quinta-feira, 29 de abril de 2010

Uma História do Tufão de 1874

Num artigo publicado em 1997 na revista Macau*, Ana Maria Amaro transcreve uma história relacionada com o catastrófico tufão de 1874, muito semelhante à popular "história da Tia Chencha", mas com protagonistas diferentes. Pertencente ao espólio da Drª Graciete Batalha, a história é narrada pelo Dr. Augusto Nolasco conforme sua avó, D. Francisca Bontein da Rosa, contava.

"Era um dia sem vento e muito quente e as pessoas passeavam em busca de fresco na Praia Grande, em noite de lua cheia. A lua apresentava um anel que anunciava tufão. Ao recolherem a casa começou a chuva e o vento com toda a força e todos trataram de pôr trancas nas portas e janelas e amarrar as persianas com fio-saco. Nunca tinha havido tão grande tufão. O mar cresceu tanto que uma lorcha da Praia Grande foi parar perto da Sé e muitos tancás do Patane foram levados até às ruas do Bazar.
Caíram telhados e casas e ateou-se um grande incêndio em Santo António.
Um casal idoso (cujo nome minha Avó indicou mas não me lembro), muito rico, pois possuía muitos sacos de prata, sentiu de repente um grande estrondo nas traseiras da casa e viram que o vento tinha levado uma grande árvore de pagode e feito desabar um muro muito alto sobre a casinha da criada, uma escrava timora muito boa que logo morreu. A porta da cozinha tinha sido arrombada pelas pedras do muro e o vento começou a levantar o telhado e a abrir as janelas. Eles só tiveram tempo de pegar em jóias e nalgumas moedas de ouro que levaram numa maleta e saíram. Quando o vento amainava conseguiam caminhar de porta em porta, mas sem saberem para onde. O vento arrastava ramos de árvores que lhes batiam nas pernas e uma telha partiu a cabeça da pobre senhora. Com a ajuda de um português de Portugal chegaram por fim à porta da igreja de Stº António. Nisto parou o vento e então viram que havia um grande incêndio muito perto. Pouco depois ouviram gritar. Ta Kip, Ta Kip! Eram os piratas.
O chefe trazia um bacamorte (assim pronunciava a minha Avó) outros chuços e espadas e ali mesmo arrancaram da mão da velhota a mala com o ouro e as jóias, enquanto feriam o português de Portugal que veio em sua defesa.
O vento voltou a soprar com muita força e os ladrões fugiram, e mais casas começaram a desabar e o incêndio alastrou-se a todo o Bazar.
Eles ali ficaram até passar o tufão, cedo pela manhã, e então cheios de pavor e de fome encaminharam-se para casa. Mas esta já não existia porque tinha ardido também. Tudo tinha ardido incluindo a grossa porta de teca com traves de pau-ferro da casa forte onde estava guardada a prata. Esta tinha sido levada pelos ladrões.
Abraçaram-se então os dois a chorar porque tinham perdido tudo, a escrava, a casa e o dinheiro e jóias. Nisto vieram novamente os ladrões e como nada mais tinham para roubar tiraram ao velhote os seus dentes de ouro. E assim ficaram pobres e foram passar o resto da vida na Santa Casa.
Quando esta história acabava estávamos todos a chorar. Mas, passado dias, pedíamos à Avó para novamente a contar.
É de notar que a escravatura já tinha sido abolida mas a designação "escrava" subsistia como sinónimo de mulher trazida de Timor."


* Ana Maria Amaro. «Uma História do Tufão de 1874». Revista Macau, II Série, nº 58, Fevereiro de 1997.

terça-feira, 27 de abril de 2010

O primeiro concurso Miss Macau

Legenda no verso do postal: "Picture shows the candidates of the first Miss Macau Beauty Contest roving around Praia do Bom Parto"

Realizou-se pela primeira vez em 1972 e foi patrocinado pela Sociedade de Turismo e Diversões de Macau. Entre 1985 e 1998 o Concurso Miss Macau foi organizado pela TDM - Teledifusão de Macau.

sábado, 24 de abril de 2010

De Portugal a Macau: a primeira viagem aérea

A 7 de Abril de 1924 Brito Pais e Sarmento de Beires partiam de Vila Nova de Milfontes em direcção a Macau. O avião - um Breguet de bombardeamento, de 300 cv, da 1ª guerra mundial - adquirido por subscrição pública em Junho de 1921, sofreu importantes modificações, nomeadamente a instalação de depósitos suplementares de gasolina, nas oficinas da Amadora. Baptizado com o nome Pátria, o aparelho tinha como tripulantes os dois oficiais e o mecânico Manuel Gouveia, que os aguardava em Tunes.

Substituído por outro aparelho - Havilland Liberty, de 400cv, adquirido na Índia - após uma aterragem forçada no subcontinente indiano, o Pátria II partia da Índia a 30 de Maio mas, devido à reduzida lotação do aparelho, o mecânico Manuel Gouveia acaba por não embarcar.

A 20 de Junho, o Pátria II deixava a Indochina - onde ficara retido devido às chuvas e inundações - em direcção a Macau, mas a proximidade de um tufão obriga a seguir viagem para Cantão, já depois de ter sobrevoado Macau. Uma aterragem de emergência junto à linha de comboio Kowloon-Cantão deixava o aparelho danificado e os pilotos forçados a seguir de comboio para Kowloon.

«A 21 de Junho pela manhã, - o temporal continuava azorragando o arquipélago, - o cônsul de Portugal anuncia-nos a entrada da lancha-canhoneira Macau, no porto de Hong Kong», conta Sarmento de Beires no seu relato da viagem intitulado De Portugal a Macau, mas só embarcavam a 25 «na canhoneira Pátria, e às três horas e meia da tarde, num escaler em que sargentos de bordo pediram para ocupar o lugar dos remadores, desembarcámos em Macau»*.


«A península minúscula em que a secular cidade portuguesa dos confins da Ásia se comprime, na desordem dos seus bairros, entre as Portas do Cerco e o mar, parece a palma da mão que a China estende ao Pacífico, como a mendigar-lhe a esmola das suas ilhas aveludadas e sombrias.
A Praia Grande, avenida quase circular, faz a curva entre a chave da mão e o polegar, onde a capelinha da Guia se alcandora no topo de uma Colina»*.

