quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Ano Novo Chinês - Fotografias de José Neves Catela

Mercado de Flores no Ano Novo Lunar
Bancas de venda de produtos para o Ano Novo Lunar

Fotografias de José Neves Catela (anos 30-40 do século XX) do catálogo da exposição Macau. Memórias Relevadas, Museu de Arte de Macau, 2001

José Neves Catela nasceu em Alpiarça, Ribatejo, em 1902 e faleceu no Hospital de S. Rafael, em Macau, apenas com 49 anos, em 1951.
Chegou a Macau em 1925, como oficial da Marinha Mercante Portuguesa, para comandar uma embarcação que efectuava a ligação entre Macau e Saigão. Com a mudança de bandeira dessa embarcação, Catela ingressa nas Obras Públicas, nos serviços de Obras do Porto e Propaganda.
Foi fundador do Círculo Cultural de Macau, onde chefiou a secção de fotografia. Desenvolveu uma intensa actividade ligada à fotografia, não apenas no Círculo Cultural, mas como repórter fotográfico, colaborando com diversos jornais e revistas inglesas e americanas.
"Catela fotografou a cidade de Macau nas suas múltiplas dimensões: o património, as gentes e os costumes, conservando assim em imagens de prata as características da cidade que habitou e amou" (Margarida Saraiva, no catálogo da exposição).
A "Foto Arte Capela" ficava situada na Rua do Conselheiro Ferreira de Almeida, no nº 89-A.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

"Bombero di Macau"

 Doca de Lamau, 1970.
Fotografia de Ou Ping do catálogo da exposição 
Uma Viagem no Tempo - Fotografias de Macau por Ou Ping, 2005


Bombero di Macau
Téng-téng! Téng-téng!
Caréta vemêlo,
Tôsco, cumprido, vêlo,
Inchido di nhu-nhum bombero,
Ta corê dizenfreado,
Ramendá elefánti assanhado,
Pa vánda di Tarafero

Téng-téng! Téng-téng!
Caréta dizengonçado,
Arto, largo, pesado,
Nom-têm fim di corê.
Nhu-nhum rópa-ganga azulado,
Ramendá chonto di sodado,
Ta vai guéra combatê.

Téng-téng! Téng-téng!
Quim sentado, quim empê,
Ninguim susto morê.
Fio na mám, gonchông, gonchông,
Sinéta cantá téng-téng,
Gente na rua corê vai-vêm,
Fuzí di caréta volontrôm.

Capacete cubrí cabéça,
Quinzéna botoado péssa-péssa,
Bota arto, grôsso na pê,
Machado marado na cintura,
Nhu-nhum inchido di bravura,
Sabe cuza ta vai fazê.

Comandánte Sium Capitám
Gaudêncio Conceição(*),
Inculido na charéta
Di su motoçáica ligéro,
Tá vai diánte di bombero,
Sai mám badalá sinéta.

Quelora ilôtro chegá,
Olá fogozarám ta quimá
Casa arto qui arto,
Co porta, chám di sobrado,
Janela na diánte, na lado
Co unga porçám di quarto-quarto.

Gente encafulado na casa, 
Mêdo morê assado na braza. 
Jóvi-jóvi botá fuzí, 
Vê-lo-vêlo cai sentado; 
Quiança-quiança na chám pinchado,   
Tudo gritá "cudí!"  
(...)

Sã assi nôsso bombero,
Roda di áno intéro.   
Sol, chuva, tufám, 
Anôte, dia-dia, madrugada, 
Bombero, nôsso ánjo-guarda, 
Pronto pra fazê salvaçám.

Um-cento áno di vida, 
Ocupado cudí gente-sua vida. 
Sodado di paz, sacrificado, 
Um-cento vez isquecido; 
Herói disconhecido, 
Gente di nómi apagado.
(...)
José dos Santos Ferreira (Adé). Macau Sã Assi. Fundação Macau, 1996


(*) Gaudêncio da Conceição foi Comandante da Corporação dos Bombeiros de 1921 a 1935.  Foi também Comandante do Corpo de Polícia de Segurança Pública de Macau (1924-25, 1926 e 1930-31).

sábado, 29 de janeiro de 2011

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Os primitivos Bombeiros de Macau

(1) Pá de vime e balde de areia 
(2) Chapéu de bombeiro, em bambu, do século XIX 
(3) Bomba manual de fabrico chinês pertencente à população da vila de Coloane, que se encontrava colocada no templo de Tin Hau (em Coloane) e cedida à corporação pela Associação de Beneficência "Quatro Pagodes".



