domingo, 25 de fevereiro de 2007

Avenida de Almeida Ribeiro

A Avenida de Almeida Ribeiro, cerca de 1965
(in Macau. Pequena Monografia, Agência Geral do Ultramar, Lisboa, 1965)

sábado, 17 de fevereiro de 2007

Largo do Carmo

Largo do Carmo. Taipa

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Chou Kuan, o deus do fogão

Dizia Wenceslau de Moraes: «os deuses, com quem por assim dizer vivo em contacto, e a cuja sublime protecção, posto que indirectamente, me confio, são muitos, um enxame. É todo o Olimpo budista e o inteiro mito primitivo, amalgamados em crendices (...)». A iconografia religiosa chinesa é bastante variada, são muitos os deuses e os entes divinizados, são os velhos de barbas brancas e de ar bonacheirão, outros de barbas pretas e de aspecto assustador, são as fénixs e os dragões, os leões, os veados ou as tartarugas, são as flores de lótus, os crisântemos ou as tangerinas, enfim, um não acabar de imagens ligadas às crenças populares. Um mundo de crenças assente na presunção de que os deuses são acessíveis, mas também falíveis, e que o seu apoio se obtém através de acções meritórias ou de oferendas materiais – ou seja, se os humanos estão sujeitos à vontade dos deuses, porém, os deuses podem, por sua vez, serem induzidos ou convencidos a alterar os seus apoios. Igualmente presença constante nas crenças chinesas são os espíritos malignos, as almas penadas, sendo, pois, necessário evitar os malefícios desses espíritos errantes; daí a presença de toda a espécie de talismãs, os espelhos, as espadas, os guardiões das portas, as figuras de tigres ou dos caça-diabos. Mas, não basta evitar os malefícios destes espíritos errantes; é também necessário atrair benefícios, rodeando-se de imagens de deuses benfazejos, nas casas, nas lojas, nos bairros, nas ruas...

O deus da cozinha ou do fogão é uma espécie de patrono dos lares. Chou Kuan, assim se chama, tem por função relatar ao Soberano Celeste e autoridades celestiais o comportamento da família, enumerando as suas boas e más acções, ritual que é cumprido uma vez por ano, por ocasião do novo ano lunar. Ora, os chineses - que de forma prática e eficaz, se rodeiam de guardiões e de deuses protectores, e que procuram conquistar benefícios dos deuses, através de oferendas -, recorrem, por vezes, à astúcia e a subtilezas a fim de causarem boa impressão junto às tais autoridades celestiais. Para isso, antes da partida do deus do fogão para a sua viagem aos Céus, aqueles que, por razões menos meritórias prefiram que o deus se cale, besuntam-lhe a boca com mel ou outro doce, ou seja, adoçam-lhe a boca; outros, colam-lhe os lábios, impedindo assim qualquer tipo de relato... Na véspera da partida do deus – 23º dia do 12º mês lunar -, as famílias queimam a imagem do deus do fogão e este começa então a sua viagem, servindo-se do fumo para chegar aos céus. Sete dias depois regressa, colocando-se no altar nova imagem de Chou Kuan.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Tchêk-Noi, a tecedeira

Conta uma lenda muito antiga que, uma vez por ano, as pegas desaparecem da terra e formam, com as suas asas, uma ponte no céu estrelado para que Tchêk-Noi, a tecedeira, e o seu pastor, Ngau-Ióng, se possam encontrar na noite do sétimo dia da sétima lua.

Tinha o Imperador de Jade, Iok Vong, sete filhas muito formosas. Embora Tchêk-Noi fosse a mais prendada das sete irmãs, contudo eram todas excelentes bordadeiras e tecedeiras e, por isso, responsáveis pelo guarda-roupa da corte divina.