* Sarmento de Beires. «De Portugal a Macau», in Carlos Pinto Santos e Orlando Neves, De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. vol.3. Instituto Cultural de Macau, 1996

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Templo de Lin Kai

Templo de Lin Kai, na Travessa da Corda. (Dezembro, 2009)

«Lá para os lados de Sân K'iu (Ponte Nova)encontra-se um edifício que, por ser composto de três corpos, se destaca do restante casario de acanhado aspecto que forma este bairro, quase totalmente habitado por artífices que se dedicam ao exercício de variados misteres.
O referido edifício - o Templo de Lin-K'âi - é de traça bastante comezinha e, a não ser um ou outro insignificante pormenor, não possui qualquer beleza arquitectónica nem decorativa, digna de nota.
(...)
Posto que este templo se chame de Lin-K'âi não é, no entanto, dedicado a essa divindade - como seria lícito inferir-se - pelo mero facto de não existir nenhuma com tal nome no hagiológio chinês. A divindade a quem foi consagrado este templo é Pâk-Tái, mas o povo tomou o hábito de lhe chamar Lin-K'âi por ser este o nome dum diminuto ramo do delta, o qual figura nas velhas cartas topográficas de Macau com a designação de Canal de Sân-K'iu, significando "Regato de Lóto", sendo este último termo derivado do facto desta cidade ser, em geomância nativa, comparada a uma folha da mística planta. O pequeno curso de água em questão infiltrava-se por aquele bairro, na altura em que se encontra o arruinado cinema de Sân-K'iu, sinuosava caprichosamente, passando em frente do templo Seàk-Kâm-Tóng, e seguia para o sítio onde é hoje a Rua da Barca, depois de alagar todo o terreno actualmente atravessado pela Rua da Alegria.
Ora era exactamente o local em frente deste templo que numerosas embarcações escolhiam para seu ancoradouro, sendo este o motivo por que uma das principais ruas desse bairro se chama ainda Rua das Barcas.
Um dia, foi visto a boiar à tona da água um boneco. Os marítimos, estranhando tal aparecimento, atribuíram ao boneco uma origem sobrenatural e, receosos, trataram de "bater cabeça" e acender pivetes, a fim de ver se conseguiam convencer o boneco a afastar-se daquele local. O boneco insistia, porém, em aparecer todas as tardes com a preia-mar e sempre no mesmo sítio. Houve, então, um marítimo menos supersticioso que ousou retirar o boneco da água para o examinar e, assim, todos puderam verificar que ele representava a imagem de um indivíduo extremamente calvo, de longas barbas e com os pés descalços, condizendo em tudo com a conhecida figura do deus Pâk-Tái.
Resolveram, portanto, os mareantes quotizarem-se entre si para edificar uma capelazinha, com o fim de prestar culto a essa divindade que, por lhes ter aparecido tão espontaneamente, decerto lhes deveria proporcionar muitas venturas. Porém, no dia das encénias, instalaram, por equívoco, no altar, a estatueta do deus Uá-Kuóng em vez da de Pâk-Tái e, para não melindrar nem um nem outro, tiveram de construir mais um altar a fim de se poder venerar ambos os deuses». Luís Gonzaga Gomes. Lendas Chinesas de Macau. Notícias de Macau, 1951

Para além das divindades acima referidas por Gonzaga Gomes, o templo é ainda dedicado a Kum Iam, a Deusa da Misericórdia, a Choi Bak, o Deus da Riqueza, a Kuan Tai, o Deus da Guerra e das Riquezas, e aos Tai Soi ou Deuses do Ano. Construído em 1830 e ampliado entre 1875 e 1908, o Templo de Lin Kai está classificado Património Cultural.
Gonzaga Gomes conta ainda uma outra lenda associada ao templo e ao deus Pak Tai. Há muitos anos, três crianças brincavam no templo quando viram, junto ao altar, a figura de um homem calvo e de longas barbas, vestindo uma túnica comprida, mas de pés descalços. Tinha junto de si um cágado e uma cobra. Alertados pelas crianças, correram ao templo os moradores do bairro para conhecerem em pessoa tão ilustre visitante, mas quando lá chegaram já Pak Tai se tinha retirado. Contudo, deixou-lhes o cágado e a cobra, que no templo ficaram a viver até ao dia em que foram levados por uma grande cheia.

Rede do Património Cultural de Macau: Templo de Lin Kai

domingo, 18 de abril de 2010

Obra em curso

Obra em curso no terminal marítimo.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

As ofertas aos antepassados

Fabricados em armação de bambu e papel, o criado e a criada irão servir o defunto no Outro Mundo.

Roupas e outros objectos para os defuntos usarem no Além.

Televisores, automóveis, casas e outros bens para serem queimados e oferecidos ao defunto


«A relação entre vivos e mortos ao longo dos 365 dias do ano reproduz o modelo de relações da vida quaotidiana, tanto no interior da família como entre estranhos: os vivos comunicam aos seus antepassados os acontecimentos felizes e infelizes diante da tabuleta ancestral ou da sua fotografia, pedem-lhes o seu conselho e ajuda para resolverem os problemas que os afligem ou para tomar decisões importantes e mantêm para com eles uma atitude de dependência e respeito idêntica à das relações entre pais e filhos. Por sua vez os antepassados esperam dos vivos orações, sacrifícios e oferta dos bens que necessitam para levar uma vida digna no Além».
António Pedro Pires. O Culto dos Antepassados em Macau. Edições Afrontamento, 1999 (p. 193)

domingo, 4 de abril de 2010

Tabuletas ancestrais

Tabuletas ancestrais no Choc Lam Si em Macau
(Fotografia, Abril de 2008)


A tabuleta ancestral (Long Pai) representa o antepassado. Com cerca de 10 a 20 cm de largura e o dobro de altura, nela encontra-se inscrito o nome, o título ou funções do falecido e uma das suas almas (a outra parte para o Outro Mundo). É venerada no altar ancestral, que pode ser em casa ou num templo.
Todos os dias presta-se-lhe culto, queima-se incenso e oferece-se chá, fruta ou outros bens. Porém, é objecto de culto especial em determinados dias do ano, sobretudo no dia do seu aniversário e nas festividades mais importantes. Se o culto diário é tarefa de mulheres, já o culto especial compete ao chefe da família.
«Para que um espírito passe a habitar estas tão simples moradas de madeira, não é suficiente gravar nelas o respectivo nome. O ritual para esta cerimónia foi descrito no livro Tso-chuan, e consiste em exorcitar o espírito do falecido e a inscrever na tabuleta, além do seu nome, o ideograma chu.
Este ideograma que significa dono ou senhor (tradução livre), deve ser gravado por uma pessoa muito próxima do defunto, e de impecável virtude. No momento de o inscrever, o celebrante deve respirar sobre a ponta do pincel, antes de aplicar o primeiro traço. No instante exacto em que aplica o pincel sobre a madeira, deve conter a respiração, e concentrar-se na imagem mental do defunto, como se a alma daquele se concentrasse, realmente, nesse ponto da madeira» (Amaro: p. 56)

Fontes:
Ana Maria Amaro. «Rituais da Morte, Rituais da Vida na Antiga China». RC - Revista de Cultura, Nº 18, 1994
António Pedro Pires. O culto dos antepassados em Macau. Edições Afrontamento, 1999