Os Primitivos Bombeiros de Macau 
"Há umas poucas dezenas de anos, esta cidade ainda não possuía um serviço de incêndios mantido pelo Estado e, por esse motivo, os predecessores dos actuais bombeiros não faziam parte duma organização centralizada.
(...)
Nessa época, cada rua tinha de concorrer para a manutenção dum grupo de bombeiros, que aguardavam em suas casas uns metrozinhos de mangueira, uma agulheta e uma bomba de incêndio, que consistia em uma caixa que se deslocava sobre duas rodas, tendo, num dos lados, um rudimentar maquinismo que servia para comprimir a água.
Quando fosse preciso fazer trabalhar esse precioso engenho ia-se buscar água, aos baldes, nos poços ou no mar e, uma vez lançado para dentro da caixa-reservatório, o líquido extintor era comprimido pelo maquinismo, que era, por sua vez, accionado à força dos músculos de vigorosos mocetões.
(...)
Nesse tempo, existia uma combinação táctica entre os bombeiros e a população da cidade. E assim, logo que fosse dado o rebate, saíam todos os bombeiros dos seus alojamentos e o grupo que chegasse primeiro, através do dédalo das ruelas da velha cidade, recebia, como recompensa dos seus esforços, um magnífico leitão assado e dois almudes da melhor aguardente chinesa, custeados entre os moradores da rua vitimada pelo sinistro.
Ora, o grupo mais afamado era o da fábrica de tabaco Tchu Tch'éong Kei, que mantinha um grupo  privativo com o seu respectivo equipamento, o mais completo possível, pois necessitava de se prevenir contra qualquer incêndio dentro da fábrica, cujo negócio era enorme.
(...)
Assim que fosse dado o sinal de alarme, quer de noite ou de dia, esses valorosos mocetões saltavam imediatamente das suas camas e, num abrir e fechar de olhos, fazendo repercutir com estrépito nas pedras das vielas os seus sapatorros, chegavam ao local do desastre, no meio dum ensurdecedor estrupido de rodados e de brutais imprecações, pondo toda a rua alvoraçada numa convulsão de actividade e, em alguns minutos, dominavam, com presteza sem igual, qualquer abrasamento por mais violento que fosse.
Por esse motivo, quando acontecia uma calamidade desta natureza, os ânimos pusilânimes dos moradores da rua, onde se manifestava o sinistro, só se asserenavam com a chegada do grupo da fábrica Tchu Tch'éong Kei. Então, alijados do receio de o fogo se alastrar, devastando as suas casas, exclamavam jubilosos: - "Já não há receio! Já chegou o grupo de Tchu Tch'éong Kei!".
E assim, não consta que nesse tempo algum outro grupo tivesse conseguido conquistar mais porcos assados e almudes de aguardente chinesa do que esse famigerado punhado de bravos, cujos componentes caprichavam em se excederem uns aos outros, em denodadas dedicações e nobres lances.
(...)".
Luís Gonzaga Gomes. "Os Primitivos Bombeiros de Macau". Macau, Factos e Lendas. Instituto Cultural de Macau, 1994

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Chunambeiro

O antigo passeio marginal na área do Chunambeiro. Macau, 2011

Chunambeiro

Área do Chunambeiro. Macau, década de 1890.
Colecção Fotografias Antigas de Macau, Edição do Museu de Macau e Instituto Cultural de Macau, 2009

Chunambeiro: área onde se situou a fundição de canhões de Manuel Tavares Bocarro. 

"(...) a fundição de artilharia portuguesa parece ter-se iniciado em 1623, com a chegada à povoação luso-chinesa de D. Francisco de Mascarenhas, primeiro governador nomeado pela Coroa portuguesa para aquelas partes, pois em Outubro desse ano era celebrado um contracto com fundidores chineses para o fabrico de artilharia  de ferro. Manuel Bocarro terá chegado a Macau nesta conjuntura, em 1625, com o propósito explícito de re-organizar a fundição local de de canhões, situada no chamado Chunambeiro, que até então fora dirigida por fundidores espanhóis oriundos de Manila. (...) Bocarro começou desde logo a fabricar grandes canhões de bronze, que rapidamente se impuseram pela sua elevada qualidade técnica e pela sua temível eficácia. Algumas dessas peças ainda hoje se conservam, nomeadamente em museus portugueses e britânicos, ostentando as armas de Portugal e a inscrição "Manuel Tavares Bocarro a fez" (...)".
Rui Manuel Loureiro. "Bocarro, Manuel Tavares (1588-?)", in Ditema. Dicionário Temático de Macau.Vol 1, Universidade de Macau, 2010

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Boa Vista

 Rua da Boa Vista
 Rua do Comendador Kou Hó Neng, 
outrora designada Rua do Tanque do Mainato
Calçada do Bom Parto

A Rua da Boa Vista, que começa no entroncamento da Rua da Penha, Travessa do Colégio e Calçada da Penha, termina ao cimo da Calçada do Bom Parto, junto ao edifício do antigo Hotel Boa Vista / Bela Vista, actual residência do cônsul de Portugal. Este edifício situa-se na actual Rua do Comendador Kou Hó Neng, que, durante séculos, era conhecida por Rua do Tanque do Mainato, pois havia aí um tanque onde os mainatos lavavam a roupa. Aliás, o bairro de Santa Sancha designava-se, outrora, por Tanque do Mainato.

Tanto a Rua da Boa Vista como a Calçada das Chácaras - que começa na Rua do Comendador Kou Hó Neng, junto à Estrada de Santa Sancha - são conhecidas, em chinês, respectivamente, por Rua Principal dos Bambus - Chak Sat Cheng Kai - e Rampa dos Pequenos Bambus - Chak Sai Ch'e Hong. 


Fonte: P. Manuel Teixeira. Toponímia de Macau, Vol.1, ICM, 1997

domingo, 16 de janeiro de 2011

Aeroporto de Macau

"Aeroporto Internacional de Macau". Fotografia de Jean Doat.
Edição do Museu Marítimo de Macau, 1997


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Fotografias de Macau por Ou Ping

Monte da Guia. Década de 1960
 Construção da Ponte Nobre de Carvalho. 1973
Lançando a rede. Taipa (junto ao pequeno templo de Kun Iam), 1971
Pesca. Pontão nº 1 no Porto Exterior. Década de 1970

Fotografias da exposição "Uma Viagem no Tempo - Fotografias de Macau por Ou Ping", 2005. 
Catálogo editado pelo Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais e pelo Museu de Arte de Macau, Julho de 2005.

