausura rigorosa dessas virtuosas freiras. São elas as únicas elogiadas pelo poeta e bem o mereciam, pois o seu fervor era extraordinário. (...)"
"'Três conventos de frades': São Francisco, Santo Agostinho e São Domingos."
"'Nhons e chinas cristãos que obram mui'. Nhons propriamente significa senhores e nhonhas, senhoras".
(Filhos da terra, em patuá, ou seja no dialecto popular macaense.)
A corrupção dos costumes, nesta época, era muito censurada pela autoridade eclesiástica.
"'Uma sé que hoje existe tal e qual'. Era a Sé Catedral, que datava de 1622 ou 1623 e que existia tal e qual como fora feita."
"'Catorze prebendados sem ceitil'. Bocage inclui aqui todos os que recebiam prebendas, cónegos ou não. Prebenda era o direito de um eclesiástico receber certos subsídios ou rendimentos da Catedral. (...) Em 1777 faziam serviço na Sé 24 padres mas em 1790 eram muito menos. Após a partida do Bispo, em 1780, vários deles recusaram servir na Sé. O governador do Bispado, D. António José Nogueira, publicou um decreto para os obrigar; mas eles apelaram para Goa, e o arcebispo primaz deu-lhes razão.
É de crer que em 1790 fossem apenas 14 os prebendados, incluindo cónegos, capelães e outros."
"'Muita pobreza, muita mulher vil'. A 4 de Abril de 1783, D. Maria I dizia que a guarnição de Macau, 'em lugar de soldados, se compunha somente de indigentes e mendigos'; e que os cristãos chinas e portugueses estavam reduzidos à indigência e à miséria'. Em resultado da pobreza, havia 'muita mulher vil'.
O bispo D. Marcelino José da Silva, "para obviar este estendal de vícios, fundou o Recolhimento de Santa Maria Madalena, no qual mandou recolher algumas dessas mulheres mais famosas e publicamente escandalosas, mas o governador da Índia mandou-o fechar: o bispo, desanimado, resignou, abandonando esta verdadeira Sodoma com o seu abominável lupanar."
"'Cem Portugueses tudo em um curral'. Que curral era este, onde se refastelavam os suínos, já não sabemos.
Quanto aos cem portugueses, também é verdade. O bispo Pedrosa Guimarães, no seu relatório de 1775, dizia que 'os portugueses europeus' 'somavam só 108', vivendo todos numa cidade muralhada."
"'Seis fortes, cem soldados, um tambor'. Os fortes eram: a) São Paulo (construído de 1622 1626); B) Santiago (1622-1629); c) Nossa Senhora da Penha (antes de 1622); d) São Francisco (1622-1626); e) Nossa Senhora da Guia (antes de 1622, reconstruído e aumentado em Setembro de 1637 a Março de 1638); f) Nossa Senhora do Bomparto (antes de 1622).
Quanto aos 100 soldados e um tambor, no seu relatório de 1775, dizia o Bispo Pedrosa Guimarães que os militares eram '85, com mais três cabos de ronda, 10 sargentos 2 tambores', ou seja 99 ao todo."
"'Três freguesias, cujo ornato é pau'. Eram a Sé (...); São Lourenço; (...) e Santo António. As igrejas paroquiais eram pobres e sem valor artístico (...)".
"'Um Vigário-Geral, sem promotor'. O Vigário-Geral, ou melhor, o governador do Bispado, não tinha promotor em 1789-1790".
"'Dois colégios e um deles muito mau'. Trata-se dos Colégios de São Paulo e de São José; ambos construídos pelos jesuítas. (...)
O Colégio muito mau era o de São Paulo, pois já em 1787 se achava em mau estado, pelo que foram mandadas demolir as oficinas e edifícios desabitados, que estivessem em ruínas.
Quanto a S. José, foi confiado em 28 de Julho de 1784 aos lazaristas que o elevaram ao seu primitivo esplendor."
"'Um Senado que a tudo é superior'. Exacto: quem mandou sempre em Macau foi o Senado, pois o governador era apenas comandante militar, cujo poder era limitado aos seis fortes e aos '100 soldados e um tambor'".
E Monsenhor Manuel Teixeira conclui a cuidadosa análise com este comentário:
"Por aqui se vê o fino espírito de observação de Bocage que, estando menos de um ano em Macau, viu mais do que muitos em toda a sua vida."
(...)
António Manuel Couto Viana. "Bocage no Extremo Oriente". RC - Revista de Cultura, Nº. 37 (II Série). Outubro/Dezembro, 1998

