segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ruas de Macau

"Vista da Rua da Praia do Manduco". 1972
Fotografia de Ou Ping
in Uma viagem no Tempo. Fotografias de Macau por Ou Ping". IACM, 2007

"(...) Estreitas também as ruas de Macau, sombrias e tortuosas. E daqui para acolá, pequenos e activos, os seus habitantes formiguinhas num formigueiro (...)"
Maria Ondina Braga. Passagem do Cabo. Editorial Caminho, 1994

Navegando ao amanhecer

"Navegando ao amanhecer".  Vista da Colina da Penha. Década de 60.
in Uma viagem no Tempo. Fotografias de Macau por Ou Ping". IACM, 2007


"Os juncos partem cedo para a pesca: velas escuras, remendadas, quadradas, em leque, e no topo de cada mastro a bandeira rubra da Revolução: uma diplomacia dos pescadores de Macau no fito de pescarem em águas continentais?"
Maria Ondina Braga. Passagem do Cabo. Editorial Caminho, 1994

segunda-feira, 26 de março de 2012

Rua das Verdades

Macau, Fevereiro de 2012

As tangerineiras envasadas, a árvore bem no meio da rua, a ausência de veículos traz-nos à lembrança uma Macau bem antiga... É a Rua das Verdades. Fica situada no Baixo Monte, muito próximo da movimentada Rua das Mariazinhas.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Praça Ferreira do Amaral

Praça Ferreira do Amaral, 1986
Fotografia de Fong Chi Fung do catálogo da exposição Ontem para Sempre.

"Além do visto que não tínhamos necessitaríamos de um carro com dupla matrícula (macaense e chinesa) para passar as portas com propriedade chamadas do cerco, um arco erigido em póstuma homenagem ao cavaleiro da estátua indesejada, João Maria Ferreira do Amaral, que, ao desembarcar, em 1846, como governador, no Território, já não possuía o braço direito. Perdera-o vinte e três anos antes, na batalha de Itaparica, cidadezinha da Baía.
(...)
Cedo no território o Governador se faria temido. A sua ousadia roçando a insensatez, profundo desprezo pela vida, não se coadunaria com peitas, subornos, lisonjas, golpes palacianos. A variação brusca das suas reacções, tornando-o resvaladiço, incalculável, faziam-no também distante, muitíssimo perigoso. Era diferente, estranho, incoerente e isto assustava, frustrava, confundia, afastava as pessoas que não podiam contar com o comandante, nele confiar. (...)"
António Rebordão Navarro. As Portas do Cerco. Livros do Oriente, 1992

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Comovente de qualquer modo, Macau. Comovente porque único.

Avenida do Infante D. Henrique. Década de 60
Praça Ferreira do Amaral. Década de 70

Fotografias de Ou Ping do catálogo da exposição Uma Viagem no Tempo. Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais e Museu de Arte de Macau, Julho de 2005.

"Macau, agora. Inverno frio. O céu baixo e brumoso. E apertada nos braços lamacentos do Rio das Pérolas (que ironia!), a terra como se terminasse aqui. Estreitas também as ruas de Macau, sombrias e tortuosas. E daqui para acolá, pequenos e activos, os seus habitantes formiguinhas num formigueiro. Gente que passa por nós sem quase nos enxergar, os chineses. Estreitos igualmente os olhos deles, como quem visse para dentro. Que Macau, afinal, os chineses: as suas falas, as suas feições, os seus vícios de viver. E os portugueses? O quê, aqui, os portugueses? Uns estranhos? Uns intrusos?
(...)
A cidade do Santo Nome de Deus, para quem veio lá de Angola, os seus pagodes, os seus conventos, o espectro das ruínas de S. Paulo, os fantásticos funerais dos sequazes de Confúcio, um espiritualismo melancólico, aqui, senão mesmo lúgubre. Isto a par da festa das tendas e tintins, o teatro budista, a dança do dragão, o estralejar de panchões. Sem já mencionar, por tudo quanto é parede, porta ou pilar, ainda que escalavrados, o espectáculo dos caracteres sínicos a escarlate e ouro. Comovente de qualquer modo, Macau. Comovente porque único. Por mim comparo-o ao peixe-dourado-da-china, um rubi nas águas espessas e paradas (podres?), de um vaso ritual".
Maria Ondina Braga, Passagem do Cabo. Editorial Caminho, 1994

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Passeio de triciclo à chuva

Passeio de triciclo à chuva. Avenida de Almeida Ribeiro, ca. de 1960
Fotografia de Lei Chiu Vang, do álbum Visita ao Passado.

"(...) Quanto aos passeios de sam-lun-ché nas tardes de domingo, aí a professora-de-inglês a emparceirar com a vizinha de quarto. E sem que houvessem feito qualquer promessa, Ester e Xiao Hé Huá. Não. Tudo começando por uma coincidência, melhor um equívoco. Certo domingo, uma delas a chamar um triciclo a meio de Sam-Ma-Lou e meia dúzia de passos adiante a outra em igual situação. O veículo parou entre as duas. É seu, disse Xiao. Não, você estava primeiro. Teimaram. Por favor! Por favor! Assim uns segundos de delicadeza. Verão. Chovia a potes. Muito pretendido, àquela hora, muito requisitado, o condutor: tlim-tlim! Grosseiro, o condutor? Dava-se-lhe um desconto. Pang-yau de manhã à noite a pedalar de costas curvadas, que ganhava o pobre que lhe sobrasse para cortesia? Elas pelo menos assim o entenderam, pulando uma atrás da outra para dentro do coche, rápidas, encharcadas, a abrigar-se, a enxugar o rosto molhado. Para onde quer ir?, perguntou então a professora da Escola Chinesa. Ora, para onde quero ir!... Num domingo de chuva em Macau tudo quanto se podia desejar era um sam-lun-ché, não era? Riram, radiantes, e não só por terem conseguido transporte como pelo encontro, pela convivência. Abotoavam as bandas do oleado que as cobria da cabeça aos pés. Diga-lhe que nos leve sem destino, queremos é matar o tempo!, propôs Ester. Sem destino? Xiao franzia o sobrolho. Não. Isso sem destino o homem não compreendia."
Maria Ondina Braga. Nocturno em Macau. Editorial Caminho, 1991