Cheng Meng ou a Festividade da Pura Claridade

«Celebra-se no dia 4 ou 5 da terceira lua (4 ou 5 de Abril no Calendário Gregoriano). Marca o início do Verão, estação do calor e da abundância, da luz e da vida, conotada com o princípio masculino (yang), em oposição ao Inverno, estação do frio e da escassez, da escuridão e da morte, relacionada com o princípio feminino (yin).
Originalmente comemorava-se o rejuvenescimento das forças da natureza e da renovação da vida, coincidindo com a aproximação do solstício de Verão, altura em que o sol atinge o seu zénite. Para o ajudar a manter o brilho e calor necessários à maturação das sementes e frutos, acendiam-se fogueiras e executavam-se rituais em sua honra, tal como antes do solstício de Inverno, porque nesse período o sol corria o perigo de não voltar a iluminar. Era necessário fazê-lo renascer, pois com a sua morte viria o caos. Por isso, desde os tempos imemoriais que por ocasião do solstício se acendiam fogueiras, magicamente para aquecer o sol e fazê-lo reviver.
Na Roma antiga, durante o solstício de Inverno, organizavam-se jogos solenes, folguedos, danças e cantares à volta de grandes fogueiras. Esse costume espalhou-se por toda a Europa e ainda hoje existe em muitas regiões de Portugal (Natal e Ano Novo, S. João...).
(...)
Ana M. Amaro liga a origem do Cheng Meng à crença numa velha cosmogonia, segundo a qual no fim da Primavera surgiam no céu duas estrelas correspondentes aos elementos madeira e fogo: "Temendo-se que o princípio fogo dessa estrela se tornasse 'forte' e queimasse toda a madeira, provocando o desequílibrio cósmico, adoptou-se a pratica de não acender fogo na terra. O primeiro fogo era aceso ritualmente no dia do Cheng Meng. Daí o nome Pura Claridade dado a esse dia".
Mas, quarenta e oito horas antes do actual Cheng Meng, os chineses tinham o costume de visitar as sepulturas dos seus antepassados para lhes oferecer vestuário, calçado, dinheiro e alimentos cozinhados na festividade da "Comida Fria", por ser proibido acender o lume e, como tal, apenas se podiam ingerir alimentos frios.

(...)
Se a festividade era de vida, como se abandonaram essas práticas simbólicas e se passou para um festival de morte, de visita aos túmulos e culto dos antepassados?
- Para a filosofia e religião tradicional chinesa, de acordo com os princípios cósmicos do yin e do yang, existem dois tipos de almas na pessoa humana que, depois da morte, se separam, partindo uma para o Outro Mundo e ficando a outra com o corpo na sepultura. Esta deve sentir-se confortável no túmulo segundo os princípios do "fong soi" e necessita de culto e cuidados para não se transformar em espírito maléfico. Visita a sua antiga morada e entra em contacto com os descendentes, influenciando as suas vidas, cumulando-os de bênçãos ou maldições.
Como a sociedade chinesa era eminentemente agícola, a fome e a bundância, a pobreza e a riqueza estavam dependentes do que a terra produzia. Sementeiras, amadurecimento dos frutos, boas colheitas dependiam da protecção dos deuses e dos antepassados. Era necessário propiciá-los, oferecer-lhes tudo o que necessitavam no Além para que a terra trouxesse abundância de cereais e frutos. E a morte associou-se à celebração da vida, transformando a Festividade da Pura Claridade no ritual da visita à morada dos antepassados para com eles celebrar o banquete da vida que se renova! Com os presentes que se trocam, os segredos que se contam, a harmonia sai reforçada, a solidariedade fortalecida».

António Pedro Pires. O culto dos antepassados em Macau. Edições Afrontamento, 1999

quarta-feira, 31 de março de 2010

Lugar da felicidade que permanece para sempre

O Fok Tak Chi na Rua do Almirante Sérgio, em Macau

Segundo o Padre Teixeira*, o templo possui três nomes: Fok Tak Chi ou pagode da Felicidade e da Virtude, Tou Tei Miu ou pagode dos Deuses Locais e Fok Tei Cheong Yeng, ou seja, Lugar da Felicidade que permanece para sempre...
No altar central encontra-se Tou Tei, de longas barbas e sorriso amável, e na mesa junto ao altar várias divindades, entre elas Kun Iam, a Deusa da Misericórdia, e Kuan Tai, o Deus da Guerra.
Fica situado na Rua do Almirante Sérgio, muito perto do santuário da Deusa A-Má.

*P. Manuel Teixeira. Pagodes de Macau. DSEC, >Macau, 1982

terça-feira, 30 de março de 2010

Vésperas do Ano Novo Chinês

Venda de "Soi Sin Fá" em vésperas de novo ano lunar.
Fotografia de José Neves Catela. Museu de Arte de Macau


