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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Quadros de Macau: Fausto Sampaio e Jaime do Inso (3)

Porto Interior. Macau, 1936

"(...) desdobra-se um curiosíssimo aglomerado de casario, a parte central e mais comercial de Macau, junto do Porto Interior, ao fundo do qual se avista a ilha da Lapa e a imensidão da terra china.
Este retalho garrido da policromia tão característica das terras portuguesas constitui uma verdadeira nota de arte puramente nacional, jóia perdida naquele Oriente onde os grandes centros europeus e cosmopolitas oferecem um conjunto de tonalidades bem diferentes, banais e sombrias, onde falta a alegria das cores de Macau".
Rua 5 de Outubro. Macau, 1936

"A Rua 5 de Outubro é o coração  do bairro china de Macau, onde ressalta, com extraordinário brilho, todo o pitoresco desconcertante da vida chinesa das ruas, alacre de cores, com as suas casas de tabuletas características que são um dos atractivos que nos enfeitiçam nos meandros do Bazar" 
Rua no Bazar. Macau, 1936

"As varandas das janelas, com vasos de flores, que os chineses tanto apreciam, um jerinxá ao sol, tudo mergulhado num dia de esplêndida luz, constitui um singular documentário da vida chinesa onde há muito que observar e aprender.
O quadro da velha Rua do Bazar, como que nos transporta a um outro mundo, o mundo chinês de antanho - é um documentário precioso, pode dizer-se, uma relíquia de Macau". 
 
Avenida Almeida Ribeiro à noite. Macau, 1937

"Finalmente, vamos parar ante um quadro (...) que representa um aspecto nocturno daquilo a que podemos chamar a Baixa de Macau, num canto de luz e de prazer.
É estupenda de interpretação e de verdade chinesa!
Só um artista da sensibilidade de Fausto Sampaio, que soube sorver, aspirar e dar-nos em notas de cor estes cambiantes do mistério da China, poderia apresentar-nos a realidade nocturna deste grande, do maior coulau de Macau.
A nossa necessidade e sensação de prazer da luz, comparadas com iguais fenómenos passados com os chineses, podem representar-se pelo confronto estabelecido entre a claridade duma vela acesa e duma luz de incandescência, e encontra-se bem patente nesta tela pela intensidade luminosa que se concentra naquele bocado de passeio - e só assim se satisfaz aquela verdadeira adoração que os chineses tributam à luz.
Das janelas dos andares emerge luz do interior, por toda a parte há muita luz - pois se até os telhados dos coulaus os chineses chegam a iluminar! - e deste delírio de luz com que eles - os epicuristas - sabem tingir o prazer evolam-se as notas arrastadas, doloridas, das cantigas das pi-pa-t'chai...
Noites da China, noites de Macau..."

Excertos de uma conferência de Jaime do Inso, publicada em livro com o título Quadros de Macau, sobre a pintura de Fausto Sampaio dedicada a Macau. 
Texto retirado de Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo III. ICM, 1996

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Quadros de Macau: Fausto Sampaio e Jaime do Inso (2)

Cais do Porto com chuva. Macau, 1936

"(...) Cais do porto com chuva, onde se vê um interessante tipo de barco fluvial chinês - um flower boat, ou barco de flores - uma novidade que não existia há dez anos no Porto de Macau mas tradicional no Porto de Cantão, onde se encontravam, às dezenas, formando um verdadeiro bairro aquático de prazer, cujo acesso aos europeus nem sempre era livre de escolhos. 
Dentro daqueles barcos  era um cenário de fantasia, daquela fantasia que a gente aqui sonha que seja tudo na China e que tanta desilusão nos acarreta quando lá chegamos; uma fantasia mergulhada num mar de luz - da luz tão querida dos chineses - em sedas brilhantes, em cores garridas, em decorações vermelhas e doiradas, lanternas, música e pi-pa-t'chai galantes que servem aos chineses para dissipar as agruras da vida (...) "


Lorchas e Tancares. Macau, 1937

" (...) São uns barcos típicos (as lorchas), estranhos, que à primeira vista parecem andar para trás, de excelentes qualidades náuticas, onde os mestres chinas realizam prodígios de manobra, e que imprimem uma nota muito típica e de extraordinário interesse artístico à paisagem marítima de Macau.
As lorchas constituem uma indelével nota nostálgica da China, principalmente para quem lá passou a vida no mar."


