A festa do tempo em terras da China. A Lua, que contou os dias e os meses, marca enfim a data, e o ano vai nascer. Toda a gente sai para a rua. Estalam panchões para afastar os demónios e purificar o ar. É o primeiro dia da semana comemorativa da criação do mundo.
Pregões em chinês: "Compre o ramo da sorte! O ramo da felicidade!"
Tendas de achares; barracas de frituras de peixe e de porco; sementes e frutas cristalizadas em açúcar; bolos de coco, de melaço, de feijão, de batata-doce, de gergelim; crisântemos, dálias, flor de pessegueiro.
O velho herbanário, de óculos na ponta do nariz e barba comprida e rala, senta-se na penumbra da loja a ver passar as pessoas e a fumar, pensativo. Não fuma narcóticos, embora os venda em segredo e só para remédio. Alimenta o cachimbo com uma mistura de ervas aromáticas e medicinais. Condena o pakfanismo. Sabe uma história de deuses que se embriagaram de ópio e enlouqueceram. Daí já não haver deuses. O ópio compara-se à celebridade. Os deuses encheram-se de si próprios, do seu poder, abismaram-se na sua glória - pakfanistas em delírio -, descuidaram o governo do mundo e sobreveio o caos. Desataram-se os ventos, a terra tremeu, os rios transbordaram do leito arrasando cidades e campos. Desde então, o homem ficou na confusão do cosmo. E ilude-se venerando as imagens dos deuses antigos, desses que perderam o juízo, que já não são. E fuma ele próprio o pó branco (Pak-fân) imaginando-se no Sétimo Céu.
A religião do herbanário é a Natureza: as plantas, os animais, os elementos. Estender o corpo nu ao sol uma hora por dia dá mais força do que um bom repasto de ade salgado. A água das fontes que brota entre pedras, bebida de noite, quanto mais fria, pode conceder a juventude eterna, talvez - quem sabe? - a imortalidade. Da banha de tigre alguém extraiu um bálsamo para todas as dores - medicamento célebre no mundo inteiro; o seu descobridor tornou-se o homem mais rido do Sul da China. E a flor branca do trigo e os seus poderes analgésicos?
Boticário,curandeiro, tirante a médico, o herbanário recebe doentes e receita. As pessoas procuram-no quando sofrem de insónias (ele aconselha engolir dentes de alho cru), de friagem nos ossos, de sezões. No seu dizer, todas as plantas guardam propriedades benéficas ou maléficas, só que a maior parte dessas propriedades se desconhecem ou não se aproveitam. A papoila, por exemplo é a flor do mal. Mas já o alecrim o bem que não faz a certos estados debilitados ou de convalescença! Antigamente nenhuma mulher de parto prescindia de uma inalação de alecrim e vinho quente. Águila, pucho, abuta, formam juntas uma das mais importantes mezinhas da farmacopeia chinesa. E a água de cozer arroz - o arroz, a planta por excelência da terra da China! - não cura males de estômago e de intestinos, não é boa para lavar o rosto suado depois das febres?
Hoje, porém, véspera de Ano Lunar, com as ruas iluminadas, fogo de artifício, divertimentos e bulício por toda a parte, o herbanário bebe chá de jasmim, sozinho, na soleira da porta, e fuma as suas ervas. Em noite de Ano Bom ninguém adoece. As pessoas passam, a palrar, a rir, a trincar pevides tingidas, e nem nele reparam. Um ou outro ainda lhe lança de longe a saudação da época: Kung Hei Fat Choi (Feliz Ano Novo), à qual não responde. Um escárnio aquelas palavras. Ano Novo? O tempo é sempre o mesmo. Estagnou. Quando havia realmente deuses (deve ter havido porque as suas figuras lá estão no pagode), decerto que cada ano representava uma benção do Céu. Generosos, os governantes divinos dotavam-no de ventura, abundância, vigor. Filho da Lua e do Sol, os homens recebiam-no com bem merecidos festejos. Nova era que se prolongava diante deles, fecunda, cheia de promessas. Presentemente, no entanto, que triste arremedo! No dia seguinte, logo de madrugada (ele toda a noite acordado; o estampido dos panchões não o deixa dormir), lá virá bater-lhe à porta o que comeu e bebeu de mais (geralmente amparado por um amigo), desolhado, aos arrancos, e lá terá de lhe arranjar um vomitório e de lhe suster, com engulho, a testa escaldante. E as raparigas que aparecem a suplicar um impedimento para a gravidez! "Ainda irá a tempo?". Vê-as nos braços dos homens. Quantos? Noite de Ano Bom, farra, dão largas aos instintos, desmandam-se. Agora, todavia, choram, agarradas às mangas da sua cabaia, como se ele não fosse também homem. Sente ganas de as levar para as traseiras da loja e de as derrubar na esteira. Sempre, sempre esse desejo vil lhe sobe do fundo do ser, mas sempre também o reprime. Nem em moço (e bem parecido que era!) deixara de se dominar. Mulheres nunca lhe haviam faltado, mas mulheres que o queriam e o esperavam. Talvez por haver tantas e tão belas mulheres na terra da China é que jamais se casara. Como as plantas, cada mulher possui grandes virtudes ou grandes defeitos, mas só depois de as tomarem por esposas é que os homens as conhecem. E não vale a pena. Antes de casar, são elas as flores e eles os besouros. Amá-las não passa de um gracioso esvoaçar à sua volta, um estonteamento. As plantas, essas, sim, interessam-lhe: estudar-lhes longamente defeitos e virtudes, numa espécie de volúpia.
