domingo, 11 de junho de 2006

Cores do Oriente

Vila Cultural de A-Má. Coloane, 2006

Peixe seco

"Estabelecimento de Comidas Tai Un", Avenida de Almeida Ribeiro. Macau, 2006

Cores do Oriente

Rua da Felicidade. Macau, Janeiro de 2006

Taipa

Taipa, Rua de Fernão Mendes Pinto. Inverno de 2006


Coloane

Coloane. Inverno de 2006

sábado, 10 de junho de 2006

A Rua das Mariazinhas

Rua de S. Domingos (Mariazinhas). Macau, Maio de 2006

«Primitivamente, as Mariazinhas limitavam-se ao troço da Rua de S. Domingos, dum e doutro lado da artéria, que vai da embocadura da Travessa da Sé até à subida para a Calçada das Verdades, em frente ao Cinema Capitol. Hoje, o conceito alargou-se, estende-se dum lado à Rua Pedro Nolasco da Silva, a antiga Rua do Hospital, até à Travessa do P. Soares, e doutro lado até ao Largo de S. Domingos. Pode-se ainda incluir nele o conjunto de lojas e lojecas da Rua da Palha até à linda Praceta que ali existe.
As minhas recordações da Rua de S. Domingos remontam à infancia. O cenário mais antigo que se me fixou na memória é provavelmente o de estar parado diante da loja de antiguidades chinesas que se anunciava, em letras brancas num fundo azul-claro, com o nome de "Pessanha-Curious". O estabelecimento ficava onde hoje se encontra a Livraria Portuguesa, ocupando talvez uma área mais pequena.
Na porta estava um homem magro, pálido, meão de altura, feições macaenses fortemente orientais e pouco cabelo. Cumprimentou os meus pais sorridente, trocaram umas palavras e seguimos adiante. Perguntei quem era. O meu pai respondeu:
- É o filho de Camilo Pessanha.»
Henrique de Senna Fernandes. «Rua das Mariazinhas», in Mong-Há, Instituto Cultural de Macau, 1998

sexta-feira, 9 de junho de 2006

Sai Van

Lago Sai Van. Macau, Junho de 2006

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Casa de penhor

Torre prestamista (Casa de Penhores Tak Sang), na Rua 5 de Outubro. Macau, Maio de 2006

Um morcego voa
e apanha uma moeda de cobre
conduz os miseráveis para dentro da porta
O condutor é cego

Logo que um miserável entra
esconde-se por detrás do biombo
Até os seus objectos
embrulhados em folhas de um jornal já lido
são de vergonha

Entre o biombo de madeira e o balcão
entre os objectos e o recibo de penhor
os miseráveis ficam mais miseráveis

A quem interessa
outro biombo que oculte a sociedade?

Han Mu. «Casa de Penhor», in Antologia de Poetas de Macau.

Macau Património Mundial: Casa do Mandarim

«Construída em 1881, foi a residência de Zheng Guanying, importante fugura literária chinesa. Trata-se de um complexo residencial chinês tradicional, composto por várias casas com pátios interiores, revelando uma mistura de pormenores de influência chinesa e ocidental, como sejam os tijolos cinzentos, as decorações em estuque sobre as portas e as janelas com portadas cobertas com finas placas de madrepérola, de origem indiana». in «RC - Revista de Cultura», nº 15, Julho de 2005.
Encerrada temporariamente.
O Centro Histórico de Macau

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Macau di Tempo Antigo: no Bazar

Uma rua de Macau. Illustração Portugueza de 28 de Dezembro de 1908

«Tudo é alegria no Bazar, uma alegria que nos mergulha na calma tranquilidade chinesa, que nos invadem e conquista, insensivelmente, como um filtro que se absorvesse ao respirar.
A policromia das lojas; o vaivém constante duma população activa mas que desconhece precipitações; vasos de flores; os leitões assados e os patos salgados pendurados às portas, como uma tentação à voracidade dos chineses, para quem a comida é um dos maiores prazeres; as lâmpadas que começam a acender-se, como que soltando um hino à luz que os chineses adoram com verdadeira devoção pagã; a fugidias Pi-pa-t'chai que passam a caminho dos Cou-laus; todos aqueles sons do ambiente e da vida do Bazar, na atmosfera festiva do Ano Novo, vão-nos narcotizando, à mistura com o cheiro, enjoativo e doce, do ópio que anda pelo ar». Jaime do Inso, Cenas da Vida de Macau.