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

As portas de Macau

Legenda: Macao, Harbour.
Edição: Union Postale Universelle. Data: ca. de 1900
A Baía da Praia Grande

"Macau tem duas portas principais abertas no seu fraco muro da cerca. Já te disse onde uma estava situada, próximo à Gruta de Camões; a outra é na parte oposta da cidade, chama-se a Porta do Campo, e é por ela que vulgarmente saem os habitantes que vão espairecer extramuros, com especialidade os cavaleiros e os que vão em carruagem. Sobe ao meu humilde cabriolet, e saiamos também da cidade. Vês uma bonita estrada. À direita o fortezinho de S. João; a horta dos Parses, rica de flores exóticas; e a horta do padre Almeida, que é, depois da gruta, o lugar mais conhecido de Macau; tem no centro uma casa circular com quatro galerias em forma de cruz que dão um aspecto inteiramente original àquele grande pavilhão; na frente três torreões, lago, jardim; e fora dos muros sepulturas de chins, uma fonte, árvores, e lá no topo a fortaleza da Guia. À esquerda uma pobre povoação de chins cristãos com a sua capela de S. Lázaro, que foi a primeira freguesia de Macau, e mais além a aldeia de Mong-Há e as ruínas de um forte novo. Seguindo, deixas à direita a moderníssima fortificação de D. Maria II, desces a galope a Rampa dos Cavaleiros, e entras no istmo onde esteve a Porta do Cerco: estás outra vez na China dos mandarins (...); o melhor é voltar e, a trote rasgado, seguir a margem do rio pelo outro lado da povoação de Mong-Há, volver a entrar na cidade pela porta de Santo António, ou cruzando uma estrada transversal pelo sopé da fortaleza do Monte, vir sair novamente à horta do padre Almeida e, daí, retroceder para o interior de Macau".
Francisco Maria Bordalo. Um Passeio de Sete Mil Léguas (publicado em Lisboa, em 1854) in Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De Longe à China. Macau na Historiografia e Literatura Portuguesas. Tomo 2, ICM, 1988

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Ligeiros tancás

George Chinnery (1774-1852). Barcos / Boats.
Aguarela sobre papel / Watercolour on paper.
Colecção do Museu de Arte de Macau.

"Ligeiros tancás (pequenos barcos, cujo nome se traduz por casca de ovo) guarnecidos por engraçadas mulheres chinesas que falam um patois, português divertidíssimo, não pronunciando o r e substituindo-o sempre pelo l, e fazendo ainda outras transformações, tudo em cadência musical, conduziam a bordo os nossos marítimos, alguns dos quais morriam de amores pelas belas tripulantes. E em verdade que tinham razão; aquelas carinhas morenas das tancareiras, molduradas em óptimos cabelos, escuros como os seus olhos pequeninos, mas vivos, com lindos dentes, mãos pequenas, pés delicados, apesar de costumados a andarem descalços, estatura baixa mas esbelta, trajo assaz pitoresco; cabaia e calça azul ou preta, lenço de cores vivas na cabeça, sapatos de prodigiosa altura, um certo requebro no andar, era tudo isto decerto muito mais bonito do que os rostos cobreados das timoras, e dessas raças cruzadas de malaio, chim e europeu, que parecem haver sido achatados ainda no berço. Até aqueles barquinhos, onde elas vivem de dia e de noite, parecem chamar os passageiros pelo seu extraordinário asseio; e com tudo dentro de um fraco tancá, tem uma família o seu pagode, espécie de deuses penates, sempre alumiado e bornido; cozinha, cama, bancos, enfim a mobília completa de uma pobre casa; as tancareiras aí vivem, aí cozem o seu arroz e o comem, aí dormem, rezam e folgam. A sua religião manda-as dedicar à alegria até encontrarem marido, e elas cumprem à risca este preceito, enquanto um esposo feliz não opõe a barreira himeneu a essa torrente de loucuras; desde então a tancareira tornou-se uma mulher séria; não ri para o viandante nem responde a nenhuma provocação, senão mostrando uma fita preta que lhe cinge o pescoço e quer dizer: sou casada. A variedade acabou para ela!"
Francisco Maria Bordalo. Sansão na Vingança! in Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo II. ICM, 1998

Embarquei na lancha a vapor Macau


Legenda: Central City and Harbour. Macao.
Edição: Union Postale Universelle. Data: ca. 1890