Excertos de uma conferência de Jaime do Inso, publicada em livro com o título Quadros de Macau, sobre a pintura de Fausto Sampaio dedicada a Macau. 
Texto retirado de Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo III. ICM, 1996

Quadros de Macau: Fausto Sampaio e Jaime do Inso (1)

Entrada do Pagode da Barra. Macau, 1936

Porta da Lua no Pagode da Barra. Macau, 1936

Interior do Pagode da Barra. Macau, 1936

"(...) Sob o ponto de vista artístico, Macau não só é diferente das nossas colónias europeias, pela originalidade única do seu ambiente, como até das restantes colónias europeias na China, onde falta a pátina do tempo, o sugestivo da lenda e da tradição.
Está neste caso o famoso Pagode da Barra, ou Ma-Kok-Miu, aqui representado em três soberbas telas (...) que é como um símbolo, um brasão, um ex-líbris, de Macau.
Ao Pagode da Barra, interessantíssimo espécime de arquitectura chinesa, que se nos apresenta como um polo oposto de crenças e civilizações, em confronto com as majestosas ruínas de S. Paulo, o mais imponente monumento da fé cristã em todo o Oriente, ao Pagode da Barra está ligada a curiosa lenda da deusa A-Ma - uma das encarnações, chamemos-lhe assim, da deusa da Misericórdia, a criação mais humana e doce das crenças chinesas.
É curta a lenda e, por certo, muitos a conhecem. 
(...) 
 O Pagode da Barra foi construído, ao que parece, na época dos Mings - entre os séculos XIV e XVII - em sítio muito pitoresco, e é revestido, tanto interior como exteriormente, de magníficas ornamentações, pinturas representando cenas da vida chinesa e inscrições sínicas, embelezamentos para os quais contribuíram artistas célebres entre os quais se citam: Ho tam Sham, Kuan Lou Hin, Su Lok P'ang, etc.
Os telhados deste pagode, que serviu de inspiração e foi reproduzido na tela por vários artistas europeus, são duma magnificente beleza.
Dele disse o falecido Dr. Silva Mendes, que à China e a Macau dedicou entranhado culto: "É a residência ideal de todo aquele que aspire a viver com a Natureza, com a poesia, com os deuses...".
(...)
Assim se explica porque o Pagode da Barra, ou Ma-Kok-Miu, se encontra representado nesta exposição, em três quadros (...). Ali se observam as duas lorchas gravadas a cores, nas rochas que servem de alicerce, por assim dizer, a uma parte daquela construção, e que simbolizam a lendária interferência da deusa A-Ma na origem do santuário".

Excertos de uma conferência de Jaime do Inso, publicada em livro com o título Quadros de Macau, sobre a pintura de Fausto Sampaio dedicada a Macau. 
Texto retirado de Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo III. ICM, 1996

quarta-feira, 17 de março de 2010

Os piratas no Delta

Existem algumas descrições bastante curiosas dos vapores que faziam a ligação entre Hong Kong e Macau nos anos 20, 30 e mesmo 40, do século passado, das precauções tomadas e da forma como as embarcações eram transformadas para protegerem-se contra os ataques dos piratas. Seleccionámos três: uma de Blasco Ibáñez (anos 20), outra de Jaime do Inso (anos 30) e, por último, Ferreira de Casto (anos 40).