Ora, ao saber dos amores de Tchêk-Noi por Ngau-Ióng, a Deusa-Mãe decidiu separá-los, enviando para o exílio na Terra, a estrela pastor. Em sua defesa esteve Taurus, também ele uma estrela, que por essa razão seria igualmente exilado para a Terra, onde se transformou no búfalo companheiro e conselheiro de Ngau-Ióng.
No céu, Tchék-Noi morria de saudades. Mas num dia em que, juntamente com as irmãs, a tecedeira desceu à Terra para se banhar num lago, ouviu o som da flauta que o pastor tocava. Tchék-Noi já não regressou ao palácio celeste, juntando-se ao pastor. Viveram escondidos dos deuses durante alguns anos, o pastor lavrando o campo com a ajuda do búfalo, a tecedeira fazendo tecidos e cuidando dos dois filhos gémeos, que entretanto tinham nascido.
Os deuses, no céu, não se conformavam com a ausência de Tchék-Noi, pois ela era, das sete irmãs, a que melhor tecia. Exigindo o regresso da tecedeira, o Imperador de Jade ordenou ao cão celeste que a procurasse.
Descoberta pelo cão, Tchék-Noi foi obrigada a regressar à corte celeste. O pastor não se conformou e preparou-se para, juntamente com os filhos, se juntar a Tchék-Noi. Nesta viagem para os céus valeu-lhe a ajuda do seu companheiro búfalo, que arrancou os chifres e transformou-os numa barca voadora. Mas, a Deusa-Mãe, entretanto alertada, para impedir que se juntassem de novo, tirou da cabeça o alfinete e com ele desenhou um risco, que imediatamente se transformou num impetuoso rio - a Via Láctea. De um lado ficaram três estrelas, Ngau-Ióng e os dois gémeos. Do outro, uma única estrela, Tchêk-Noi, a tecedeira. As pegas, compadecidas de tão grande infelicidade, decidiram formar, uma vez por ano, no sétimo dia do sétimo mês de cada ano lunar, uma ponte sobre o rio, para que eles se possam encontrar.

A esta lenda encontra-se associada uma festividade - a Festividade das Sete Irmãs ou Tch'at Tché -, dedicada apenas às mulheres solteiras. Em pequenos altares colocados à porta de casa, nos quintais ou nos terraços, as jovens solteiras colocavam oferendas diversas, como pentes e enfeites para o cabelo, incenso, flores, fruta e bolos.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Templo de Lin Kai

Templo de Lin Kai. Macau, 2006

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Casamento

Taipa, 2006

Largo de Santo Agostinho

Largo de Santo Agostinho. Macau, 2006

«O largo de Santo Agostinho concentra vários edifícios classificados, tais como a igreja de Santo Agostinho, o Teatro D. Pedro V, o Seminário de S. José e a Biblioteca Sir Robert Ho Tung. O pavimento em calçada à portuguesa oferece unidade à área e reflecte um espaço público tradicional português». in «RC - Revista de Cultura», nº 15, Julho de 2005.

Horário: 24 horas por dia / todos os dias da semana
O Centro Histórico de Macau

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Macau di Tempo Antigo: a Praia Grande

A Praia Grande, em Macau (ca. de 1840). Thomas Allom (1804-1872).
(in: Biblioteca Nacional Digital - http://purl.pt/1040)

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Sai Van

Limpeza do lago de Sai Van. Macau, Junho de 2006

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Na sossegada e frondosa Ilha Verde

Ilha Verde / Green Island. Cerca de 1930.
(in João Loureiro. Postais Antigos de Macau
)

«Aos sábados ou aos domingos, costumava ir pescar. Era um passatempo a que A-Tai não se opunha, pois, em dias de sorte, reforçava as refeições simples e monótonas, com peixe fresco. Já não havia dinheiro para alugar um tancá ou uma sampana. Nem procurava os rochedos do Bom Parto e da falésia da Santa Sancha. Eram lugares em que encontrava certa gente conhecida. Ou mesmo, os morros da Boca do Inferno e os pedregulhos mais suaves da Praia de Cacilhas. Na sua humildade actual, preferia os cantinhos entre os penedos da Fortaleza de S. Tiago da Barra ou, então, na sossegada e frondosa Ilha Verde, quando ia tentar os peixes de água doce. Utilizava uma velha cana e anzóis provectos e camarões mais baratos. Mas era bem sucedido, com aqueles apetrechos que sabiam atrair os peixes.
Havia uma praiazita que era o seu lugar favorito, não só porque ali reinava uma aragem de sonho, e se lavava, compensando-se da pocilga em que vivia. E havia sempre peixe abundante.»
Henrique de Senna Fernandes. Amor e Dedinhos de Pé. Instituto Cultural de Macau,1986

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

George Chinnery: «Sampana»

George Chinnery. «Sampana». C. 1834. Sépia e aguarela sobre papel.
(in Oriente, nº 5. Abril de 2003)

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Nelas vicejavam gigantescas baneanas

«A maior e mais antiga árvore do pagode de Macau», no Seminário de S. José, c. de 1928.
(Macau, II série, nº 54, Outubro de 1996)