"24 de Setembro de 1883 - Às cinco horas da manhã embarquei com o tenente Cinatti na lancha a vapor Macau, que se acha no porto para o serviço do governador. Dirigimo-nos à Taipa e descemos pelo canal de Coloane, passando em frente da povoação deste nome, que oferece uma perspectiva muito risonha. Neste canal desemboca a denominada Ribeira da Pedra, por onde se desvia na vazante grande massa de água do Broadway, não tanto como a que sai pelo canal da Taipa. Aquela ribeira passa ao sul da Ilha de D. João, ou de Macarira, ilha que nos pertence e que é muito acidentada e despida de vegetação. Demos a volta à ilha de Coloane, que é bonita, e subimos pelo canal da Taipa, por onde antigamente se fazia a entrada em Macau e que hoje está muito assoriado e baixo. Soprava um vento rijo e fresco e o mar estava muito encapelado, com uma vaga curta e desencontrada que imprimia à Macau movimentos sacudidos e incómodos, enxovalhando-a com a espuma e o salpico das águas (...)"
Adolfo Loureiro. No Oriente, de Nápoles à China. in Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo II, ICM, 1998

Estrada de Adolfo Loureiro

Estrada de Adolfo Loureiro. Macau, Julho de 2010

Estrada de Adolfo Loureiro: começa na Avenida Sidónio Pais e termina no cruzamento da Estrada de Coelho do Amaral com a Rua da Restauração.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Tou Tei, o Deus da Terra

Pequeno altar dedicado a Tou Tei, o Deus da Terra, situado ao nível do solo, no passeio. Macau, Rua de S. Paulo. Julho de 2010

terça-feira, 27 de julho de 2010

Macau di tempo antigo: 1960 澳门


Sterculia lanceolata na Taipa

Sterculia lanceolata recentemente transplantada para um arruamento da Taipa.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A Árvore Sagrada

Vamos amiga, minha sombra
Já sumiram as pegas desenganadas
Na escuridão da noite
Só o silêncio acolhe o coaxar dos sapos
Atirando para a orla do céu
A lua enferrujada

A oriente, o sol sangrento ascende
Na luz da aurora um pássaro azul desperta
Debica o puro e fresco orvalho
Vem, estende as mãos, desanuvia o céu
Deixa a madrugada revelar o matiz de cristal
Ousa a nudez primeva, com candura
Lava-te na luz da alva como um recém-nascido

Se o deserto odeia a sua própria aridez
Se transplantar uma vida é uma lenta agonia
Confia no tronco que emerge do chão profundo
Rompe o círculo dos anos no corte do lenho
Livra a alma, arranca das areias a barba estéril
Deixa o universo rodopiar num torvelinho
Arrastando para longe as suas raízes.
Gao Ge. Poemas. Colecção Escritas de Macau. Instituto Português do Oriente, 2007. (Poemas de Gao Ge traduzidos para português por Fernanda Dias segundo tradução literal comentada por Stella Lee Shuk Yee)

Biografia Sumária do Poeta Gao Ge publicada no livro Poemas:

"Gao Ge, poeta de Macau, nasceu em 1940, em Fujian. O seu nome oficial é Huang Xiaofeng.

É licenciado em letras pela Universidade de Xiamen. Fez o mestrado em Educação na Universidade de Wuhan e o Doutoramento em História na Universidade de Jinan.

Reside em Macau desde os anos setenta, onde se tem dedicado ao ensino da História da Arte.

Tem vasta obra poética e didáctica publicada em língua chinesa, e desenvolveu actividade editorial nas seguintes publicações:
Editor da página de letras do Jornal Hua Qiao
Editor da Revista de Cultura de Macau desde 1980.

É membro fundador da Associação de Escritores de Macau e Presidente da Associação de Poesia "Maio".

Actualmente ensina "História da Cultura de Macau" e "História Universal da Arte" no Instituto Politécnico de Macau".

Ficus rumphii

Ficus rumphii - ou Falsa Figueira do Pagode - na Taipa, no Largo e Calçada do Carmo.
Taipa, Junho de 2010

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Avenida da República

Legenda: "O conjunto de arvoredo da Av. da República. Tree line Praia Grande".
Fotografia de Wong Wai Hong. Edição: Ming Shun Dim. Data: 1990

Aberta em 1910, começa junto à Rua do Bom Parto e termina na Rua de S. Tiago da Barra. Até essa data, a estrada marginal à baía da Praia Grande terminava no Bom Parto, situando-se o forte junto ao mar. A fotografia mostra a Avenida da República antes da construção dos aterros da Praia Grande, cujas obras ficaram concluídas em 1996, com o fecho da baía e a construção dos lagos de Nam Van e Sai Van.
Toda esta zona, que foi a belíssima marginal de Macau, encontra-se classificada património cultural.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Tufão

