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terça-feira, 4 de setembro de 2012

"Notas sobre o Passaleão" de João Aguiar


"Notas sobre o Passaleão" 
de João Aguiar
Os Comedores de Pérolas 

"Há coisa de meio século e meio, houve em Macau outro 25 de Agosto insuportavelmente quente. As ruas da cidade estavam então bem silenciosas, não só porque havia menos habitantes mas também porque os habitantes se calavam, tolhidos pelo medo.

A Sé Catedral. Cerca de 1910. 
Fotografia do Catálogo da Exposição Reminiscências. Fotografias de Macau Antigo. 2009


Na Sé, em frente do altar-mor, rodeado de flores que já começavam a murchar, jazia em modesta pompa o corpo do governador  Ferreira do Amaral. O caixão estava fechado e devia ser selado nesse mesmo dia. Não houvera exposição: não se podia mostrar aquele corpo sem cabeça, sem braço direito e sem mão esquerda. Nem as conveniências nem os estômagos o permitiam.
A igreja estava deserta, o corpo mutilado repousava solitário dentro do caixão desde que o bispo D. Jerónimo da Mata pronunciara as orações fúnebres com a devoção de quem não sabia muito bem se estava a rezar pelo governador se por si próprio.
Ninguém o sabia, de facto. Desde que Ferreira do Amaral fora trazido assim da Porta do Cerco, Macau esperava o cutelo chinês. Das fortalezas - do Monte, da Guia, de Mong Ha, os soldados tinham visto, nos últimos dois dias, tropas a concentrar-se no outro lado, dentro e em redor do Pak-Shan-Lan. Ninguém duvidava de que o assassínio fora ordenado pelo vice-rei de Cantão. E embora naquela parte do mundo houvesse forças ocidentais - navios ingleses rondavam costumeiramente por onde quer que fosse -; embora os ministros das potências europeias tivessem declarado solidariedade e alguns dos omnipresentes barcos da Rainha Vitória viessem a caminho, não seriam muitos os que acreditavam que os novos impérios da Europa se incomodariam verdadeiramente com a desgraça do velho leão lusitano.
Aliás, precisamente nessa manhã de 25 de Agosto, enquanto os resto do governador entrevam em processo natural de decomposição, os ministros estrangeiros aconselhavam grande prudência ao Conselho que o substituíra.
O Conselho do Governo estava reunido no Palácio, embrenhado numa daquelas discussões inúteis que só são possíveis em circunstâncias serenamente desesperadas, quando o fim ainda não chegou mas está próximo. E os ministros das potências velavam recatadamente o cadáver futuro.
Acontecia isto quando a cidade ouviu os canhões.
No Palácio também os ouviram e o bispo estremeceu. O ajudante-de-campo do Conselho, um jovem alferes de Artilharia, precipitou-se para a rua, montou a cavalo e abalou à procura de notícias. Voltou, não muito mais tarde, com o uniforme desalinhado e o rosto fechado e duro; o seu cavalo resfolegava de cansaço. O oficial desmontou de um salto, entrou a correr para a sala onde o Conselho se encontrava.
- Estão a bombardear a Porta do Cerco! - gritou ele da entrada, sem se preocupar com etiquetas. Os senhores do Conselho falaram todos ao mesmo tempo e o alferes precisou de levantar a voz para se fazer ouvir:
- Temos lá cento e vinte homens e três bocas de fogo que não alcançam o inimigo. Não vão aguentar muito mais tempo.
- Como sabe?! - perguntou o barão de Forth-Rouen, o ministro francês, que na excitação se esqueceu, ele também, do protocolo.
O alferes voltou-se para o grupo dos diplomatas estrangeiros e envolveu-os num olhar frio. Era uma sensação desagradável, ver aqueles olhos rasgados de oriental que lhes lembravam mais a tropa concentrada no Pak-Shan-Lan do que um soldado português: o oficial chamava-se Vicente Nicolau Mesquita, nome cristão, civilizado; mas era macaense, um filho daquele estranho e decadente império luso, que cruzara tanto sangue diferente.
- Sei - respondeu ele - porque venho da Porta do Cerco e aquilo é um inferno. - Dirigiu-se então ao bispo, como seu comandante supremo, visto que presidia ao Conselho: - Não podemos responder ao fogo com a nossa artilharia. Temos de atacar o Passaleão.
De novo, todos falaram ao mesmo tempo, a dizer a mesma coisa. Sabiam que o bombardeamento era o prelúdio da tomada de Macau. Mas no Passaleão (como os portugueses chamavam ao forte de Pak-Shan-Lan) havia, pelos cálculos dos vigias, cerca de quinhentos soldados; nas elevações vizinhas estavam mais de mil e quinhentos, com artilharia, e chegavam constantemente reforços. Era impossível atacar, ninguém o podia fazê-lo.
- Eu posso! - gritou o ajudante-de-campo.