Ou Ping foi, durante mais de 40 anos, jornalista e director do Departamento de Assuntos Financeiros do jornal chinês Diário de Macau (Macao Daily News) - 澳門日報. 
Vice-presidente da direcção da Associação Fotográfica de Macau e membro honorário da Hong Kong International Vision Association, Ou Ping iniciou a sua actividade e estudo da fotografia no início da década de 1960, cujo trabalho foi expondo ao longo dos anos em diversas exposições, quer em Macau, quer no exterior.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Praça Ferreira do Amaral e Hotel Lisboa

Praça Ferreira do Amaral e Hotel Lisboa. Janeiro de 2009

Hotel Lisboa: "Possuía, isso sim, a forma de uma gaiola"

"(...)
O Hotel Lisboa, dir-nos-ia, o que, aliás, seria, posteriormente, corrigido pelo Dr. Miguel Venâncio, fora, de acordo com as determinações rigorosamente respeitadas da geomancia (em chinês, fong-sôi), construído à imagem de um dragão, símbolo da força, da supremacia, da virilidade masculina.
Se, conforme o director da Editora, o hotel, seguindo a orientação fornecida por um daqueles especialistas, geralmente provectos cidadãos disfrutando de elevado prestígio e consultando as entranhas da terra através de complicada aparelhagem, possuía, isso sim, a forma de uma gaiola onde os jogadores ficariam provisoriamente retidos, mas com várias possibilidades de evasão, metaforicamente concedidas por determinadas estruturas ornamentais não completamente intransponíveis, poderia, outrossim, como revelariam várias fotos de Maria Virgínia, adquirir a forma de resplandecente fortaleza ou de um desses bolos rodeados de palitos La Reine (...)".
António Rebordão Navarro. As Portas do Cerco. Livros do Oriente, Macau, 1992

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Casino e Hotel Lisboa

Hotel e Casino Lisboa. 
Fotografia de Franck Regourd.
Bilhete Postal da Colecção "a magia do lilau". 
Edição de Franck Regourd, Novembro de 1999

domingo, 9 de janeiro de 2011

"O jogo tem também os seus templos"

Legenda: O Hotel Lisboa / The Lisboa Hotel. 
Fotografia de Jean Doat. 
Colecção: Images of Macau, 1997. JD Productions. Macau


"Além das igrejas, das suas ruínas, dos pagodes impregnados de aroma do incenso exalado pelos pivetes que, às portas, uns funcionários obscuros, fumado displicentemente os seus cigarros, vendem juntamente com esculturas, postais, o jogo tem também os seus templos. E à sua beira, nas ruas adjacentes, uma série desses estabelecimentos de apoio que são, sem subterfúgios ou eufemismos, denominados "Casas de Penhor", todos eles ostentando nas tabuletas pintadas a vermelho, cor da felicidade e da alegria, um estilizado morcego considerado animal propiciador de fortuna.
Daí que a grande catedral do jogo que é o Hotel Lisboa, edifício com estrutura de dourada gaiola, tenha, no alpendre da porta principal, o desenho da boca de um morcego."
António Rebordão Navarro. Estados Gerais (1992). in Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. vol 4. ICM, 1996



segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Pedra esculpida com o escudo e a coroa real na Rampa dos Cavaleiros

Pedra com o escudo português e coroa real, tendo por baixo a data de 1847, num pátio à margem da Rampa do Cavaleiros. 


"(...) 
Este toponímico (Rampa dos Cavaleiros), hoje dentro do Campo Desportivo de Mong-Há, recorda-nos o tempo em que os mandarins davam ordens em Macau, domínio esse que acabou no Governo de João Maria Ferreira do Amaral (1846-1849).
Uma dessas ordens referia-se precisamente aos cavaleiros, que deram origem ao nome da rampa, segundo regista Marques Pereira nas suas Efemérides: "8 de Março de 1828 - Ofício do mandarim de Heong-Sán ao procurador da cidade de Macau, intimando-lhe que proibisse aos residentes ingleses renovarem à sua custa, como intentavam, a estrada do Campo de Mong-Há; e passearem nela a cavalo, pois com tais consertos e passeios afrontavam as sepulturas dos chinas e as barracas dos pescadores".
(...)
A 28 de Abril de 1829, publicou um edital dizendo que, tendo ido a Macau, "vira os Estrangeiros fazerem carreiras de cavallos na Praia da Porta do Cerco, lugar onde costuma passar gente, q. vai e vem; e receando-se, por isso, que acontecesse algum desastre a algum viandante de que redundassem desordens entre os Europeus, e Chinas; pelo Lingoa tinha advertido ao Procurador para a mandar prohibir. Porém lhe consta que os Estrangeiros tornarão a fazer carreiras, o que na verdade não hé coisa boa. Portanto, pondo em esquecimento o passado, manda elle Mandarim publicar este Edital para que os Estrangeiros saibão e daqui por diante obedeção os Estatutos do Império, e não tornem a fazer carreiras de cavallos na praia da Porta do Cerco  (...)"
(...)
Este edital ficou letra morta e as corridas continuaram. Harriet Low, que tanto gostava de assistir, informa no seu Diário que elas se realizavam em Hác-Sá (Areia Preta), junto das Portas do Cerco (...)
(...)
Ferreira do Amaral mandou remover as sepulturas desse Campo, colocando ali o escudo das Quinas e a data de 1847. 
Dois anos depois, a sua cabeça era decepada precisamente por ter mexido nessas sepulturas". 
P. Manuel Teixeira. A Voz das Pedras de Macau. Macau, Imprensa Nacional, 1980

Pedra com a coroa real e o escudo português junto do Templo de Lin Fong

Escudo português encimado pela coroa real junto ao templo de Lin Fong.