De Vicente Blasco Ibáñez, transcrevemos - da sua obra A Volta ao Mundo (1ª edição de 1924) - parte do relato da sua viagem a Macau:
«(...) O vapor-correio é igual a todos os que navegam no estuário e nos rios próximos; mas, depois do assalto que o meu compatriota presenciou, fizeram-lhe grandes arranjos para defesa. Grades de grossos barrotes, semelhantes às das prisões, dividem-no em várias secções. Um polícia hindustânico, de farda azul, boné branco, carabina e revólver, está de guarda à porta aberta de cada uma dessas divisórias, enquanto se faz o embarque. Quando o vapor começa a navegar, todas as entradas daquelas verdadeiras jaulas se fecham interiormente e as sentinelas ficam por detrás, encostando as carabinas ao cruzamento dos barrotes.
A coberta superior está também cortada por fortes gradeamentos, que impedem a comunicação entre as diversas classes de passageiros e, para evitar que os assaltantes possam passar para o outro lado, deitando o corpo fora da amurada, prolongam-se as grades para fora com semicírculos exteriores de pontas aguçadas como lanças. A ponte onde vai o capitão, está defendida por placas de aço iguais às dos anteparos que protegem os artilheiros nas peças modernas. Deste modo, os tiros dos piratas não podem atingir os que dirigem o barco. Aqueles, porém, que presenciaram o último assalto não mostram grande confiança nestas precauções e pensam que os chineses hão-de inventar qualquer coisa inesperada para vencerem estes obstáculos de defesa (...)».
Em O Caminho do Oriente, Jaime do Inso (1ª edição de 1932), descreve a viagem para Macau a bordo do vapor Sui-Tai:
«(...) Fecharam-se as grades que os separavam do deck superior onde iam os europeus, correram-se as portas com seteiras que defendiam a entrada da ponte do comando, guardada por índios armados, soltaram-se os cabos dos cabeços da ponte do comando e ao bater das oito horas, depois dos apitos do costume, o Sui-Tai deslizou pelas águas límpidas de Hong Kong e enfiou pelo Sulphur Channel, a caminho de Macau.
As precauções das grades isoladoras e das portas fechadas eram tomadas por causa dos piratas.
Este, que desde tempos imemoriais mandam em certas regiões da China como qualquer governo, umas vezes exigem impostos, outras apoderam-se dos navios a navegar.
(...)
Dentro de qualquer destes barcos de carreira poderão viajar, normalmente, dez, vinte, cinquenta europeus ou eurasianos - como dizem os ingleses, isto é, descendentes de europeus e asiáticos - e duzentos, trezentos, quatrocentos chineses dentre os quais, em dado momento, podem surgir uma ou duas dezenas de piratas armados a imporem a sua lei.
Apesar de todas as precauções e da presença dos guardas é raro que eles não levem a melhor pois, quando em luta lhes faltam outros recursos, acabam por lançar fogo ao próprio barco onde vão (...)».
E de Ferreira de Castro, A Volta ao Mundo, obra publicada em 1944:
«(...) De Hong Kong saem para Macau vários navios por dia, numa viagem que exige pouco mais de três horas. As classes destes pequenos barcos apresentam-se separadas, interiormente, por grades de ferro e exteriormente por uma série de espigões em forma de leque, para evitar assaltos de piratas. Tínhamos lido, na Europa, numerosas descrições sobre estas defesas, mas foi necessário virmos aqui para acreditarmos na sua existência, tão inverosímil o caso nos parecia na nossa época. Até há pouco, os piratas tomavam lugar numa das classes, como simples passageiros, e, em momento propício, assaltavam a cabina do comando. Prendiam ou matavam os oficiais e a marinhagem e pilhavam, em seguida, quanto valor o navio conduzia, desde as sacas do correio às bagagens e jóias dos passageiros. Outras vezes, instalados em juncos, disparavam, com um pequeno canhão, sobre o barco, obrigando-o a deter-se, e logo o abordavam para um assalto que não deixava a bordo coisa alguma que fosse transportável. Ora essa pirataria não acabou ainda: exerce-se, de vez em quando, em façanhas iguais às de outrora, de juncos contra juncos ou contra lanchas e demais pequenas embarcações. Mas nestes navios de Macau, armados e alguns até blindados, ela só será possível por avaria das hélices ou outro acidente casual, pois a bordo está tudo vigilante e os chineses duma classe têm de olhar para as outras como um preso para a liberdade - através de grades... (...)».