«Para recreio dos alunos havia e há duas grandes hortas. Nelas vicejavam gigantescas baneanas, cujas ramadas se tocavam umas às outras, abrigando os jovens do sol tropical.
Eram árvores bicentenárias, as mais antigas e maiores de Macau.
Sentaram-se à sua sombra, durante dois séculos, gerações e gerações de estudantes.
Um dia, passou um pé de vento e tombou esses gigantes, que não mais se ergueram.
E tudo o vento levou!»
Padre Manuel Teixeira. «O Seminário do Meu Tempo», in Macau, nº54 de Outubro de 1996.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Passeio Público

O jardim de São Francisco no início do século XX.
(in Macau, II série, nº 76 de Agosto de 1998)

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Tchong Ieong, o Culto dos Antepassados

O Tchong Ieong ou festividade do «duplo nove» - porque se realiza no nono dia da nona Lua - é mais um ritual fúnebre, mais uma festividade que, tal como o Ching Ming, está ligada ao culto dos finados, mais precisamente o culto dos antepassados. É, também, um ritual de purificação, designado por «subida às alturas», já que nesta festividade as famílias, após a visita às sepulturas dos seus antepassados, sobem ao cume dos montes e das colinas.
Diz uma lenda que, em tempos antigos, um homem letrado e de grande virtude recebeu uma advertência divina para se dirigir de imediato, com a sua família, para um determinado local nas montanhas. Assim o fez, acompanhado de toda a família. E, dias depois, quando regressou à sua casa, percebeu que tinha sido eleito, pois apenas encontrou morte e destruição.

terça-feira, 17 de outubro de 2006

Cores do Oriente

Taipa, 2006

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

A festa da Lua

Realiza-se no 15º dia do 8º mês lunar e designa-se por Chong Chao Chit ou festa do bolo lunar. É a festa da lua, velha tradição chinesa (1), também conhecida por festa das lanternas, já que a noite não é apenas iluminada pela lua cheia, mas também por inúmeras lanternas de papel. Na China, a festa da lua toma a particularidade de estar associada ao Bolo Lunar, que em Macau é também conhecido por «bolo bate-pau» - por serem metidos à paulada em formas de madeira - e que se oferece, neste dia, a amigos e familiares. Fabricados com farinha acinzentada - da cor da Lua - estes «bolos de bate-pau» são recheados ou com carnes e toucinho, ou com cascas de tangerina, ou, ainda, com diversas variedades de sementes, como as de lótus, de pevides, amêndoas ou pinhões.
Luís Gonzaga Gomes conta-nos a origem do bolo lunar, que «(...) teve lugar numa das maiores cidades da China Central, onde jurisdicionava, desenfreadamente, um cruel e avarento sátrapa, que se escudava na força de uma bem equipada guarnição, para tiranizar os pacíficos habitantes com a sua despótica administração.
(...)
Ora, num belo dia de Outuno, chegara à cidade um homem de meia idade, que foi albergar-se numa hospedaria. Era bem apresentado, e, nas poucas noites em que pernoitara ali, mostrou ser indivíduo culto, pelas conversas com que se entretinha com outros hóspedes.
O desconhecido costumava passar o dia, perambulando pelo centro da cidade, a fim de se informar das condições de vida do proletariado e, dias depois, estabelecia numa rua, perto do mercado, uma casa de chá, que passou, em breve, a ser frequentada pelos principais negociantes da terra. O dono da casa atendia, pessoalmente, os fregueses e, nas conversas que com eles trocava, não deixava nunca de fazer a apologia da coragem e de menosprezar a covardia, citando, com muito propósito, referências dos clássicos.Um dia, quando se encontrava à porta, esperando a chegada dos usuais frequentadores do seu estabelecimento, viu aproximarem-se dois indivíduos que discutiam, excitadamente mas em voz baixa, e que, ao entrarem, passaram por ele, sem o saudarem, olhando-o com torvos olhares de surda hostilidade.Muitos outros fregueses foram vindo e abancaram-se todos, em volta da mesma mesa, falando, acaloradamente, mas de forma inaudível, como se desconfiassem ser escutados.O dono da pastelaria, intrigado com o caso, aproximou-se do grupo e todos se calaram imediatamente.Tendo instado muito para que o informassem do que tinha acontecido, contaram-lhe, então, que um dos seu companheiros que tomara chá naquela casa, na véspera, e que criticara a acção do déspota, tinha sido levado para o centro do mercado, nessa manhã, com toda a sua família. As suas ensanguentadas cabeças espetadas em diversos postes, revelavam que alguém, que se encontrava no estabelecimento nessa ocasião, o tinha delatado aos esbirros governamentais.O dono aquietou-os, então, recomendando-lhes que voltassem sossegados para os seus afazeres e que não cometessem nenhum acto imprudente que pudesse comprometer as suas famílias e os seus amigos, asseverando-lhes que grandes acontecimentos iriam ter lugar dentro de alguns dias.No dia seguinte, fez constar por todo o burgo que iria introduzir no mercado um novo bolo, de admirável preparação, cujos secretos ingredientes só podiam ser buscados em longínquas terras.Tal bolo seria distribuído gratuitamente, devendo, no entanto, ser comido só à meia-noite do dia 15.Chegado a véspera desse dia, recebiam todos, em sua casa, um bolo de atraente aspecto e, à meia-noite, quando o partiram para o saborearem, descobriram, no interior, um papelinho, convidando a população a juntar-se com as suas armas, no mercado, por ter enfim soado a verdadeira hora da sua liberdade.Como por encanto, em pouco tempo, a praça principal encheu-se de gentio que, imediatamente, marchou atrás do pasteleiro, para a residência do detestado mandarim, onde facilmente, desarmaram os soldados tomados de surpresa, e prenderam o tirano.Completado o golpe de estado, os habitantes do burgo quiseram que o pasteleiro ficasse dirigindo os negócios do governo mas, como este tivesse desaparecido, formou-se um conselho, para actuar durante a sua ausência.Nunca mais se soube do paredeiro do incógnito caudilho, porém, o povo jamais esqueceu o seu feito» (2).
_____________
(1) O festival da lua festeja-se, igualmente, em outras regiões da Ásia, nomeadamente no Japão onde se designa por Ó-Tsukimi.(2) Luís Gonzaga Gomes. «A festividade do Outono», in Macau Factos e Lendas, Instituto Cultural de Macau, 1994, p. 146-150.

