quarta-feira, 9 de junho de 2010

Miguel Torga em Macau: Camões

Jardim Luís de Camões. Macau, Maio de 2010

"Macau, 9 de Junho de 1987 - Era preciso que um poeta português viesse aqui falar nesta hora final, para que ela não tivesse fim. E vim eu.

CAMÕES

Evocar Camões em Macau tem, pelo menos, um perigo: o de parecer que se dá como certa a lenda de que ele pisou este chão. Era ponto assente na minha selecta da 4.ª classe que aqui teria sido provedor-mor dos defuntos e ausentes, e até uma gravura celebrava a gruta, com um busto à entrada, onde o épico se refugiaria para dar largas à inspiração. Ora, nenhum documento coevo, nem qualquer investigador idóneo confirmam tais asserções, e o mais provável é que nunca tenha aportado em carne e osso a estas paragens. O que não aquenta, nem arrefenta. Nunca me meteram medo as ratoeiras da tradição. Considero-a mais fecunda do que a própria história, e supro muitas vezes o verdadeiro com o verosímil. Também nesse capítulo sou subversivo. O que me importa não é se Cristo apareceu ou não a D. Afonso Henriques antes da batalha de Ourique; é se o rei o viu e convenceu disso os companheiros de armas, dando-lhes a certeza prévia da vitória. Há tempos, quando um erudito se indignava diante de mim com a leviandade de se atribuirem a torto e a direito berços de natalidade ao poeta, retorqui-lhe que, em meu entender, era bom que todas as cidades e aldeias de Portugal lhe disputassem a origem. Até uma remota vila de Trás-os-Montes.

Em Freixo de Espada à Cinta
Nasceu Luís de Camões...,

afirma uma quadra de pé quebrado que o país inteiro conhece. E afirma-o com veracidade. Quem tão genialmente deu expressão à pátria, tem o berço em cada seu recanto. E, quando falo de Portugal, falo das várias partes do globo por onde a sua exiguidade se repartiu através da língua, da religião, dos usos e costumes, da cultura, numa palavra. Sim, Camões esteve aqui e é daqui, porque aqui chegou o espírito de um povo que, como ninguém, consubstancia na vida e na obra, a legitimar-nos o impulso errático, a curiosidade, a ousadia, a tenacidade, a sabedoria e as ambições na América, na África, na Ásia e na Oceania.
(...)
Gesta assombrosa dum povo temerário que abriu de par em par as evasivas portas ogivais da Idade Média, fez entrar por elas todo o sol promissor do Renascimento e planetarizou pela primeira vez o espírito, só poderia ter sido perpetuada por quem andou pelas mesmas rotas, consciente de quanta audácia o feito necessitara, de quantos sacrifícios custara e da sua cósmica dimensão. Homero e Virgílio cantaram semi-deuses que cometem com forças sobrenaturais e num tempo mítico os prodígios relatados. Aquiles, Ulisses, Eneias não passam de meras ficções. Descendem de pais fabulosos, descem aos Infernos, são invulneráveis. Nenhum mal irremediável os ameaça, aconteça o que acontecer. Títeres nas mãos de Júpiter, de Vénus, de Apolo ou de qualquer outra potestade, acabavam por cumprir apenas um destino implacável e monótono de predeterminados. Com um pé no céu e outro na terra, nem têm a unidade incontingente dos celestes, nem a complexidade contingente dos terrestres. Levam sempre a melhor sobre as forças adversas, e não há qualquer inesperado no seu comportamento. Camões, pelo contrário, embora recorra ainda à providência conflituosa de um Olimpo desavindo, em obediência aos cânones clássicos que lhe serviram de modelo - e essa transigência é hoje a parte mais frágil do poema -, pinta indivíduos coetâneos em acção, que se chamam Gamas, Albuquerques, Castros, Leonardos ou Velosos e actuam por conta própria. Seres vivos, psicologicamente matizados, a braços com o seu destino singular, que assumem no corpo e na alma as consequências das façanhas que empreendem. Travam lutas incertas, temem, hesitam. E fogem até do inimigo, se preciso for. Em vez de nos descrever fantasmas e contar inverosimilhanças sucedidas num passado intemporal, o poeta, numa modernidade inovadora surpreendente, fala-nos de pessoas, relata factos acontecidos num passado próximo, historia, observa, deduz. Cria figuras humanas que palpitam, contraditórias, inconstantes, ora temerárias, ora pusilânimes, empenhadas numa empresa que nos ia glorificar e às duas por três saudosas da pacatez obscura do lar, a cada passo cépticas e deprimidas, nunca lineares ou previsíveis. E, quando sublima, transfigura o concreto. Desta vez não há mais heróis lendários, nascidos miraculosamente de amores divinos, incestuosos ou não. Há criaturas verdadeiras, terrosas, que são reis, marinheiros, soldados, simples mortais, a viver ao vivo uma hora alta da História. (...)"
Miguel Torga. DIÁRIO XV. Coimbra, 1990