terça-feira, 16 de março de 2010

Travessa do Auto Novo

Travessa do Auto Novo. Macau, Março de 2010

Travessa do Auto Novo: começa em frente à Travessa do Matadouro, entre a Rua da Caldeira e a Rua da Felicidade e termina na Travessa das Virtudes. Quanto à sua designação, lemos na Toponímia de Macau que «foi-lhe dado este nome por se representarem ali os autos chinas.» E mais, «em chinês chama-se Ch'eng P'eng Hong, ou Ch'eng Sán Kai ou Ch'eng P'eng Chek Kai; tem este nome por lá existir o Cineteatro Ch'eng P'eng, que é o prédio nº 23 dessa Travessa, construído um pouco antes de 1907»(1).

A propósito do Auto China, escreveu Jaime do Inso:
«Uma das curiosidades deste teatro está em que, ao contrário do que entre nós sucede - sempre a contradição - não se procura dar às fachadas das casas de espectáculo qualquer aspecto sumptuoso ou de embelezamento, porque, dizem eles, tudo quanto haja de gastar-se com o teatro, preferível que seja em benefício da arte, puramente teatral, do que na arquitectura exterior. O contrário seria puro esbanjamento.
Por isso, em vão se buscaria, no Bazar, o atractivo externo que nos oferecem os nossos teatros. Não, o Auto China - nome por que ficou conhecido o teatro chinês em Macau, como resto da nossa língua de antanho - fica escondido numa travessa e é revestido por um muro de tijolo cinzento, anónimo, fazendo lembrar a entrada duma estalagem»(2).

(1) P. Manuel Teixeira. Toponímia de Macau, Volume 1, ICM, 1997, p.493
(2) Jaime do Inso. Cenas da Vida de Macau. 2ª edição. ICM, 1997, p. 45

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A penteadeira

Fotografia de José Neves Catela, do Museu de Arte de Macau - "Memórias Reveladas"

«(...)
O cabelo negro, longo e corredio, foi penteado e preso por um comprido pente de madeira onde ficou enroladao.
Em seguida e com uma escova, a penteadeira estendeu no cabelo uma espécie de líquido pegajoso ou goma - Pau-Kan, que é um veneno forte, extraído da casca de certa árvore, posto de infusão em água fria.
Depois daquela operação, o pente foi substituído por um travessão de ferro e o cabelo, que estava cuidadosamente repuxado e muitoliso, ficou amarrado por baixo com um fio vermelho.
(...)
Duas fitas atadas por debaixo do queixo e passando uma por cima da cabeça, a outra pela nuca, conservavam o penteado na posição devida e o resto da trança, solta, ia sendo cuidadosamente engomada e presa em voltas sucessivas sobre um grande gancho e depois em torno de quatro agulhas que, mudando de posição sobre o caracol, permitiam que este fosse avolumando compacto e apertado, sendo o cabelo continuamente penteado e engomado para este fim.
Assim se ia formando, metodicamente, o Tou-T'chi-Kai - que é o nome que tem este penteado especial, para festas.
A penteadeira ia torcendo a trança com perícia até que chegou ao fim, restando apenas esconder nas voltas do penteado as últimas pontas dos cabelos.
Tirou as agulhas que não eram já precisas e, com um pente e a escova gomosa, deu ao penteado a aparência de uma casca de coco, mas negra, perfeitamente lisa e lustrosa, como ébano polido.
(...)»
Jaime do Inso. O Caminho do Oriente. Instituto Cultural de Macau, 1996, 2ª edição.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

«É o pagode de Na T'cha Miu»