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Macau, 1850


Imagem e texto do Arquivo Digital 7cv

"Macáu. - Esta cidade está edificada n'uma pequena peninsula de pouco mais de 1 leg. de comprimento que faz parte de uma ilha situada na entrada do vasto golfo de Cantão, pouco abaixo do rio Si-Kiang no Sul da China em lat. N. 22º, e long. E. de Paris 110º, 46', a 2,400 leg. em linha recta de Lisboa. Os Portuguezes, depois de terem estabelecido as suas feitorias de commercio em Liampó e Tchongtcheu mais ao Sul, as abandonárão e forão fundar Macáu em 1557 pela superior salubridade do lugar, e com licença especial do Imperador, a quem ainda hoje pagão pelo seu territorio o fôro de 600$000 rs. annuaes. Não foi porém esse onus o que mais contribuio para que os Chinas deixassem e deixem ainda subsistir esta possessão estrangeira nos seus dominios, mas sim os relevantes serviços que aquelles lhes prestárão no XVIº seculo contra os piratas que infestavão esses mares, fazendo-se em seu favor tão insigne e singular excepção na politica do celeste Imperio. O viajante D' Urville assim se expressa a este respeito: "Quando o Imperador Kiang-Hi, pelo meiado do seculo XVIº consentio em dar aos Portuguezes onde puzessem um pé no seu territorio, em recompensa dos serviços prestados por elles no exterminio dos piratas, soube-o combinar de tal sorte com a politica que, sem faltar aos deveres de gratidão, prejudicasse com a admissão de novos hospedes a immunidade do territorio vizinho; e assim, em lugar de dar-lhes  uma ilha inteira, cedeu-lhes sómente parte della, tirada logo uma linha de demarcação que assignava os limites de uns e outros." Com effeito, no isthmo da peninsula ha uma muralha que communica com o dominio chinez por uma porta chamada do Cêrco, e que os Europeos não podem transpôr.
A população portugueza da cidade anda por 6,000 a 6,500 almas, e a chineza por 26,000, sendo esta governada por mandarins. O seu distinctivo politico é de Cidade do Santo Nome de Deos de Macáu: está sit. em amphitheatro, e o primeiro objecto que sobresahe ao approximar-se-lhe do mar, são uma bateria portugueza que a domina, e o convento da Guia, notavel por suas altas muralhas e copadas de arvores. Por cima tem outro mosteiro no cimo da rocha, e pela encosta da collina vem descendo as suas casas á maneira de degráos até à praia. Tem alguns edificios espaçosos e de boa architectura européa, mas as ruas são estreitas e pouco asseiadas. Quatro fortalezas a defendem: n'uma dellas que tem cisterna, 4 fontes d'agua nativa e quarteis para 1,000 homens, existião ainda ha pouco tempo 40 peças de grosso calibre. Outra mais pequena, com 30 peças iguaes, e uma fonte perenne, não póde acommodar mais de 300 homens. Ainda que seja tão acanhado o territotio desta colonia que em 2 horas se possa dar-lhe a volta, não deixa de conter, além da cathedral e do acastellado convento da Guia, a residencia do bispo e dos 12 conegos seus vigarios, umas 10 igrejas ou conventos, assim como 3 hospitaes. A sua diocese comprehende as duas provincias de Kuangtong (Cantão), Kuang-Si e a ilha de Hainan. Póde hoje calcular-se em 50,000 o numero de christãos desta diocese, pois que é agora o ponto de asylo e de partida dos sacerdotes europeos propagadores da fé, os quaes em Macáu occupão dous conventos e tem conseguido numerosos proselytos. - "A corôa de Portugal, por direito de padroado Real concedido por differentes Papas, nomeia tambem bispos para Pekim e Nankim, assim como na India o arcebispo de Cranganor e os bispos de Cochim, Meliapor (Madras) e o de Malaca, cujas dioceses são mui vastas em terras pertencentes a varios potentados, e principalmente á Gran-Bretanha." (E.A. Monteverde).
O porto de Macáu é excellente, nelle se faz consideravel commercio maritimo, e chegou a ser de grande importancia por mais de dous seculos emquanto foi a unica praça da China franqueada a Europeos, e onde os Portuguezes erão os unicos agentes nas suas transacções. Com o decurso do tempo faltando-lhes o apoio e recursos da mãi-patria, e franqueando os Chinas o porto de Cantão aos Europeos, foi diminuindo a sua prosperidade, mui principalmente na ultima guerra de 1842, em que os Inglezes dictárão a lei á China e começárão a negociar livremente com ella. Igualmente se forão os Chinas introduzindo na cidade, onde hoje se achão em triplice numero dos Portuguezes, entre os quaes por vezes tem havido serias questões: em caso de desintelligencia com os mandarins, impedem estes de entrar do continente mantimentos na cidade, donde todos lhe vem, afim de conseguirem seus intentos, pondo em apertada crise os Portuguezes, os quaes não podem passar do seu territorio. A cidade é guarnecida por um batalhão da terra, alguns Sipaes e Europeos. As relações dos habitantes e autoridades de Macáu com os Chinas tornão o seu systema governativo de um genero particular e diverso das outras colonias portuguezas. Ha nesta peninsula a celebre gruta denominada de Camões, onde o principe dos poetas portuguezes ia matar suadades da patria, compondo parte do seu immortal poema."
Paulo Perestrello da Camara. Diccionario Geographico Historico Politico e Literario do Reino de Portugal e seus Domínios. Lisboa, 1850

domingo, 29 de janeiro de 2012

Homem com cachimbo e caixa de fósforos


"Homem com cachimbo e caixa de fósforos na mão".  
Macau, anos 1930-40 do século XX
Fotografia de José Neves Catela do catálogo Macau. Memórias Reveladas. Museu de Arte de Macau, 2001

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A Felicidade chegou!


