domingo, 11 de junho de 2006
sábado, 10 de junho de 2006
A Rua das Mariazinhas
Rua de S. Domingos (Mariazinhas). Macau, Maio de 2006As minhas recordações da Rua de S. Domingos remontam à infancia. O cenário mais antigo que se me fixou na memória é provavelmente o de estar parado diante da loja de antiguidades chinesas que se anunciava, em letras brancas num fundo azul-claro, com o nome de "Pessanha-Curious". O estabelecimento ficava onde hoje se encontra a Livraria Portuguesa, ocupando talvez uma área mais pequena.
Na porta estava um homem magro, pálido, meão de altura, feições macaenses fortemente orientais e pouco cabelo. Cumprimentou os meus pais sorridente, trocaram umas palavras e seguimos adiante. Perguntei quem era. O meu pai respondeu:
- É o filho de Camilo Pessanha.»
Henrique de Senna Fernandes. «Rua das Mariazinhas», in Mong-Há, Instituto Cultural de Macau, 1998
sexta-feira, 9 de junho de 2006
segunda-feira, 5 de junho de 2006
Casa de penhor
Um morcego voa
e apanha uma moeda de cobre
conduz os miseráveis para dentro da porta
O condutor é cego
Logo que um miserável entra
esconde-se por detrás do biombo
Até os seus objectos
embrulhados em folhas de um jornal já lido
são de vergonha
Entre o biombo de madeira e o balcão
entre os objectos e o recibo de penhor
os miseráveis ficam mais miseráveis
A quem interessa
outro biombo que oculte a sociedade?
Han Mu. «Casa de Penhor», in Antologia de Poetas de Macau.
Macau Património Mundial: Casa do Mandarim
Encerrada temporariamente.
O Centro Histórico de Macau
quinta-feira, 1 de junho de 2006
Macau di Tempo Antigo: no Bazar
«Tudo é alegria no Bazar, uma alegria que nos mergulha na calma tranquilidade chinesa, que nos invadem e conquista, insensivelmente, como um filtro que se absorvesse ao respirar.
Bazar Grande e Bazarinho
(1) e (2) Henrique de Senna Fernandes. «Chá com Essência de Cereja», Nam Van.
«Pátio do Poeta. Só dele»
Pátio do Poeta. Macau, Maio de 2006usurárias as palavras-pautas-palmas
Rastos de expressão os rostos
daquelas bocas de restos
Góticos os esgares
flamejantes quando esfaqueam o ar
Os dedos dados
de mãos nunca dadas
como se compassos vazios
de músicas abortadas
Só
o cavalo alado
com a crina dos mistérios
plana
montado por omissões descodificadas
em tiras de papel qualquer
como se vozes outras
do poeta
a rasgar o tempo
João Rui Azeredo. in Antologia de Poetas de Macau.
quarta-feira, 31 de maio de 2006
O Pequeno Kun Iam
Ao invés de vasos com plantas ou flores, ou de tanques com lótus, dois enormes jamboleiros preenchem por completo o pequeno pátio do Kun Iam Ku Miu.
«Macau em Maio»
e de acácias rubras
e de chagas de melancolia nos muros velhos.
Teus longos braços novos de betão e vidro
rompem a bruma matinal
por sobre os restos da antiga beleza.
Fernanda Dias. in Antologia de Poetas de Macau.
terça-feira, 30 de maio de 2006
Estória di Maria co Alféris Juám
Juám sã unga alféris di Bataliám (vinte cinco áno na-más), arto, ôlo grandi, cabelo marêlo-ôro, co unga bigode grosso tamêm aloraça. Já vêm di Portugal, têm na Macau dôs áno fora, não sabe falá china, nunca intendê nôsso língu maquista. Sorte qui Maria já vai escola na Convento Santa Clara, já prendê torá portuguêz pa podê papiá co su quirubim di bigode grosso.
(...)
Maria já conhecê estunga Juám têm perto cinco mês, unga domingo na adro di Sé, quelora cavá missa-tropa. Na dentro di greza, Juám olá Maria, nom-pôde largar ôlo; Maria virá cara sã ta olá acunga dôs ôlo lustro ta contemplá êle, raganhado.Tudo dôs nom-pôde uví missa bêm-fêto».