***

... E eu não posso continuar a perder tempo com este assunto.  Não sei sequer se o que escrevi aconteceu assim, a 25 de Agosto de 1849. O que disse exactamente Vicente Nicolau de Mesquita ao bispo D. Jerónimo? O que lhe respondeu o bispo? O que disse o barão de Forth-Rouen? E terá Mesquita olhado friamente os ministros estrangeiros, entre os quais estava, por exemplo, o espanhol Sinibaldo de Mas, que além de um nome impossível deixou excelente reputação em Macau?
Ninguém pode saber. Como ninguém pode saber o que ia na cabeça do ajudante-de-campo quando saiu do Palácio e marchou para a Porta do Cerco à frente de dezasseis voluntários, com um morteiro - para atacar as linhas inimigas e uma fortaleza eriçada de artilharia. Só posso recorrer à imaginação, porque as próprias gravuras não merecem inteira confiança. É com os olhos da imaginação que vejo Mesquita chegar à Porta com os seus dezasseis malucos (mais o morteiro) e entregar ao comandante a ordem do Conselho e preparar-se para avançar sobre os arrozais. Tudo isto debaixo de fogo.
A Macau dessa época desapareceu completamente. Não consigo ver a paisagem dos arrozais. Mas vejo os cento e vinte homens - com os reforços: dezasseis voluntários e um morteiro - alapados no terreno alagadiço; e Mesquita a carregar e a assestar a peça; e o tiro e a explosão que provocou morte e pânico dentro do Passaleão...
O morteiro era francês. Mas, muito portuguesmente, ficou inutilizado com esse primeiro tiro. Vejo Mesquita, furioso com o seu material. E enquanto as balas disparadas do forte passam e assobiam, vejo-o apostrofar o capitão Sampaio, o comandante da guarnição, e invocar a autorização do bispo e gritar aos homens, quem se oferece, vamos atacar.  Debaixo do tiroteio, mais vinte soldados dão um passo em frente.
Ah, sim, foi uma história muito portuguesa: a fraqueza irremediável de Macau, a avaria do morteiro, o avanço de Mesquita com os trinta e seis voluntários. Com o recrudescer do fogo, o capitão, lá atrás, ordenou retirada; Mesquita, ao ouvir o toque, deu ao seu corneteiro a ordem contrária. Uma bala veio partir a corneta em dois bocados e foi ele que gritou à carga, vamos a isto, vamos dar cabo deles.
Tomaram o forte. Um soldado goês chamado António Simão desfraldou a bandeira portuguesa no alto das muralhas. Lançaram fogo aos paióis. E voltaram com a cabeça e o braço de um mandarim morto: o que se pode chamar uma subtil alusão ao que haviam feito os assassinos de Ferreira do Amaral.
E esta é a história que eu queria escrever. Mas não convém. Neste final de século e de ciclo, tanto Ferreira do Amaral como Vicente Nicolau Mesquita estão profundamente esquecidos pela esmagadora maioria dos portugueses. E aqui em Macau, não estão esquecidos mas são profundamente incómodos.
Fim das notas sobre o Passaleão.
E por que é que esta história me fascina?
Porque, com todos os seus defeitos, Vicente Nicolau de Mesquita e João Maria Ferreira do Amaral pertencem àquela raça, hoje extinta, dos portugueses que fizeram e durante séculos mantiveram Portugal como país. Além disso, ambos são heróis trágicos, ambos pagaram o tributo exigido pelos deuses. Um foi assassinado, o outro enlouqueceu. A estátua de Vicente Nicolau de Mesquita foi derrubada e desapareceu nos tumultos da Revolução Cultural; a do governador, tão sólida que resistiu aos esforços dos revolucionários culturais, deve ser desmontada muito em breve.
Há ainda outra razão. Embora ninguém o diga abertamente, sinto que eles hoje são um embaraço para a nossa diplomacia sínica (!). E só isso bastaria. Desde que me estreei no jornalismo, nunca resisti à tentação de tentar embaraçar o Poder." (p. 54-58)
João Aguiar. Os Comedores de Pérolas. Edições Asa, 1993