Templo de Na Tcha na Calçada das Verdades. Macau, 2009

«Naquele isolamento de bairro popular e onde enxameiam garotos seminus numa liberdade feliz pelas calçadas, íngremes do Monte, naquele recanto escondido e talvez desconhecido de tantos europeus que passaram por Macau, fica um dos mais interessantes pagodes desta cidade, não pela riqueza, que a não possui, mas pelo aspecto, pelo típico cenário em volta e, sem dúvida, pela história e tradição que desconheço, mas que há-de ter.
É o pagode de Na T'cha Miu.
(...)
Chega uma mulher, uma chinesa de calças e cabaia de seda negra - como os chineses costumam usar na época do calor - e espeta dois pequenos pivetes acesos em frente do tosco altaraberto numa parede e ao nível da rua superior.
Para baixo desciam uns degraus de longos blocos de granito que formavam o piso do pequeno santuário.
Rodolfo quedou-se examinando aquele ambiente extraordinário de um templo em plena rua e foi seguindo atentamente as preces da chinesa.
Outro altar, formado por uma singela mesa de madeira com ornamentos vermelhos, estava junto do primeiro e em cima dele ardiam também pivetes, em honra de desconhecidas divindades.
Entre ambos, uma espécie de forno ou fornalha enegrecida pelo fumo servia de crematório aos múltiplos papéis que, com intenções várias, os chineses destinam a implorar favores aos espíritos do Além.
Duas tabuletas verticais, vermelhas e misteriosas, com franjas que oscilam ao vento, pendiam das colunas que sustentavam, cobrindo a estreita rua, o telhado do exótico tabernáculo.
(...)
Havia um cheiro doce e enjoativo no ambiente - do fumo dos pivetes queimados - e as lanternas suspensas do tecto, bem como as oferendas, tabuletas de madeira ou de seda que pendiam das paredes, vermelhas e cheias de caracteres negros ou dourados, tudo tinha o mesmo tom enegrecido pelos muitos pivetes e orações evoladas sobre a forma de papéis ardidos.»
Jaime do Inso. O Caminho do Oriente. Instituto Cultural de Macau, 1996, 2ª edição.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

«Na Penumbra dos Pagodes»

No Kum Iam Tong

«(...)
Entramos num pagode. Lá dentro a iluminação é escassa, num contraste com o exterior. Sobem volutas de fumo de sândalo, dos pivetes que ardem em frente do altar. As esteiras redondas, ali postas no chão, nunca estão vazias de devotos que batem cabeça ante a estátua de Buda e de outras estranhas divindades, espécie de anjos ou guardas dos santuários.
(...)
No grande perfumador que se eleva logo à porta de entrada, vão-se enterrando os pivetes, sem cessar, levados pelos fiéis, tal como a fé cristã oferece velas ante os altares, cujo fumo, com o decorrer do tempo, já manchou de negro as paredes e o tecto do templo, donde saímos atormentados com o eterno problema da Verdade...
(...)»
Jaime do Inso. Cenas da Vida de Macau. Instituto Cultural de Macau, 1997

quarta-feira, 12 de março de 2008

Pagodes

Templo do Patane. Macau (Maio de 2007)