Fica na Estrada do Arco, junto à entrada lateral do templo de Lin Fong. Segundo o P. Manuel Teixeira, coroa real e escudo, tendo por baixo a data de 1848, foram mandados esculpir pelo Governador Ferreira do Amaral. A data, que não se encontra visível, estará provavelmente escondida pelo relvado que circunda a rocha.
O Padre Teixeira refere, ainda, uma outra pedra, que existiu também na Estrada do Arco, com a seguinte inscrição: "1872. Estrada do Arco". Removida desta estrada para as ruínas de S. Paulo, foi, depois, "desfeita pelo camartelo dos assalariados do Leal Senado" (P. Manuel Teixeira, A Voz das Pedras de Macau, 1980). 

Vicente Nicolau de Mesquita

Busto de Vicente Nicolau Mesquita (1818-1880) no Cemitério de S. Miguel. 
Macau, 2010


Encontra-se logo à entrada, à esquerda de quem entra no Cemitério de S. Miguel.  No mausoléu de mármore com o busto do Coronel Mesquita, lê-se: 

"Vicente Nicolau de Mesquita, 
heróico defensor de Macau em 
25 de Agosto de 1849".

Do lado ocidental do mausoléu, a seguinte inscrição:

"Erecto por subscripção pública 
com o concurso da primeira  subscripção 
promovida pela Comunidade Portugueza 
de Hong Kong em 1884"

E, do lado oposto : 

"Tomou Passaleão em 25-8-1849
Faleceu em 20-3-1880
 Foi transladado em 28-8-1910
Teve nesse dia honras militares e eclesiásticas"

Em 25 de Agosto de 1849, comandou o assalto ao forte chinês de Passaleão - Pac-Seac-Liam - "transformando-se numa figura heróica, prestigiada, da sociedade macaense"*.

Sobre o assalto ao forte chinês de Passaleão, lê-se na Cronologia da História de Macau:
"Tomada do Passaleão. É o único confronto significativo entre a China do Sul e Macau, durante os mais de quatro séculos de vizinhança. Tem ocasião após o assassinato do Governador Ferreira do Amaral, e consta da tomada de um forte chinês que atacava Macau com a força dos seus obuses a cerca de meia milha das Portas do Cerco. O protagonista da tomada do forte de Passaleão foi um macaense até aí desconhecido, Tenente de Infantaria, mas que viria a ser, por circunstâncias adversas, elevado a herói e promovido a tenente. Vicente Nicolau de Mesquita: avançou pelo território inimigo, sem ordem superior e apenas com o pelotão de 32 homens sob seu comando, neutralizando com uma carga de explosivo o forte que oprimia Macau. Quanto a armas, foi apoiado por 2 peças de artilharia de campanha, 1 obuz de montanha e 2 canhões da barca canhoeira e da lorcha de António Ferreira Batalha".

Suicidou-se, num acesso de loucura, depois de assassinar a esposa, Carolina, e a filha, Iluminada, na noite de 19 para 20 de Março de 1880, sendo o seu corpo encontrado no poço da sua residência no nº 1 da Rua do Lilau. Foi-lhe recusada sepultura cristã, determinando o Leal Senado  que "a sepultura para o coronel deve ser em lugar não bento". Seria reabilitado em 1910 e transladado para o Cemitério de S.Miguel, no lugar onde hoje se encontra.


Fontes:
*Amadeu Gomes de Araújo. Diálogos de Bronze. Memórias de Macau. Livros do Oriente, 2001
Beatriz Basto da Silva. Cronologia da História de Macau. Século XIX, volume 3. DSEJ, Macau, 1995
P. Manuel Teixeira. A Voz das Pedras de Macau. Macau, Imprensa Nacional, 1980

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Maria Ondina Braga: Natal Chinês