As raparigas vêm rogar-lhe ajuda, aflitas, e ele dá-lhes ervas de desfazimento que as farão estorcer de dores uma noite inteira, o que nada condiz com os votos de alegria e felicidade que os namorados lhes ofereceram, no dia da festa, em largas faixas de papel vermelho a letras de oiro.
Ah, ele, o mais famoso herbanário de Macau, com prática de largos anos nas maiores cidades da China, o que sabe da miséria dos homens e das suas ilusões! Ilusões ou ignorância?
"Diga-me, isto não é lepra, pois não?" Há quarenta, há cinquenta anos. Dia de festa, também. O homem mais abastado da região. Mesa posta (sopa cheirosa de cobra, aguardente de arroz velha e loira- jade líquido), um ror de convidados... E a chaga a devorar-lhe raivosamente o peito. "Se me curar, dou-lhe uma bolsa de oiro!".
Tinha calcorreado longos caminhos até a casa do doente, e não podia senão receitar-lhe o pó branco, para ao menos lhe abrandar o padecimento. Tão desgraçados os homens que, para não desesperarem, chegavam a valer-se da flor do mal.
Duas semanas atrás fora o Dia do Grande Frio, dia em que os Chineses comem arroz carolino (ló-mai), e desde então a preparação para o Ano Novo.
O herbanário assistira a essa preparação com um sorriso céptico. Vendera mais que nunca, naturalmente. Toda a gente queria chá purgativos, todos compravam mezinhas contra ventos sujos, ervas da fortuna e da inveja, filtros de amor e de sedução. As mães pobres pediam caroços chamuscados de anona para limpar de parasitas a cabeça dos filhos. E havia quem o fizesse devassar prateleiras e gavetas em busca de uma especiaria muito fina (mais picante que o gengibre, mais doce que o anis) para temperar um pudim de Ano Bom destinado ao templo.
A todos atendia o herbanário, mal tendo tempo de mexer os pauzinhos às refeições cozinhadas ali mesmo, na loja, ou de sorver um gole de chá.
O Dia do Grande Frio. Dia da rendição dos deuses? Do seu enlouquecimento? As pessoas não reflectiam nessa designação, ocupadas que andavam com o advento da festividade, e atribuíam-na à descida de temperatura. Ele, porém, que sabia do tempo parado, nulo, meditava na ironia das palavras: Grande Frio - morte. Ano Novo - vida. Como podia a morte gerar vida, o fim vir antes do princípio? Necessário ser herbanário e viver só para perscrutar tais mistérios. Necessário ter gasto a vida a tentar curar carnes ulceradas, olhos baços de cegueira, nervos rasgados de convulsões, pestíferos, tolhidos, tísicos, alucinados, histéricos empecidos. Ter passado noites em claro a preparar tisanas, emplastros, cáusticos e elixires, a manipular unguentos, a pulverizar cristais, resinas, raízes, mucosidades, detritos. (Não havia nos excrementos de certas aves grandes propriedades terapêuticas?). E ter falhado miseravelmente, recorrido a soporíferos, a expedientes, a paliativos. Necessário, acima de tudo, ser, dia a dia, testemunha da ausência da Guarda Divina, o mesmo que dizer: do desamparo das criaturas.