Denominaram-nos por largo do Pagode - do Bazar, da Barra, do Patane -, embora em Macau não existam pagodes. Muitos autores, nomeadamente Jaime do Inso, que chama a atenção para este facto, persistem em chamar pagodes a estes templos.
Gonzaga Gomes explica a origem da palavra e as razões pela qual não existem pagodes em Macau:
«A palavra “pagode”, que deriva do indostânico pokoda ou bootkoda, ou do persa butkuda que, por sua vez, se enraíza no sânscrito chagavati, significa “casa dos ídolos”, “abóboda divina” ou “mansão sacra”.
Os pagodes são edifícios geralmente de sete a nove andares – há com menos – mas sempre em número ímpar, porque os números ímpares são propícios para os chineses, e em forma de obelisco hexagonal ou octogonal, sendo a sua construção exigida pelo Fong Sôi (geomância).
Existem duas variedades de pagode: fát'áp, pagode florido, e mân t'áp ou pât'áp, pagode literário ou pincelar.
Macau, cidade santa, tanto para europeus como para os chineses, excepcionalmente privilegiada de calamidades e prospérrima desde o início da sua fundação, jamais necessitou de recorrer à erecção de pagodes, para barrar a influência aziaga dos quatro ventos» (in Macau Factos e Lendas).
Ainda sobre pagodes, escreve Jaime do Inso no seu livro China: «Aquelas torres – fa-tap, ou jarras de flores – não são templos nem distintivos de templos, mas servem, apenas, não sabemos por que misteriosas influências ou conjurações, para afastar os fong-soi, ou inimigos das alturas e atrair os bons ventos, os bons influxos aéreos – quem sabe se os bons espíritos, também – assunto este que ainda não nos foi dado profundar».
As torres de pagode têm por função atrair bons vento e, sobre este aspecto, Macau possui uma situação privilegiada e nunca precisou de pagodes para se proteger de influências nefastas. Questões de geomância, como frisa Gonzaga Gomes. Daí, não existirem pagodes em Macau, mas, em compensação não lhe faltam templos.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Macau di Tempo Antigo: no Bazar

Uma rua de Macau. Illustração Portugueza de 28 de Dezembro de 1908

«Tudo é alegria no Bazar, uma alegria que nos mergulha na calma tranquilidade chinesa, que nos invadem e conquista, insensivelmente, como um filtro que se absorvesse ao respirar.
A policromia das lojas; o vaivém constante duma população activa mas que desconhece precipitações; vasos de flores; os leitões assados e os patos salgados pendurados às portas, como uma tentação à voracidade dos chineses, para quem a comida é um dos maiores prazeres; as lâmpadas que começam a acender-se, como que soltando um hino à luz que os chineses adoram com verdadeira devoção pagã; a fugidias Pi-pa-t'chai que passam a caminho dos Cou-laus; todos aqueles sons do ambiente e da vida do Bazar, na atmosfera festiva do Ano Novo, vão-nos narcotizando, à mistura com o cheiro, enjoativo e doce, do ópio que anda pelo ar». Jaime do Inso, Cenas da Vida de Macau.

terça-feira, 25 de abril de 2006

Rua da Felicidade

Rua da Felicidade. Macau. Janeiro de 2006

Há, em Macau, uma rua da Felicidade - e, ainda, uma travessa, um beco e um pátio com o mesmo nome -, que, noutros tempos, era a rua dos bordéis. O seu nome em chinês é Fok Long San Kai, ou seja, a Rua Nova da Felicidade Abundante.
Recordo-me da rua, no início dos anos 80, cheia de restaurantes, com as gaiolas, à porta, com serpentes, pangolins e outros animais. Hoje, o seu comércio limita-se a algumas pastelarias chinesas, uma «loja de canjas doce» (como será esta canja doce?), uns restaurantes e bares, e pouco mais.

Mas, entremos nela, com o Wenceslau de Moraes, no ano de 1890:
«Comprida, soffrivelmente estreita, pouco farta de sol. Um renque de casitas iguais de cada lado, baixas, de pobre apparencia, feitas de tijolo negro. Aqui, ali, algumas lojas chinesas, com especialidades colaos, que são os restaurantes desta gente. Fumegam nas caçarolas manjares desconhecidos, que os cozinheiros, sórdidos e quase nús, vão adubando com temperos. Uns migam verduras, outros depenam aves, outros amassam bolos; e no amplo vestibulo expõem-se, n’uma prodigiosa promiscuidade, patos assados e cosidos, patos seccos, porcos, peixes, legumes, hortaliças, mariscos, rans, por vezes ratos, tresandando tudo a bodum. (...) Mas é a população feminina, bem mais do que os janotas, do que os cegos, do que os vendilhões de flores, que formiga na Rua da Felicidade. (...) Vestem cabaias vistosas, usam braceletes e anneis, manilhas de prata nos tornozelos como as escravas. Umas passeiam dando-se as mãos, rindo e conversando, arrastando ruidosamente as grossas alparcas suspensas dos pés nús. Outras penteiam-se, acarminam as faces, mirando-se em espelhinhos reles. Fumam em cachimbos de estanho. Tomam chá. Jogam, acocoradas, as cartas. Dormem sobre esteiras (...)»(1).