"(...) E lá continuaram o seu passeio, parando aqui e ali, apreciando as lojas, as tendinhas das flores e dos enfeites para as casas. Séries de balõezinhos chineses, estilo luzes de árvore de Natal, quadros com frases auspiciosas, figuras em cartão irradiando vermelho e dourado, talismãs, cartões de boas festas, pacotes de lai si, almanaques para o novo ano e papéis vermelhos com o carácter de felicidade a dourado. Talvez por este ser o mais visto à porta de todas as casas, e mesmo colado nas janelas interiores, foi o que gerou um diálogo imediato.
- Mas por que é que o carácter de felicidade colado nas portas está sempre de cabeça para baixo?
- Ó Rubi, é para dar sorte!
- E fica tudo explicado, não é? Para o Zé é tudo muito fácil, é para dar sorte e pronto! - apontou o Jotê, esperando uma justificação mais convincente que isso do "dar sorte!" estava muito bem mas, já agora, se fosse possível saber o por quê da cabeça para baixo...
- É muito fácil - disse Lao com a firmeza de quem sabe.
- É fácil porque tu sabes... mas nós não... já ouvi tanta história... umas com um espelho... outras dizendo que estando ao contrário a felicidade não foge... eu sei lá! Mas... verdade, verdadinha, acho que ninguém sabe lá muito bem o por quê...
Lao respondeu à reflexão da Marei e, levantando os dois braços como que pedindo atenção, com ar de sôtor, calmamente explicou:
- Estar virado ao contrário, é estar invertido, não é meus meninos? Ora bem... os verbos inverter e chegar têm, em chinês, a mesma pronúncia, o mesmo som... e assim... tudo se explica não é verdade?
- Cá para mim parece-me que não se explica nada! - foi a vez de Guta entrar na onda.
- Ah não? Então quando chegas a casa de alguém e vês o carácter de felicidade de pernas para o ar, o que dizes?
- Não digo nada, se as pessoas o puseram assim, aliás todos o fazem da mesma maneira, é porque é seu uso, eles lá sabem porque o fazem...
- Bom, está bem. Pois claro, tirando isso, se dissesses alguma coisa, o que dirias?
- Está bem, está bem... pronto... já que queres faço-te a vontade... Pois diria: oh senhor! - e virando-se para a assistência - ou senhora, não é? Olhe que a sua felicidade está invertida! E depois?...
- Ora que espertinho que é o nosso Guta, é isso mesmo, como o som é igual tu disseste: A Felicidade chegou!  (...)"
Fernando Sales Lopes. Terra de Lebab. Instituto Português do Oriente, 2008 

domingo, 22 de janeiro de 2012

Kung Hei Fat Chói! Lai Si Tau Lói!




"Ainda pela cidade andam no ar as músicas de Natal, e já as melodias tradicionais chinesas anunciam a chegada do Ano Novo Lunar.
Nos arcos festivos, nas fachadas dos prédios e hotéis faz-se a troca de Pais-Natal por deuses de boa sorte, Meninos Jesus por meninos e meninas de garridas cores e luzidias tranças com as mãos sobrepostas em sinal de agradecimento, estrelas por sapecas douradas, velas por carpas, carneirinhos por coelhinhos, palmeiras por frutas das mais variadas, fitas por panchões a fingir. E milhares de coloridas lâmpadas alternando com autênticas cortinas de prata, descendo dos prédios em fios de pequeninas luzinhas.
Mais uma vez chega a festa da renovação, que aqui marca o fim do Inverno e o início da Primavera. Por isso esta festividade também é conhecida como o Festival da Primavera e daí as flores serem tão importantes. Pelas ruas começam a surgir tendinhas vendendo hastes e ramos floridos de pessegueiro, camélias, bolbos de narcisos, crisântemos amarelos, brancos e vermelhos. E também laranjeiras e tangerineiras em miniatura.
O, por vezes ensurdecedor, rebentar constante de panchões que deixam as ruas atapetadas de vermelho - da cor da alegria, da felicidade, da festa. A cor com que se afugentam o espíritos e se vestem as noivas.
É o Kung Hei Fat Chói, para a direita e para a esquerda, numa azáfama de sorrisos, compras, renovações totais, e cara lavada em tudo quanto é casa, estabelecimento ou espaço comum. Nada de velho para o que é novo. Aí vem o novo ano. Há que recebê-lo limpo, renovado, honrando homens e deuses. Não se pode andar devagar - o mês que dura a quadra parece pequeno para tanto que tem de ser feito, preparativos que têm de ser cumpridos à risca (...)".
 Fernando Sales Lopes. Terra de Lebab. Instituto Português do Oriente, 2008

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Kung Hei Fat Choi!

Templo de A-Má. Vésperas do Ano Novo Lunar, 2012

KUNG HEI FAT CHOI!* 
E o panchão* estoira poderoso
a afastar o mau espírito
de ver este universo imenso em derredor
com o óculo estreito
da longínqua Europa
KUNG HEI FAT CHOI!
O meu ano novo não é o teu ano novo
e o envelope vermelho do lai si*
é para dizer-te que recomeço contigo este caminho
de um novo ciclo da vida a percorrer
Carlos Frota. Dos Rios e suas Margens. Macau, 1998 

* Forma de exprimir os votos de Feliz Ano Novo Chinês, em cantonense.
* Panchão - torcida de papel, munida de explosivo que, ao estoirar, "afasta os maus espíritos".
* Lai si - Envelope vermelho, contendo uma quantia simbólica em dinheiro, que é dado de presente por ocasião do Novo Ano Chinês.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Xilogravuras do Ano Novo Lunar (3)

"Dupla felicidade e as cinco benções visitam esta casa"
Gravura de porta. Fim da Dinastia Qing e início do Período Republicano.