sábado, 5 de junho de 2010

João Aguiar, Na Cha e a Deusa da Lua

Sândalo e Jasmim
"(...)
A Lua aparecera, redonda e grande. Só para me contrariar, resmunguei no meu íntimo.
- Temos de ver melhor - prosseguiu o Luís Augusto. - Vamos meter-nos no carro e vamos a Coloane, à praia.
- Misericórdia! - murmurei. Não ligou; pegou-me firmemente no braço enquanto se levantava.
(...)
Não foi fácil - como eu previra - encontrar um espaço para estacionar o carro junto da praia de Hac-Sá. Mas conseguimos por fim, para meu secreto pesar. Daí a pouco estávamos na praia, com mais umas largas centenas de pessoas. Perto das árvores, pairava no ar um cheiro a comida que me fez estremecer o estômago, ainda cheio do jantar, por isso avançámos um pouco e sentámos-nos na areia.
Olhámos em silêncio para a Lua, que resplandecia, livre de nuvens, e depois conversámos. Não sei já sobre o quê, porém conversámos longamente e o tempo foi escorregando sem que, no entanto, a minha disposição melhorasse. A coisa, pensei eu, não vai com passeios nem conversas nem, sobretudo, com festas dedicadas à deusa da Lua.
(...)
Agora que a minha atenção se virava para o exterior, pude ver a praia tinha menos gente e que muitos dos que ainda lá estavam se preparavam para partir. Senti, de repente, um grande cansaço e respirei fundo. Ao fazê-lo, reparei que o cheiro a comida, que, embora mitigado, ainda nos atingia, fora substituído por outro, mais agradável. Muito mais agradável, mesmo: um misto indefinível que me fez pensar em sândalo e jasmim.
Curioso, pensei; de onde virá isto?
Não esperava resposta e não a tive. E, logo a seguir, a minha atenção fixou-se novamente, numa cena tão curiosa, pelo menos, quanto o perfume que pairava no ar: uma criança corria, sozinha, na areia molhada, junto ao mar, por vezes mesmo na água, quando alguma onda pequena avançava. Corria a uma velocidade espantosa, como se deslizasse; percorria assim uma centena de metros, depois fazia meia volta e fazia o percurso inverso. O passatempo devia ser divertido, porque eu podia ouvir-lhe o riso. A luz era escassa, apenas a vinha dos candeeiros do parque de estacionamento e das barracas de comes e bebes montadas para a festa da Lua. Não conseguia distinguir-lhe bem os contornos, porém a vós, quando ria, chegava nítida, pura, vibrante de alegria.
Pessimista por natureza, reflecti que não era muito seguro, uma criança tão pequena - não teria mais de três anos - ali à beira-mar, sem vigilância. Onde raio estarão os pais, perguntei-me, que não vêem isto?
De repente, o jogo mudou de forma inesperada: o pequeno vulto afastou-se da beira-mar e, sempre com a mesma velocidade, veio pela areia na minha direcção. Não tardei a distingui-lo melhor e vi então vários pormenores que me surpreenderam.
Era um garoto com cerca de três anos, como eu calculava, vestido de forma estranha (na minha ignorância, julguei que se tratava de uma veste tradicional, própria da festividade): uma espécie de túnica, ou melhor, um avental, vermelho e dourado, que esvoaçava na corrida e deixava ver que não cobria mais nada excepto o seu corpo, ou seja, não usava roupa interior. Mas o que mais me espantou, embora explicasse a forma como se movia, era que vinha sobre uma roda com pedais, um monociclo de um género que eu nunca vira antes. Era extremamente destro com esse brinquedo, nem eu entendia como conseguia equilibrar-se, sem qualquer outro apoio que não fossem os pedais.
(...)
Ele parou então. Num milagre de equilíbrio, manteve-se imóvel sobre os pedais da roda. E disse-me qualquer coisa em chinês - não sei, evidentemente, se em cantonense se em mandarim.
- Tenho pena, filho, mas não entendi uma palavra... respondi-lhe. E era verdade, tinha pena porque teria gostado de conversar com o miúdo.
Mal acabara de falar, ouvi, atrás de mim, uma voz de mulher, uma voz grave, musical, explicar em bom português:
- Ele disse que o senhor é um kwai-lou simpático e que não vale a pena andar tão triste.