Noite de Ano Novo chinês. Meio oculto no vão da porta, e imperturbável, o herbanário assiste ao espectáculo das ruas: homens e mulheres passando, eufóricos, com o ramo de pessegueiro erguido alto, como meninos pequenos segurando a amarra dos papagaios. Vão ao pagode apresentar oferendas, trocam presentes entre si, compram bolos pesados e enjoativos, comem e bebem, jogam jogos de azar, amam. Nessa noite o herbanário não existe. Morrer fica para o dia seguinte. Morrer ou sofrer - que ainda é pior. O herbanário, pessimista e ateu, não tem nada com aquilo, nada com eles, de momento. Não o vêem nem o querem ver. Que masque as suas folhas e rumine os seus lúgubres pensamentos na sombra da loja. Rebentam com mais estrondo os panchões. O ar fica completamente limpo à meia-noite., hora marcada para o nascimento do ano, quando o relógio da praça deixar cair solenemente as doze badaladas. Kung Hei Fat Choi - Festas Felizes!.
"Acuda-me. Excedi-me. Tenho setenta e mais anos e um martelo no coração!"
"Dormi com um marinheiro que me pegou humores ruins..."
Enquanto avia as mezinhas, em silêncio, o herbanário vai cogitando no Dia do Grande Frio. Celebração da morte do tempo? Aniversário do suicídio dos deuses?
Maria Ondina Braga. A China fica ao lado. Lisboa, Unibolso, Bertand.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Maria Ondina Braga: "O Dia do Grande Frio"
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
A Felicidade chegou!
"(...) E lá continuaram o seu passeio, parando aqui e ali, apreciando as lojas, as tendinhas das flores e dos enfeites para as casas. Séries de balõezinhos chineses, estilo luzes de árvore de Natal, quadros com frases auspiciosas, figuras em cartão irradiando vermelho e dourado, talismãs, cartões de boas festas, pacotes de lai si, almanaques para o novo ano e papéis vermelhos com o carácter de felicidade a dourado. Talvez por este ser o mais visto à porta de todas as casas, e mesmo colado nas janelas interiores, foi o que gerou um diálogo imediato.
- Mas por que é que o carácter de felicidade colado nas portas está sempre de cabeça para baixo?
- Ó Rubi, é para dar sorte!
- E fica tudo explicado, não é? Para o Zé é tudo muito fácil, é para dar sorte e pronto! - apontou o Jotê, esperando uma justificação mais convincente que isso do "dar sorte!" estava muito bem mas, já agora, se fosse possível saber o por quê da cabeça para baixo...
- É muito fácil - disse Lao com a firmeza de quem sabe.
- É fácil porque tu sabes... mas nós não... já ouvi tanta história... umas com um espelho... outras dizendo que estando ao contrário a felicidade não foge... eu sei lá! Mas... verdade, verdadinha, acho que ninguém sabe lá muito bem o por quê...
Lao respondeu à reflexão da Marei e, levantando os dois braços como que pedindo atenção, com ar de sôtor, calmamente explicou:
- Estar virado ao contrário, é estar invertido, não é meus meninos? Ora bem... os verbos inverter e chegar têm, em chinês, a mesma pronúncia, o mesmo som... e assim... tudo se explica não é verdade?
- Cá para mim parece-me que não se explica nada! - foi a vez de Guta entrar na onda.
- Ah não? Então quando chegas a casa de alguém e vês o carácter de felicidade de pernas para o ar, o que dizes?
- Não digo nada, se as pessoas o puseram assim, aliás todos o fazem da mesma maneira, é porque é seu uso, eles lá sabem porque o fazem...
- Bom, está bem. Pois claro, tirando isso, se dissesses alguma coisa, o que dirias?
- Está bem, está bem... pronto... já que queres faço-te a vontade... Pois diria: oh senhor! - e virando-se para a assistência - ou senhora, não é? Olhe que a sua felicidade está invertida! E depois?...
- Ora que espertinho que é o nosso Guta, é isso mesmo, como o som é igual tu disseste: A Felicidade chegou! (...)"
Fernando Sales Lopes. Terra de Lebab. Instituto Português do Oriente, 2008
domingo, 22 de janeiro de 2012
Kung Hei Fat Chói! Lai Si Tau Lói!
"Ainda pela cidade andam no ar as músicas de Natal, e já as melodias tradicionais chinesas anunciam a chegada do Ano Novo Lunar.