Percorrendo o Bazar


«Já retomaram as ruas, as lojas, as moradias chinesas, o aspecto exótico e pomposo das grandes festas.
Vésperas do novo ano! Pelo Bazar vai a azáfama que antecipa os dias solenes - as floristas não têm mãos a medir: flores de papel, de seda, de penas multicolores, de nácar, de filigrana. Os confeiteiros cristalizam os saborosos frutos orientais, flores, legumes, e até as raízes e sementes de algumas plantas como o gengibre e o lotus.
Nas montras prendem os nossos olhos as ricas sedas de variegadas cores e complicados arabescos. Os caracteres chineses indicam grandes reduções de preços e em volta dos balcões aglomeram-se as chinesinhas, delgadas silhuetas, de cabaias estreitas e cabelos luzidios. As suas mãozitas delicadas, de dedos afusilados, procuram, de entre as mais brilhantes, a seda de cor alegre, a mais vistosa, para os próximos dias de festa.
(...)
Vésperas do Ano Novo! Até as jóias diminuíram de preço. Soou a hora obrigatória de pagar as dívidas e quem tem dinheiro empatado precisa vender, embora com prejuízo.
(...)
Que lindo presente de ano novo! Em que cabelos negros irá poisar aquela flor tão branca? E já que falo das flores feitas de pérolas, porque não vos levar comigo pela rua das flores verdadeiras, criadas por Deus sob este sol de oiro que as coloriu e desabrochou? Peónias e peónias rosadas, lindas e perfeitas, alinham-se sobre prateleiras em anfiteatro, de um lado e outro da rua, e é uma só mancha cor de rosa, uniforme, a destacar-se do verde cinabre dos vasos de porcelana chinesa. Mais adiante, as árvores anãs, de troncos grossos e rugosos, de folha verde e copada que não excedem e por vezes não atingem três palmos de altura.
Com os seus bugalhinhos de oiro a luzir por entre a folhagem, dispostas em vasos, as tangerineiras pequeninas dão, mais além, uma nota de cor. Um pomar em miniatura para regalo dos nossos olhos! As dálias, os crisântemos formam massiços vermelhos, amarelos, brancos, cor de carne pálida! E os troncos dos pecegueiros? Símbolo do amor, quem não quererá levar para casa uma dessas hastes elegantes onde botões e flores mal entreabertas são leves toques de luz rosada? Mas o que por toda a rua se encontra, numa exuberância encantadora, é a flor do novo ano: «Soi Sin Fá». Traduzida à letra, quer dizer: Fresca flor da água, porque é dentro dela que os seus bolbos rebentam e florescem. De folhas verdes, lanceoladas, corola branca e transparente, de aroma perturbante, tem afinidades com os aromáticos junquilhos da nossa terra. Florindo só nesta época, a superstição chinesa consagra-lhe um grande culto.
(...)
Vai caindo a tarde, nas moradias chinesas acendem-se as grandes lanternas de papel envernizado que baloiçam ao vento, ladeando a porta de entrada. As frontarias brancas reflectem as suas sombras oscilantes. Mas só as casas particulares conservam ainda nas suas fachadas as tradicionais lanternas. A este povo, que tem um culto instintivo pela flor e pela luz, a electricidade deslumbrou-o. De dia, o sol penetrante que obriga a caminhar de pálpebras descidas. Luz esplenderosa em demasia, para nós ocidentais, mas para o qual, Deus, na sua infinita perfeição, criou os olhos oblíquos.
Oculto o sol, por detrás das altas montanhas, a noite cai rapidamente. O crepúsculo que atinge nestas paisagens uma suprema beleza, não permite êxtases. É belo, mas é rápido. Para afastar a noite e os seus pavores o céu enche-se de estrelas e o bairro chinês de luz. Milhões de lâmpadas eléctricas, apinhadas, formando arabescos, flores, aves, caracteres, iluminando as montras, as varandas, brilham num esplendor de apoteose teatral.
(...)
Brilham ainda numa intensidade e atracção diabólica as casas de jogo. O «Fan-Tan»! Quem, vivendo na China, desconhece o sortilégio dêsses dois monossilabos? Felicidade de alguns, desgraça de tantos! Jogo de uma morosidade que impacienta o ocidental, é aquele que mais interessa este povo que nunca tem pressa, que se extasia e pára ante uma flor, um pássaro, um brinquedo, quanto mais perante um monte de sapecas doiradas que lhe pode trazer a fortuna!
(...)
Estamos em vésperas de novo ano e pelas ruas do Bazar alinham-se as mesas do «Clu-Clu». A garotada rodei-as extasiada ante as cores garridas e os números tentadores, e os seus olhitos cintilantes contam de relance as pintas negras dos dados de marfim, enlevo de gente modesta que tenta fortuna com simples moedas de cobre.
(...)
Vésperas de novo ano! Nos interiores das casas ricas vão-se adornando as mesas de sacrifício, com flores e frutos, as mobílias com vistosas colgaduras; nas casas pobres lavam-se as paredes negras do fumo dos pivetes.
Que ao menos uma vez por ano a água ali entre na sua missão purificadora!
Observado de relance o aspecto alegre e bizarro do bairro chinês, em véspera de ano novo, subamos ao alto da Penha, com a sua igreja, bem portuguesa, donde a nossa vista alcança até muito longe... para além das montanhas azuladas.
Nas águas cinzentas do rio vão-se alinhando as lorchas de velas enroladas e mastros hirtos.
Vão-se arrimando ao longo da avenida marginal do porto interior, esperando a hora de se engalanarem, e são tantas, tantas, que em vão as contaria. Para cima de oitocentas, dizem-me, mas lá ao longe há mais velas que se aproximam...»

Maria Ana Acciaioli Tamagnini

"Vésperas do Ano Novo Chinês", da poetisa Maria Ana Acciaioli Tamagnini, foi publicado no Boletim Geral das Colónias Nº 53, Novembro de 1929 (disponível no Portal das Memórias de África e do Oriente)

Altar na Travessa da Ponte


Altar na Travessa da Ponte, junto ao templo de Seak Kam Tong Hang Toi (ou Miradouro de Seak Kam Tong). Macau, Dezembro de 2009

O oratório é dedicado a Tou Tei, o deus da terra, e nele existe uma inscrição que diz Tou Tei da Cabeça da Ponte, o que leva a supor que o altar se situava na extremidade de uma ponte que aí existiu e deu o nome à travessa. O Padre Teixeira afirma que «a ponte foi primeiro de bambu e depois de pedra e ficava entre as Ruas da Pedra e de João de Araújo, correndo sob ela um pequeno rio. O bairro San K'iu (Ponte Nova) tomou o nome dessa ponte»*.

Padre Manuel Teixeira. Pagodes de Macau, DSEC, 1982

segunda-feira, 29 de março de 2010

O templo de Sin Fong




O Templo de Sin Fong. Macau, Junho de 2009

Fica localizado no final da pequena e estreita Travessa de Coelho do Amaral, em Mong Há. Sobre o templo em honra de Sin Fong, "divindade tutelar" recorro ao artigo "A Velha Aldeia de Mong Há Que Eu Conheci"*, de Ana Maria Amaro:
«Este templo (Sin Fong Miu) bem como o Lin Fong Miu, outrora à beira da água e frequentemente inundado, não pertenciam propriamente à povoação de Mong Há, mas sim à chamada povoação marginal de Santi (ou San Tei)».
Deve ter sido fundado no reinado de Tou Kuong (século XIX), segundo uma inscrição «que pode ler-se na placa sonora, peça que deve ter sido doada por ocasião da sua fundação». Apenas esse teng (placa sonora), suspenso no pátio interior, atesta a idade do templo, pois todos os restantes vestígios desapareceram.
«O templo era decorado por cortinados de cretone florido chinês, de pouco mais de uma pataca a jarda, que mãos haviam ornamentado com lantejoulas num contraste gritante, a par dos fán, faixas laudatórias também de pano de algodão. Quanto às estátuas das divindades eram esculpidas em madeira e berrantemente pintadas de novo, o que deixava dúvidas quanto à sua antiguidade»*.