José dos Santos Ferreira (Adé). «Estória di Maria co Alféris Juám», Macau di Tempo Antigo (Poesia e Prosa) - Dialecto Macaense -, Edição do Autor, Macau, 1985
quelora - quando; no momento em que.
cavá - depois; em seguida (Cavá vem de «acabar»)
estunga - este ou esta
greza - igreja
lustro - que tem brilho; luzidio
Olá - ver, olhar. Olá bem-fêto! - vejam bem!
Ôlo - olho
quelora - quando; no momento em que.
raganhado - arreganhado
sã - do verbo ser.
tá - do verbo estar
torá portuguêz - à letra seria «torrar o português»; diz-se da pessoa que se esforça em falar correctamente o portugês, com pronúncia afectada.
domingo, 28 de maio de 2006
Hong Kung, o deus guerreiro
Templo de Hong Kung. Macau, Maio de 2006 Jardim de Lou Lim Ieoc
Jardim de Lou Lim Ieoc. Maio de 2006João Aguiar. «O Deus dos pássaros». Rio das Pérolas. Livros Oriente. pág. 27
Jardim de S. Francisco
Jardim de S. Francisco. Macau, Maio de 2006No ano de 1935 assistiu-se à destruição do coreto e à dissolução da banda municipal; nesse mesmo ano foi autorizada a construção da via pública de S. Clara, retalhando-se, para esse efeito, o jardim.
____________
(1) Henrique de Senna Fernandes, «Uma Pesca ao Largo de Macau». Nan Van. Instituto Cultural de Macau. 1997, pág. 32
«Eu chamava-a simplesmente a Árvore»
«Eu gostava muito da parte superior do Jardim de S. Francisco, paredes-meias com a Rua Nova à Guia. A área era mais larga que hoje, cobria a Calçada do Quartel que não existia, e estava separada da ala das residências dos oficiais, por um muro formando beco. Havia ali um jardim frondoso e bem tratado com áleas, onde se aprumavam frangipanas e bauínias entre arbustos e outra vegetação. As frangipanas davam as chamadas "flores de S. João" branco-amarelas, de cheiro capitoso. As bauínias abriam as suas flores arroxeadas ou róseas na Primavera e eram um regalo para os olhos. As champacas misturavam-se com as roseiras. Sebes de camélias e damas-da-noite dividiam os caminhos. Pairava no ar uma confusão de aromas inebriantes. De manhã à noite, desbobinava-se a sinfonia zangarreante das cigarras, em labor incansável, desmentindo a fábula conhecida. Nos bancos verdes e já veneráveis, sentavam-se os anciãos chineses que traziam, em gaiolas grandes e pequenas, algumas artisticamente ornamentadas, os seus pássaros favoritos - rouxinóis, chevites, melros, canários e outros - que trinavam à compita com a passarada livre, derramada pelas árvores. Eternamente, as borboletas saltitavam de flor em flor, à procura do pólen. (...) Por entre aquela vegetação abundante, sobressaía a maior árvore de pagode que jamais vi em Macau, à excepção da do Seminário de S. José. Eu chamava-a simplesmente a Árvore. Alta, tronco grossíssimo, bem copada, a ramaria espraiando-se largamente para o céu, a sombra hospitaleira e benigna em círculo, abrigando os passeantes da canícula ou da chuva. Em cima havia sempre chilreada dos passarinhos que construíam ninhos inacessíveis à garotada. O tronco secular tinha reentrâncias e nós que permitiam fácil escalada aos primeiros ramos. Eu costumava trepar por ele acima muito ágil e assentava-me num dos ramos gozando a altura e o panorama. (...) Mais tarde, homem feito, quando regressei de Portugal depois de uma ausência de oito anos e calhou visitar aquela parte do jardim, tudo estava praticamente irreconhecível. Existia ainda o gracioso edifício cilíndrico, mas a vegetação fora desbastada e não restava o mínimo vestígio da Árvore. Sabe-se lá porque tinha sido derrubada. Sofri um golpe doloroso na sensibilidade. Desaparecera para mim a mais nobre árvore de Macau».
Henrique de Senna Fernandes, «Rua das Mariazinhas», Mong-Há. Instituto Cultural de Macau, 1998, págs. 75-76
sexta-feira, 26 de maio de 2006
Macau Património Mundial: Quartel dos Mouros
Horário: das 9:00 às 18:00 horas (Varanda)
O Centro Histórico de Macau
Cidádi di Nómi Sánto
«Nôsso Macau, nómi sánto,
Vosôtro olá!