A senhora Tung chegava dois dias antes da consoada. Costumava vê-la logo de manhã, com a irmã jardineira, no pátio maior, a admirar as laranjeiras anãs nos vasos de loiça. Via-a casualmente a contemplar, embevecida, o presépio do convento. Encontrava-a por fim à mesa. 
A senhora Tung viajava todos os anos da Formosa para Macau, na época do Natal, a fim de festejar o nascimento de Cristo na companhia da sua primogénita, a irmã Chen-Mou.
 Nesses dias, com as meninas em férias, o refeitório do colégio parecia maior e mais desconfortável: só eu e Miss Lu nos sentávamos à mesa comprida das professoras. Daí a presença da senhora Tung, que noutra ocasião passaria talvez despercebida (estirada a sala entre pátios de cimento e plantas verdes), se tornar nessa altura notável.
Baixa, seca de carnes, de olhos atenciosos, pensativos, a senhora Tung sorria constantemente, falava inglês, gostava de comer, de fumar, de jogar ma-jong. As criadas cortejavam-na nos corredores, preparavam-lhe pratos especiais, levavam-lhe chá ao quarto. Além de ser mãe da subdirectora, tinha fama de rica e distribuía moedas de prata a todo o pessoal na noite de festa.
Nessa noite assistiam três freiras ao nosso jantar (a regra não lhes permitia comer connosco): a directora, a subdirectora e a mestra dos estudos. E muito empertigada, segurando com ambas as mãos um tabuleiro de laca coberto com um pano de seda, a senhora Tung recebia-as à porta do refeitório, entregando cerimoniosamente o presente à filha, que por sua vez o oferecia à directora. Eram bolos de farinha fina de arroz amassada com óleo de sésamo. Toda de vermelho, de sapatos bordados e ganchos de jade no cabelo, a senhora Tung, quando a superiora colocava o tabuleiro dos bolos na mesa, dobrava-se quase até ao chão. Rezava-se, depois. Para lá dos pátios, à porta da cozinha, as criadas espreitavam, curiosas. 
Nem no primeiro, nem no segundo, nem no terceiro Natal que passei em Macau, a senhora Tung era cristã, mas todos os anos se nomeava catecúmena. A seguir ao jantar falava-se nisso. A directora, uma francesa de mãos engelhadas que noutros tempos frequentara a Universidade de Pequim, perguntava em chinês formal quando era o baptizado. Inclinando a cabeça para o peito, a senhora Tung balbuciava, indicando a irmã Chen-Mou. A filha... a filha sabia. Talvez se pudesse chamar cristã pelo espírito, mas o coração atraiçoava-a. O coração continuava apegado a antigas devoções... Todavia, vestira-se de gala para a festividade da meia-noite, tinha no quarto o Menino Jesus cercado de flores, e a alma transbordava-lhe de alegria como se cristã verdadeiramente fosse. 
Com um sorriso meio complacente meio contrariado, a irmã Chen-Mou desconversava, passando a bandeja dos bolos à superiora, que separava uns tantos para o convento. Os restantes comê-los-iamos nós, ao fim da Missa do Galo, com chocolate quente.
O chocolate era a esperada surpresa da directora. A senhora Tung chamava-lhe, em ar de gracejo, «chá de Paris». No fim das três missas vinham outra vez as três freiras ao refeitório do colégio para trocarem connosco o beijo da paz e nos oferecerem a tigela fumegante do chocolate. Vinham e partiam logo (tarde de mais para se demorarem), e Miss Lu, fanática terceira-franciscana, sempre atenta aos passos das monjas, sorvia à pressa o líquido escaldante, como quem cumprisse um dever, e saía atrás delas.
Ficávamos, assim, a senhora Tung e eu, uma em frente da outra. À luz das velas olorosas do centro de mesa, os seus olhos eram dois riscos tremulantes. Sorríamos. Finalmente, o reposteiro ao fundo da sala apartava-se. Uma das criadas entrava, silenciosa. Servia-se vinho de arroz.
Creio que o vinho de arroz figurava entre as bebidas proibidas no colégio e que chegava ali por portas travessas. O certo, contudo, é que ambas o bebíamos, a acompanhar os bolos de sésamo, no grande e deserto refeitório, na noite de Natal.
O vinho de arroz queimava-me a garganta e fazia-me vir lágrimas aos olhos. Quanto à senhora Tung, saboreava-o devagar, molhando nele o bolo, e, como mal provara o «chá de Paris», bebia dois cálices.
Entretanto, Aldegundes, a criada macaense mais antiga do colégio, aparecia com as especialidades da terra: aluares, fartes e coscorões, dizendo que aluá era o colchão do Minino Jesus, farte almofada, coscorão lençol. E eu traduzia em inglês para a senhora Tung, que achava isto enternecedor e gratificava a velha generosamente.
Quando por fim atravessávamos a cerca a caminho de casa, sob uma lua branca, espantada, anunciadora do Inverno para a madrugada, a senhora Tung abria-se em confidências.
A menina sabia... ― a «menina» era a irmã Chen-Mou, a subdirectora do colégio ―, sabia que ela continuava a venerar a Deusa da Fecundidade. Tratava-se de uma pequena divindade, toda nua e toda de oiro. Fora ela quem lhe dera filhos. Estéril durante sete anos, a senhora Tung recorrera à sua intercessão divina quando o marido já se preparava para receber nova esposa. Não podia portanto deixar de a amar. Toda a felicidade lhe provinha daí, dessa afortunada hora em que a deusa a escutara.
Parava a meio do largo átrio enluarado, de olhar meditabundo, mãos cruzadas no colo. E as palavras saíam-lhe lentas e soltas, como se falasse sozinha.
... E aquele mistério da virgindade de Nossa Senhora! Virgem e mãe ao mesmo tempo... Não se lia no Génesis: «O homem deixará o pai e a mãe para se unir a sua mulher e os dois serão uma só carne?» Não era essa a lei do Senhor? Porquê então a Mãe de Cristo diferente das outras, num mundo de homens e de mulheres onde o Filho havia de vir pregar o amor? A Deusa da Fecundidade, patrona dos lares, operava milagres, sim, mas racionalmente, atraindo a vontade do homem à da sua companheira e exaltando essa atracção. Como o Céu alagando a Terra na estação própria.
Retomávamos a marcha em direcção aos nossos aposentos. Difícil para mim responder às dúvidas da senhora Tung, nem ela parecia esperar resposta. Mudava, rápida, de assunto, aludindo ao tempo, à viagem de regresso, às saborosas guloseimas da criada macaísta.
Já em casa, convidava-me a ir ver o seu presépio. O quarto cheirava fortemente a incenso. Em cima da cómoda, entre flores, lá estava o Menino Jesus, de cabaia de seda encarnada, sapatinhos de veludo preto, feições chinesas.
Depois, timidamente, a senhora Tung abria a gaveta... e surgia a deusa.
O Menino Jesus era de marfim. A Deusa da Fecundidade era de oiro. O Menino, de pé, de um palmo de altura, trajando ricamente. A deusa, sentada, pequenina, nua.
Os olhos da senhora Tung atentavam nos meus, como se à procura de compreensão, mas as suas palavras prontas (a deter as minhas?) eram de autocensura. Não, não devia fazer aquilo. A filha asseverara que o Menino Jesus entristecia, em cima da cómoda, por causa da deusa, na gaveta. E quem sabia mais do que a filha ?
Eu já sentia frio, apesar da aguardente de arroz. O Inverno, ali, chegava de repente. A senhora Tung, no entanto, tinha as mãos quentes e as faces afogueadas.
Despedíamo-nos. Eu sempre me apetecia dizer-lhe que estivesse sossegada, que de certeza o Menino Jesus não havia de se entristecer, em cima da cómoda, por causa da deusa, na gaveta. Mas nunca lho disse nos três anos que passei o Natal com ela. Palpitava-me que a senhora Tung se enervava com o assunto. E que, de qualquer jeito, não me acreditaria.
Maria Ondina Braga, A China Fica ao Lado, Lisboa, Unibolso, Bertand.