* Ana Maria Amaro. "A Velha Aldeia de Mong Há Que Eu Conheci". RC. Revista de Cultura. Nº 35/36 (II Série), 1998

quinta-feira, 25 de março de 2010

Jules Etier e as primeiras fotografias de Macau


Vue prise de Macao - Jules Alphonse Eugène ITIER - 1844
Daguerréotypie - H. 17 x L. 21 cm - Inv. 90.7683.31


La Grande Pagode de la ville chinoise de Macao - Juillet 1844 - Jules Alphonse Eugène ITIER
Daguerréotypie - H. 17 x L. 21 cm


Fotografias de Jules Itier do Musée Français de la Photographie: "Voyage d'un daguerréotypiste amateur"

«13 août [1844]. L'ancre tombe, nous sommes devant Macao et, à quatre encablures de nous, se balance la frégate la Cléopâtre, montée par le commandant Cécille».
«18 et 19 octobre. J'ai consacré ces deux journées à prendre au daguerréotype les points de vue les plus remarquables de Macao ; les passans se sont prêtés de la meilleure grâce du monde à toutes mes exigences et plusieurs Chinois ont consenti à poser; mais il fallait leur montrer l'intérieur de l'instrument, ainsi que l'objet reflété sur le verre dépoli; c'étaient alors des exclamations de surprise, et des rires qui n'avaient point de terme.»
« 28 octobre. J'ai employé ma journée à prendre au daguerréotype les divers points de vue qu'offrent Macao et ses environs ; les quais de Praja-Grande, la grande pagode, le port intérieur, les rues du Bazar m'ont offert d'intéressants sujets. Aujourd'hui encore j'ai trouvé des Chinois complaisants qui consentaient à former des groupes immobiles , à la condition de voir d'abord l'image reflétée sur le verre dépoli ; leur étonnement n'avait, d'ailleurs, rien de bien profond , c'était plutôt cette vague curiosité qu'éprouvent les enfants à la vue d'un objet nouveau ; c'est qu'il est bien des sujets qui n'étonnent que les savants, que les esprits méditatifs, et les phénomènes du daguerréotype sont dans cette catégorie».
Jules Etier. Journal d'un voyage en Chine en 1843, 1844, 1845, 1846, Volume 1
Jules Alphonse Eugène Itier, geólogo e funcionário da alfândega francesa, nomeado em 1843 chefe da missão comercial na China, Índia e Oceânia, é autor das primeiras fotografias feitas por um ocidental em Macau. Chegou a Macau a 13 de Agosto de 1844 e, como fotógrafo amador, registou a cerimónia de assinatura do tratado sino-francês (Tratado de Whampoa, em 24 de Outubro de 1844) e fotografou a cidade, as ruas do Bazar, a Praia Grande, o Porto Interior, o templo de A-Má.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Museu de Macau


Museu de Macau (Março, 2010)

Inaugurado em 1998 e dedicado à história da cidade e das suas gentes, o Museu de Macau encontra-se instalado na Fortaleza do Monte. Contempla múltiplos domínios, da Arqueologia, da História, da Etnografia e das Artes, e o espaço museológico apresenta-se dividido por três pisos - dois ao nível do subsolo e o terceiro acima do nível do terreiro interior da fortaleza - cada qual com o seu conteúdo temático específico. Dois painéis da autoria de Bartolomeu Cid dos Santos ladeiam as escadas de acesso ao Museu.

quinta-feira, 18 de março de 2010

As festas de Tou Tei

Fok Tak Chi ou Templo da Felicidade e da Virtude, na Rua do Almirante Sérgio

Altar no Beco dos Óculos

Tou Tei Miu, no Patane

Altar na Estrada Coelho do Amaral

Ontem, 2º dia do 2º mês lunar, foi dia de festa de Tou Tei e por toda a cidade, nos templos e altares a ele dedicados, realizaram-se as festividades em sua honra.
Tou Tei, o Deus da Terra, do Local ou do Bairro é a divindade protectora dos lugares a quem os devotos pedem felicidade e saúde para toda a família. Protector do lugar e das pessoas que nele habitam, Tou Tei tem ainda a função de conduzir as almas dos defuntos até ao inferno depois de estas terem sido julgadas pelas suas acções praticadas durante a vida.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Os piratas no Delta

Existem algumas descrições bastante curiosas dos vapores que faziam a ligação entre Hong Kong e Macau nos anos 20, 30 e mesmo 40, do século passado, das precauções tomadas e da forma como as embarcações eram transformadas para protegerem-se contra os ataques dos piratas. Seleccionámos três: uma de Blasco Ibáñez (anos 20), outra de Jaime do Inso (anos 30) e, por último, Ferreira de Casto (anos 40).

De Vicente Blasco Ibáñez, transcrevemos - da sua obra A Volta ao Mundo (1ª edição de 1924) - parte do relato da sua viagem a Macau:
«(...) O vapor-correio é igual a todos os que navegam no estuário e nos rios próximos; mas, depois do assalto que o meu compatriota presenciou, fizeram-lhe grandes arranjos para defesa. Grades de grossos barrotes, semelhantes às das prisões, dividem-no em várias secções. Um polícia hindustânico, de farda azul, boné branco, carabina e revólver, está de guarda à porta aberta de cada uma dessas divisórias, enquanto se faz o embarque. Quando o vapor começa a navegar, todas as entradas daquelas verdadeiras jaulas se fecham interiormente e as sentinelas ficam por detrás, encostando as carabinas ao cruzamento dos barrotes.
A coberta superior está também cortada por fortes gradeamentos, que impedem a comunicação entre as diversas classes de passageiros e, para evitar que os assaltantes possam passar para o outro lado, deitando o corpo fora da amurada, prolongam-se as grades para fora com semicírculos exteriores de pontas aguçadas como lanças. A ponte onde vai o capitão, está defendida por placas de aço iguais às dos anteparos que protegem os artilheiros nas peças modernas. Deste modo, os tiros dos piratas não podem atingir os que dirigem o barco. Aqueles, porém, que presenciaram o último assalto não mostram grande confiança nestas precauções e pensam que os chineses hão-de inventar qualquer coisa inesperada para vencerem estes obstáculos de defesa (...)».
Em O Caminho do Oriente, Jaime do Inso (1ª edição de 1932), descreve a viagem para Macau a bordo do vapor Sui-Tai:
«(...) Fecharam-se as grades que os separavam do deck superior onde iam os europeus, correram-se as portas com seteiras que defendiam a entrada da ponte do comando, guardada por índios armados, soltaram-se os cabos dos cabeços da ponte do comando e ao bater das oito horas, depois dos apitos do costume, o Sui-Tai deslizou pelas águas límpidas de Hong Kong e enfiou pelo Sulphur Channel, a caminho de Macau.
As precauções das grades isoladoras e das portas fechadas eram tomadas por causa dos piratas.
Este, que desde tempos imemoriais mandam em certas regiões da China como qualquer governo, umas vezes exigem impostos, outras apoderam-se dos navios a navegar.
(...)
Dentro de qualquer destes barcos de carreira poderão viajar, normalmente, dez, vinte, cinquenta europeus ou eurasianos - como dizem os ingleses, isto é, descendentes de europeus e asiáticos - e duzentos, trezentos, quatrocentos chineses dentre os quais, em dado momento, podem surgir uma ou duas dezenas de piratas armados a imporem a sua lei.
Apesar de todas as precauções e da presença dos guardas é raro que eles não levem a melhor pois, quando em luta lhes faltam outros recursos, acabam por lançar fogo ao próprio barco onde vão (...)».
E de Ferreira de Castro, A Volta ao Mundo, obra publicada em 1944:
«(...) De Hong Kong saem para Macau vários navios por dia, numa viagem que exige pouco mais de três horas. As classes destes pequenos barcos apresentam-se separadas, interiormente, por grades de ferro e exteriormente por uma série de espigões em forma de leque, para evitar assaltos de piratas. Tínhamos lido, na Europa, numerosas descrições sobre estas defesas, mas foi necessário virmos aqui para acreditarmos na sua existência, tão inverosímil o caso nos parecia na nossa época. Até há pouco, os piratas tomavam lugar numa das classes, como simples passageiros, e, em momento propício, assaltavam a cabina do comando. Prendiam ou matavam os oficiais e a marinhagem e pilhavam, em seguida, quanto valor o navio conduzia, desde as sacas do correio às bagagens e jóias dos passageiros. Outras vezes, instalados em juncos, disparavam, com um pequeno canhão, sobre o barco, obrigando-o a deter-se, e logo o abordavam para um assalto que não deixava a bordo coisa alguma que fosse transportável. Ora essa pirataria não acabou ainda: exerce-se, de vez em quando, em façanhas iguais às de outrora, de juncos contra juncos ou contra lanchas e demais pequenas embarcações. Mas nestes navios de Macau, armados e alguns até blindados, ela só será possível por avaria das hélices ou outro acidente casual, pois a bordo está tudo vigilante e os chineses duma classe têm de olhar para as outras como um preso para a liberdade - através de grades... (...)».