"A dupla felicidade é simbolizada por duas pegas representadas na gravura. As cinco benções são a longevidade, riqueza, saúde, virtuosidade e recompensa com uma morte boa (morte natural, não violenta)."
in Xilogravuras do Ano Novo Lunar. Instituto Português do Oriente, Macau, 1992

Xilogravuras do Ano Novo Lunar (2)

"Falcão celestial defendendo uma residência dos espíritos maus"
Reinado do Imperador Qian Long, Dinastia Qing


"Segundo os costumes chineses, quando um homem é possuído por uma raposa ou doninha, perde a consciência. Todavia, se a gravura de um falcão celestial for afixada na parede, próximo de uma janela, o ocupante da casa tem muitas probabilidades de não ser atingido por nenhuma calamidade.  A gravura, uma pintura do género, contém cenas das celebrações do Ano Lunar (superior) e de um falcão celestial a guardar a casa (inferior). A gravura ilustra um homem que, possuído por uma doninha, recupera depois de o falcão celestial apanhar a doninha".
in Xilogravuras do Ano Novo Lunar. Instituto Português do Oriente, Macau, 1992

Xilogravuras do Ano Novo Lunar (1)


"O veado e a garça vivem mesma Primavera para sempre" 
Gravura para afixar na extremidade mais aquecida da cama de tijolo.
Dinastia Qing
in Xilogravuras do Ano Novo Lunar. Instituto Português do Oriente, Macau, 1992

Gravura alusiva ao Ano Novo Lunar para ser afixada nas camas de tijolo que, aquecidas por uma lareira,  durante o dia servem de local de trabalho e à noite para dormir. As paredes das camas de tijolo são normalmente decoradas com gravuras.
Saudando o início do novo ano, nesta gravura são utilizados elementos que transmitem mensagens de boa sorte e felicidade. O veado e a garça simbolizam as seis harmonias, bem como as seis orientações: Norte, Sul, Este, Oeste, para cima e para baixo. As seis harmonias significam os três meses do Outono que se encontram em harmonia com os três meses da Primavera. Do mesmo modo, os três meses do Verão também se encontram em harmonia com os três meses do Inverno.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Uma viagem por Coloane

Ponte-cais de Coloane. Anos 60 do século XX

Ká Hó, Coloane. Anos 60 do século XX

Povoação de Ká-Hó, Coloane. Cerca de 1970

Fotografias de Lei Chiu Vang, do álbum Visita ao Passado

Coloane nos anos cinquenta do século passado. Eis uma crónica de Ninélio Barreia sobre uma viagem pela ilha, entre a Vila de Coloane e a povoação de Ká Ho.

"(...) De passagem para Coloane. Aqui, esperando a chegada dos barcos, estacionavam num terreiro fronteiro ao cais, velhos carros de passageiros que nos transportavam até às praias de Hac-Sá, Choc-Van ou Ká-Hó onde, iríamos, finalmente, encontrar as tão desejadas águas tépidas e acariciadoras em que nos banhávamos com sofreguidão.
Mas, para alcançar essas almejadas praias, tínhamos de sofrer o martírio duma viagem tremendamente incómoda naqueles velhos "machimbombos".
Uma dessas atribuladas viagens, em que foram inúmeros os incómodos, inspirou-me uma crónica que transmiti no Rádio Clube de Macau, crónica que viria, posteriormente, a provocar uma justificação da empresa rodoviária e que, até certo ponto, foi útil, porquanto vieram depois a ser tomadas medidas tendentes a evitar os transtornos apontados.
A encerrar este capítulo, aproveito para a transcrever, salientando que essa crónica se subordinava ao tema (quase sempre humorístico) "Coisas que podem acontecer... aqui".
Não sei se o ouvinte já teve como eu a infeliz ideia de fazer a viagem Coloane-Ká Hó, numa "caranguejola" a que teimam em chamar autocarro e ao qual ficaria melhor o nome de carroça.
Aconteceu que numa manhã de temporal as minhas obrigações de serviço me levaram à povoação de Ká-Hó, naquela ilha.
Já indisposto pelos balanços da lancha, foi assim que entrei para a velha carripana que nos aguardava e onde se encontravam também meia dúzia de sacas de arroz já amontoadas ao longo de toda a coxia central. Como é sabido, estes veículos têm a particularidade de a entrada e a saída se fazerem pela mesma porta, a do lado do fundo. Os bancos de madeira, cuja cor se torna difícil distinguir, tal a amálgama de poeiras e de outras sujidades acumuladas - situam-se ao través, deixando entre eles apenas uma estreita passagem.
Após um autêntico exercício de alpinismo por sobre a sacaria empilhada consegui ainda alcançar um lugar sentado. Soou o apito e a carripana pôs-se em movimento.
E já me preparava para me deleitar com o encanto da paisagem que iria desfrutar quando, cem metros decorridos, avistei um grupo de passageiros que ali aguardava a sua vez de entrar. Com eles vinham ainda as malas, os cestos, as alcofas, as redes e as sacas. E até um porco numa gaiola de bambu!
Numa algaraviada altissonante, aquele grupo furava, espremia-se, empurrava e machucava-se para tentar obter um lugar na carripana, onde a lotação parecia ilimitada. O porco grunhia (reivindicando, talvez, os seus direitos), os homens lutavam, as mulheres gritavam e eu... aguardava, pacientemente.
Afinal tudo entrou, até o porco. Passou a ser meu companheiro de viagem, mesmo por cima do assento da frente, junto à janela.
Mas, ou por causa do mau piso da estrada ou das molas da carripana, os solavancos começaram. Os passageiros - pescadores chineses, velhas, crianças e bagagens - amontoavam-se e comprimiam-se para conseguirem caber num espaço tão reduzido.
(...)
A meu lado sentara-se uma velha chinesa com uma criança às costas e, a cada solavanco, éramos atirados um de encontro ao outro; a criança berrava, a velha barafustava. Só o porco se conservava mudo e quedo. Cheguei a ter inveja dele, porque de todos os passageiros era o único bem instalado e, ainda por cima, com melhor vista panorâmica!.
(...)
Tento descortinar algo da estrada, na expectativa vã de apreciar a paisagem. Mas só consigo ver alguma coisa por entre as orelhas do porco.
Sucedem-se as curvas e contracurvas, as subidas e descidas, numa rapidez que causa vertigens (rapidez nas descidas, claro). A estrada é tão estreita que, dificilmente, alguém poderá passar junto à carripana. À esquerda, as encostas íngremes pejadas de rochedos, à direita, a costa escarpada a pique sobre o mar. A cada volta da estrada um calafrio, a cada descida mil suspiros de emoção.
Sinto o corpo moído sobre o assento rijo de madeira, sem almofadas. A estrada acidentada e esburacada faz-nos saltar sobre o banco duro ou atirar-nos contra o vizinho; a bagagem desequilibra-se e cai de onde a onde sobre nós. Os passageiros barafustam, a criança chora, a velha geme, o porco grunhe. Chegaremos ao fim desta viagem?
Uma subida tão estreita e tão íngreme, que dir-se-ia o caminho para o céu, surge bruscamente à nossa frente. A caminho do céu vamos nós - pensei - se a carripana se desvia dez centímetros que sejam. A estrada é, de facto, tão estreita que nada mais ali pode passar.
Lá no fundo, roçagando penhascos e rochedos tenebrosos o mar, aquele mar tremendamente calmo.
Estamos quase a alcançar o ponto mais alto da ilha. O motorista executa todas as manobras possíveis para tirar do motor o rendimento necessário; por instantes pára e de novo arranca, num esforço supremo.  O carro vence, enfim, a subida.
Agora entramos num declive em curvas e contracurvas. Mais solavancos, mais encontrões, mais saltos sobre o assento e arremetidas contra a velha. A estrada volta a estreitar; quase roçamos pela parede, Galhos de  árvore são arrancados à passagem até que, finalmente, entramos na recta que vai direita a Ká-Hó.
Respiramos, enfim, aliviados. Toda a gente fala agora alegremente. O porco, esse, vai calado.
A carripana parou. Estamos na povoação, na zona da praia.  Sai toda a gente. E o porco também, meu desventurado companheiro de viagem. Viagem atribulada que espero não ter de voltar a fazer nestes tempos mais próximos. O que valeu foi o tão desejado banho de mar; só por ele mereceu a pena este sacrifício.
Fico-me pela praia. O porco seguiu o seu destino. Só que ele é o único que não vai amanhã protestar nas colunas do jornal da terra."
Ninélio Barreira. "Um Passeio às Ilhas". in Ou-Mun. Coisas e Tipos de Macau. ICM, 1994