Bazar Grande e Bazarinho

O Bazar «era a retinta cidade chinesa de Macau», que, «partindo da raia traçada pelos Bairros do Lilau, S. Lourenço, Stº Agostinho, Largo do Senado, Monte e Stº António (...) ia desaguar, em leque, no Porto Interior»(1). Chamavam-lhe, também, Bazar Grande, para melhor se diferenciar do Bazarinho, ou Soi-Sau-Sai-Kai, como designam os chineses a Rua do Bazarinho (e que significa Rua do Marinheiro, a oeste, por forma a distinguir-se da Rua do Marinheiro, situada a sul). Esta começa junto ao Pátio da Ilusão, na Travessa do Mata-Tigre, e termina na Calçada de Eugénio Gonçalves, quase em frente à Rua das Alabardas.
No Bazar se concentrava todo o comércio, desde as lojas de quinquilharias, aos algibebes, aos ferros velhos; nele ficavam as casas de pasto ou cou-laus, as estalagens, as lojas de lotarias, as casas de fantan e as de penhor, os lupanares. «A sua população não era só constituída pelos autóctones de Macau. Havia gente oriunda das mais diversas partes da terra-china fronteiriça à cidade que ali chegava para os seus ócios e negócios (...). E não esqueçamos ainda de acrescentar que havia toda uma população flutuante e piscatória, ancorada no rio que punha pé em terra para os seus lazeres»(2).

(1) e (2) Henrique de Senna Fernandes. «Chá com Essência de Cereja», Nam Van.

«Pátio do Poeta. Só dele»

Pátio do Poeta. Macau, Maio de 2006

O sal das vozes
usurárias as palavras-pautas-palmas
Rastos de expressão os rostos
daquelas bocas de restos
Góticos os esgares
flamejantes quando esfaqueam o ar
Os dedos dados
de mãos nunca dadas
como se compassos vazios
de músicas abortadas


o cavalo alado
com a crina dos mistérios
plana
montado por omissões descodificadas
em tiras de papel qualquer
como se vozes outras
do poeta
a rasgar o tempo

João Rui Azeredo. in Antologia de Poetas de Macau.

quarta-feira, 31 de maio de 2006

Fragmentos

Macau, Abril de 2006

Fragmentos

Kun Iam Tchai. Macau, Abril de 2006

O Pequeno Kun Iam

Kun Iam Tchai. Macau, Abril de 2006

O Antigo Templo de Kun Iam, o Kun Iam Ku Miu, também designado por Pequeno Ku Iam ou Kun Iam Tchai, situado a pouca distância do Kum Iam Tong, na Avenida Coronel Mesquita, foi o primitivo templo edificado em Mong-Há em honra da Deusa da Misericórdia. Conta-se que um dia, na aldeia de Mong-Há-Tch', dois pastorinhos encontraram, a boiar nas águas do rio (que então banhava a colina de Mong-Há), uma estatueta de madeira da deusa Kun Iam. De imediato construíram-lhe um nicho, que os habitantes da aldeia transformaram depois num templo. Anexo e interligado a este, um outro templo ou capela, construído em 1908, é dedicado a Seng Vong, um deus local.
Ao invés de vasos com plantas ou flores, ou de tanques com lótus, dois enormes jamboleiros preenchem por completo o pequeno pátio do Kun Iam Ku Miu.

«Macau em Maio»

Tens a alma cheia de ipomeas
e de acácias rubras
e de chagas de melancolia nos muros velhos.

Teus longos braços novos de betão e vidro
rompem a bruma matinal
por sobre os restos da antiga beleza.

Fernanda Dias. in Antologia de Poetas de Macau.

terça-feira, 30 de maio de 2006

Estória di Maria co Alféris Juám

«Intrementes, Maria têm na jardim Sám Francisco, sentado na bánco sabroso conversá co su chistoso Juám. Di sabroso qui ta isquecê ora di vai casa comê.
Juám sã unga alféris di Bataliám (vinte cinco áno na-más), arto, ôlo grandi, cabelo marêlo-ôro, co unga bigode grosso tamêm aloraça. Já vêm di Portugal, têm na Macau dôs áno fora, não sabe falá china, nunca intendê nôsso língu maquista. Sorte qui Maria já vai escola na Convento Santa Clara, já prendê torá portuguêz pa podê papiá co su quirubim di bigode grosso.
(...)
Maria já conhecê estunga Juám têm perto cinco mês, unga domingo na adro di Sé, quelora cavá missa-tropa. Na dentro di greza, Juám olá Maria, nom-pôde largar ôlo; Maria virá cara sã ta olá acunga dôs ôlo lustro ta contemplá êle, raganhado.Tudo dôs nom-pôde uví missa bêm-fêto».
José dos Santos Ferreira (Adé)
. «Estória di Maria co Alféris Juám», Macau di Tempo Antigo (Poesia e Prosa) - Dialecto Macaense -, Edição do Autor, Macau, 1985

Vocabulário:
acunga - esse, essa, aquele, aquela.
quelora - quando; no momento em que.
cavá - depois; em seguida (Cavá vem de «acabar»)
estunga - este ou esta
greza - igreja
lustro - que tem brilho; luzidio
Olá - ver, olhar. Olá bem-fêto! - vejam bem!
Ôlo - olho
quelora - quando; no momento em que.
raganhado - arreganhado
- do verbo ser.
- do verbo estar
torá portuguêz - à letra seria «torrar o português»; diz-se da pessoa que se esforça em falar correctamente o portugês, com pronúncia afectada.