Voltei-me. Era uma chinesa, ainda jovem, também ela vestida - deduzi - com trajo adequado à data festiva. O perfume que eu sentira, de sândalo e jasmim, tornara-se mais forte. O seu perfume, com certeza.
Perguntei-lhe se era a mãe do rapaz. Respondeu, a rir, que não, não lhe era nada. Então, comentei:
- Ele acha que sou simpático, é? Nesse caso, por que é que me chama kwai-lou?
Estava a brincar, explicou ela, e acrescentou: - É uma criança muito traquinas, eu conheço-o bem. Mas é muito bom menino.
Disso eu não duvidava, o miúdo irradiava... bem, o miúdo irradiava, muito simplesmente. E era extraordinariamente simpático.
(...)
A criança falou então durante um bom bocado. O seu rosto expressivo tão depressa ficava sério como se abria num riso amplo, cheio de gargalhadas. Sem o compreender, eu sentia um prazer enorme em vê-lo e ouvi-lo e dei-me conta de que estava a rir com ele, o que era idiota, mas não me importei. No fim da tirada, a rapariga virou-se para mim:
- Ele quer que o senhor repare naquela roda. E disse-me assim: umas vezes estamos na parte de cima da roda, depois a roda move-se e passamos para baixo e depois, logo a seguir, para cima. De modo que não vale a pena ficar triste quando nos encontramos no lado de baixo, compreende? Ah, e disse também: a minha roda anda muito depressa, mas o centro está sempre parado, no centro da roda há sempre muita paz. Experimente olhar para o centro da roda e há-de ver que essa é a parte mais importante...
Acho que deixei cair o queixo, de espanto.
- Ele disse isso? Um miúdo com esta idade disse isso?
Oh, ele é muito esperto, replicou a rapariga. E tem razão, sabe? Veja, por exemplo: o senhor ainda não reparou, mas já se sente melhor, não é verdade?
E era incrível, mas tinha razão. Sem motivo, sem sentido, sem explicação, eu sentia-me mais leve, o negrume interior desvanecera-se.
Fiquei sem saber o que dizer. Não teve grande importância, pois a minha intérprete falou ao miúdo em chinês e a seguir virou-se para mim:
- Já é tarde. Ele tem de ir para casa e eu também. Gostei de falar consigo e de ver que a tristeza... chamou-lhe "depressão", não foi? Bom, seja o que for, já passou. Boa noite. A propósito, chamo-me Sèong Ngó.
Abri a boca para retorquir com um "muito prazer" sincero e para dizer o meu nome. Porém, nesse instante preciso, o malandro do garoto soltou um brado, qualquer coisa como um "iupiii!" festivo, e disparou, sobre a sua roda, em direcção à água e, para minha angústia, entrou no mar e continuou avançando. A rapariga abanou a cabeça:
- É mesmo incorrigível! Bom, tenho de ir...
E afastou-se, dizendo bem alto, mas num tom muito sereno:
- Na Cha! Vem cá imediatamente! Na Cha, não ouves?
Sem que eu o pressentisse, o Luís Augusto surgiu ao meu lado.
- Pronto, já falei tudo. Desculpa a interrupção...
Meio atordoado, observei que aquela chamada devia ter custado uma fortuna. Ele abriu muito os olhos:
- Porquê? Falei durante meio minuto, se tanto! - e, atentando melhor em mim: - O que é que tu tens, que estás com um ar esquisito?
Enchi o peito de ar, expirei lentamente.
- Não sei. Estive a falar com um miúdo chinês muito engraçado mas muito estranho. E com uma rapariga linda, chamada Sèong Ngó.
O Luís Augusto semicerrou os olhos.
- Tem piada, não vi ninguém ao pé de ti. E essa rapariga podia ser bonita, mas esteve a gozar-te. Sèong Ngó é o nome da deusa da Lua.
Quando um choque é muito violento pode deixar-nos impassíveis - na aparência. Mantive-me muito quieto, muito sereno. Só a minha voz, quando falei, parecia sair a custo.
- Então, esteve a gozar-me, claro. E um outro nome, Na Cha, conheces?
Ele encolheu os ombros. - Nunca lhe fui apresentado, mas conheço. E tu também: não te lembras de ir comigo visitar aquele templo pequenino, junto à Travessa Sancho Pança?
Foi então que veio a vertigem e caí, redondo como a Lua, na areia da praia de Hac-Sá".
João Aguiar. "Sândalo e Jasmim". Rio das Pérolas. Livros do Oriente, 2000