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Os Vendilhões Ambulantes

Vendedor ambulante numa rua da cidade
Vendedor de galinhas e patos
"(...) Durante o dia, giram também pelas ruas da cidade os vendedores das mais diversas mercadorias e oficiais de diversos ofícios. Temos, assim, os vendedores de fogões e de panelas de barro; os homens dos iáu-tchi-sin (leques de papel oleado) e k'uâi-sin (leques feitos de folhas secas de palmeira, isto é, se for no Verão); os im-máu-lou (castradores de gatos); os vendedores de ovos; de galinhas, com os papos cheios de areia para ganharem mais peso; de achares e de diversas gulodices (...)". Luís Gonzaga Gomes. "Os Vendilhões Ambulantes", in Chinesices. ICM, 1994

Vendedor ambulante de comidas
"(...) À medida que o dia vai avançando, vão-se animando as ruas da cidade com uma infinidade de pregões (...); agora passam os de sá-hó-fan (bela sopa de alvíssima massa de farinha), cortada às tiras, e acompanhada de bocados de tich'á-siu (carne de porco assada); os do tchu-tch'éong-fan (a mesma massa, mas enrolada e cortada aos bocadinhos) e que se comem regados de si-iâu (molho de feijão de soja); os do pák-t'óng-kou (pudins de açúcar branco); os do kâu-tch'áng-kou (pudinzinhos de nove camadas); os má-nun-sá (sonhos); os de ngâu-u (queijo); os de tâu-fu-mâi (queijadas de feijão de soja); (...) enfim um nunca acabar de petiscos próprios para satisfazer por todas as formas a glutonaria da classe trabalhadora (...)". Luís Gonzaga Gomes. "Os Vendilhões Ambulantes", in Chinesices. ICM, 1994

Vendedora ambulante de louças
"(...) Entretanto, porque as donas de casa precisam sempre de adquirir peças isoladas de baixela que, por serem feitas de frágil porcelana, se partem constantemente, à hora certa, passará pelas suas portas o pó-lêi-pui com completo sortimento de copinhos, taças de porcelana, pires, colherinhas e tudo o quanto é possível fazer-se em cerâmica". Luís Gonzaga Gomes. "Os Vendilhões Ambulantes", in Chinesices. ICM, 1994

Fotografias - datadas dos anos 30-40 do séc. XX - da autoria de José Neves Catela do catálogo Macau. Memórias Reveladas. Museu de Arte de Macau, 2001

domingo, 4 de dezembro de 2011

Macau de Henrique de Senna Fernandes: A penteadeira

"Cabeleireiro de Rua"
Fotografia de Kan Heng Fok. 1946
in Cinquenta Anos Num Olhar. 1958-2008. Associação Fotográfica de Macau.