Insinua-se a fúria do tufão
na solidez quimérica
do abrigo
e na calma provisória
do interior
reinam por instantes as razões
com que me digo

mas bem sei que a palavra
é grito débil
perante a fúria incontrolada
do tufão
e é ele que no final terá razão

Carlos Frota. Dos Rios e Suas Margens. Macau, 1998

O tufão de 1931

"Estragos do terrível tufão de 1931, na Praia Grande". Fotografia de autor não identificado publicada na RC - Revista de Cultura, nº 18, II Série, Janeiro / Março 1994

"(...)
No meio do optimismo geral que reinava em Macau, nos primeiros meses de 1931, deu-se um estranho acontecimento que muitos interpretaram como sinal de que a prosperidade iria encontrar o seu termo.
Este acontecimento foi o inesperado furacão de 19 de Abril que desabou sobre a cidade e cercanias, precisamente no dia seguinte à inauguração do "Capitol"(1) e quando no "Vitória" se estreava o "Sunny Side Up".
Os tufões são calamidades da natureza a que estamos habituados, mal desponta o Verão. Mas nunca eles surgem inopinadamente. Temos tempo de nos preparar, porque, mesmo sem consultarmos os boletins meteorológicos ou barómetros, a nossa experiência leva-nos a prever a sua aproximação, pelo intenso calor nas vésperas da sua vinda, pela observação do céu e do tempo, pelo aspecto do mar e pela recolha dos juncos ao Porto Interior. Em 1931, se não tínhamos os satélites nem os boletins emitidos de quarto em quarto de hora na rádio e na televisão, sabíamos pelos observatórios de Macau, de Hong Kong e da Ilha das Pratas, todo o movimento dos temporais que entravam no Mar da China.
Também estávamos habituados a ver levantar-se, de repente, um pé-de-vento que agita o mar em ondas alterosas, trazendo grossas rajadas do leste que tornam as viagens entre este Território e Hong Kong e arredores numa provação mais que incomodativa. São os tais "seack-vús" que causam avarias aos juncos e outras embarcações de pesca, mas que raramente resultam em tragédias.
Jamais, porém, houve memória dum furacão que caísse sobre a cidade desprevenida e mar à sua volta, com a fúria destruidora daquele.
Não nos lembramos se o dia nasceu molhado. O que se sabe é que nuvens negras se acumularam na parte da tarde, começando a cair sobre a nossa terra uma chuva torrencial por volta das 19,00 horas. Esta chuva foi engrossando, acompanhada de uma trovoada absolutamente anormal. As faíscas rasgavam o céu e os relâmpagos mostravam o negrume das nuvens e o véu espesso de água que nos fustigava. Para aumentar a desgraça, surgiu o vento com rajadas fortíssimas dum autêntico tufão e a superfície do mar entumesceu em vagas alterosas.
Durante algumas horas, a cidade morreu, num transe aflitivo. Árvores arrancadas, embarcações afundadas com algumas mortes e muitos feridos, a canhoneira "Pátria" e a lancha-canhoneira "Macau" sofreram avarias, algumas casas desabaram e, se a memória e as informações não nos falham, aqui e ali declararam-se incêndios.
Nós fomos apanhados pela tragédia quando nos encontrávamos, com os pais e irmãos, no "Vitória". O filme, esperado com grande expectativa, ficou interrompido logo no início. A trovoada era tão grande que o público encheu-se de pânico, começando a abandonar a sala de espectáculos. Apenas nos lembramos de ver a Janet Gaynor a cantar os primeiros acordes do "Sunny Side Up" e logo abriram-se as luzes. No átrio, apinhado de espectadores aterrorizados, víamos o fluir da torrente que vinha da Rua dos Mercadores para a Avenida Almeida Ribeiro. Não sabemos como o nosso pai conseguiu um táxi - um dos poucos que existiam em Macau e só pertencentes a garagens.
Ficámos molhados que nem pintos, ao entrar para o carro e durante o trajecto para casa. O motorista conduzia muito bem, felizmente, e defrontou a chuva que cegava, e o vento que parecia fazer saltar o automóvel, com calma e segurança. Quando chegámos a casa, estávamos quase em estado de choque, sem exagero.
No dia seguinte, o aspecto das ruas era desolador. Mas o que nos impressionou mais foi o panorama da baía da Praia Grande então ainda intacta, sem aterros que a destruíram para sempre. Havia juncos afundados e, a boiar, porcos e cães muito inchados e repugnantes, sabe-se donde.
A superstição chinesa, que vê nas calamidades súbitas da natureza em fúria o anúncio de graves acontecimentos políticos e económicos, ficou apreensiva e predisse uma mudança no mar de rosas de prosperidade. E não tardaria que factos viessem confirmar as suas apreensões.
(...)"
Henrique de Senna Fernandes. "O Cinema em Macau - II. 1930-31. A Emoção do Sonoro". in RC - Revista de Cultura, nº 18, II Série, Janeiro / Março 1994