Nos arcos festivos, nas fachadas dos prédios e hotéis faz-se a troca de Pais-Natal por deuses de boa sorte, Meninos Jesus por meninos e meninas de garridas cores e luzidias tranças com as mãos sobrepostas em sinal de agradecimento, estrelas por sapecas douradas, velas por carpas, carneirinhos por coelhinhos, palmeiras por frutas das mais variadas, fitas por panchões a fingir. E milhares de coloridas lâmpadas alternando com autênticas cortinas de prata, descendo dos prédios em fios de pequeninas luzinhas.
Mais uma vez chega a festa da renovação, que aqui marca o fim do Inverno e o início da Primavera. Por isso esta festividade também é conhecida como o Festival da Primavera e daí as flores serem tão importantes. Pelas ruas começam a surgir tendinhas vendendo hastes e ramos floridos de pessegueiro, camélias, bolbos de narcisos, crisântemos amarelos, brancos e vermelhos. E também laranjeiras e tangerineiras em miniatura.
O, por vezes ensurdecedor, rebentar constante de panchões que deixam as ruas atapetadas de vermelho - da cor da alegria, da felicidade, da festa. A cor com que se afugentam o espíritos e se vestem as noivas.
É o Kung Hei Fat Chói, para a direita e para a esquerda, numa azáfama de sorrisos, compras, renovações totais, e cara lavada em tudo quanto é casa, estabelecimento ou espaço comum. Nada de velho para o que é novo. Aí vem o novo ano. Há que recebê-lo limpo, renovado, honrando homens e deuses. Não se pode andar devagar - o mês que dura a quadra parece pequeno para tanto que tem de ser feito, preparativos que têm de ser cumpridos à risca (...)".
Fernando Sales Lopes. Terra de Lebab. Instituto Português do Oriente, 2008
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Kung Hei Fat Choi!
KUNG HEI FAT CHOI!*
E o panchão* estoira poderoso
a afastar o mau espírito
de ver este universo imenso em derredor
com o óculo estreito
da longínqua Europa
KUNG HEI FAT CHOI!
O meu ano novo não é o teu ano novo
e o envelope vermelho do lai si*
é para dizer-te que recomeço contigo este caminho
de um novo ciclo da vida a percorrer
Carlos Frota. Dos Rios e suas Margens. Macau, 1998
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Xilogravuras do Ano Novo Lunar (3)
Xilogravuras do Ano Novo Lunar (2)
Reinado do Imperador Qian Long, Dinastia Qing
"Segundo os costumes chineses, quando um homem é possuído por uma raposa ou doninha, perde a consciência. Todavia, se a gravura de um falcão celestial for afixada na parede, próximo de uma janela, o ocupante da casa tem muitas probabilidades de não ser atingido por nenhuma calamidade. A gravura, uma pintura do género, contém cenas das celebrações do Ano Lunar (superior) e de um falcão celestial a guardar a casa (inferior). A gravura ilustra um homem que, possuído por uma doninha, recupera depois de o falcão celestial apanhar a doninha".
in Xilogravuras do Ano Novo Lunar. Instituto Português do Oriente, Macau, 1992
Xilogravuras do Ano Novo Lunar (1)
Gravura para afixar na extremidade mais aquecida da cama de tijolo.
Dinastia Qing
in Xilogravuras do Ano Novo Lunar. Instituto Português do Oriente, Macau, 1992
Saudando o início do novo ano, nesta gravura são utilizados elementos que transmitem mensagens de boa sorte e felicidade. O veado e a garça simbolizam as seis harmonias, bem como as seis orientações: Norte, Sul, Este, Oeste, para cima e para baixo. As seis harmonias significam os três meses do Outono que se encontram em harmonia com os três meses da Primavera. Do mesmo modo, os três meses do Verão também se encontram em harmonia com os três meses do Inverno.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Wenceslau de Moraes: O Ano Novo
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Ano Novo Chinês - Fotografias de José Neves Catela
terça-feira, 30 de março de 2010
Vésperas do Ano Novo Chinês
Venda de "Soi Sin Fá" em vésperas de novo ano lunar.Fotografia de José Neves Catela. Museu de Arte de Macau
Percorrendo o Bazar
«Já retomaram as ruas, as lojas, as moradias chinesas, o aspecto exótico e pomposo das grandes festas.
Vésperas do novo ano! Pelo Bazar vai a azáfama que antecipa os dias solenes - as floristas não têm mãos a medir: flores de papel, de seda, de penas multicolores, de nácar, de filigrana. Os confeiteiros cristalizam os saborosos frutos orientais, flores, legumes, e até as raízes e sementes de algumas plantas como o gengibre e o lotus.