quinta-feira, 5 de outubro de 2006

Casarám antigo

Bairro de S. Lázaro. Macau, 2006
Casarám antigo
Macau di janéla vérde,veneziána di tabique;
Macau di chám sobradado,
co enténa chuchú parede
pa co-côi sobrado;
Saguám pa lavá rópa,
Terraço di chám di ladrilho,
lugá pa sugá rópa.
Macau di casaám antigonostre
Cubrido co télia vemêlo,
parede caiado,
varánda empolado...
Únde têm vôs?
Macau di quintal co pôço,
corda mará báldi,
báldi elá águ vêm riva.
Horta co árvre di frutázi
semeado aqui-ali;
Porta-trás pa sai "lap-sap",
pa áma comprá som,
apô di cartá águ-fónti,
intrá-sai di casa.
Únde têm vôs?
Macau antigo di gudám
co dispénsa pa guardá catá-cutí;
Quarto di quiada na "lau-chai",
Quartinho di bánho na vánda-trás
co bacia di lóiça pa lavá rosto,
balsa di pau pa lavá corpo...
Casa-casa antigo
di Macau tamêm antigo...
Seléa Macau, únde têm vôs?
José dos Santos Ferreira (Adé). Poema na Língu Maquista.

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

Tabuletas

«Associação de Empregaclos de Barbea-rias de Macau». Macau, Travessa dos Fatiões. 2006

Tabuletas

«Agência de Sapatos Kit Ou», também designada por «Fomento Predial Kit Ou». Macau, Rua das Estalagens. 2006

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

Travessa da Assunção

Travessa da Assunção. Macau, Abril de 2006

Um gigantesco caranguejo

«Assim, a Praia Grande que, antes do aterro descrevia uma bela curva, desde o sítio de S. Francisco até à Avenida República era considerada pelos geomantes como um gigantesco caranguejo, cujos olhos eram representados pelas duas saliências semi-circulares - os antigos fortins de S. Pedro e S. João - que ficavam situados, um, em frente ao actual Palácio das Repartições que foi o primitivo Palácio do Governo, e o outro, em frente da Travessa de S. João.
Foi ao longo da Praia grande que se edificaram as residências dos mais abastados moradores desta terra, moradias essas que, com a decadência do comércio português no Extremo Oriente, passaram, a pouco e pouco, para as mãos dos argentários chineses, que nunca deixavam caiar as suas casas de encarnado nem de cinzento, pois, longe vá o agouro, estas eram as cores com que se apresentavam os caranguejos cozidos ou mortos. As cores preferidas eram a verde ou a amarelada por corresponderem à cor da carapaça de tais decápodes vivos.
Há anos, este suposto crustáceo foi destruído com as obras do aterro da Praia Grande e um bonzo, pressagiando iminentes desgraças para os ricaços chineses moradores neste local, aconselhou-os a mudar de residência. Tal mudança acarretaria, porém, enormes despesas, por isso os moradores da Praia Grande deixaram-se ficar, comodamente, nas suas casas, a aguardar os acontecimentos e não consta que lhes tivesse sobrevindo qualquer mal, pois continuam até agora, a viver prosperamente». Luís Gonzaga Gomes. «O Fong Sôi de Macau», in Macau Factos e Lendas. Instituto Cultural de Macau. 1994

terça-feira, 12 de setembro de 2006

Macau di Tempo Antigo: «Tancás e Marinheiros»