Qui ramendá unga jardim;
Fula fresco na tudo cánto
Sã pa ispantá,
Sai semeado, nom têm fim.
Gente di Macau, na passado,
Co tánto lágri já regá
Su fula cherôso, abençoado,
Qui Dios já ajudá semeá.
No mundo assi transtornado,
Sã fazê triste coraçám
Olá gente falá cuidado,
Dessa fula muchá na chám.
(...)
quarta-feira, 24 de maio de 2006
A Fonte do Lilau
«Quem bebe água do Lilau
Não mais esquece Macau:
Ou casa cá em Macau
Ou então volta a Macau.»
Lilau é nome que perdura no largo, e também, numa calçada, num beco e num pátio. Originariamente era Nilau, do cantonense Nei-lau - que significa «corrente de água do monte» -, e foi o primitivo nome da colina da Penha, designação que se manteve até à construção, em 1622, da ermida de Nossa Senhora da Penha.
Os chineses chamam-lhe o Poço da Avó (ou da Antepassada), designação particularmente interessante, já que o poço, ou fonte, localizava-se muito perto do templo de A-Má, ou Tin Hau, a Rainha Celestial, e A-Má, ou Má-chou, é o nome que, curiosamente, se atribui à Avó paterna, a primeira antepassada. Tal como o poço da Avó ou de Má-chou, a Antepassada, que é também a Rainha do Céu, simbolizando a união entre o Céu e a Terra, o nome de Nilau ou Nei-lau, se afigura, igualmente, como a união entre o monte e a água, ou seja, das águas que escorrem dos montes, das nuvens e do céu e se juntam à Terra.
Os nomes das ruas
Rua dos Bem Casados. Taipa. Janeiro de 2006P. Manuel Teixeira na Explicação Prévia à obra Toponímia de Macau.
Macau Património Mundial: Largo do Lilau
Largo do Lilau. Macau. Janeiro de 2006«Os depósitos de água subterrânea da zona do Lilau constituíam a principal fonte de água natural em Macau. A popular frase "Aquele que beber da água do Lilau, jamais esquecerá Macau" expressa bem a ligação nostálgica dos habitantes com o Largo. Esta área corresponde a um dos primeiros bairrros residenciais portugueses em Macau». in RC - Revista de Cultura, nº 15, Julho de 2005
terça-feira, 23 de maio de 2006
Má-Káu-Seak, o Rochedo do Cavalo no Coito
(2) Padre Manuel Teixeira. Toponímia de Macau, tomo 1, págs. 38-39
(3) Almerindo Lessa, citado por P. M. Teixeira.
(4) Em Sino-Portuguese Trade from 1514-1644: a Synthesis of Portuguese and Chinese Sources, 1934, T'ien-Tsê-Chang atribui o nome de Macau ao famoso rochedo «chamado Má-chião (...) ou Ma-Kao em cantonês».
(5) Padre Manuel Teixeira, ob. citada. pág. 39
segunda-feira, 22 de maio de 2006
Leal Senado
Edifício do Leal Senado. Macau. Maio de 2006sexta-feira, 19 de maio de 2006
Igreja de S. Lourenço
Ao certo, não se sabe a data da sua construção, mas o Padre M. Teixeira, citando Frei José de Jesus Maria – Asia Sínica e Japónica -, diz que a igreja foi erecta entre 1558 e 1560, referindo-se à construção desta igreja, à de Stº António e à de S. Lázaro, «em o seguinte anno de 1558 até o de 60». Se foi ou não construída nesse período de tempo, não se sabe. Mas já existia em 1576, pois dela escreve um padre jesuíta ao Geral da Companhia: «(...) chamao os nossos cõ cãpaqinha pola cidade, & se faz a doutrina christãa, & se fazem alguas exortações, e isto assi na nossa igreja como na outra q, he de S. Lço. Martir, cõcorre mta.».
1) «The Parish Church of St. Lawrence at Macao», Journal of Oriental Studies, Volume VI, 1961-1964-Number 1 and 2. University of Hong Kong.