Nas montras prendem os nossos olhos as ricas sedas de variegadas cores e complicados arabescos. Os caracteres chineses indicam grandes reduções de preços e em volta dos balcões aglomeram-se as chinesinhas, delgadas silhuetas, de cabaias estreitas e cabelos luzidios. As suas mãozitas delicadas, de dedos afusilados, procuram, de entre as mais brilhantes, a seda de cor alegre, a mais vistosa, para os próximos dias de festa.
(...)
Vésperas do Ano Novo! Até as jóias diminuíram de preço. Soou a hora obrigatória de pagar as dívidas e quem tem dinheiro empatado precisa vender, embora com prejuízo.
(...)
Que lindo presente de ano novo! Em que cabelos negros irá poisar aquela flor tão branca? E já que falo das flores feitas de pérolas, porque não vos levar comigo pela rua das flores verdadeiras, criadas por Deus sob este sol de oiro que as coloriu e desabrochou? Peónias e peónias rosadas, lindas e perfeitas, alinham-se sobre prateleiras em anfiteatro, de um lado e outro da rua, e é uma só mancha cor de rosa, uniforme, a destacar-se do verde cinabre dos vasos de porcelana chinesa. Mais adiante, as árvores anãs, de troncos grossos e rugosos, de folha verde e copada que não excedem e por vezes não atingem três palmos de altura.
Com os seus bugalhinhos de oiro a luzir por entre a folhagem, dispostas em vasos, as tangerineiras pequeninas dão, mais além, uma nota de cor. Um pomar em miniatura para regalo dos nossos olhos! As dálias, os crisântemos formam massiços vermelhos, amarelos, brancos, cor de carne pálida! E os troncos dos pecegueiros? Símbolo do amor, quem não quererá levar para casa uma dessas hastes elegantes onde botões e flores mal entreabertas são leves toques de luz rosada? Mas o que por toda a rua se encontra, numa exuberância encantadora, é a flor do novo ano: «Soi Sin Fá». Traduzida à letra, quer dizer: Fresca flor da água, porque é dentro dela que os seus bolbos rebentam e florescem. De folhas verdes, lanceoladas, corola branca e transparente, de aroma perturbante, tem afinidades com os aromáticos junquilhos da nossa terra. Florindo só nesta época, a superstição chinesa consagra-lhe um grande culto.
(...)
Vai caindo a tarde, nas moradias chinesas acendem-se as grandes lanternas de papel envernizado que baloiçam ao vento, ladeando a porta de entrada. As frontarias brancas reflectem as suas sombras oscilantes. Mas só as casas particulares conservam ainda nas suas fachadas as tradicionais lanternas. A este povo, que tem um culto instintivo pela flor e pela luz, a electricidade deslumbrou-o. De dia, o sol penetrante que obriga a caminhar de pálpebras descidas. Luz esplenderosa em demasia, para nós ocidentais, mas para o qual, Deus, na sua infinita perfeição, criou os olhos oblíquos.
Oculto o sol, por detrás das altas montanhas, a noite cai rapidamente. O crepúsculo que atinge nestas paisagens uma suprema beleza, não permite êxtases. É belo, mas é rápido. Para afastar a noite e os seus pavores o céu enche-se de estrelas e o bairro chinês de luz. Milhões de lâmpadas eléctricas, apinhadas, formando arabescos, flores, aves, caracteres, iluminando as montras, as varandas, brilham num esplendor de apoteose teatral.
(...)
Brilham ainda numa intensidade e atracção diabólica as casas de jogo. O «Fan-Tan»! Quem, vivendo na China, desconhece o sortilégio dêsses dois monossilabos? Felicidade de alguns, desgraça de tantos! Jogo de uma morosidade que impacienta o ocidental, é aquele que mais interessa este povo que nunca tem pressa, que se extasia e pára ante uma flor, um pássaro, um brinquedo, quanto mais perante um monte de sapecas doiradas que lhe pode trazer a fortuna!
(...)
Estamos em vésperas de novo ano e pelas ruas do Bazar alinham-se as mesas do «Clu-Clu». A garotada rodei-as extasiada ante as cores garridas e os números tentadores, e os seus olhitos cintilantes contam de relance as pintas negras dos dados de marfim, enlevo de gente modesta que tenta fortuna com simples moedas de cobre.
(...)
Vésperas de novo ano! Nos interiores das casas ricas vão-se adornando as mesas de sacrifício, com flores e frutos, as mobílias com vistosas colgaduras; nas casas pobres lavam-se as paredes negras do fumo dos pivetes.