«Entre os usos curiosos da vida de bordo em Macau, figura o tancá. Nas outras estações, para o serviço com a terra, há naturalmente os escaleres do navio: escaler dos oficiais, bote do estado-menor, bote das compras, escaler de licenças aos domingos; largando, recolhendo a horas determinadas, obrigando todos a uma fastidiosa dependência. Em Macau, mercê dos pequenos barcos indígenas, que formigam no rio aos cardumes, aquelas carreiras dispensam-se; o próprio comandante, oficiais, marujada, todos têm o seu tancá privativo, a troco de magras pratas; e os escaleres, com grande gáudio dos imediatos, permanecem ordinariamente içados nos turcos, asseados e pintadinhos, que é um regalo vê-los. De modo que é observação que sempre impressiona novatos, o enxame de barquinhos que a toda a hora rodeiam os navios de guerra fundeados no porto, como vermes parasitas. E a circunstância mais exótica deste uso é que, sendo os tancás tripulados por mulheres, estabelece-se assim uma contínua relação entre os dois sexos, gente de bordo e tancareiras, caso realmente único em vida de convés.
Nada mais curioso, mais inesperado, do que estes rostos de sereia de nova espécie, assomando às vigias dos camarotes e das câmaras, falando para dentro, interrogando, perguntando-nos a que horas vamos para terra, ou pedindo-nos uma laranja da nossa sobremesa: rostos sem beleza nem frescura, curtidos aos rigores do tempo, mas onde apesar disso brilha por vezes um olhar doce de fêmea, carinhoso e suplicante. Pobres tancareiras, agarradas desde a infância ao remo que as sustenta, regeladas no Inverno pela brisa da monção, tisnando ao sol ardente do Estio, ensopando as cabaias na onda dos chuvascos! Pobres párias do mundo! Queremos-lhes todos. Que são elas afinal, senão as nossas companheiras de trabalhos, uma parte integrante das guarnições dos nossos navios?
Vivendo longos dias nos tancás amarrados à popa da nossa canhoneira, fazem-nos assistir à sua íntima labuta, cuidando da pobre casa flutuante, remendando andrajos, lavando as crianças, preparando a cozinha. Vemo-las pentear as negras tranças, comer o seu arroz, implorar aos deuses. De quando em quando levantam-se azedas disputas, resolvidas a murro, e não é raro ter de intervir a autoridade, admoestando o femeaço como se tratasse de grumetes balhões.
(...)
É aos domingos que o bando de tancás moureja mais. Vinte ou trinta soi-sau-quai, diabos com as mãos na água (é esta a picaresca denominação chinesa), vestem a melhor farpela, escovam-se, engraxam-se, alisam as melenas, dispondo-se a ir afogar em oito horas de folia o mau humor de uma semana inteira de trabalho. Os tancás aguardam a curta distância. Soa a hora de embarcarem as licenças. Aí vão eles, chape, chape, pompejantes de alegria; ao largo, soltam-se de dentro expansões em grande berra, natural desforço de quem a bordo só pode falar baixinho; ri-se, canta-se; e lá de quando em quando um gritinho agudo vem acusar melindres ofendidos por algum galanteio mais pesado daquelas mãos alcatroadas, que palpam, e beliscam, sem cerimónias». [Março de 1892].
Wenceslau de Moraes. «Tancás e Marinheiros», in Traços do Extremo Oriente. Parceria A.M.Pereira. 2ª edição, 1971

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

Macau di Tempo Antigo: Porto Interior

«Rua das Lorchas - Interior Port - Porto Interior». Macau Post Card, publicado por Kong Iat Cheong e Ho Weng Hong, não datado (cerca de 1900).

domingo, 27 de agosto de 2006

Macau di Tempo Antigo: Rua Nova do Comércio

«Rua Nova do Comércio - Pig Market - Mercado de Porco». Macau Post Card, publicado por Hong Iat Cheong e Ho Weng Hong, não datado (cerca de 1900).