O escritor João Aguiar (1943-2010), recentemente falecido, deixa-nos belíssimas histórias. Como esta, publicada originalmente, em 2000, nas edições portuguesa e inglesa da revista MacaU. Rio das Pérolas é uma colectânea de contos, que têm Macau por tema e que, para além de "Sândalo e Jasmim", inclui ainda "O Deus dos Pássaros", "Sinal Nove" e "O princípio da compaixão", com ilustrações de Joaquim de Sousa e António Andrade.

sábado, 3 de março de 2007

A tasca de Coloane

Coloane, Largo Eduardo Marques. 2006

«A tasca é uma esplanada semicoberta por arcadas, junto à capelinha de São Francisco de Xavier, em Coloane, que guarda ainda alguns ossos dos santos mártires do Japão. Estranhamente, apesar de tão próxima do templo e das preciosas relíquias, a esplanada não destoa, nem na paisagem visual nem no ambiente espiritual.
Com um fino sentido do comércio, os donos decidiram há muito atrair a clientela portuguesa, de modo que servem a clássica bica e, contrariamente à tradição chinesa, até fornecem guardanapos, se bem que estes sejam rolos de papel higiénico colocados em suportes de plástico».
João Aguiar. O Dragão de Fumo. Livros do Oriente. 1998

domingo, 28 de maio de 2006

Jardim de Lou Lim Ieoc

Jardim de Lou Lim Ieoc. Maio de 2006

«Gosto particularmente do jardim de Lou Lim Ioc por estar situado numa parte velha da cidade e por ser, a meus olhos, um permanente e discreto milagre: afrontado já por prédios enormes que vão substituindo impiedosamente as antigas casas, no meio do tumulto do trânsito, aquele espaço como que absorve o ruído, é um local de paz e beleza».
João Aguiar
. «O Deus dos pássaros». Rio das Pérolas. Livros Oriente. pág. 27