Natal Sã Festa Grándi

Natal Macaense

NATAL SÃ FESTA GRÁNDI

"Quelora piquinino, iou muto contente esperá dia di Natal. Têm rópa co sapato nôvo pa usá, lôgo achá tánto pisente, na casa têm bom-bom ancuza pa comê, quim nádi contente?
Natal sã unga festa divera grándi pa nôs cristám.
Dia 24 anôte, tudo gente crescido lôgo vai Missa-Galo. Quelê frio, quelê sono tamêm ilôtro nádi faltá. Cavá missa, sã ta corê vai casa ravirá co laia-laia comizaina, fazê cea. Nôs quiança-quiança sã trepá cáma durmi, ánsia esperá manhã-cedo chegá. Educado pa pai-mai cristám, nôs nunca crê na estória di pai-natal vem largar pisente na chaminé, j'olá? Nós sômente crê qui Natal sã dia qui Jesus já nacê; sã dia qui Jesus fichá áno. Quim bom quiança, obibiente, nunca fazê tánto arvirice, Jesus Piquinino lôgo ficá contente, lôgo nós achá tudo pisente qui nôs más gostar.
Chegar Natal pramicedo iou costumado quelê azinha erguí di sono, sai di cáma, corê vai diante di pesépio pa rezá. Si nom têm ninguim na perto, ioulôgo conversá co Minino Jesus; lôgo falá co Êle qui iou, na róda di ano, já ficá unchinh arviro na-más; quánto vez já falá mentira, já tasquinhá ancuza comê. Cavá pedi Minino Jesus nunca-bom reva, iou lôgo prometê qui náda más falá mentira, lôgo ficá bom quiança."
(...)
"Dia di Natal, cási tudo casa di cristám lôgo armá pesépio. Lôgo tem bom-bom ancuza pa comê. Alua, impada, coscorám com fárti sã ancuza qui nádi pode faltá. Chegá ora di jantá, qui bom olá: Pai-Mai co tudo catravada, co Chacha, Avô-cong juntado, sentá na roda di mésa saboreá laia-laia carniça, frutázi co merenda. (...)"
José dos Santos Ferreira."Natal Sã Festa Grándi". in Poéma di Macau. Fundação Macau, 1996


********
Ancuza - Coisa; alguma coisa. Seléa ancuza: semelhante coisa.
Arvirice - Brincadeira; maldade; partida de crianças.
Arviro - Mauzinho; brincalhão; que gosta de fazer partidas.
Bafá - Abafar; cozer. Bafá aroz: cozer arroz; Bafá na casa: Fechar-se em casa. Bafá é também o nome de um jogo com pedras de dominó.
Catravada - Grupo de pessoas, geralmente todas da mesma família.
Carniça - conjunto dos pratos de carne (perú, capão, faisão, presunto, carne de vaca, lombo de poco, etc.)
Cavá - de "acabar". Depois; em seguida; acabar; terminar.
Chacha - Avó; mulher idosa. Chacha-chacha: velhinhas.
Coscorám - Coscorões. Doce de farinha com melaço, em forma de concha, próprio da quadra do Natal.
Cristám - Cristão; católico. Cristám-novo: chinês feito católico, quando adulto. Língu cristám; língua portuguesa ou dialecto macaense.
Fárti - Doce próprio do Natal, feito com farinha (massa) e com recheio de pinhões, amêndoas e coco.
Frutázi - Várias espécies de fruta.
J'olá - Já olá: ver, no passado. Viu? compreendeu?
Laia - Espécie; maneira. Laia-laia: de várias espécies; de muitas maneiras; Tudo laia: toda a sorte; toda a qualidade. D'estunga laia: desta maneira; deste modo.
Na-más - Não mais; apenas
Nunca - Não. Indica o passado na forma negativa. Êle nunca fazê: ele não fez. Nôs nunca olá: nós não vimos.
Pramicedo - De manhã cedo.
Quelê - Qual; qualquer; que.
Quiança - Criança; Quiança-Quiança: Crianças
Ravirá - Revirar; virar; correr de ponta a ponta; fartar-se.
Reva - Zangado; amuado. Ne-bom reva: não se zangue.
Sã - Verbo ser. Iou sã filo di Macau: sou natural de Macau; Macau sã assi: Macau é assim. Nós sã gente bem-fêto: somos gente séria.
Tasquinhá - De tasquinhar, mas com significado diferente. Furtar; subtrair; tirar às escondidas.
Unchinho - pouco; muito pouco; poucochinho. Já faltá unchinho: faltou muito pouco

