quarta-feira, 18 de agosto de 2010

"Bocage no Extremo Oriente", por António Manuel Couto Viana


"(...)
A 7 de Abril de 1789, o poeta sadino chega a Damão, nomeado tenente do regimento de infantaria de Terço, ali aquartelado.
Mas, no dia seguinte, desertor, escapa-se para Surrate, de onde embarca para Macau.
Andava neurasténico, dominava-o uma doença grave, detestava a terra e as gentes, padecia com o silêncio de Gertúria, a mulher amada que deixara no distante Outão, entre laranjais e águas de safira.
Pensara mesmo no suicídio. O espírito pedia-lhe liberdade, novos horizontes e aventura e de olvido. Lá pela Europa soprava, forte, destruidor do velho mundo, o furacão francês da Revolução. Um outro, mais benigno, nascido dos mares irrequietos da China, arrebatava o poeta ("Até que aos mares da longínqua China / Fui por bravos tufões arrebatado") para Cantão, por onde vagueia esfarrapado e faminto ("E mais mísero eu, que habito o remoto Cantão"); "Mísero de mim que em terra alheia..."; "A fértil China... / Te viu com lasso pé vagar mendigo"). Muito provavelmente acolhido numa das feitorias estrangeiras dessa fabulosa cidade, quiçá a inglesa, não tardou a arribar a Macau, governada interinamente pelo desembargador Lázaro da Silva Ferreira, após o falecimento do governador Francisco Xavier de Mendonça Corte Real, em 1789.

(...)
É o comerciante Joaquim Pereira de Almeida que recebe, com a maior gentileza, Manuel Maria Barbosa do Bocage e se presta a apresentá-lo, quer a Lázaro Ferreira, quer a algumas famílias importantes da terra.
O poeta não se esquece de agradecer a todos com um punhado de versos elogiosos.
A Joaquim Pereira de Almeida dedicou uma elegia, chamando-lhe "bom benfeitor, bom caro amigo".
À Senhora D. Maria Saldanha Noronha e Menezes, dama distintíssima de distintíssima família, então vivendo em Macau, casada e com filhos, de exemplar virtude, Bocage não deixa de rogar-lhe, numa ode a que deu o título significativo de Esperança, que o auxilie a regressar a Portugal. Marília é, à maneira árcade, o nome que atribui à nobre Dama, dotada de grande beleza física e, igualmente, de grande beleza moral.
Eis parte da composição, naturalmente hiperbólica, que o poeta depõe aos pés daquela de quem aguardava poderosa intervenção para alívio das suas inquietações e solução da sua grave situação de desertor:
"Musa, não gemas, ergue, ó desgraçada
O rosto macilento
Da vista a frouxa luz, quase apagada.
Nas lágrimas que vertes, Musa, alento!
Move trémula planta,
Pisa receios, e a Marília canta.

Canta da ilustre Dama a gentileza,
A prole esclarecida,
Os dons da sorte, os dons da natureza,
As prendas com que a vês enriquecida:
E, depois de a louvares,
Torna os teus choros, torna os teus penares.

Ah, que já sinto, milagroso objecto,
Quanto pode o teu rosto!
Da malfadada Musa o torvo aspecto
Já cora, já se vai do meu desgosto
Sumindo a névoa densa.
Que desfaz, como o sol, a tua presença.

Inclina, pois, magnânima senhora,
Os clementes ouvidos
Á voz que não profere, aduladora,
Altos encómios de razão despidos:
A verdade celeste
Com seu cândido manto os orna e veste.

A ti, dignos de ti, Marília, voam;
A ti, bela heroína
Cujas mil graças mil virtudes c'roam;
A ti, que enches de glória a fértil China,
Enquanto a que te adora,
Mísera Pátria, tua ausência chora.

As deidades, criando-se, exauriram o seu cofre divino;
Os seus encantos para sempre uniram
Em aúreo laço o mais feliz destino.
E eis os dons com que brilhas
Reproduzidos nas mimosas filhas."
E o poeta, depois de tecer floridas capelas de versos às filhas de D. Maria Saldanha, para enternecer-lhe o coração de mãe, implora o seu favor, com emocionante inspiração:
"Com suspiros, ó triste, implora, implora
De Marília a piedade;
Ela é justa, ela sente, ela deplora
Os erros da infeliz humanidade;
Contra o fado inimigo
Na sua compaixão procura abrigo.