terça-feira, 25 de abril de 2006

No templo de A-Má

Templo de A-Ma (Ma Kok Miu). Macau, Janeiro de 2006


Janeiro de 2006: não vinha aqui há vários anos, desde 1999, e o sítio encontra-se bastante mudado. Fizeram-lhe um aterro, colocaram-lhe um lago - o Sai Van - e o templo de A Má, que antigamente tinha o mar aos pés, encontra-se agora bem recuado. O cais ainda lá está, mas com funções apenas decorativas. Recordo o cais, ainda com juncos ali ancorados, os velhos chineses, os marinheiros e os pescadores, por ali sentados, em conversa uns com os outros, ou apenas descansando...
Entrei no templo onde, em vésperas do ano novo, pintavam-lhe as fachadas. Há muito que não entrava num templo, e as imagens mais vivas que guardo de templos orientais são de templos japoneses, onde se evidência uma decoração simples e quase austera e, sobretudo, uma irrepreensível limpeza. Em Macau (e apesar da cidade estar muito mais limpa), o oposto. O chão sujo de papéis queimados, de flores murchas, de cinzas dos incensos queimados, e de uns potes de louça, cheios de água e onde boiam notas falsas, escorre a água, empapando tudo. E vêm-me à memória uma frase de Wenceslau de Moraes, do Dai-Nippon (1), escrita quando das suas primeiras viagens ao Japão, por volta de 1890: «É sair de uma caverna e entrar num jardim». O contraste é, na verdade, surpreendente, e embora não seja hoje, nem o «inferno amarelo» de Loti, nem a imundice referida por Moraes, é evidente que determinados predicados não se mudam facilmente.
Leio, de João Aguiar, no Rio das Pérolas (2), uma variante da lenda de A-Má, a deusa aqui representada na figura de uma rapariga de «profissão inconfessável» chamada Jasmim, que diz: «De vez em quando, convém renovar os prodígios, se não as pessoas confundem-nos com as lendas».
Há várias versões da lenda de A-Má. Numa das versões - talvez a mais conhecida - uma jovem, conhecida pelo nome de Lin Ma-Tzu ou, ainda, por Ma-Chou, querendo deixar Fuquiem, esforçou-se por embarcar num dos juncos que estavam prontos para abalar. Em todos os juncos lhe era recusada a passagem, pois a jovem não tinha dinheiro para a pagar. Contudo, houve um velho marinheiro que se condoeu e se ofereceu para a transportar no seu velho junco. Durante a viagem, uma forte tempestade rebenta, ameaçando um naufrágio. De facto, todos os barcos se afundaram, excepto o velho junco, que, quando na eminência de também ele naufragar, a jovem Lin Ma-Tzu tomou conta do leme e o levou até a um porto seguro. Ao desembarcar, a jovem subiu a um rochedo e nunca mais foi vista. Os marinheiros convenceram-se, então, que se tratava da deusa Neang-Má. Agradecidos, mandaram construir o templo em sua honra, «o qual se chamou Mak-Kok-Miu (Templo do Promontório de Má), sendo Má abreviatura de Neang-Má» (3).
Neang Má (ou A-Má), também conhecida por Tin-Hau, a Rainha Celestial, deusa dos pescadores e mareantes, cujas origens remontam à dinastia Song, terá nascido entre os anos de 960 a 1127 da nossa era, na província de Fuquiem. Deificada pouco depois da sua morte, ainda jovem, passou a ser conhecida com Tin Hau, a Rainha Celestial.
Esclarece-nos o P. Manuel Teixeira, que todas as ruas, calçadas e travessas situadas na colina da Barra são designadas, em chinês, «por Ma Kok (Promontório de Má), devido ao pagode chinês, que ali existe, consagrado a Neang-Ma (nome abreviado em Amá e ). Daqui derivou o nome de Macau (Amá ou Ma = deusa; Kau, Ngau = ancoradoiro, baía), isto é Baía de Amá: Amagau, Amacao, Macao e modernamente Macau. Note-se que ou de A-ma-ou é pronunciado em mandarin Ngau. O nome chinês mais comum é Ou Mun (Porta da Baía)» (4).


(1) Wenceslau de Moraes. Dai-Nippon. Porto. Livraria Civilização Editora. 1983
(2) João Aguiar. Rio das Pérolas. Macau, Livros Oriente. 2000
(3) e (4) P. Manuel Teixeira. Toponímia de Macau. vol 1. Instituto Cultural de Macau. 1997