terça-feira, 16 de março de 2010

Travessa do Auto Novo

Travessa do Auto Novo. Macau, Março de 2010

Travessa do Auto Novo: começa em frente à Travessa do Matadouro, entre a Rua da Caldeira e a Rua da Felicidade e termina na Travessa das Virtudes. Quanto à sua designação, lemos na Toponímia de Macau que «foi-lhe dado este nome por se representarem ali os autos chinas.» E mais, «em chinês chama-se Ch'eng P'eng Hong, ou Ch'eng Sán Kai ou Ch'eng P'eng Chek Kai; tem este nome por lá existir o Cineteatro Ch'eng P'eng, que é o prédio nº 23 dessa Travessa, construído um pouco antes de 1907»(1).

A propósito do Auto China, escreveu Jaime do Inso:
«Uma das curiosidades deste teatro está em que, ao contrário do que entre nós sucede - sempre a contradição - não se procura dar às fachadas das casas de espectáculo qualquer aspecto sumptuoso ou de embelezamento, porque, dizem eles, tudo quanto haja de gastar-se com o teatro, preferível que seja em benefício da arte, puramente teatral, do que na arquitectura exterior. O contrário seria puro esbanjamento.
Por isso, em vão se buscaria, no Bazar, o atractivo externo que nos oferecem os nossos teatros. Não, o Auto China - nome por que ficou conhecido o teatro chinês em Macau, como resto da nossa língua de antanho - fica escondido numa travessa e é revestido por um muro de tijolo cinzento, anónimo, fazendo lembrar a entrada duma estalagem»(2).

(1) P. Manuel Teixeira. Toponímia de Macau, Volume 1, ICM, 1997, p.493
(2) Jaime do Inso. Cenas da Vida de Macau. 2ª edição. ICM, 1997, p. 45

segunda-feira, 15 de março de 2010

Travessa do Mastro

Macau: Travessa do Mastro (fotografia: Março de 2010)

Travessa do Mastro: paralela à Travessa do Matadouro, começa na Rua da Felicidade e termina na Avenida Almeida Ribeiro (Sam Má Lou). No início da travessa, no cruzamento com a Rua da Felicidade, fica o restaurante Fat Siu Lau, fundado em 1903. Foi seu fundador Wong Man Sing e o primeiro estabelecimento que abriu situava-se na Travessa do Matadouro. Actualmente, existem mais dois estabelecimentos, o Fat Siu Lau 2, junto à estátua da Deusa Kum Iam (na Avenida do Dr. Sun Yat Sen) e Fat Siu Lau 3, na Taipa (na Rua do Regedor).

quinta-feira, 11 de março de 2010

Travessa do Matadouro

Macau: Travessa do Matadouro (fotografia: Agosto de 2009)

A Travessa do Matadouro começa entre as ruas da Felicidade e da Caldeira e vai terminar na Sam Ma Lou. Aqui encontram-se, tal como nas vizinhas Rua da Felicidade e nas travessas do Auto Novo e do Mastro, alguns estabelecimentos de restauração e as pastelarias Koi Kei e Choi Hong Yuen.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Os piratas em Coloane


Com grutas e furnas nos montes e nas falésias, a ilha de Coloane - ou Ko-Lo-Wan, que significa Baía da Passagem - foi refúgio e esconderijo de piratas.

Na vila, no largo fronteiro à pequena igreja de S. Francisco de Xavier, encontra-se um monumento com a seguinte inscrição: "Combates de Coloane. 12 e 13 de Julho de 1910". A toponímia de Coloane também recorda os piratas numa pequena via designada "Azinhaga dos Piratas".

Tudo começou com o rapto de 18 crianças de um colégio, e do respectivo cozinheiro, de uma povoação chinesa, Tong Hang, localizada a poucas dezenas de quilómetros de Macau, por piratas que se alojavam nas falésias e furnas perto da praia de Hac Sá. Os piratas mantinham as crianças, mais o cozinheiro, encarceradas em casas da vila de Coloane, enquanto aguardavam o resgate. Três meses após o rapto, uma queixa apresentada às autoridades portuguesas por um advogado macaense, a quem o pai de uma das crianças mantidas como refém recorreu, veio desencadear os combates de 12 e 13 de Julho.
Na manhã de 12, dois pelotões de infantaria desembarcavam em Coloane, que nessa época apenas era acessível por via marítima (o aterro, designado por "istmo", a ligar as ilhas da Taipa e Coloane, só seria construído na década de 60 e inaugurado em 1968). Desembarcada a tropa, e após um reconhecimento à vila, nem um pirata, nem um único refém foi encontrado. Começaram as buscas pelas montanhas, mas mal as tropas se aproximavam de um esconderijo eram recebidas a tiro. Desta primeira investida resultou um morto, um cabo português. Regressaram as tropas a Macau e informaram o governador e o comandante militar da situação e da presença, nas águas de Coloane, de uma pequena frota comandada pelo coronel Wu, que se receava, que a pretexto dos piratas, procurasse ocupar a ilha de Coloane. Seguiram, então, mais forças de infantaria e artilharia, apoiadas pela canhoneira Macau. Mas os piratas, bem armados e estrategicamente posicionados, quer nas montanhas, quer em ruelas da vila, impediam o avanço das tropas portuguesas. Apontando sobre a vila, a canhoneira Macau desencadeia o bombardeamento, que durou algumas horas, destruindo a maior parte das habitações e afundando várias embarcações de juncos e sampanas. Desembarcadas mais tropas, os combates continuaram pelos dias seguintes - e não apenas nos dias 12 e 13, como assinala o monumento -, recebendo reforços no dia 14, com a canhoneira Pátria, e no dia 17, de mais 150 fuzileiros, transportados pelo cruzador D. Amélia, que entretanto chegara a Macau.
A 20, e após um intenso bombardeamento, a tropas portuguesas avançaram pelo interior da ilha onde encontraram, pelas montanhas, muitos cadáveres, armas e munições abandonadas. Fizeram vários prisioneiros, mas os reféns continuavam por libertar. Foi graças à intervenção de um outro refém, um criado de café de Hong Kong, que havia sido capturado, há vários meses, pelos piratas e que, entretanto, conseguira escapar, que as autoridades portuguesas souberam da existência de grutas dissimuladas nas falésias a leste da praia de Hac-Sá. No interior dessas grutas os piratas mantinham os reféns na esperança que a situação voltasse ao normal para completarem o negócio. Na manhã seguinte, alguns soldados, agindo por si sós e ignorando as ordens superiores, desencadearam um ataque de surpresa, descendo pelas falésias escorregadias. Numa descrição dos acontecimentos, publicada à data, conta-se «que nem um tiro se trocou entre eles e os piratas, e os nossos camaradas, não podendo já lançar mão aos restantes - que os devia ainda haver muitos - porque lhes desapareceram naquele verdadeiro labirinto de cavernas, saíram ilesos, mas completamente enfarruscados, uns sem chapéu e outros sem sapatos». Terminavam, assim, os combates de Coloane, com as crianças libertadas e 14 piratas capturados.

