sexta-feira, 5 de março de 2010

Os piratas em Coloane


Com grutas e furnas nos montes e nas falésias, a ilha de Coloane - ou Ko-Lo-Wan, que significa Baía da Passagem - foi refúgio e esconderijo de piratas.

Na vila, no largo fronteiro à pequena igreja de S. Francisco de Xavier, encontra-se um monumento com a seguinte inscrição: "Combates de Coloane. 12 e 13 de Julho de 1910". A toponímia de Coloane também recorda os piratas numa pequena via designada "Azinhaga dos Piratas".

Tudo começou com o rapto de 18 crianças de um colégio, e do respectivo cozinheiro, de uma povoação chinesa, Tong Hang, localizada a poucas dezenas de quilómetros de Macau, por piratas que se alojavam nas falésias e furnas perto da praia de Hac Sá. Os piratas mantinham as crianças, mais o cozinheiro, encarceradas em casas da vila de Coloane, enquanto aguardavam o resgate. Três meses após o rapto, uma queixa apresentada às autoridades portuguesas por um advogado macaense, a quem o pai de uma das crianças mantidas como refém recorreu, veio desencadear os combates de 12 e 13 de Julho.
Na manhã de 12, dois pelotões de infantaria desembarcavam em Coloane, que nessa época apenas era acessível por via marítima (o aterro, designado por "istmo", a ligar as ilhas da Taipa e Coloane, só seria construído na década de 60 e inaugurado em 1968). Desembarcada a tropa, e após um reconhecimento à vila, nem um pirata, nem um único refém foi encontrado. Começaram as buscas pelas montanhas, mas mal as tropas se aproximavam de um esconderijo eram recebidas a tiro. Desta primeira investida resultou um morto, um cabo português. Regressaram as tropas a Macau e informaram o governador e o comandante militar da situação e da presença, nas águas de Coloane, de uma pequena frota comandada pelo coronel Wu, que se receava, que a pretexto dos piratas, procurasse ocupar a ilha de Coloane. Seguiram, então, mais forças de infantaria e artilharia, apoiadas pela canhoneira Macau. Mas os piratas, bem armados e estrategicamente posicionados, quer nas montanhas, quer em ruelas da vila, impediam o avanço das tropas portuguesas. Apontando sobre a vila, a canhoneira Macau desencadeia o bombardeamento, que durou algumas horas, destruindo a maior parte das habitações e afundando várias embarcações de juncos e sampanas. Desembarcadas mais tropas, os combates continuaram pelos dias seguintes - e não apenas nos dias 12 e 13, como assinala o monumento -, recebendo reforços no dia 14, com a canhoneira Pátria, e no dia 17, de mais 150 fuzileiros, transportados pelo cruzador D. Amélia, que entretanto chegara a Macau.
A 20, e após um intenso bombardeamento, a tropas portuguesas avançaram pelo interior da ilha onde encontraram, pelas montanhas, muitos cadáveres, armas e munições abandonadas. Fizeram vários prisioneiros, mas os reféns continuavam por libertar. Foi graças à intervenção de um outro refém, um criado de café de Hong Kong, que havia sido capturado, há vários meses, pelos piratas e que, entretanto, conseguira escapar, que as autoridades portuguesas souberam da existência de grutas dissimuladas nas falésias a leste da praia de Hac-Sá. No interior dessas grutas os piratas mantinham os reféns na esperança que a situação voltasse ao normal para completarem o negócio. Na manhã seguinte, alguns soldados, agindo por si sós e ignorando as ordens superiores, desencadearam um ataque de surpresa, descendo pelas falésias escorregadias. Numa descrição dos acontecimentos, publicada à data, conta-se «que nem um tiro se trocou entre eles e os piratas, e os nossos camaradas, não podendo já lançar mão aos restantes - que os devia ainda haver muitos - porque lhes desapareceram naquele verdadeiro labirinto de cavernas, saíram ilesos, mas completamente enfarruscados, uns sem chapéu e outros sem sapatos». Terminavam, assim, os combates de Coloane, com as crianças libertadas e 14 piratas capturados.

Os piratas eram, de um modo geral, bem acolhidos pela população de Coloane, que sabiam quem eram e lhes davam asilo, como afirmava o governador Álvaro de Melo Machado (1910-1912): «a população acolhia com benevolência estes malfeitores pelo dinheiro que generosamente gastavam; e as próprias autoridades portuguesas, que de sobejo sabiam da existência desta gente, toleravam-na, nunca fazendo diligências para a escorraçar». Por sua vez, afirma o Padre Teixeira que os piratas «foram-se ali infiltrando no decorrer dos anos: aqui montavam uma mercearia, além uma loja de peixe; uns trabalhavam nas pedreiras, outros entregavam-se à agricultura; por isso tinham de ter casas para as suas famílias. É de crer que os seus vizinhos soubessem que espécie de gente eram eles, mas não os denunciavam por duas razões: eles não os incomodavam, pois a quadrilha fazia as suas operações em terra chinesa e para ali traziam os seus roubos e as suas armas» (in: Os Piratas em Coloane: p. 5).


João Guedes. «Piratas no Delta: A Batalha de Coloane».
Macau, II Série, nº 19, Novembro de 1993
Luís Ortet. «Coloane: a memória dos piratas». Nam Van, nº 11, Janeiro de 1985 (in Projecto Memória Macaense)
P. Manuel Teixeira.
Taipa e Coloane. Direcção dos Serviços de Educação e Cultura. Macau, 1981
P. Manuel Teixeira. Toponímia de Macau. Vol. II. ICM, 1997
P. Manuel Teixeira. Os piratas em Coloane em 1910. Macau. Centro de Informação e Turismo, 1977