Macau Património Mundial: Igreja de S. Lourenço
Igreja de São Lourenço. Macau. Maio de 2006 «Construída pelos jesuítas em meados do século XVI, é uma das igrejas mais antigas de Macau. O seu presente aspecto é o resultado das obras efectuadas em 1846. Situada no litoral sul da cidade, na sua escadaria principal, na época com vista directa sobre o mar, costumavam reunir-se as famílias dos marinheiros aguardando o seu regresso, razão pela qual lhe foi dado o nome de Feng Shun Tang (Igreja dos Ventos de Navegação Calma). De estrutura neoclássica com um subtil tratamento decorativo de inspiração barroca, a sua escala e riqueza arquitectónica refletem a riqueza do bairro onde se inseria». in «RC - Revista de Cultura», nº 15, Julho de 2005.
Horário: das 10:00 às 16:00 horas (acesso pela Rua da Imprensa Nacional)
O Centro Histórico de Macau
quinta-feira, 18 de maio de 2006
Macau Património Mundial: Leal Senado
«Construído em 1784, este edifício albergou a primeira Câmara Municipal de Macau, função que ainda mantém. O nome "Leal Senado" deriva do título "Cidade do Nome de Deus de Macau, Não Há Outra Mais Leal" atribuído à cidade por D. João IV, em 1645. O Edifício do Leal Senado, de estilo neoclássico, conserva ainda as paredes-mestras e o traçado arquitectónico originais, incluindo o jardim situado no pátio traseiro.
No interior do edifício, no primeiro andar, além de um salão nobre que dá acesso a uma exuberante biblioteca em madeira ricamente decorada, ao estilo da biblioteca do Convento de Mafra (Portugal), existe ainda uma pequena capela». in «RC - Revista de Cultura», nº 15, Julho de 2005
Horário: Galeria - das 9:00 às 21:00 (encerra à segunda-feira); Jardim - das 9:00 às 21:00
O Centro Histórico de Macau
quarta-feira, 17 de maio de 2006
Templo da Barra
O verde dos bambus mais altos é azul
ou então é o céu que pousa nos seus ramos.
Eugénio de Andrade. Pequeno Caderno do Oriente.
Macau Património Mundial: Templo de A-Má
Templo de A-Má. Macau, Janeiro de 2006«Anterior ao estabelecimento da cidade de Macau, o Templo de A-Má é composto pelo Pavilhão do Pórtico, o Arco Memorial, o Pavilhão de Orações, o Pavilhão da Benevolência, o Pavilhão de Guanyin e o Pavilhão Budista Zengjiao Chanlin. Estes vários pavilhões, dedicados à veneração de diferentes divindades, formam um complexo único, o que faz do Templo de A-Má um caso exemplar da cultura chinesa inspirada pelo Confucionismo, Tauismo, Budismo e por múltiplas crenças populares». in «RC - Revista de Cultura», nº 15, Julho 2005.
segunda-feira, 15 de maio de 2006
sexta-feira, 12 de maio de 2006
quinta-feira, 11 de maio de 2006
Chunambeiro
San Má Lou
Rasgada em 1915, a Avenida de Almeida Ribeiro - nome do ministro das colónias, que na altura sancionou a verba para a expropriação das casas e para a abertura da avenida - começa na Praia Grande, onde esta avenida cruza com a do Infante D. Henrique, e termina no Porto Interior, em frente à Ponte-Cais nº 16, na Rua do Visconde de Paço de Arcos. Os chineses designam-na por San Má Lou, a «avenida nova», «estrada nova» ou «caminho novo para os cavalos».
Nesta avenida, que veio cortar a zona do bazar chinês, vieram instalar-se os mais luxuosos hotéis e os melhores estabelecimentos comerciais, sobretudo as joalharias.
terça-feira, 9 de maio de 2006
O dragão embriagado
Dia de festa, este 5 de Maio: foram as festividades do banho do Buda, foi a festa do dragão embriagado no templo de Sam Kai Vui Kun, ali junto ao Mercado de S. Domingos. E foram as festividades de Tam Kung, em Coloane.
A festa do Tchoi-Long, o dragão embriagado, que se realiza no oitavo dia do quarto mês lunar, está associada a uma lenda. Segundo essa lenda, Buda terá esquartejado o dragão enquanto este se banhava num rio; mais tarde, a cabeça e a cauda do dragão seriam encontradas por um pescador embriagado, que, por mais buscas que fizesse, nunca chegou a encontrar o resto do corpo do animal. Nesta festividade, que se deveria chamar do «pescador embriagado», e não do dragão, pois este nem uma pinga terá bebido, os pescadores, estes sim, embriagados, percorrem algumas ruas de Macau transportando apenas a cabeça e a cauda do dragão, numa animada dança em busca do corpo do dragão.