Os piratas eram, de um modo geral, bem acolhidos pela população de Coloane, que sabiam quem eram e lhes davam asilo, como afirmava o governador Álvaro de Melo Machado (1910-1912): «a população acolhia com benevolência estes malfeitores pelo dinheiro que generosamente gastavam; e as próprias autoridades portuguesas, que de sobejo sabiam da existência desta gente, toleravam-na, nunca fazendo diligências para a escorraçar». Por sua vez, afirma o Padre Teixeira que os piratas «foram-se ali infiltrando no decorrer dos anos: aqui montavam uma mercearia, além uma loja de peixe; uns trabalhavam nas pedreiras, outros entregavam-se à agricultura; por isso tinham de ter casas para as suas famílias. É de crer que os seus vizinhos soubessem que espécie de gente eram eles, mas não os denunciavam por duas razões: eles não os incomodavam, pois a quadrilha fazia as suas operações em terra chinesa e para ali traziam os seus roubos e as suas armas» (in: Os Piratas em Coloane: p. 5).


João Guedes. «Piratas no Delta: A Batalha de Coloane».
Macau, II Série, nº 19, Novembro de 1993
Luís Ortet. «Coloane: a memória dos piratas». Nam Van, nº 11, Janeiro de 1985 (in Projecto Memória Macaense)
P. Manuel Teixeira.
Taipa e Coloane. Direcção dos Serviços de Educação e Cultura. Macau, 1981
P. Manuel Teixeira. Toponímia de Macau. Vol. II. ICM, 1997
P. Manuel Teixeira. Os piratas em Coloane em 1910. Macau. Centro de Informação e Turismo, 1977

quarta-feira, 3 de março de 2010

Fortaleza do Monte

Fortaleza do Monte (Maio de 2008)

Fica situada na Colina do Monte e foi residência dos Capitães Gerais ou Governadores até meados do século XVIII. A sua construção deve-se aos jesuítas, iniciada por volta de 1617 e concluída em 1626 pelo Capitão Geral D. Francisco de Mascarenhas. Era a principal estrutura militar e desempenhou um papel importante na defesa da cidade, sobretudo quando da invasão dos holandeses, em 1622.
Nela estiveram instalados os Serviços de Meteorologia e Geofísica e, actualmente, alberga o Museu de Macau (inaugurado em Abril de 1998).

O Centro Histórico de Macau
Rede do Património Cultural: Fortaleza do Monte

terça-feira, 2 de março de 2010

Pitoresca mistura de edifícios chineses e casarões portugueses

Fotografia publicada na Illustração Portugueza de 14 de Dezembo de 1908

«(...) vamos conhecendo a cidade, pitoresca mistura de edifícios chineses e casarões portugueses do século XVII. Uma frontaria de pedra é a única coisa que resta da antiga catedral de S. Paulo e do convento anexo, fundado pelos jesuítas para repouso e preparação dos seus missionários, antes de partirem para o interior da China. Este templo ardeu em 1835, mas a sua enorme fachada mantém-se de pé, com a pedra avermelhada mais pelo sol que pelas chamas, e, através das suas janelas rasgadas, vê-se o muro azul do céu, que parece servir-lhe de amparo.
O castelo [fortaleza do Monte] conserva vestígios do ataque dos holandeses no século XVII. Vemos na capela uma lousa sem nomes, que cobre os restos dos defensores de Macau. Como o doutor Rodrigues [Governador Rodrigo Rodrigues, 1923-25] diz, o culto pelo soldado desconhecido criado pela última guerra inventaram-no os defensores de Macau há mais de duzentos anos.
(...)
Na nossa frente, pela parte do istmo, ergue-se uma cordilheira que ocupa grande parte do horizonte, as montanhas do Cataio. Rodrigues e eu lembramo-nos de Marco Paulo. O nome de Cataio foi aplicado pelo célebre viajante a toda a China, e, durante séculos, o mundo cristão deu o nome de umas montanhas do sul a todo o vasto Império governado pelo Gran Can.
A nossos pés estende a cidade a massa apertada dos seus telhados, escuros como os da Europa. De espaços a espaços sobressaem entre eles telhados chineses e remates de pagodes budistas. Muitas frontarias estão pintadas de rosa ou azul, cores suaves que dão alegre aspecto de novas às construções vetustas. (...)»
Vicente Blasco Ibáñez. A Volta ao Mundo. Volume II. Livraria Peninsular Editora, 2ª edição Lisboa, 1944

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Pátio do Mungo

Pátio do Mungo. Liga a Rua do Almirante Sérgio à Rua da Praia do Manduco.
(Fotografia de Fevereiro de 2009)


Para além da Adivinhação da Ilusão e das Flores da Eterna Felicidade. Navegar por ti, cidade, embarcado nos olhos do que vais deixando de ser, é uma viagem com sabor a pele. Atracar nos teus portos, desembarcar nos teus pátios. Ao longo do canal.
João Rui Azeredo. Pátio das Palavras. Macau, 1995

Dos Deuses

Dos Deuses

Frequento ainda os deuses
solícitos. Reclamo
as libações e os ritos.
Derramo entre o incenso
os restos do infinito.