Natal ta chegá - Consoada co Missa-Galo

Natal Macaense

NATAL TÁ CHEGÁ

"Ta faltá sômente três dias pa chegá Natal. Na casa di Venáncio  tudo ta quelê ocupado.
Títi Chai, co quánto gente ajudá êle, cavá fazê unga porçám di fárti co coscorám, agora tá começá sai mám pa fazê quánto tachada di alua. Impada sã lôgo ficá pa dia 24 pramicedo. Quelê-môdo pôde  passá Natal si nom-têm bom-bom pitisquéra na casa? Sã têm-qui matá-morê, fazê laia-laia ancuza pa tudo ficá contente. Sômente Maria nunca muto contente. Êle têm-qui ficá na casa pa ajudá su mai, j'olá? Ficá quánto dia prendido, ramendá unga pastro na cajola, nom pôde vai rua olá su Juám.
Chico-Chai já vai gafinhá caxotám guardado na dispénsa, tirá tudo ancuza di pesépio vêm fora, pa armá na sala. Êle co Avô-công abrí pacote, contá qui contá, buscá vai, busca vêm, dá falta di unga ancuza: nom pôde achá image di Nos'Sióra, Mai di Jesus.
- Vai sossegá vôs, Chico-Chai - Avô-công ta rabujá. - Pesépio qui nom-têm Santa Maria, sã qui laia pesépio?
Chico-Chai virá respondê:
- Avô!  tamêm nôs têm Nos'Sióra na pesépio... Quelê-modo estunga  áno já disparecê? Ne-bom falá já perdê!
- Nos'Sióra têm na nôsso pesépio áno-passado, áno-trazado, tudo áno! - avô fala. - Quelora vôs nunca nacê, nôs já tem estunga pesépio. Únde têm Nos'Sióra, iou querê sabe!
Maria já uví papiaçám, já vêm perto ri, chapá bóca falá:
- Nos'Sióra nom sã têm na Ceu? Únde más lôgo têm?
- Aia, fila, nôs ta buscá image qui já disaparecê... Nom-têm na pacote...
- Nunca disaparecê! Iou sabe têm na únde! - Maria respondê.
- Ah?! Vôs sabe? Vai panhá, quiança! Bom-quiança, azinha vai panhá!
- Iou têm pisente di Natal? Si têm, iou ta vai panhá...
- Uví, fila! - Avô-công respondê - Qualunga Natal avô já isquecê dá pisente pa vôs? Azinha vai panhá image vêm!
Maria sai mám fazê festa na rosto di avô, azinha corê vai riva.  Unga estánte vêm di volta sala, co image di Nos'Sióra na mám.
- Ah?! Já vêm di únde estunga image?
- Têm na altar di Mamá, desdi áno-passado - Maria respondê. - Pó cósa di cai unchinho cor, Tio Padre já pegá pintá, cavá já botá na altar.
Avô-công co Chico-Chai, suspirá aliviado, agora começá armá pesépio. Siviço di Venáncio sã vai horta panhá arêa co fóli-fólia pa fazê chám di pesépio."

CONSOADA CO MISSA-GALO

"24 sã dia di consoada. Tudo na casa têm-qui lembrá qui sã dia di jenjum, nom pôde comê carne. Unga dia intéro sã ravirá co sópa di lacassá co camarám, comê laia-laia verdura crú champurado. Têm rodela di batata cozido, cenóra, rabo com cincomáz pa quim querê. Titi Chai cumprí su religiám com devoçám bem-fêto, sã lôgo viziá, olá quim astrevê panhá carne comê. Masquí êle assim jambulám duro, tamêm Venáncio, emado, já corê vai cozinha tasquinhá pisunto, pa capí com pám comê. Ai, si Títi Chai sabe...
Perto chegá mea-nôte, tudo já têm na Greza Sant'António pá uví missa-galo, dessá Chacha Sabina, Chacha Ambrósia co Mui-Mui tomá conta di casa.
Frio di rachá, ántis di vai, unga-unga já gafinha baul tirá rópa grôsso-grôsso pa encapelá, com lám pa enroscá na piscoço. Maria mêdo su Avô-công panhá frialdade, já obriga vêlo usá capotám pesado qui fazê êle nom sabe andá.
No meo-meo di missa, tentaçám di Venáncio dá quánto cabeçada, já cai co sôno. Chai, quelora repará qui êle tá concá, ramendá águ ta fervê  na panela, já arcuá su braço zinguá unga cotovelada na pêto di su nhum. Estunga môno soltá unga "Ai!" assi fórti, qui Sium Padre na altar tamêm já uví, faltá unchinho entorná vinho di cáliz. Padre virá cara, olá cuza já sucedê.
Chegá fim di missa, tudo cavá bezá Minino Jesus, ilôtro azinha corê vai casa, cartá ramatá  Títi Dinha co Lolita pa comê ceia. Intrá na casa, priméro ancuza qui ilôtro fazê sandê vela, vai diánte di pesépio rezá pa pedí graça co Filo di Dios co Virge Maria, Su Mai. Sigundo ancuza, sã Venáncio sentá uví papiaçám di siara.
Cavá pregá sarabanda, Títi Chai dá voz Maria pa ajudá vai cozinha panhá pirú, capám co pisunto botá na mésa pa tudo comê. Querola ta retalhá pisunto, Tití Chai, ôlo vivo, já sentí qui vánda-basso di pisunto já ficá lambiscado. Nancassá priguntá, êle sabe qui sã obra di su Venáncio. Lembrá qui sã Natal, dia grándi, êle abrí unga ôlo, fichá unga ôlo, já dessá vai-ia.
Cavá comê, barriga enchido, unga-unga já virá vai casa, ilôtro fichá bêm fêto tudo janela, trancá porta, apagá lampiám co candia-cera, cadunga recolê na sua quarto. (...)".