O templo de Kuan Tai, que se situa numa das ruas de acesso ao mercado de São Domingos (Rua Sul do Mercado de São Domingos), é um pequeno templo, construído em 1750 e restaurado por diversas ocasiões, também conhecido por Sam Kai Vui Kun, pois foi sede da associação Sam Kai – ou das três ruas: dos Mercadores, das Estalagens e dos Ervanários -, a associação mais antiga de Macau. No espaço que defronta o templo, normalmente ocupado por bancos e vedado para impedir o estacionamento de motorizadas, montou-se um palco onde, uma enorme azáfama se manteve ao longo do dia, sobretudo por parte das mulheres, em volta de enormes tabuleiros de comida. Duas enormes filas de pessoas aguardavam a distribuição da parte do repasto que lhes cabia. Uma espécie de bodo, como nas nossas festas do espírito santo, só que aqui não se come no local, cada qual leva a sua parte da refeição, em embalagens próprias.
terça-feira, 2 de maio de 2006
Viola Chinesa
Vai adormecendo a parlenda
Sem que amadornado eu atenda
A lenga-lenga fastidiosa
Sem que o meu coração se prenda,
Enquanto nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda.
Mas que cicatriz melindrosa
Há nele que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?
Ao longo da viola, morosa...
Camilo Pessanha. Clepsydra.
domingo, 30 de abril de 2006
«O chique era a missa das onze horas»
Henrique de Senna Fernandes. «Uma Pesca ao Largo de Macau». Nam Van.
A Praia Grande
A Praia Grande, que foi a avenida marginal de Macau, desde a Calçada do Bom Jesus até à Estrada de S. Francisco, é, em conjunto com a Avenida da República, património de Macau.
Os sucessivos aterros afastaram-na do mar, e se hoje é marginal deve-se aos dois lagos artificiais que aí foram construídos.Quando, em 1831, Macau foi devastado por um violento tufão, que causou grandes estragos na cidade e na «principal praia chamada - grande - como das partes juntas», propôs, então, o Senado, que na Praia Grande se alargasse «mais o dito caminho para o mar». Em 1857, escrevia o autor do diário de viagem da embarcação americana Sara N. Snow: «o lugar do desembarque é uma praia ou baía e a rua que corre ao longo num oitavo de milha é muito linda, mas sem uma só árvore e o sol do meio dia era calcinante»(1). Não sei quando lhe colocaram as árvores, nem o Padre Teixeira o informa, mas chama a atenção para uma pintura de Chinnery datada de 1830 - «A Praia Grande Vista do Norte» - onde se erguem frondosas árvores por detrás de algumas casas. Árvores que lá existiam em 1869, quando um tufão as arrancou. Nesse mesmo ano, foi construído um aterro que estendeu a Praia Grande até ao Bom-Parto, enquanto a actual Avenida da República, seria construída no início do século XX.
Por volta de 1910, escrevia Álvaro de Melo Machado, então governador de Macau: «Está-se na avenida da praia grande, a curva naturalmente graciosa como poucas, que a bordo se avistou. A rua é larga; de um lado contornada por uma muralha contínua, onde as ondas vêm bater salpicando as árvores desenvolvidas e frondosas que a acompanham, e do outro por uma longa fila de casario onde se destacam a residência do Governador, o edifício das repartições públicas e algumas casas de arquitectura chinesa.(...) A cidade tem aqui um aspecto muito diferente. Acabou a aglomeração de gente e desapareceram as lojas e os toldos sujos; apenas alguns peões passam descuidadamente, um ou outro vendedor circula procurando atrair as atenções dos moradores ocultos e os jerinkshas particulares, puxados a dois culis em trajos coloridos, rodam silenciosamente e ligeiros no leito macio da avenida plana»(2).
Na praia grande situavam-se as mansões mais elegantes - dos condes de Senna Fernandes, de Pais de Assunção, de Floriano Álvares, de Gonzaga de Melo e de muitos outros, incluindo famílias chinesas ricas. Da casa dos condes de Senna Fernandes, à Praia Grande, que possuía uma «varanda invejável, como já as não há em Macau, admirava-se toda a graciosidade da baía, cujo traçado curvilíneo se estendia do Fortim de S. Francisco até aos granitos do Bom Parto», recorda Henrique de Senna Fernandes(3).