«Da rua, subiam todos os rumores duma cidade chinesa, os pregões dos vendilhões ambulantes, o estalar de tamancos nas pedras da calçada, o estralejar de panchões votivos, a plangência do alaúde do ceguinho, oferecendo-se para "cantar" a sina». Henrique de Senna Fernandes. Amor e Dedinhos de Pé. Romance de Macau. Instituto Cultural de Macau. 1986, p. 210

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Barbearia Shanghai

Macau, 1985

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Cores do Oriente

Templo de A-Ma (Ma Kok Miu). Macau, Junho de 2006

Farmácia chinesa Tong Sin Tong

Farmácia chinesa Tong Sin Tong, Rua de Camilo Pessanha. Macau, Junho de 2006

São simplesmente "casas de penhor"

Casa de Penhor Tak Seng On. Macau, Junho de 2006

«Não há visitante estrangeiro, primeira vez chegado a qualquer cidade chinesa, que não fique surpreendido com umas estranhas e sombrias construções com aspecto de torres de vigia, que surgem espalhadas em óptimas situações estratégicas, dominando com a sua rígida altura o confuso e baixo casario de diversos bairros.
As sua janelinhas, muito pequenas e estreitas, gradeadas de ferro e reminiscentes das barbacãs de velhos castelos, evocarão decerto no seu espírito, as tumultuosas épocas de desordenados fossados, acaudilhados por ambiciosos barões feudais, sempre impetuosos e sempre irrequietos, épocas essas em que os habitantes dos velhos burgos se viam forçados a encerrar-se dentro das suas fortalezas, para defenderem as suas vidas e as dos seus.
Ora esses edifícios maciçamente construídos de tijolo cinzento, embora fossem capazes de sustentar um assalto, não se integravam contudo no sistema de fortificações das cidades chinesas, pois são simplesmente "casas de penhor", uma das instituições das mais importantes, na curiosa e complexa sociedade chinesa.»
Luís Gonzaga Gomes. «Casas de Penhor», in Chinesices. Instituto Cultural de Macau, 1994

Casa de Penhor Tak Seng On

Casa de Penhor Tak Seng On, Macau, Junho de 2006

quarta-feira, 12 de julho de 2006

Cores do Oriente

Macau, 1983

Latoeiro

Latoeiro. Macau, 1984

domingo, 11 de junho de 2006

Cores do Oriente

Vila Cultural de A-Má. Coloane, 2006

Peixe seco

"Estabelecimento de Comidas Tai Un", Avenida de Almeida Ribeiro. Macau, 2006

Cores do Oriente

Rua da Felicidade. Macau, Janeiro de 2006

Taipa

Taipa, Rua de Fernão Mendes Pinto. Inverno de 2006


Coloane

Coloane. Inverno de 2006

sábado, 10 de junho de 2006

A Rua das Mariazinhas

Rua de S. Domingos (Mariazinhas). Macau, Maio de 2006

«Primitivamente, as Mariazinhas limitavam-se ao troço da Rua de S. Domingos, dum e doutro lado da artéria, que vai da embocadura da Travessa da Sé até à subida para a Calçada das Verdades, em frente ao Cinema Capitol. Hoje, o conceito alargou-se, estende-se dum lado à Rua Pedro Nolasco da Silva, a antiga Rua do Hospital, até à Travessa do P. Soares, e doutro lado até ao Largo de S. Domingos. Pode-se ainda incluir nele o conjunto de lojas e lojecas da Rua da Palha até à linda Praceta que ali existe.
As minhas recordações da Rua de S. Domingos remontam à infancia. O cenário mais antigo que se me fixou na memória é provavelmente o de estar parado diante da loja de antiguidades chinesas que se anunciava, em letras brancas num fundo azul-claro, com o nome de "Pessanha-Curious". O estabelecimento ficava onde hoje se encontra a Livraria Portuguesa, ocupando talvez uma área mais pequena.
Na porta estava um homem magro, pálido, meão de altura, feições macaenses fortemente orientais e pouco cabelo. Cumprimentou os meus pais sorridente, trocaram umas palavras e seguimos adiante. Perguntei quem era. O meu pai respondeu:
- É o filho de Camilo Pessanha.»
Henrique de Senna Fernandes. «Rua das Mariazinhas», in Mong-Há, Instituto Cultural de Macau, 1998

sexta-feira, 9 de junho de 2006

Sai Van

Lago Sai Van. Macau, Junho de 2006

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Casa de penhor

Torre prestamista (Casa de Penhores Tak Sang), na Rua 5 de Outubro. Macau, Maio de 2006

Um morcego voa
e apanha uma moeda de cobre
conduz os miseráveis para dentro da porta
O condutor é cego

Logo que um miserável entra
esconde-se por detrás do biombo
Até os seus objectos
embrulhados em folhas de um jornal já lido
são de vergonha

Entre o biombo de madeira e o balcão
entre os objectos e o recibo de penhor
os miseráveis ficam mais miseráveis

A quem interessa
outro biombo que oculte a sociedade?