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Entrei no pequeno jardim público

Legenda: Macao - Public Garden. Edição: Union Postale Universelle.
Data: ca. de 1890

O Jardim de S. Francisco, ou Ka Si Lán Fá Yun, o Jardim dos Castelhanos, para os chineses, foi o Passeio Público de Macau e possuía um coreto onde tocava uma banda, ao pôr do sol, aos domingos e quintas-feiras. "A banda continuou ali a tocar por longos anos num coreto apropriado", diz o Padre Teixeira(1), "e só cessou de tocar quando esta última foi dissolvida a 9 de Outubro de 1935".

"19 de Setembro de 1883
(...)
No meu regresso entrei no pequeno jardim público, que tinha antigamente a forma de um jardim simétrico e regular, medido e traçado a compasso, e que o meu colega Brito tentou transformar em jardim e parque moderno, à inglesa. Está muito limpo e varrido e é este o seu único mérito, tendo muito pequena área e sendo vulgares as plantas que o adornam. Um guarda e jardineiro mostra-se como a medo e oferece a figura a mais extraordinária e original que é possível imaginar. É um china, um verdadeiro china de rabicho, mas vestido de cabaia e calção encarnados! Soube depois que para aquela pitoresca toilette fora aproveitado um pano de mesa, ou uns velhos reposteiros, que havia nas Obras Públicas. Mais extravagante do que aquela figura só ali vi a de muitas plantas em vasos a que a paciência e teimosia do chinês contrafizera por muito tempo, até obrigá-las a tomarem a forma de um dragão, de uma ave, de um mandarim ou mandarina, etc... Para a semelhança ser maior, adicionavam-lhes pequenas cabeças de porcelana e olhos de vidro reluzentes. Parece que o chim se compraz em contrariar a natureza. Pois pode admitir-se uma laranjeira, um pinheiro de vinte e trinta anos de idade, vivendo em um pequeno vaso de barro?!
(...)

20 de Setembro de 1883
(...)
Ao pôr do sol fui ao jardim público onde tocou a banda do corpo de Polícia, por ser quinta-feira. É toda composta de indígenas de Goa, que executam muito sofrivelmente músicas clássicas, peças italianas e composições escolhidas. A concorrência era pequena, e por entre os passeantes perpassava, mefistofélio, o guarda do jardim com a sua cabaia encarnada."
Adolfo Loureiro. No Oriente, de Nápoles à China. in Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo II, ICM, 1998


(1) P. Manuel Teixeira. Toponímia de Macau, Vol 1. ICM, 1997

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A fortaleza 1º de Dezembro


Legenda: Barracks & Port, Macao. Edição: Union Postale Universelle.
Data: Cerca de 1890
A Bateria 1º de Dezembro, o Quartel de S. Francisco e o Clube Militar


19 de Setembro de 1883
(...)
Empreguei o dia em diligências para activar os estudos, e depois de jantar dirigi-me a pé à bateria 1º de Dezembro, fortaleza que foi construída e artilhada pelo visconde de S. Januário com duas ou três Krupps que varrem ao lume de água a passagem entre Macau e a Ilha da Taipa.
Goza-se dali uma vista esplêndida. Para um lado a costa recortada de restingas e rochedos graníticos; para o outro a graciosa curva da Praia Grande a terminar na Fortaleza do Bom Porto, ou Bom Parto, e, ao longe, a fechar o horizonte, uma série de ilhas, apresentando um perfil dentelado e pitoresco. A formosa enseada e todo o mar, onde cruzam numerosas lanchas chinesas iluminadas pela luz avermelhada do sol poente, rematam o harmonioso quadro.
Adolfo Loureiro. No Oriente, de Nápoles à China. in Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo II. ICM, 1998