Roga, roga-lhe, enfim, que te destrua
As ânsias, os temores;
Que a pátria, ao próprio lar te restitua,
Ah! já diz que sim: não mais clamores;
Musa! Musa! descansa,
Cantemos o triunfo, ó Esperança."
(...)
A outra dama, D. Maria de Guadalupe Topete de Ulhoa Garfim, oferece Bocage igualmente uma ode, mas não pedinchona, sim de louvor à beleza da musa, que eu adivinho de ascendência castelhana, quer pelos apelidos, quer pelas referências ao pequeno rio Mançanares, que banha Madrid, unido ao "aprazível Tejo", em cuja "ruiva margem" o poeta tem o seu "tugúrio pobre".

(...)
Por fim, a Lázaro Ferreira, que escutara, benévolo, as pretenções de Bocage, intercedendo junto das cimeiras Senhorias, e permitindo ao poeta, após tais diligências, regressar a Portugal, sem castigo de monta; Lázaro Ferreira é brindado, pelo deneficiado, com nova ode, A Gratidão, que conclui deste jeito encomiástico:
"Tudo a ti devo, ó benfeitor, ó grande,
Que a roçagante, venerável toga
Mais venerável pelos seus preclaros
Méritos fazes.

Tudo te devo: a gratidão não sofre
Que teus favores generosos cale;
Julga tu mesmo se o silêncio é crime,
Árbrito excelso.

Aos estrelados, aos cerúleos globos
Sempre em meus hinos subirá teu nome,
Ó céu! ó fados! conservai Ferreira,
São necessários os heróis no mundo;

E tu ferrolha os porcelosos monstros,
Eólo amigo.
(...)
Durante o tempo que permaneceu na pequena parcela portuguesa do Extremo Oriente, ou seja de Setembro ou Outubro de 1789 a Março de 1790, o poeta observou a cidade com perspicaz exactidão, a ponto de a retratar num soneto.

(...)
Eis o soneto de Elmano:
"Um governo sem mando, um bispo tal;
De freiras virtuosas um covil,
Três conventos de frades, cinco mil
Nhons e chinas Cristãos, que obram muito mal;

Uma sé que hoje existe tal e qual;
Catorze prebendados sem ceitil,
Muita pobreza, muita mulher vil;
Cem portugueses, tudo num curral;

Seis fortes, cem soldados, um tambor;
Três freguesias cujo ornato é pau;
Um Vigário-Geral, sem promotor;