Han Mu. «Casa de Penhor», in Antologia de Poetas de Macau.

Macau Património Mundial: Casa do Mandarim

«Construída em 1881, foi a residência de Zheng Guanying, importante fugura literária chinesa. Trata-se de um complexo residencial chinês tradicional, composto por várias casas com pátios interiores, revelando uma mistura de pormenores de influência chinesa e ocidental, como sejam os tijolos cinzentos, as decorações em estuque sobre as portas e as janelas com portadas cobertas com finas placas de madrepérola, de origem indiana». in «RC - Revista de Cultura», nº 15, Julho de 2005.
Encerrada temporariamente.
O Centro Histórico de Macau

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Macau di Tempo Antigo: no Bazar

Uma rua de Macau. Illustração Portugueza de 28 de Dezembro de 1908

«Tudo é alegria no Bazar, uma alegria que nos mergulha na calma tranquilidade chinesa, que nos invadem e conquista, insensivelmente, como um filtro que se absorvesse ao respirar.
A policromia das lojas; o vaivém constante duma população activa mas que desconhece precipitações; vasos de flores; os leitões assados e os patos salgados pendurados às portas, como uma tentação à voracidade dos chineses, para quem a comida é um dos maiores prazeres; as lâmpadas que começam a acender-se, como que soltando um hino à luz que os chineses adoram com verdadeira devoção pagã; a fugidias Pi-pa-t'chai que passam a caminho dos Cou-laus; todos aqueles sons do ambiente e da vida do Bazar, na atmosfera festiva do Ano Novo, vão-nos narcotizando, à mistura com o cheiro, enjoativo e doce, do ópio que anda pelo ar». Jaime do Inso, Cenas da Vida de Macau.

Bazar Grande e Bazarinho

O Bazar «era a retinta cidade chinesa de Macau», que, «partindo da raia traçada pelos Bairros do Lilau, S. Lourenço, Stº Agostinho, Largo do Senado, Monte e Stº António (...) ia desaguar, em leque, no Porto Interior»(1). Chamavam-lhe, também, Bazar Grande, para melhor se diferenciar do Bazarinho, ou Soi-Sau-Sai-Kai, como designam os chineses a Rua do Bazarinho (e que significa Rua do Marinheiro, a oeste, por forma a distinguir-se da Rua do Marinheiro, situada a sul). Esta começa junto ao Pátio da Ilusão, na Travessa do Mata-Tigre, e termina na Calçada de Eugénio Gonçalves, quase em frente à Rua das Alabardas.
No Bazar se concentrava todo o comércio, desde as lojas de quinquilharias, aos algibebes, aos ferros velhos; nele ficavam as casas de pasto ou cou-laus, as estalagens, as lojas de lotarias, as casas de fantan e as de penhor, os lupanares. «A sua população não era só constituída pelos autóctones de Macau. Havia gente oriunda das mais diversas partes da terra-china fronteiriça à cidade que ali chegava para os seus ócios e negócios (...). E não esqueçamos ainda de acrescentar que havia toda uma população flutuante e piscatória, ancorada no rio que punha pé em terra para os seus lazeres»(2).

(1) e (2) Henrique de Senna Fernandes. «Chá com Essência de Cereja», Nam Van.

«Pátio do Poeta. Só dele»

Pátio do Poeta. Macau, Maio de 2006

O sal das vozes
usurárias as palavras-pautas-palmas
Rastos de expressão os rostos
daquelas bocas de restos
Góticos os esgares
flamejantes quando esfaqueam o ar
Os dedos dados
de mãos nunca dadas
como se compassos vazios
de músicas abortadas


o cavalo alado
com a crina dos mistérios
plana
montado por omissões descodificadas
em tiras de papel qualquer
como se vozes outras
do poeta
a rasgar o tempo

João Rui Azeredo. in Antologia de Poetas de Macau.