"(...) O único luxo ou requinte de vaidade estava nos cabelos compridos, arrumados numa única trança que escorria até ao fim das costas, o penteado uniforme de todas as raparigas do povo, de classe operária. Era uma sedução contemplar essas tranças negras e luzidias, de madeixas enroladas em corda grossa, atadas quase no termo por um cordel vermelho. 
Aparentemente simples, o penteado exigia muito cuidado e muito tormento, mas elas entregavam-se docemente àquele masoquismo. Os fios de cabelo eram repuxados e esticados para trás, a ponto de arder o couro cabeludo. Passava-se e repassava-se o pente duro, embebido de óleo de madeira, as mãos da penteadeira também untadas do mesmo óleo, para dar à cabeleira o lustro e a resistência necessários. Os pequenos fios que ficavam no alto da testa e que não obedeciam, espetando-se como finos arbustos agrestes, eram eliminados à linha, um processo de desbaste doloroso que não arrancava, porém, um gemido ou protesto da estóica rapariga que se submetia àquele trato de polé.  (...)".
Henrique de Senna Fernandes. A Trança Feiticeira. Fundação Oriente, 1993

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Rua do Almirante Sérgio

Rua do Almirante Sérgio, 1950
Fotografia de Lei Iok Tin

Nevoeiro nocturno na Rua do Almirante Sérgio. 1965
Fotografia de Sit Lek Kan.
in Cinquenta Anos Num Olhar. 1958-2008. Associação Fotográfica de Macau.

"(...)
Aquele que chega a Macau unicamente para ver e divertir-se por grande que seja o barco que de longe o tenha transportado e lançado que seja o ferro com segurança aos lodos do seu porto precisa ao desembarque, para que a sua impressão não seja imediatamente má, encontrar boas estradasque comodamente o levem a visitar os pontos que a propaganda lhe indicou como sendo os mais interessantes da cidade.
(...)
Torna-se pois urgente "na nossa maneira de ver" alargar convenientemente as Ruas de Santo António, S. Domingos e Central rasgar a nova avenida da Flora, alargar a Avenida Marginal pelo menos desde o Pagode da Barra até à Praça  Ponte e Horta devendo ser as suas faixas de rodagem  pavimentadas a concrite ou a asfalto por serem estes os tipos de boa pavimentação que mais economicamente podem ser executados em Macau (...)"

"Embelezamento de Macau". in Anuário de Macau - Ano de 1927. (Edição facsimilada, 2000)

A Rua do Almirante Sérgio começa na Rua das Lorchas, junto à Praça de Ponte e Horta, e termina no Largo do Pagode da Barra. O Almirante António Sérgio de Sousa foi governador de Macau de 1868 a 1872, "notabilizando-se pelas medidas tomadas para a protecção dos cules contratados para a América e da população da província"*. 
O nome do Almirante Sérgio foi atribuído, em 1869, à rua então recentemente construída à beira rio*.

*P. Manuel Teixeira. Toponímia de Macau, volomes I e II, Instituto Cultural de Macau, 1997

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Macau, 1989

Biblioteca Chinesa. Ao fundo o edifício (já demolido) do Colégio de S. José. 

Reservatório
Vista parcial do Hotel Lisboa - "sempre em obras".

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

As casuarinas de Hac Sá

Passeio junto ao Parque de Hac Sá, na Primavera deste ano: as casuarinas já lá não se encontram. Vieram, agora, não com tesouras, mas com serras e cortaram-lhes os ramos. Depois os troncos. Por fim, arrancaram-lhes as raízes...


A Árvore
Chegaste
com a tua tesoura de jardineiro
e começaste a cortar:
umas folhas aqui e ali
uns ramos
que não doeram...
Eu estava desprevenida
quando arrancaste a raiz.
Yvette Centeno. A Oriente. Editorial Presença. Colecção Forma, 1998

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Mercado Vermelho e Avenida do Almirante Lacerda

Mercado Vermelho, Década de 70. Fotografia de Ou Ping
Catálogo da exposição Uma Viagem no Tempo - Fotografias de Macau por Ou Ping, 2005


Traçada em 1930, a Avenida do Almirante Lacerda começa na Rua da Ribeira do Patane e termina entre a Estrada do Arco e a Avenida do Conselheiro Borja, junto ao Lin Fung Miu, o Templo de Lótus
Hugo Carvalho de Lacerda Castelo Branco (1860-1944) foi Governador interino de Macau poucos anos antes da construção da avenida, entre a retirada do Governador Maia Magalhães e a tomada de posse de Tamagnini Barbosa, em 1926. 
Foi durante o governo  do Almirante Lacerda que se realizou em Macau a primeira  Exposição Industrial e Feira, em 1926.

Construído em 1936, o Mercado Almirante Lacerda ou Mercado Vermelho - assim designado por ter sido construído com tijolos vermelhos - possui uma forma simétrica, com duas torres laterais e uma com relógio ao centro. Faz parte da lista do Património Cultural de Macau, como edifício de interesse arquitectónico.


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Autocarro de dois pisos da carreira do 21A

Autocarro de dois pisos da carreira do 21A com destino à praia da Areia Preta, em Coloane. 
Anos 70 do século XX. Fotografia de Lei Chiu Vang
Colecção "Memória Colectiva dos Residentes de Macau - Imagens Antigas de Macau".


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Quadros de Macau: Fausto Sampaio e Jaime do Inso (3)

Porto Interior. Macau, 1936

"(...) desdobra-se um curiosíssimo aglomerado de casario, a parte central e mais comercial de Macau, junto do Porto Interior, ao fundo do qual se avista a ilha da Lapa e a imensidão da terra china.
Este retalho garrido da policromia tão característica das terras portuguesas constitui uma verdadeira nota de arte puramente nacional, jóia perdida naquele Oriente onde os grandes centros europeus e cosmopolitas oferecem um conjunto de tonalidades bem diferentes, banais e sombrias, onde falta a alegria das cores de Macau".
Rua 5 de Outubro. Macau, 1936

"A Rua 5 de Outubro é o coração  do bairro china de Macau, onde ressalta, com extraordinário brilho, todo o pitoresco desconcertante da vida chinesa das ruas, alacre de cores, com as suas casas de tabuletas características que são um dos atractivos que nos enfeitiçam nos meandros do Bazar" 
Rua no Bazar. Macau, 1936

"As varandas das janelas, com vasos de flores, que os chineses tanto apreciam, um jerinxá ao sol, tudo mergulhado num dia de esplêndida luz, constitui um singular documentário da vida chinesa onde há muito que observar e aprender.
O quadro da velha Rua do Bazar, como que nos transporta a um outro mundo, o mundo chinês de antanho - é um documentário precioso, pode dizer-se, uma relíquia de Macau". 
 