A Fortaleza de S. Francisco, construída em 1623, constituía a primeira linha de defesa em caso de ataque marítimo, devido à sua localização, no extremo da Praia Grande, fronteira à ilha da Taipa. Ampliada em 1629, cujas obras deram-lhe "a forma que manteria com pequenas alterações até meados ou mesmo à segunda metade do século XVIII" (1), foi reformada em 1864, "tornando-se mais regular, com dois baluartes redondos situados nas muralhas, a Leste e Oeste, e com baterias triangulares mais baixas(2). Em 1872, quando da construção da Bateria 1º Dezembro (assim designada por que iniciada nesse dia), construiu-se uma ligação subterrânea entre a fortaleza e a bateria. Tanto a bateria como a passagem subterrânea desapareceram em 1931-32, quando dos aterros da Praia Grande.
_______
(1) e (2) Pedro Dias. A Urbanização e a Arquitectura dos Portugueses em Macau, 1557-1911. Portugal Telecom, 2005

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A Ilha Verde, pequeno cone que emerge das águas

Legenda: Green Island, Macao.
Edição: Union Postale Universelle. Data: cerca 1900.
A Ilha Verde vista da doca Lam Mau

"18 de Setembro de 1883
(...)
A Ilha Verde, pequeno cone que emerge das águas, e onde existe uma casa pertencente ao seminário ou à mitra, é um soberbo bloco de granito onde no entanto a árvore do pagode conseguiu introduzir as suas raízes pelas fendas da rocha, vestindo a penedia de um manto de verdura. Há aí, no caprichoso dos blocos graníticos e na força vegetativa daquela árvore, efeitos muito belos. Lembro-me de ver um penhasco suspenso em um árvore, que se havia introduzido por uma fenda da rocha, e que no seu crescimento o havia erguido a certa altura.
Depois de jantar, a que me fez companhia o tenente Cinatti*, voltámos ao porto e à Ilha Verde, onde desejava ver o espraiado da baixamar."
Adolfo Loureiro. No Oriente, de Nápoles à China. in Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo II. ICM, 1998

* Demétrio Cinatti (1851-1921), filho do arquitecto e pintor italiano José Cinatti e avô do poeta Ruy Cinatti. Em Macau, "não se limitou às suas funções de capitão do porto e comandante da polícia do mar; estabeleceu ainda um posto meteorológico e levantou a planta de Macau, que foi muito apreciada em Lisboa. Estes trabalhos mereceram-lhe o grau de cavaleiro de S. Tiago e um louvor da Sociedade de Geografia de Lisboa, que o nomeou seu sócio correspondente" (in P. Manuel Teixeira, Toponímia de Macau, vol. 2). Em 1894 entrou na carreira consular, sendo cônsul de Portugal em Cantão, carreira que terminou, em 1917, no consulado de Londres.

Entrámos no chamado "bazar chinês"


Legenda: Macao. China Town.
Edição: Union Postale Universelle. Data: ca. 1890
A Rua da Felicidade

"16 de Setembro de 1883
(...)
Seguimos, depois, por umas ruas bordadas de lojas de objectos velhos e entrámos no chamado "bazar chinês", bairro em parte modernamente construído, já com certa regularidade e asseio, e onde há um movimento e animação extraordinários. São ali as lojas dos objectos de proveniência da China, desde os bens sortidos armazéns e estâncias de fruta e de comestíveis até os panos, seda e ourivesaria. As ruas são limpas e alinhadas, mas estreitas. As casas, todas da mesma construção e feitio, com as lojas decoradas com grandes tabuletas douradas, onde se lêem sentenças e máximas chinas, e ornamentadas com flores e lanternas. O bulício e o burburinho são grandes e enorme a concorrência de homens e mulheres chinesas, vendo-se entre estas algumas de pés microscópios, andando dificilmente e abordoadas a um guarda-sol, conservando um difícil equilíbrio sobre aqueles pequenos pés calçados com sapatinhos de bonecas.
Havia por ali numerosas casa de jogo do fantan, que se distinguiam pela sua pintura verde e por grandes lanternas, tendo à entrada nichos e altares onde ardiam pivetes e velas, alumiando feios ídolos pintados com cores muito vivas em posições arrogantes e com dragões e feras impossíveis. As casas da lotaria de vae-seng, do pacapio e de outros jogos eram também muito frequentadas e distinguiam-se igualmente pelas grandes lanternas, tabuletas, flores e pinturas em quadros muito alongados e estreitos. É que o jogo de azar é o vício dominante do chinês e que da exploração desse vício tirámos nós o principal rendimento da colónia, arrematando o exclusivo de tais jogos. É este o caso do fim não justificar os meios..."
Adolfo Loureiro. No Oriente, de Nápoles à China. in Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo II. ICM, 1998


Adolfo Loureiro (1836-1911), engenheiro e militar de carreira, foi vice-presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa e autor de vários estudos sobre portos de Portugal, ilhas atlânticas e Macau. No Oriente, de Nápoles à China: diário de viagem (2 volumes, publicados pela Imprensa Nacional, 1896-1897) é um relato da viagem do autor ao Oriente - Singapura, Hong-Kong, Macau, Cantão e Batávia -, em 1883.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Jardim da Flora