Que ao menos uma vez por ano a água ali entre na sua missão purificadora!
Observado de relance o aspecto alegre e bizarro do bairro chinês, em véspera de ano novo, subamos ao alto da Penha, com a sua igreja, bem portuguesa, donde a nossa vista alcança até muito longe... para além das montanhas azuladas.
Nas águas cinzentas do rio vão-se alinhando as lorchas de velas enroladas e mastros hirtos.
Vão-se arrimando ao longo da avenida marginal do porto interior, esperando a hora de se engalanarem, e são tantas, tantas, que em vão as contaria. Para cima de oitocentas, dizem-me, mas lá ao longe há mais velas que se aproximam...»
Maria Ana Acciaioli Tamagnini
"Vésperas do Ano Novo Chinês", da poetisa Maria Ana Acciaioli Tamagnini, foi publicado no Boletim Geral das Colónias Nº 53, Novembro de 1929 (disponível no Portal das Memórias de África e do Oriente)
domingo, 14 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Tradições do Ano Novo Lunar
Antes do início do novo ano os trabalhos de limpeza são muitos e é, talvez, a única vez do ano de limpeza a fundo. Por todo o lado, em casa, nos restaurantes ou em estabelecimentos comerciais procede-se à limpeza e até a pequenas obras de restauro, pintura de paredes e portas. Os velhos papéis com frases auspiciosas ou imagens de divindades são substituídos por novos, vermelhos e dourados.As limpezas têm de ser feitas antes do novo ano; fazê-las depois pode implicar um eventual desperdício de boa sorte - não vá ela fugir porta fora com uma varredela -, como também não se deve utilizar facas ou tesouras, pois arrisca-se a "cortar" a boa sorte.
Também os altares dos deuses penates e dos antepassados são limpos. E a imagem do Deus do Fogão, Tchou Kuân renovada. Os altares enchem-se de flores e de oferendas.
As flores com que se enfeitam as casas estão carregadas de simbolismo: o narciso, soi sin fá ou "flores do génio da água", o crisântemo e o pessegueiro que prenunciam abundância. E a tangerineira, carregada de frutos, simboliza prosperidade. A tangerina pequena designa-se em cantonense por Kat que soa a boa sorte. E a Kam, a tangerina grande, soa a ouro.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
A Festividade da Primavera ou Ano Novo Lunar


As lojas e tendinhas de artigos de culto, onde se vendem talismãs e imagens de deuses, pivetes, o Tong Seng (o almanaque chinês) e os Lai-Si (envelopes), enchem a cidade de um colorido vivo, sobretudo de vermelhos e de dourados. E Macau engalanado prepara-se para festejar o Ano Novo Lunar, que este ano estará subordinado ao Búfalo. segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
A Festividade do Ano Novo Lunar (III)
(...)
São as tiras de coco, bocados de tomate, sementes de loto, talhadas de gengibre, coquinhos descascados, laranjinhas, pedaços de abóbora, rodelas de raízes de lótus, tudo cristalizado e frituras de variada espécie, primando os tchin tui de Lông Kóng, esferas de massa com recheio adocicado e todo salpicado por fora com gergelim - os tchin tui à moda de Káu Kóng, os u há, fios de inhame torrados - os azeitados t'óng uán e os tão apreciados e indispensáveis tái long kou - espécie de pudim seco e compacto, preparado com farinha de arroz glutinoso. (...)»
Luís Gonzaga Gomes. «A Festividade do Ano Novo», in Macau Factos e Lendas. Instituto Cultural de Macau. 1994
sábado, 9 de fevereiro de 2008
A Festividade do Ano Novo Lunar (II)
«(...) Chegado o dia 24 da última Lua, não há casa nenhuma que não celebre sacrifícios ao Tchou Ká P'ou Sát ou Tchou Kuân (o Senhor do Fogão) cuja imagem, enegrecida pelo fumo, se encontra num nicho escavado na parede, mesmo atrás do fogão. Esta imagem, em cartão, conforme a fantasia e a imaginação do artista, seu autor, é representada por um velhinho, tendo a seu lado uma velhinha, sua companheira, ambos sentados, no seu respectivo trono, ou por um homem de meia idade e barrigudo, tendo ao seu lado um cavalo, ou ainda por um solerte jovem em atitude de agente fiscal, segurando uma tabuinha numa das mãos, na qual aponta com irritante zelo tudo quanto observa em casa de cada um. Aqueles que não puderem despender uns cobres para a compra desta imagem limitar-se-ão a aplicar, na parede, atrás do fogão, uma folha de papel vermelho, onde pincelarão os caracteres correspondentes ao nome e respectivos títulos da divindade em questão, pois, sendo ela o agente de ligação entre os mortais e os celícolas, o espia que tudo vê para ir relatar ao soberano do Céu, quem há que se atreva a deixar de lhe "bater a cabeça", de lhe acender umas velas e de lhe oferecer alguns bolinhos?