Dois colégios, e um deles muito mau;
Um senado que a tudo é superior;
É quanto Portugal tem em Macau"
O sábio historiador Monsenhor Manuel Teixeira, no seu livro Macau no Século XVIII, ocupou-se a analisar o soneto bocagiano e conclui pelo rigor dos traços de retrato.
Julgo de maior interesse histórico este comparar cada verso com a realidade de Macau nessa época: Assim:
"'Um governo sem mando'. É exacto: o governador não tinha poder ou mando civil; era chamado Peng-t'au (cabeça de Tropa) ou comandante militar; mandava, apenas nos soldados e nas fortalezas."
(Eu atrevo-me a sugerir que Bocage podia também referir-se ao facto de, durante a sua estada em Macau, haver apenas um Governador interino.)
"'Um Bispo tal'. Não havia bispo. D. Alexandre da Silva Pedrosa Guimarães partira para Lisboa a 10.1.1780, deixando como governador do Bispado o Padre António Jorge Nogueira".
(A ausência de Bispo, tal como a ausência de Governador é, quanto mim, o que o poeta quis mencionar neste primeiro verso do soneto).
"'De freiras virtuosas um covil'. Refere-se às clarissas do Mosteiro de Santa Clara. (...) A palavra 'covil' deve referir-se à clausura rigorosa dessas virtuosas freiras. São elas as únicas elogiadas pelo poeta e bem o mereciam, pois o seu fervor era extraordinário. (...)"
"'Três conventos de frades': São Francisco, Santo Agostinho e São Domingos."
"'Nhons e chinas cristãos que obram mui'. Nhons propriamente significa senhores e nhonhas, senhoras".
(Filhos da terra, em patuá, ou seja no dialecto popular macaense.)
A corrupção dos costumes, nesta época, era muito censurada pela autoridade eclesiástica.
"'Uma sé que hoje existe tal e qual'. Era a Sé Catedral, que datava de 1622 ou 1623 e que existia tal e qual como fora feita."
"'Catorze prebendados sem ceitil'. Bocage inclui aqui todos os que recebiam prebendas, cónegos ou não. Prebenda era o direito de um eclesiástico receber certos subsídios ou rendimentos da Catedral. (...) Em 1777 faziam serviço na Sé 24 padres mas em 1790 eram muito menos. Após a partida do Bispo, em 1780, vários deles recusaram servir na Sé. O governador do Bispado, D. António José Nogueira, publicou um decreto para os obrigar; mas eles apelaram para Goa, e o arcebispo primaz deu-lhes razão.
É de crer que em 1790 fossem apenas 14 os prebendados, incluindo cónegos, capelães e outros."
"'Muita pobreza, muita mulher vil'. A 4 de Abril de 1783, D. Maria I dizia que a guarnição de Macau, 'em lugar de soldados, se compunha somente de indigentes e mendigos'; e que os cristãos chinas e portugueses estavam reduzidos à indigência e à miséria'. Em resultado da pobreza, havia 'muita mulher vil'.
O bispo D. Marcelino José da Silva, "para obviar este estendal de vícios, fundou o Recolhimento de Santa Maria Madalena, no qual mandou recolher algumas dessas mulheres mais famosas e publicamente escandalosas, mas o governador da Índia mandou-o fechar: o bispo, desanimado, resignou, abandonando esta verdadeira Sodoma com o seu abominável lupanar."
"'Cem Portugueses tudo em um curral'. Que curral era este, onde se refastelavam os suínos, já não sabemos.
Quanto aos cem portugueses, também é verdade. O bispo Pedrosa Guimarães, no seu relatório de 1775, dizia que 'os portugueses europeus' 'somavam só 108', vivendo todos numa cidade muralhada."
"'Seis fortes, cem soldados, um tambor'. Os fortes eram: a) São Paulo (construído de 1622 1626); B) Santiago (1622-1629); c) Nossa Senhora da Penha (antes de 1622); d) São Francisco (1622-1626); e) Nossa Senhora da Guia (antes de 1622, reconstruído e aumentado em Setembro de 1637 a Março de 1638); f) Nossa Senhora do Bomparto (antes de 1622).
Quanto aos 100 soldados e um tambor, no seu relatório de 1775, dizia o Bispo Pedrosa Guimarães que os militares eram '85, com mais três cabos de ronda, 10 sargentos 2 tambores', ou seja 99 ao todo."
"'Três freguesias, cujo ornato é pau'. Eram a Sé (...); São Lourenço; (...) e Santo António. As igrejas paroquiais eram pobres e sem valor artístico (...)".
"'Um Vigário-Geral, sem promotor'. O Vigário-Geral, ou melhor, o governador do Bispado, não tinha promotor em 1789-1790".
"'Dois colégios e um deles muito mau'. Trata-se dos Colégios de São Paulo e de São José; ambos construídos pelos jesuítas. (...)
O Colégio muito mau era o de São Paulo, pois já em 1787 se achava em mau estado, pelo que foram mandadas demolir as oficinas e edifícios desabitados, que estivessem em ruínas.
Quanto a S. José, foi confiado em 28 de Julho de 1784 aos lazaristas que o elevaram ao seu primitivo esplendor."
"'Um Senado que a tudo é superior'. Exacto: quem mandou sempre em Macau foi o Senado, pois o governador era apenas comandante militar, cujo poder era limitado aos seis fortes e aos '100 soldados e um tambor'".
E Monsenhor Manuel Teixeira conclui a cuidadosa análise com este comentário:
"Por aqui se vê o fino espírito de observação de Bocage que, estando menos de um ano em Macau, viu mais do que muitos em toda a sua vida."
(...)
António Manuel Couto Viana. "Bocage no Extremo Oriente". RC - Revista de Cultura, Nº. 37 (II Série). Outubro/Dezembro, 1998