Jardim da Flora. Macau, Julho de 2010

Fica situado no sopé da Colina da Guia, num terreno que era propriedade do Pe. Vitorino José de Sousa e Almeida. Aqui, mandou o Pe. Almeida construir um palacete, em 1848, obra do arquitecto macaense José Tomás de Aquino. Mais tarde, em 1873, foi adquirido pelo Governo de Macau para servir de residência de Verão aos governadores, mas depressa foi abandonada a ideia devido à insalubridade da zona por ser pantanosa.
Durante o mandato do governador Tomás de Sousa Rosa (1883-86), instalaram-se viveiros, cujas plantas foram utilizadas na florestação da Colina da Guia. Em 1924, o Palacete da Flora foi transformado em jardim de infância, junto ao qual se instalou um paiol que, em 13 de Agosto de 1931, explodiu provocando a destruição do palacete.
O jardim do Pe. Almeida foi ainda propriedade de Sir Robert Ho-Tung, sendo conhecido, entre os chineses, por Ho-Tung Fá-Un, ou seja, Jardim de Ho-Tung, e ainda por I Long Hau Fa Un, Jardim das duas torneiras.

O acesso faz-se pela Avenida Sidónio Pais, a partir do qual uma larga alameda central liga o jardim ao Parque da Guia. Existe também um teleférico desde a entrada do jardim até à Colina da Guia.

Fontes:
Pe. Manuel Teixeira. Toponímia de Macau, Vol 1. ICM, 1997
António J. Emerenciano Estácio e António Manuel Paula Saraiva. Jardins e Parques de Macau. Instituto Português do Oriente, 1993

Crescentia Alata

Crescentia Alata (família Bignoniaceae), no jardim da Flora. Macau, Julho de 2010

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Horta da Mitra


O templo de Fôk Tai Chi na Rua Tomás da Rosa

Tai Pai Tong (tasquinha de rua) na Rua de Horta e Costa.


No Largo do Mercado Municipal


Horta da Mitra: designação pela qual é conhecido o bairro situado entre as ruas do Noronha, de Henrique de Macedo, de Tomás da Rosa, de Horta e Costa, da Colina e Nova à Guia. O Padre Teixeira cita uma passagem do livro Curiosidades de Macau Antiga, de Luís Gonzaga Gomes, onde este autor escreve, a propósito do bairro da Horta da Mitra (em tempos, também conhecido por Horta do Bispo) o seguinte:
"Há um trecho da cidade que ainda é conhecido pelos chineses com o nome de Tchèok-Tchai-Un, em local hoje dos mais populosos e sobrecarregado de casas encostadas umas às outras e separadas por uma apertada rede de ruas. Entre nós, é este sítio conhecido por Horta da Mitra e abrangia todo o terreno que ia desde a antiga Rua de Pák-Táu-Sán-Kai (Rua Nova dos Cabeças Brancas, isto é, dos Parses), actualmente denominada de Rua Nova à Guia, até ao Ho-Lán-Un (Jardim dos Holandeses), ou seja o bairro Uó-Long, sendo limitado ao norte pela Calçada do Gaio, na altura por onde passava a muralha que noutros tempos cercava a antiga cidade. Todo este terreno foi outrora ocupado por uma extensa e densa mata e, como há trezentos anos, a cidade era ainda pouco povoada, no intuito de se fomentar o seu desenvolvimento populacional, foi permitido a um grupo de imigrantes chineses, de apelidos Mak, Tch'iu e Léong, estabelecerem-se ali. Este minúsculo núcleo inicial conseguiu transformar, com o tempo, o local, numa aldeiazinha e os seus componentes viviam da venda da lenha que podavam na mata e cujas altas e frondosas árvores que a cercavam estavam sempre cobertas de pássaros que alegravam o bosquete com a sua chilreada, dando ao sítio um aspecto de parque. Foi por esse motivo que os chineses deram ao local o nome de Thèok-Tchai-Un que quer dizer Jardim dos Passarinhos".