Tchou Kuân foi, primeiramente, cultuado pelo imperador Mou Tâi, no ano de 133 a.C. devendo ter sido, primitivamente, o deus do Fogão, o Agni dos brâmanes.
Para cativarem e lisonjearem esta intriguista e coscuvilheira divindade, a fim dela não ir intrigar junto de Iôk Uóng, o Imperador Jade, a respeito da conduta moral e outras mazelas dos membros de cada família, que teve oportunidade de observar, no decorrer do ano, tratam de lhe apresentar deliciosos manjares e saborosos doces com que julgam poder adoçar-lhe os lábios, e muitos, com o fim de o entorpecerem ou de o porem de bom humor, não se esquecerão de lhe oferecer capitosos e inebriantes licores e ópio, certos de que desta forma o tornarão mais tolerante. Dos que não andam com a consciência tranquila, há quem trate de adoçar os beiços desta divindade com mel ou com dois bocados de jagra ou de a embriagar, molhando a sua imagem em vinho.
Entretanto, improvisa-se um pequeno altar no átrio, com o fim de se instalar a sua imagem, berrantemente policromada, que é transportada numa lecticazinha, entre velas, pivetes e incensadores e, depois de o adularem, "batendo-lhe a cabeça", por três vezes e murmuradas umas orações, chega-se-lhe a chama de uma vela, para Tch'ou Kuân poder ascender em fumo ao trono perlífero.
A imagem deste deus da cozinha costuma também ser incinerada com alguns fios de palha e borrifada com água ou chá, a fim de o cavalo que o transportará para junto do trono perlífero não padeça fome nem sofra sede, durante a fatigante viagem, que durará sete dias, tanto para a partida como para o regresso. Durante esses dias da ausência do deus-espião, todos respiram, livremente, vivendo despreocupados, pois grande é a sensação de alívio que experimentam com a sua ausência.
Assim como na partida da divindade, o seu regresso é saudado, nas primeiras horas do Novo Ano, com uma ininterrupta salva de panchões. Nova cópia da sua imagem é entronizada, cerimónia que finda com respeitoso "bater de cabeça" e devoto oferecimento de alguns pivetes acesos (...)»
Luís Gonzaga Gomes. «A Festividade do Ano Novo», in Macau Factos e Lendas. Instituto Cultural de Macau. 1994
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
A Festividade do Ano Novo Lunar (I)
As três divindades da Felicidade, da Prosperidade e da Longevidade. in Xilogravuras do Ano Novo Lunar.
«(...) De todas [as festividades chinesas], a mais prolongada, ruidosas e aparatosa e, portanto, aquela que se festeja com o mais fervoroso entusiasmo é a da Sân Nin (Ano Novo), para a qual valem a pena todos os sacrifícios que se fizeram durante o ano, com o fim de economizar aquilo que irá ser despendido, generosamente, nos três dias de tão grande solenidade, em que, a não ser os indigentes, todos terão de calçar um par de calçados novos, exibir a sua cabaia de luzente seda, ter em casa o imprescindível para a celebração do tríplice culto, bem como os mimos necessários para os permutar com as pessoas das suas relações, como manda a inflexível praxe.
Em chinês, o dia do Ano Novo é, vulgarmente, designado por nin tch'ó iât (o primeiro dia do ano), dia este que se denomina porém, com mais rigorosa propriedade un tán (primeira alvorada), ou un iat (primeiro dia), ou ainda lei tun (princípio de acção), designação esta extraída da frase léi tun u tch'i, de um passo do Tchó Tchun, um dos treze clássicos chineses, e que significa "princípio com rectidão"
(...)