Nesta artéria chique situou-se o Hotel Riviera, demolido em 1971. Era um «imponente edifício», nas palavras do Padre Teixeira, do início dos anos 80 do século XIX, então conhecido por Macao Hotel, e dirigido por Pedro Hing Kee. Senna Fernandes refere-se ao hotel como «Hotel Hing Kee», onde «bebericavam os ingleses», e no Tourist Book de Hong Kong, por volta de 1900, o hotel aparece referenciado como «Macao Hing Kee's Hotel». Um outro escritor, Emílio de San Bruno, descrevia-o assim: «Não era um Hotel de luxo, mas havia em todos os seus serviços, o conforto sólido, sadio, disciplinado e limpo do Hotel inglês. E era china o seu proprietário! Mas tão bem educado na profissão hoteleira que a sua casa faria inveja a mais de um hotel de Lisboa, mantido por lusos e galegos»(4).
Depois da morte de Pedro Hing Kee, e com nova gerência do chinês Kuan Ioc Chan, isto por volta do ano de 1923, passou a ser conhecido por New Macao Hotel. Durou poucos anos, encerrando em 1927. Foi o «empreendedor e activo comendador chinês Lou Lim Ioc»(5) que tomou a iniciativa de reabretura do hotel, então com a designação de Hotel Riviera. Lou Lim Ioc faleceria pouco depois, em Junho desse ano, não assistindo à reabertura do hotel, cujas obras de remodelação prosseguiram sob a orientação do seu irmão Loo Huen Chong. Inaugurado a 15 de Janeiro do ano seguinte, contou entre os convidados com a presença do Governador Tamagnini Barbosa e do Bispo de Macau D. José da Costa Nunes.
Quando da sua estadia em Macau, em 1927(6), Jaime do Inso(7) se intala no «renovado Hotel Riviera, cheio de conforto e bem estar», recorda, ao penetrar «no hall luxuoso e moderno do famoso hotel, o seu antecessor, «triste e frígido, de tectos rotos, solitário como um convento desmantelado». Por essa altura já a Avenida da Praia Grande se encontrava pavimentada - obras que decorreram entre 1924 e 1925 -, «desde a Rua do Campo até à Calçada do Tanque dos Mainatos»(8), como também o jardim de S. Francisco, que Senna Fernandes recorda ter sido o Passeio Público, havia já sido mutilado. «A Fortaleza de S. Francisco, de bataria descoberta, onde algumas velhas peças negrejavam, ainda, pelas ameias, tinha já sido inutilizada pelos aterros que lhe subiam pelas muralhas, e até o pitoresco jardim (...) também já tinha sofrido o carmatelo demolidor do progresso e, cortado, mutilado e devassado, perdera aquele ar de recatado retiro provinciano onde se acolhe o bom burguês a escutar as bandas marciais quando tocam nos coretos»(9).
Com os aterros da Praia Grande, na década dos trinta do século passado, perdeu-se, então, parte da encanto da baía e o Hotel Riviera, que até então se situara à beirinha do mar, viu-se bastante recuado deste.
_______________
Notas:
(1) in P. Manuel Teixeira. Toponímia de Macau. Instituto Cultural de Macau. 1997.
(2) Álvaro de Melo Machado foi Governador de Macau de 1910 a 1912; in Coisas de Macau, citado por P. Manuel Teixeira, Toponímia de Macau. Instituto Cultural de Macau. 1997.
(3) Henrique de Senna Fernandes. Nam Van. Instituto Cultural de Macau. 1997
(4) Emílio de San Bruno. O Caso da Rua Volong. Scenas da Vida Colonial. Lisboa. Tipografia do Comercio. 1928, citado por P. M. Teixeira.
(5) P. Manuel Teixeira. ob. citada. Lou Lim Ioc faleceu a 15 de Junho de 1927, antes de as obras de restauro estarem completas.
(6) Existe uma discrepância entre a data mencionada por Jaime do Inso - 1927 - e a inauguração do Hotel Riviera - 15 de Janeiro de 1928, data mencionada pelo Padre M. Teixeira.
(7) Jaime do Inso. Cenas da Vida de Macau. Instituto Cultural de Macau. 2ª edição. 1997. A primeira edição desta obra data de 1941 (Edições Cosmos, Colecção Cadernos Coloniais)
(8) P. M. Teixeira, ob. citada, p. 72-73.