José Augusto Seabra. Poemas do Nome de Deus. Instituto Cultural de Macau, 1990

Sobre José Augusto Seabra ver:
Figuras da Cultura Portuguesa - Centro Virtual Camões / Instituto Camões
In Memoriam JAS - Bibliomanias

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Cyathea Lepifera

Cyathea Lepifera Cop. no jardim de Lou Lim Ieoc.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Jardim interior do Leal Senado

Os primeiros espaços arborizados surgem graças à acção das ordens religiosas, localizados nos claustros das igrejas e nos hortos a elas associados, «impregnados de conceitos e elementos do jardim renascentista italiano, apoiando-se no conceito do jardim ou horto botânico, também aplicado em Macau pela Companhia de Jesus, no núcleo do Colégio da Madre de Deus ou S. Paulo (...)»(1). Eram espaços construídos em socalcos, que acompanhavam as encostas e onde, entre as árvores de fruto e as hortas, se destacavam fontes ou tanques.

Os jardins eram, então, espaços privados, interiores, murados, por vezes totalmente rodeados pela casa. Eram pátios ajardinados ou jardins-pátio, que faziam parte das residências solarengas de Macau, à semelhança das casas nobres portuguesas, e que «encontram o seu contraponto na estrutura dos pátios e jardins dos templos, palácios e casas nobres chinesas» (2). Por vezes, encontravam-se associados a hortas ajardinadas, tal como o do Leal Senado, que se prolongava até ao largo de Santo Agostinho, por toda «a encosta que acompanha a Calçada do Tronco Velho (...) modelada em socalcos arborizados, com árvores de fruto e hortas ajardinadas, terminando nos imponentes edifícios da Igreja e do Convento de Santo Agostinho (entretanto desaparecido). (...) Toda a estrutura do jardim do Leal Senado nomeadamente o eixo principal que define a simetria do edifício e do jardim prolonga-se na paisagem e está orientado pela intercepção com a Igreja e a torre sineira do Convento de Santo Agostinho. Quando entrávamos no jardim eram estes imponentes edifícios que nos apareciam como cenário e em segundo plano»(3).

A estrutura actual do jardim interior do Leal Senado resulta das obras de restauro do edifício ocorridas por ocasião do Duplo Centenário da Independência e da Restauração de Portugal, em 1940, já «sem grandiosidade nem mistério e muito menos o alinho e o aprumo dos jardins seiscentistas» (4).

(1) Rodrigo Rodrigues Dias. «Espaços e Jardins de Macau». Macau, II Série, nº 1, Maio de 1992
(2) (3) e (4) Rodrigo Rodrigues Dias. «O Jardim-Pátio do Leal Senado». Macau, II Série, nº 5, Setembro de 1992

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Jardim interior do Senado

Jardim do IACM (Leal Senado). Macau, Outubro de 2008

Pequeno jardim interior integrado no edifício do Leal Senado - actual Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais - cercado de um muro alto com um friso de azulejos e possuíndo uma fonte com duas carrancas em granito. Nele encontram-se ainda dois bustos, um de de Luís de Camões e o outro de João de Deus, e uma estatueta de S. João Baptista.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Rua Cinco de Outubro

Rua Cinco de Outubro
Rua Cinco de Outubro. Macau, Fevereiro de 2010

Chamava-se Rua Nova d' El-Rey. Com a proclamação da República, em 1910, muda a designação para Cinco de Outubro. Entre os chineses é conhecida por Si Mang Kai, ou seja, a tradução do nome Simão (Rua do Simão), Simão este que terá dado também o nome ao Cais do Simão.
A rua começa junto à Rua do Norte, na Rua da Ribeira do Patane, e vai terminar na Travessa Cinco de Outubro, já junto à Rua das Lorchas.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Kung Hei Fat Choi

Kung Hei Fat Choi
Bom Ano Novo

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Macau - Uma selecção de imagens cartográficas

Macau: uma selecção de imagens cartográficas, incluída na colecção de mapas da American Library of Congress, consiste numa colecção de mapas e vistas de Macau, datados de 1655 a 1991, e da qual faz parte um curioso Atlas Britânico dos Piratas, de 1696, onde se pode ver Macau e parte da costa do sul da China.

Carta sem título mostrando a costa sul da China e a ilha de Aynam

Datado de 1764, o Plan de La Ville du Port de Macao, mostra-nos a cidade e porto com a localização de igrejas e fortalezas, uma aldeia e um pagode chinês (a aldeia de Mong-Há e o templo de A-Má).

"Plan de la Ville et du Port de Macao."

Publicado pela Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1889, o mapa mostra o plano das ruas, edifícios, cemitérios, etc.


Esta selecção de imagens inclui, ainda, um Roteiro Britânico do Porto de Macau, de 1796, panoramas da cidade de Macau - respectivamente das Expedições Francesa (Voyage de La Pérouse autour du Monde, 1787) e Russa (publicada num atlas de 1803-1806, com mapas, panoramas e ilustrações etnográficas) -, um Roteiro Alemão da Costa Sul da China, de 1834, um Mapa Turístico, de 1936, um Mapa Chinês das Ruas de Macau, de 1952, e, mais recentes, de 1990 e 1991, um Mapa Moderno da Cidade de Macau e um Mapa Moderno do Território de Macau, dos Serviços de Cartografia e Cadastro.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A interessante cidade do "Santo Nome de Deus na China"

Vista da Praia Grande e Colina da Penha. George Smirnoff (1903 – 1947).
Aguarela sobre papel. 1945

(Imagem: Museu de Arte de Macau)

A interessante cidade do "Santo Nome de Deus na China"
«(...) Deixamos de navegar entre ilhas, saindo para largos espaços de mar livre, e vemos no horizonte um promontório com o seu castelo e um farol no alto. Muito tempo depois, ao costearmos esse promontório, vai surgindo lentamente a velha cidade de Macau.
Tem o aspecto policromo e leve de povoação do Extremo Oriente, e, ao mesmo tempo, a estabilidade sólida que dá a conhecer a origem dos seus fundadores. Os edifícios na maior parte são de alvenaria, e não de madeira, como nas outras cidades chinesas. A maior parte deles têm um andar superior, com arcadas ou galerias cobertas, e por cima dos telhados sobressaem os campanários das igrejas católicas.
Macau, que primitivamente se chamou Cidade do Santo Nome de Deus na China, e depois viu substituído este nome pelo de Macau, de origem indígena, seria grandemente exótica se de repente se pudesse trasladar para as proximidades de Lisboa. Vista aqui, depois de se haverem visitado as principais cidades do litoral chinês, faz lembrar o antigo Portugal e parece emanar dela um longínquo sopro do nosso hemisfério.(...)»
Vicente Blasco Ibáñez. A Volta ao Mundo. Volume II. Livraria Peninsular Editora, 2ª edição Lisboa, 1944


Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes: Biografia de Vicente Blasco Ibáñez (1867 – 1928) / La vuelta al mundo de un novelista. Tomo I / Tomo II / Tomo III (em castelhano)

Sobressalentes

"Sobressalentes de Máquinas e Motores Vai San" na Ribeira do Patane. Macau, Janeiro de 2010