Avenida Almeida Ribeiro à noite. Macau, 1937

"Finalmente, vamos parar ante um quadro (...) que representa um aspecto nocturno daquilo a que podemos chamar a Baixa de Macau, num canto de luz e de prazer.
É estupenda de interpretação e de verdade chinesa!
Só um artista da sensibilidade de Fausto Sampaio, que soube sorver, aspirar e dar-nos em notas de cor estes cambiantes do mistério da China, poderia apresentar-nos a realidade nocturna deste grande, do maior coulau de Macau.
A nossa necessidade e sensação de prazer da luz, comparadas com iguais fenómenos passados com os chineses, podem representar-se pelo confronto estabelecido entre a claridade duma vela acesa e duma luz de incandescência, e encontra-se bem patente nesta tela pela intensidade luminosa que se concentra naquele bocado de passeio - e só assim se satisfaz aquela verdadeira adoração que os chineses tributam à luz.
Das janelas dos andares emerge luz do interior, por toda a parte há muita luz - pois se até os telhados dos coulaus os chineses chegam a iluminar! - e deste delírio de luz com que eles - os epicuristas - sabem tingir o prazer evolam-se as notas arrastadas, doloridas, das cantigas das pi-pa-t'chai...
Noites da China, noites de Macau..."

Excertos de uma conferência de Jaime do Inso, publicada em livro com o título Quadros de Macau, sobre a pintura de Fausto Sampaio dedicada a Macau. 
Texto retirado de Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo III. ICM, 1996

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Quadros de Macau: Fausto Sampaio e Jaime do Inso (2)

Cais do Porto com chuva. Macau, 1936

"(...) Cais do porto com chuva, onde se vê um interessante tipo de barco fluvial chinês - um flower boat, ou barco de flores - uma novidade que não existia há dez anos no Porto de Macau mas tradicional no Porto de Cantão, onde se encontravam, às dezenas, formando um verdadeiro bairro aquático de prazer, cujo acesso aos europeus nem sempre era livre de escolhos. 
Dentro daqueles barcos  era um cenário de fantasia, daquela fantasia que a gente aqui sonha que seja tudo na China e que tanta desilusão nos acarreta quando lá chegamos; uma fantasia mergulhada num mar de luz - da luz tão querida dos chineses - em sedas brilhantes, em cores garridas, em decorações vermelhas e doiradas, lanternas, música e pi-pa-t'chai galantes que servem aos chineses para dissipar as agruras da vida (...) "


Lorchas e Tancares. Macau, 1937

" (...) São uns barcos típicos (as lorchas), estranhos, que à primeira vista parecem andar para trás, de excelentes qualidades náuticas, onde os mestres chinas realizam prodígios de manobra, e que imprimem uma nota muito típica e de extraordinário interesse artístico à paisagem marítima de Macau.
As lorchas constituem uma indelével nota nostálgica da China, principalmente para quem lá passou a vida no mar."


Excertos de uma conferência de Jaime do Inso, publicada em livro com o título Quadros de Macau, sobre a pintura de Fausto Sampaio dedicada a Macau. 
Texto retirado de Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo III. ICM, 1996

Quadros de Macau: Fausto Sampaio e Jaime do Inso (1)

Entrada do Pagode da Barra. Macau, 1936

Porta da Lua no Pagode da Barra. Macau, 1936

Interior do Pagode da Barra. Macau, 1936

"(...) Sob o ponto de vista artístico, Macau não só é diferente das nossas colónias europeias, pela originalidade única do seu ambiente, como até das restantes colónias europeias na China, onde falta a pátina do tempo, o sugestivo da lenda e da tradição.
Está neste caso o famoso Pagode da Barra, ou Ma-Kok-Miu, aqui representado em três soberbas telas (...) que é como um símbolo, um brasão, um ex-líbris, de Macau.
Ao Pagode da Barra, interessantíssimo espécime de arquitectura chinesa, que se nos apresenta como um polo oposto de crenças e civilizações, em confronto com as majestosas ruínas de S. Paulo, o mais imponente monumento da fé cristã em todo o Oriente, ao Pagode da Barra está ligada a curiosa lenda da deusa A-Ma - uma das encarnações, chamemos-lhe assim, da deusa da Misericórdia, a criação mais humana e doce das crenças chinesas.
É curta a lenda e, por certo, muitos a conhecem. 
(...) 
 O Pagode da Barra foi construído, ao que parece, na época dos Mings - entre os séculos XIV e XVII - em sítio muito pitoresco, e é revestido, tanto interior como exteriormente, de magníficas ornamentações, pinturas representando cenas da vida chinesa e inscrições sínicas, embelezamentos para os quais contribuíram artistas célebres entre os quais se citam: Ho tam Sham, Kuan Lou Hin, Su Lok P'ang, etc.
Os telhados deste pagode, que serviu de inspiração e foi reproduzido na tela por vários artistas europeus, são duma magnificente beleza.
Dele disse o falecido Dr. Silva Mendes, que à China e a Macau dedicou entranhado culto: "É a residência ideal de todo aquele que aspire a viver com a Natureza, com a poesia, com os deuses...".
(...)
Assim se explica porque o Pagode da Barra, ou Ma-Kok-Miu, se encontra representado nesta exposição, em três quadros (...). Ali se observam as duas lorchas gravadas a cores, nas rochas que servem de alicerce, por assim dizer, a uma parte daquela construção, e que simbolizam a lendária interferência da deusa A-Ma na origem do santuário".