(9) Jaime do Inso, ob. citada, p. 11
sexta-feira, 28 de abril de 2006
A festa do tempo em terras da China
Pregões em chinês: «Compre o ramo da sorte! O ramo da felicidade!»
Tendas de achares; barracas de frituras de peixe e de porco; sementes e frutas cristalizadas em açúcar; bolos de coco, de melaço, de feijão, de batata-doce, de gergelim; crisântemos, dálias, flor de pessegueiro.
(...)
Noite de Ano Novo chinês. Meio oculto no vão da porta, e imperturbável, o herbanário assiste ao espectáculo das ruas: homens e mulheres passando, eufóricos, com o ramo de pessegueiro erguido alto, como meninos pequenos segurando a amarra dos papagaios. Vão ao pagode apresentar oferendas, trocam presentes entre si, compram bolos pesados e enjoativos, comem e bebem, jogam jogos de azar, amam. (...) Rebentam com mais estrondo os panchões. O ar vai ficar completamente limpo à meia-noite, hora marcada para o nascimento do ano, quando o relógio da praça deixar cair solenemente as doze badaladas. Kung Hei Fat Choi - Festas Felizes!».
Maria Ondina Braga. «O Dia do Grande Frio», A China Fica ao Lado.
Macau di Tempo Antigo: a Rua da Praia Grande
«A Rua da Praia Grande era a artéria chique, onde residia a gente mais abastada do tempo. Ao cair da tarde, os dandies percorriam-na, caracolando os seus alazões ou a pé, até ao Passeio Público que era o Jardim de S. Francisco, na época, um jardim fechado e muito frondoso, cumprimentando e derriçando as donzelas que vinham de cadeirinha, acompanhadas dos papás circunspectos ou da inevitável chaperone. Ao lusco-fusco, assistia-se ao acender dos candeeiros de petróleo públicos que o encarregado fazia, subindo por uma escada que arrastava consigo, às costas. Nos dias em que a banda do regimento tocava no coreto de S. Francisco, a música chegava claramente até à varanda, à mistura com os pregões tristes dos vendilhões de canja e sopa de fitas e dos achares chineses.
Nas águas da baía, agitava-se o mundo flutuante dos juncos, das lorchas, das sampanas e dos tancares. Escutava-se a cada passo, o estralejar dos panchões, havia sempre o sonido dos gongos e o carpir duma flauta, o murmúrio dos rezos votivos para qualquer morto, perdido no mar.
Às nove horas da noite, depois do toque das almas e dos clarins de recolher do quartel, a cidade começava a dormir. A Praia Grande esvaziava-se e ficavam só os embalos do mar de encontro às pedras da muralha, o sussurro das árvores de pagode, ao sopro da viração (...)».
Henrique de Senna Fernandes, «Uma Pesca ao Largo de Macau», in Nam Van, 1997
__________________
(1) O «Palácio das Repartições», construído em 1872-74 e demolido em 1946, integrava o conjunto dos edifícios públicos situados na Praia Grande.
quinta-feira, 27 de abril de 2006
Lin Fung Miu,o templo de Lótus
O rabo do dragão
Uma outra lenda sobre a aldeia de Mong Há e os seus supersticiosos habitantes, narrada pelo Padre Teixeira(1) – citando as Curiosidades de Macau Antiga, de Gonzaga Gomes – conta que os aldeões, originários de Fók-kim, assim que se fixaram no povoado, trataram de construir um pequeno santuário, para nele prestarem culto aos seus antepassados. Sendo agricultores, esforçaram-se por lavrar as terras em volta da aldeia; contudo, a terra era ruim e nela apenas cresciam estevas e silvas. Ora, um belo dia – e aqui vem mais um milagre! – viram, no meio dos arbustos, um rabo de dragão e, logo a seguir, ouviram um tremendo rugido, a terra tremeu, ao mesmo tempo que dela saía uma negra coluna de vapor. Apavorados, os supersticiosos aldeões, entraram em pânico, maldizendo os deuses que os castigavam daquela maneira... Mas, refeitos do susto, viram, então, que a terra, no lugar onde aparecera o tal rabo de dragão, era agora negra e húmida, excelente para a agricultura. Fora este milagre, para os bons aldeões, obra do dragão. E por esse motivo passaram a designar a aldeia por Lông-T’in Tch’un, o que, traduzido para a nossa língua lusa, quer dizer «aldeia das várzeas do dragão».



