Da novela "Estória Di Maria co Alféris Juám". in José dos Santos Ferreira, Macau di Tempo Antigo. Edição do Autor, Macau 1985




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Ancuza - Coisa; alguma coisa
Azinha - Depressa. É termo português antigo. Azinha-azinha: muito depressa.
Baul - Baú; Arca; Mala de madeira de tampa convexa.
Capí - Entalar; apertar. Capí mám: acenar com a mão. Capí mám na porta: entalar a mão na porta. Capí pám co pisunto: introduzir presunto entre fatias de pão.
Cartá - Transportar; trazer ou levar. Carté vai: levar. Cartá vêm: trazer.
Cavá - Vem de acabar: terminar, acabar; depois; em seguida
Cajola - Gaiola. Pastro na cajola: pássaro na gaiola
Champurá - Misturar; guisar. Champurá bredo co vaca: guisar hortaliça com carne de vaca.
Emado - Guloso
Encapelá - Cobrir-se com capa ou outra roupa qualquer. Agasalhar.
Estunga - Este ou esta.  Estunga quánto: estes ou estas. 
Fólia - Folha. Fólia-Fólia: folhas. Também significa página ou jornal. Já  sai na fólia: foi publicado no jornal.
Gafinhá - Procurar; esgravatar
Jambulám - Nome de uma fruta; jambulão
J'olá - Já Olá: ver (no passado). J'olá? Viu? ou então, compreendeu?
Lacassá - Aletria.
Laia - Espécie; maneira; casta. Laia-laia: de várias espécies; coisas sortidas. Tudo laia: toda a sorte; toda a qualidade. D'estunga laia: desta maneira; deste modo.
Mám - Mão. Mám fichado qui fichado: mão sempre muito fechada, avarento, mesquinho. Mám-tanto: aquele ou aquela que mexe em coisas que não lhe compete.
Masqui - Termo que vem do malaio e significa apesar de, embora. Masqui seza: embora seja.
Matá-morê - Esforçar-se muito; trabalhar até se cansar; aplicar-se; esmerar-se.
Nacanssá ou Nuncassá - Não é preciso; não esteja com. Nancassá cerimónia: não esteja com cerimónias. Nancassá inventaçám: não venham com mentiras.
Nhum - Rapaz, homem novo. Nhum nutrido: gordo, robusto. Nhu-nhum: senhores ou homens.
Papiá - Papear; papaquear; Falar, dizer. Papiá bem-fêto: falar bem. Qui cuza vôs ta papiá? Que está V. a dizer? Papiá nôsso língu: falar a nossa língua.
Papiaçám - Papiá originou papiaçám. Significa: fala, paleio; o falar. Um-cento papiaçám: muito paleio. Sã nosso papiaçám: é o nosso falar.
Qualunga - Qual; qual deles.
Quelê - Qual; qualquer; que.
Quelê-modo - Como; de que modo; de qualquer modo.
Quelê-tanto - Qualquer que seja a quantidade; grande quantidade; muito.
Quelora - Qual hora; quando; no momento em que.
Quiança - Criança. Quiança-quiança: crianças
Ramatá - Rematar; concluir; acabar.
Ramendá - Parecer; semelhante a; tal como. Ramendá unga pastro na cajola: Tal como um pássaro na gaiola.
Ravirá - Revirar. Virar; correr de ponta a ponta; fartar-se. Comê qui ravirá: fartar-se de comer. Ravirá cabéça: dar voltas à cabeça.
Riva - Cima; em cima.
Siara - Senhora; mãe de família; dona de casa. Esposa.
Títi - Tia. Títi-títi: Tias. Títi-dinha: tia madrinha. 
Unchinho - Poucochinho; muito pouco. Já faltá unchinho: faltou muito pouco. Iou querê unchinho na-más: quero apenas poucochinho. Unchinho-unchinho ora: de volta e meia.
Únde - Onde. Únde já vai? Onde foi? Únde lôgo têm? Onde estará? ou onde haverá? Nôs sabe sã únde: nós sabemos onde é.
Unga - Um ou uma.
Vánda - Banda; lado. Pa estunga vánda: por estes sítios. Vánda di trás: parte traseira; parte posterior.
Zinguá - Zingar; golpear; desfechar golpes; arrear.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Feliz Natal


Feliz Natal e Próspero Ano Novo 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Um pagode pitoresco

Templo junto às Portas do Cerco (Templo de Tin Hau)
Auguste Borget (1808-1877). Litografia colorida por Eugène Cicéri.
(in Quadros Históricos. Colecção do Museu de Arte de Macau)

"22 de Setembro de 1883 - Fui hoje, sob um calor intenso, inspeccionar os hidrómetros instalados. Às três horas da tarde dirigi-me ao da enseada de D. Maria II, acompanhado por Cinatti, Talone e Cunha. Para se chegar a este hidrómetro, assente na extremidade de uma restinga, foi mister entrar em uma pequena champana de pescador, onde o mar nos molhou a todos. Foi agradável aquele banho.
Há ali um sítio encantador. Pequenas cabanas de pescadores orlam a costa. Muito próximo, sobre umas rochas cortadas a prumo e batidas pelo mar, olhando para a enseada e para as nove ilhas, fica o pitoresco pagode chinês cercado de muros pintados de amarelo e com um pequeno jardim ensombrado por alguns formosos exemplares da árvore do pagode. É esplêndida de mimo e de poesia aquela situação do modesto templo. (...)"
Adolfo Loureiro. No Oriente, de Nápoles à China. in Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo II. ICM, 1998

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Monumento da Vitória

Praça e Monumento da Vitória. Ca. de 1900.
in Fotografias Antigas de Macau, Instituto Cultural de Macau e Museu de Macau, edição de 1999