Em 1924, o escritor Vicente Blasco Ibáñez (1867-1928), em Vuelta al Mundo de um novelista, descrevia esta Rua da Felicidade como «semelhante às que existem em todos os portos de mar, mas aqui oferece o interesse de serem unicamente chineses os que a frequentam». E, acrescenta: «Compõe-se de casas estreitas, cujo piso baixo é ocupado inteiramente pela porta. Através da sua abertura vê-se uma espécie de vestíbulo com o renque da escada que conduz às habitações superiores, e alguns assentos chineses, ocupados pelas donas e suas amigas. São mulheres de cabeça volumosa, membros delgados e tronco grosso, um nariz tão achatado que apenas se torna visível quando mostram de perfil o seu largo rosto, amarelo com cera. Estas fêmeas maduras, retiradas das pelejas sexuais, fumam grossos cigarros enquanto conversam lentamente. Outras penteiam-se entre elas à luz de uma lâmpada colocada diante dos seus ídolos predilectos. As pensionistas das ditas casas jogam no meio da rua como um colégio em férias (...)»
(2).

Por volta de 1941, é com Jaime do Inso (1880 - 1967), em Cenas da Vida de Macau, que percorremos a rua:
«Rua da Felicidade – que fantasia, que irrisão! Fantasia que chega ao ponto de, quando da inauguração da Rua de Macau, na Exposição do Mundo Português, de 1940, a nossa imprensa ter anunciado, como coisa certa e indubitável, que aquela rua reproduzia um trecho da Rua da Felicidade, com os seus clubes (sic) de fan-tan, prédios de vários andares, pagodes, casas de chá e não sabemos que mais fantasias do bom repórter que, por certo, ficará muito admirado se um dia chegar a saber que naquela rua, de estilo tártaro, não há prédios de mais de um andar, clubes nem fan-tan, pagodes ou casas de chá, e que só há a felicidade da desventura de certas pi-pa-t’chai – chamemos-lhe assim – que, por um eufemismo, muito do gosto dos chinas, deram fama à rua, emprestando-lhe este nome tão querido dos chineses e cujo carácter ideográfico se vê espalhado por toda a parte – Fecilidade!»
(3).

A Rua da Felicidade fazia parte do chamado Bazar, a cidade chinesa, com a sua confusão de ruas, vielas, becos e pátios, povoada de gente ruidosa. Um contraste com a cidade portuguesa, a cidade cristã, que ficava pelos bairros do Lilau, de São Lourenço, de Santo Agostinho e Santo António: «na parte alta, era o sossego do burgo português, das rótulas, das igrejas e travessas, do ambiente provinciano, duma grandeza decaída com a perda do antigo comércio e navegação», escreve Jaime do Inso . Em baixo, no Bazar, «o formigar estonteante da vida chinesa, com o colorido inimitável dos seus caracteres ao vento, as suas lojas escancaradas, como montras, com tudo à venda, as cozinhas pelas ruas a abarrotar de arroz, sopa de fitas, peixe, molhos esquisitos para o nosso paladar, carne em bocadinhos, hortaliças, etc., tudo como em picados para bonecos, que se comem levados à boca com dois fai-t'chi - era a música dos cou-laus e o cantar dolente das pi-pa-t'chai»
(4).


(1) Wenceslau de Moraes. «Na Rua». Traços do Extremo Oriente. Lisboa. Livraria Barateira. 2ª ed. 1946.
(2) citado por P. Manuel Teixeira. Topononímia de Macau. Vol. 1. Instituto Cultural de Macau, 1997.
(3) e (4) Jaime do Inso. Cenas da Vida de Macau. Instituto Cultural de Macau. 1997.