Excertos de uma conferência de Jaime do Inso, publicada em livro com o título Quadros de Macau, sobre a pintura de Fausto Sampaio dedicada a Macau. 
Texto retirado de Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo III. ICM, 1996

Fausto Sampaio

Catálogo da Exposição de Pintura de Fausto Sampaio na Sociedade de Belas Artes, em Lisboa, 1939


Catálogo da Exposição Fausto Sampaio (1893-1956): Viagens no Oriente
Lisboa, Fundação Oriente, 2009


"(...) As suas impressões oscilavam entre as grandes panorâmicas da cidade e o enfoque de estreitas ruas ou monumentos importantes, entre o longínquo e o próximo, entre uma espacialidade bem determinada e a proximidade de um plano que captava o instantâneo de um momento, assinando estes seus trabalhos com um pincel chinês e "tornando memória viva o desconhecido, normalmente envolto em particularidades estranhas e diferenciadas emoções, numa visão variada do Oriente. Grandes panorâmicas da cidade e aspectos do porto de Macau, numa dimensão bem proporcionada, envoltas por uma atmosfera rarefeita e uma particular  sensibilidade de suaves tonalidades azuladas, tal como na Vista da Praia Grande, imagens muito próximas de clichés fotográficos pela visão alargada da paisagem, mas diferenciada da fotografia pelos matizes cromáticos e efeitos de luz, de outro modo estudados em Manhã nevoenta, de impressões subjectivadas em brumas, quase monocromáticas.
Em Macau produz intensamente e regista uma "odisseia citadina" no ritmo movimentado das "ruas, becos e escadinhas em que inúmeros estabelecimentos ostentavam tabuletas com complicados  caracteres chineses, as casas de chá, as centenas de tendas, nas ruas, onde se preparavam deliciosas iguarias de cozinha tradicional, os curandeiros e as típicas farmácias, os leitores de sina, os escribas, peritos em transcrever em belos caracteres as missivas dos clientes, as casas de Fan-tan, os fumatórios de ópio, a gente do mar, que nascia, vivia e morria nos airosos juncos (...)".
"O Beco das Galinhas, a Rua 5 de Outubro, a Rua do Bazar, a Avenida de Almeida Ribeiro à noite e as imagens do Pagode da Barra revelam a preocupação pelos valores da luz e da cor, de tal modo que, mais importante que a representação, importa ao artista exprimir-se através da pincelada e das manchas de cor, afastando-se da hábil exactidão que já explorara, especialmente no retrato de encomenda e na representação de uma ideia colonial. Uma luz brilhante, explosões de cor e uma espécie de impressionismo e uma marcação expressionista, por vezes com fortes pinceladas curvilíneas e gestuais, provavelmente influenciadas pela observação de obras chinesas, como nos labirínticos traços negros da ramagem das árvores do pagode da Barra."

Sala de Jogo de Fan Tan. Macau, 1937 

" (...) Aspectos diferenciados, entre Tancareiras, retratos anónimos de figuras serenas de bairros de pescadores, pormenorizadamente descritas, Lorchas e Tancares, Cais do Porto com chuva, onde se avista o "bairro aquático de prazer (...) fantasia mergulhada num mar de luz", também uma movimentada cena no porto, de ilustrativos quotidianos, e ainda uma sala de jogo expõem a  diversidade dos aspectos tratados em Macau. Neste Fan Tan, algumas figuras, calvas e de uma inexpressividade própria de jogadores, em fantasmagóricos jogos de luz, representam um poderoso e dinâmico mundo, observado numa visão crítica." 
Excertos do texto de Maria Aires Silveira para o catálogo da exposição "Fausto Sampaio (1893-1956). Viagens no Oriente". Fundação Oriente, Lisboa, Maio de 2009

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Rua da Palmeira


A Rua da Palmeira engalanada durante as festas em honra de Tou Tei, em Março de 2011


Artéria estreita e comprida, a Rua da Palmeira começa junto da Travessa da Saudade e da Calçada das Sortes e termina no ainda denominado Largo do Pagode do Patane, em frente ao Tou Tei Miu ou templo dos Deuses Locais. O largo, há muito desaparecido, mantém-se contudo na toponímia da cidade no nome da artéria que liga a Rua da Pedra e a da Palmeira à Rua da Ribeira do Patane. 

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Thomas Allom




Thomas Allom (1804-1872): (1) "The Pria Grande, Macao", (2) "Facade of the Great Temple at Macao", (3)"Chapel in the Great Temple, Macao", (4) "Macao, from the Forts of Heang-Shan". 


"Nascido em Londres, Thomas Allom foi arquitecto, ilustrador das empresas Virtue & Co. e Heath & Co., autor de várias obras literárias e "artista topográfico", tendo estagiado no atelier de Sir Francis Goodwin. Foi também membro fundador do Royal Institute of British Architects, colaborou com Sir Carles Barry nos planos arquitectónicos do edifício do Parlamento inglês e expôs na Royal Academy of Arts, tornando-se conhecido pelos seus trabalhos topográficos utilizados para ilustrar narrativas de viagens. Sendo Allom um viajante ávido, não se sabe ao certo quando e como (ou se) terá visitado o Extremo Oriente, tendo "bebido influências" nas obras de William Alexander e de Augusto Borget, relativamente a este último no que diz respeito às paisagens do Templo da Barra e de Macau vista das fortalezas de Heang-Shan. Esta mesma semelhança dá origem à teoria de que Allom nunca visitara a China. O artista ilustra o texto China Illustrated, its Scenery, Architecture, Social Habits, Etc. (1845, prefácio de 1843) do reverendo George Neweham Wright, publicado pouco depois da primeira Guerra do Ópio. Das obras do ilustrador, destacam-se "The Pr(a)ia Grande, Macao", "Façade of the Great Temple, Macao", "Chapel in the Great Temple, Macao", "Macao, from the Forts of Heang-Shan", "Dinner Party at a Mandarin's House", "Festival of the Dragon-Boat, 5th Day of the 5th Moon" e "China Opium Smokers" em China Illustrated (1843-1847), entre outras paisagens de Cantão e diversas localidades chinesas. Thomas Allom viria a falecer em Barnes, decorria o ano de 1872."
Texto de Rogério Miguel Puga in Ditema - Dicionário Temático de Macau. Vol. I, Universidade de Macau, 2010.