sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Fausto Sampaio

Catálogo da Exposição de Pintura de Fausto Sampaio na Sociedade de Belas Artes, em Lisboa, 1939


Catálogo da Exposição Fausto Sampaio (1893-1956): Viagens no Oriente
Lisboa, Fundação Oriente, 2009


"(...) As suas impressões oscilavam entre as grandes panorâmicas da cidade e o enfoque de estreitas ruas ou monumentos importantes, entre o longínquo e o próximo, entre uma espacialidade bem determinada e a proximidade de um plano que captava o instantâneo de um momento, assinando estes seus trabalhos com um pincel chinês e "tornando memória viva o desconhecido, normalmente envolto em particularidades estranhas e diferenciadas emoções, numa visão variada do Oriente. Grandes panorâmicas da cidade e aspectos do porto de Macau, numa dimensão bem proporcionada, envoltas por uma atmosfera rarefeita e uma particular  sensibilidade de suaves tonalidades azuladas, tal como na Vista da Praia Grande, imagens muito próximas de clichés fotográficos pela visão alargada da paisagem, mas diferenciada da fotografia pelos matizes cromáticos e efeitos de luz, de outro modo estudados em Manhã nevoenta, de impressões subjectivadas em brumas, quase monocromáticas.
Em Macau produz intensamente e regista uma "odisseia citadina" no ritmo movimentado das "ruas, becos e escadinhas em que inúmeros estabelecimentos ostentavam tabuletas com complicados  caracteres chineses, as casas de chá, as centenas de tendas, nas ruas, onde se preparavam deliciosas iguarias de cozinha tradicional, os curandeiros e as típicas farmácias, os leitores de sina, os escribas, peritos em transcrever em belos caracteres as missivas dos clientes, as casas de Fan-tan, os fumatórios de ópio, a gente do mar, que nascia, vivia e morria nos airosos juncos (...)".
"O Beco das Galinhas, a Rua 5 de Outubro, a Rua do Bazar, a Avenida de Almeida Ribeiro à noite e as imagens do Pagode da Barra revelam a preocupação pelos valores da luz e da cor, de tal modo que, mais importante que a representação, importa ao artista exprimir-se através da pincelada e das manchas de cor, afastando-se da hábil exactidão que já explorara, especialmente no retrato de encomenda e na representação de uma ideia colonial. Uma luz brilhante, explosões de cor e uma espécie de impressionismo e uma marcação expressionista, por vezes com fortes pinceladas curvilíneas e gestuais, provavelmente influenciadas pela observação de obras chinesas, como nos labirínticos traços negros da ramagem das árvores do pagode da Barra."

Sala de Jogo de Fan Tan. Macau, 1937 

" (...) Aspectos diferenciados, entre Tancareiras, retratos anónimos de figuras serenas de bairros de pescadores, pormenorizadamente descritas, Lorchas e Tancares, Cais do Porto com chuva, onde se avista o "bairro aquático de prazer (...) fantasia mergulhada num mar de luz", também uma movimentada cena no porto, de ilustrativos quotidianos, e ainda uma sala de jogo expõem a  diversidade dos aspectos tratados em Macau. Neste Fan Tan, algumas figuras, calvas e de uma inexpressividade própria de jogadores, em fantasmagóricos jogos de luz, representam um poderoso e dinâmico mundo, observado numa visão crítica." 
Excertos do texto de Maria Aires Silveira para o catálogo da exposição "Fausto Sampaio (1893-1956). Viagens no Oriente". Fundação Oriente, Lisboa, Maio de 2009