Fonte:
P. Manuel Teixeira. Toponímia de Macau, vol 1. Instituto Cultural de Macau, 1997

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Os acontecimentos do Um, Dois, Três

Fotografia retirada da Revista Macau, II Série, nº 5, Setembro de 1992


Era então governador o brigadeiro Nobre de Carvalho, cujas funções iniciara a 25 de Novembro de 1966. No discurso de posse afirmara não tolerar interferências e actos que pusessem em causa as relações de boa vizinhança com a China comunista.
Contudo, a tensão política "atingia o rubro, fomentada particularmente pelas escolas chinesas locais permeáveis à propaganda da Grande Revolução Cultural Proletária que incendiava a China"(1). E, na manhã de 30 de Novembro, um grupo de alunos da escola Hou Kóng desfilava até ao Palácio do Governo, invadia os corredores e recitava, em voz alta, passagens do Livro Vermelho de Mao Tsé Tung.

Na origem dos acontecimentos esteve um embargo às obras de ampliação de uma escola na vila da Taipa, pertencente à Associação de Moradores local (Kai Fong), que, ignorando a ordem, prosseguira com os trabalhos. Uma primeira força policial seria recebida com insultos e alvejada "com pedras, tijolos e garrafas lançadas pelos manifestantes". Mais tarde, perante as forças da polícia de choque, registava-se uma violenta confrontação, "em que, alegadamente, ficaram feridas 40 pessoas e detidas 64"(2). Face à "excessiva violência da polícia", o grupo de manifestantes, exige que o governo se retrate "com a apresentação formal de um pedido de desculpas" (3).
No dia 30 de Novembro, à noite, num comunicado à população, o Governador anunciava a abertura de um inquérito aos incidentes da Taipa, declaração que não foi aceite pelos manifestantes.

Os dias 1, 2, e 3 de Dezembro ficavam marcados por confrontos de rua, que levaram à declaração da lei marcial e que se saldaram, segundo os números oficiais, em 8 mortos e 123 feridos.
Na Praia Grande, junto ao Palácio do Governo e à repartição das Finanças registavam-se confrontos com a Polícia. A estátua do navegador Jorge Álvares era danificada e a do Coronel Mesquita derrubada. Os edifícios da Santa Casa da Misericórdia, onde funcionava o Cartório Notarial, e do Leal Senado foram invadidos e danificados. Foram, ainda, destruídos documentos e livros que se encontravam na Biblioteca Municipal do Leal Senado, que, segundo o Padre Teixeira, perdeu um terço dos seus manuscritos. Seguiu-se, depois, uma tentativa de assalto à Central da Polícia de Segurança Pública, na Rua Central, na qual os manifestantes utilizaram uma camioneta como meio de protecção. Aqui, um agente da polícia, desobedecendo às ordens para não disparar, "visou o motorista e o matou. A camioneta, desgovernada, começou a recuar pelo seu próprio peso e aquele magote de pessoas debandou"(4).

Diversas famílias refugiavam-se na Fortaleza do Monte e no Hospital Conde de S. Januário. "Têm lugar cenas caóticas e de pânico junto aos cais do Porto Exterior devido a que centenas de pessoas se querem refugiar em Hong Kong"(5) e o governador apelava à população para não se deixar influenciar pelos rumores. Apesar dos apelos, em Janeiro (17.01.67), "cerca de 600 portugueses e 1000 chineses, estes na sua maioria partidários do regime nacionalista da Formosa (...) refugiam-se na colónia britânica"(6). Dias depois, iniciava-se o boicote contra portugueses, com o objectivo de obrigar as autoridades a assinarem os documentos de capitulação: recusa de venda de quaisquer mantimentos e comestíveis, de água, electricidade, gasolina e transportes. "Mas, à parte o incómodo que isso provocava, o facto que maior angústia me causou, pelo menos para mim, foi a decisão de estender o bloqueio aos barcos da carreira para Hong Kong, cujo porto e aeroporto constituíam, à altura, a única porta de escape numa última emergência" (7).

A 29 de Janeiro decorria, no edifício da Associação Comercial, a cerimónia de assinatura dos documentos que punham fim ao incidente mais violento da Revolução Cultural chinesa em Macau(8).


(1) João Guedes. "O Um, Dois, Três". Revista Macau, II Série, nº 5, Setembro de 1992
(2) (5) (6) (8) Beatriz Basto da Silva. Cronologia da História de Macau, Século XX, Volume 5, Macau, 1998
(3) Geoffrey C. Gunn. Ao Encontro de Macau. CTMCDP e Fundação Macau, 1998
(4) e (7) Depoimento de Rodrigo Leal de Carvalho in Fernando Lima e E. Cintra Torres. Macau Entre Dois Mundos. Editorial Inquérito e Fundação Jorge Álvares, 2004

Sobre os confrontos na Taipa, consultar o excerto do texto de José Pedro Castanheira, "Os Confrontos na ilha da Taipa", publicado no blogue Macau Antigo.