A entrada do astro-rei no Aquário é saudado, na manhã da data do início de láp tch'án (começo da Primavera) com um contínuo estralejar de panchões (estalos da Índia), logo após a cerimónia de aposição, no meio do dintel das principais portas da casa, dum rectângulo de papel auspiciosamente encarnado e salpicado a ouro, o hông mun tch'in (frente da porta vermelha), bem como da colocação na parede, junto da porta principal, doutro rectângulo de papel encarnado, pincelado com os seguintes caracteres t'in kun tch'i fôk (que o Senhor do Céu nos conceda a felicidade), e ainda de mais uma folha também de papel encarnado, no pé da porta da entrada principal da habitação, onde figuram os seguintes caracteres invocativos mun hâu t'ou tei tchip uáng tch'ói sân (que os deuses locais da porta acolham os espíritos indirectos da sorte), cerimónia esta, que é acompanhada de libações e ofertas de pitéus aos espíritos invisíveis e que termina com a colocação de vários pivetes acesos e a queima de vários pacotes de panchões. (...)».
Luís Gonzaga Gomes. «A Festividade do Ano Novo», in Macau Factos e Lendas. Instituto Cultural de Macau. 1994
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Flores do Génio da Água
Conta a lenda que um jovem, A Chun assim se chamava, herda por morte do pai um pequeno terreno pedregoso e lamacento. O irmão mais velho, que procedera às partilhas, destinara para si o arrozal e a casa da família, ficando A Chun com o tal terreno pedregoso, junto a um charco, e uma cabana que partilhava com o búfalo.
Sentado à borda do charco, o jovem A Chun pega na sua flauta, que ele próprio fabricara a partir de um pequeno colmo, e começa a tocar uma melodia tão triste como a tristeza em que se encontrava. Ouve, então, outra melodia, uma música misteriosa que nunca antes escutara. Do charco surge a figura de um velho com uma flauta de madeira de salgueiro numa mão e três bolbos na outra. Sorrindo, mas sem dizer uma única palavra, o velho ofereceu-lhe a flauta e os bolbos e desapareceu antes que o jovem lhe pudesse agradecer.
Sem saber o que fazer com estas estranhas dádivas, A Chun sentiu, contudo, uma imensa paz. À noite sonhou que o velho búfalo se transformava no velho do charco e que lhe dizia: "A Chun, planta os bolbos no charco pedregoso. Depois, percorrerás as aldeias e com a tua flauta mágica tocarás para os aldeões".
Assim fez A Chun. Plantou os bolbos no charco, entre os seixos. Durante meses, flautista ambulante, percorreu vilas e aldeias, sempre com a sua nova flauta da qual saíam melodias maravilhosas. Por fim, já no final do Inverno, nas vésperas do Ano Novo, regressa à sua cabana. Para sua surpresa, depara-se com o charco coberto de flores lindíssimas. Eram tantas que A Chun resolveu ir vendê-las no mercado das flores. As flores, cor de marfim, encantavam qualquer um. Contudo, ninguém conhecia tal flor e quando lhe perguntavam o nome o jovem respondia: "Sôi Sin Fá, Flores do Génio da Água".
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007
Chou Kuan, o deus do fogão
Dizia Wenceslau de Moraes: «os deuses, com quem por assim dizer vivo em contacto, e a cuja sublime protecção, posto que indirectamente, me confio, são muitos, um enxame. É todo o Olimpo budista e o inteiro mito primitivo, amalgamados em crendices (...)». A iconografia religiosa chinesa é bastante variada, são muitos os deuses e os entes divinizados, são os velhos de barbas brancas e de ar bonacheirão, outros de barbas pretas e de aspecto assustador, são as fénixs e os dragões, os leões, os veados ou as tartarugas, são as flores de lótus, os crisântemos ou as tangerinas, enfim, um não acabar de imagens ligadas às crenças populares. Um mundo de crenças assente na presunção de que os deuses são acessíveis, mas também falíveis, e que o seu apoio se obtém através de acções meritórias ou de oferendas materiais – ou seja, se os humanos estão sujeitos à vontade dos deuses, porém, os deuses podem, por sua vez, serem induzidos ou convencidos a alterar os seus apoios. Igualmente presença constante nas crenças chinesas são os espíritos malignos, as almas penadas, sendo, pois, necessário evitar os malefícios desses espíritos errantes; daí a presença de toda a espécie de talismãs, os espelhos, as espadas, os guardiões das portas, as figuras de tigres ou dos caça-diabos. Mas, não basta evitar os malefícios destes espíritos errantes; é também necessário atrair benefícios, rodeando-se de imagens de deuses benfazejos, nas casas, nas lojas, nos bairros, nas ruas...



