quarta-feira, 31 de maio de 2006

Fragmentos

Macau, Abril de 2006

Fragmentos

Kun Iam Tchai. Macau, Abril de 2006

O Pequeno Kun Iam

Kun Iam Tchai. Macau, Abril de 2006

O Antigo Templo de Kun Iam, o Kun Iam Ku Miu, também designado por Pequeno Ku Iam ou Kun Iam Tchai, situado a pouca distância do Kum Iam Tong, na Avenida Coronel Mesquita, foi o primitivo templo edificado em Mong-Há em honra da Deusa da Misericórdia. Conta-se que um dia, na aldeia de Mong-Há-Tch', dois pastorinhos encontraram, a boiar nas águas do rio (que então banhava a colina de Mong-Há), uma estatueta de madeira da deusa Kun Iam. De imediato construíram-lhe um nicho, que os habitantes da aldeia transformaram depois num templo. Anexo e interligado a este, um outro templo ou capela, construído em 1908, é dedicado a Seng Vong, um deus local.
Ao invés de vasos com plantas ou flores, ou de tanques com lótus, dois enormes jamboleiros preenchem por completo o pequeno pátio do Kun Iam Ku Miu.

«Macau em Maio»

Tens a alma cheia de ipomeas
e de acácias rubras
e de chagas de melancolia nos muros velhos.

Teus longos braços novos de betão e vidro
rompem a bruma matinal
por sobre os restos da antiga beleza.

Fernanda Dias. in Antologia de Poetas de Macau.

terça-feira, 30 de maio de 2006

Estória di Maria co Alféris Juám

«Intrementes, Maria têm na jardim Sám Francisco, sentado na bánco sabroso conversá co su chistoso Juám. Di sabroso qui ta isquecê ora di vai casa comê.
Juám sã unga alféris di Bataliám (vinte cinco áno na-más), arto, ôlo grandi, cabelo marêlo-ôro, co unga bigode grosso tamêm aloraça. Já vêm di Portugal, têm na Macau dôs áno fora, não sabe falá china, nunca intendê nôsso língu maquista. Sorte qui Maria já vai escola na Convento Santa Clara, já prendê torá portuguêz pa podê papiá co su quirubim di bigode grosso.
(...)
Maria já conhecê estunga Juám têm perto cinco mês, unga domingo na adro di Sé, quelora cavá missa-tropa. Na dentro di greza, Juám olá Maria, nom-pôde largar ôlo; Maria virá cara sã ta olá acunga dôs ôlo lustro ta contemplá êle, raganhado.Tudo dôs nom-pôde uví missa bêm-fêto».
José dos Santos Ferreira (Adé)
. «Estória di Maria co Alféris Juám», Macau di Tempo Antigo (Poesia e Prosa) - Dialecto Macaense -, Edição do Autor, Macau, 1985

Vocabulário:
acunga - esse, essa, aquele, aquela.
quelora - quando; no momento em que.
cavá - depois; em seguida (Cavá vem de «acabar»)
estunga - este ou esta
greza - igreja
lustro - que tem brilho; luzidio
Olá - ver, olhar. Olá bem-fêto! - vejam bem!
Ôlo - olho
quelora - quando; no momento em que.
raganhado - arreganhado
- do verbo ser.
- do verbo estar
torá portuguêz - à letra seria «torrar o português»; diz-se da pessoa que se esforça em falar correctamente o portugês, com pronúncia afectada.

domingo, 28 de maio de 2006

Hong Kung, o deus guerreiro

Templo de Hong Kung. Macau, Maio de 2006

O sexto dia da sétima lua é o dia das festividades em honra do deus guerreiro Marechal Hong Gong (ou Hong Kung). Destemido guerreiro, viu-se certo dia em grandes dificuldades, cercado pelo inimigo, que o forçou a uma fuga através de pântanos e terrenos lodosos, onde ia deixando as suas pegadas. Contou o Marechal, nesta atribulada fuga, com a precisosa ajuda de um bando de patos que o seguiam com o único objectico de apagar as pegadas do guerreiro. Desde então, e durante as festividades em sua honra, mantém-se a interdição do consumo de carne de pato.
Situado no Largo do Pagode do Bazar, o templo de Hong Kung, também conhecido por templo do Bazar, tem ainda outra história a ele associado, segundo a qual, os moradores desta zona, então ribeirinha, teriam encontrado uma estátua de madeira do Marechal a flutuar no rio. O actual templo, posterior a esta história, data de 1860, e é dedicado, também, ao deus Hung Seng, deus dos mares, e a Hua Tuo, deus da medicina.