domingo, 28 de maio de 2006

Hong Kung, o deus guerreiro

Templo de Hong Kung. Macau, Maio de 2006

O sexto dia da sétima lua é o dia das festividades em honra do deus guerreiro Marechal Hong Gong (ou Hong Kung). Destemido guerreiro, viu-se certo dia em grandes dificuldades, cercado pelo inimigo, que o forçou a uma fuga através de pântanos e terrenos lodosos, onde ia deixando as suas pegadas. Contou o Marechal, nesta atribulada fuga, com a precisosa ajuda de um bando de patos que o seguiam com o único objectico de apagar as pegadas do guerreiro. Desde então, e durante as festividades em sua honra, mantém-se a interdição do consumo de carne de pato.
Situado no Largo do Pagode do Bazar, o templo de Hong Kung, também conhecido por templo do Bazar, tem ainda outra história a ele associado, segundo a qual, os moradores desta zona, então ribeirinha, teriam encontrado uma estátua de madeira do Marechal a flutuar no rio. O actual templo, posterior a esta história, data de 1860, e é dedicado, também, ao deus Hung Seng, deus dos mares, e a Hua Tuo, deus da medicina.

Jardim de Lou Lim Ieoc

Jardim de Lou Lim Ieoc. Maio de 2006

«Gosto particularmente do jardim de Lou Lim Ioc por estar situado numa parte velha da cidade e por ser, a meus olhos, um permanente e discreto milagre: afrontado já por prédios enormes que vão substituindo impiedosamente as antigas casas, no meio do tumulto do trânsito, aquele espaço como que absorve o ruído, é um local de paz e beleza».
João Aguiar
. «O Deus dos pássaros». Rio das Pérolas. Livros Oriente. pág. 27

Jardim de S. Francisco

Jardim de S. Francisco. Macau, Maio de 2006


Os chineses chamam-lhe Ka-Si-Lán-Fá-Yun, o Jardim dos Castelhanos, e o nome deriva do Convento de S. Francisco, que foi fundado pelos franciscanos castelhanos.
Foi este jardim o «Passeio Público» de Macau. Encontrava-se vedado, de dois lados, por muros, e nos extremos por balaustradas com portões que, à noite, encerravam. Desfrutava de um coreto, onde uma banda - primeiro uma banda militar, mais tarde, uma municipal - tocava ao pôr-do-sol. Era o ponto de encontro da sociedade elegante de Macau, o rendez-vous, sobretudo nos dias em que a banda tocava. Ao entardecer, chegava o encarregado, trazendo consigo uma escada, pela qual subia, para acender os candeeiros a petróleo. Encerrava, no Verão, à meia-noite, e durante o Inverno, às nove horas da noite, hora do «toque das almas» e «dos clarins de recolher do quartel», hora em que «a cidade começava a dormir» (1).
No ano de 1935 assistiu-se à destruição do coreto e à dissolução da banda municipal; nesse mesmo ano foi autorizada a construção da via pública de S. Clara, retalhando-se, para esse efeito, o jardim.

____________
(1) Henrique de Senna Fernandes, «Uma Pesca ao Largo de Macau». Nan Van. Instituto Cultural de Macau. 1997, pág. 32

«Eu chamava-a simplesmente a Árvore»

Árvore do Pagode (Ficus Microcarpa) no Jardim de S. Francisco. Macau, Maio de 2006


«Eu gostava muito da parte superior do Jardim de S. Francisco, paredes-meias com a Rua Nova à Guia. A área era mais larga que hoje, cobria a Calçada do Quartel que não existia, e estava separada da ala das residências dos oficiais, por um muro formando beco. Havia ali um jardim frondoso e bem tratado com áleas, onde se aprumavam frangipanas e bauínias entre arbustos e outra vegetação. As frangipanas davam as chamadas "flores de S. João" branco-amarelas, de cheiro capitoso. As bauínias abriam as suas flores arroxeadas ou róseas na Primavera e eram um regalo para os olhos. As champacas misturavam-se com as roseiras. Sebes de camélias e damas-da-noite dividiam os caminhos. Pairava no ar uma confusão de aromas inebriantes. De manhã à noite, desbobinava-se a sinfonia zangarreante das cigarras, em labor incansável, desmentindo a fábula conhecida. Nos bancos verdes e já veneráveis, sentavam-se os anciãos chineses que traziam, em gaiolas grandes e pequenas, algumas artisticamente ornamentadas, os seus pássaros favoritos - rouxinóis, chevites, melros, canários e outros - que trinavam à compita com a passarada livre, derramada pelas árvores. Eternamente, as borboletas saltitavam de flor em flor, à procura do pólen. (...) Por entre aquela vegetação abundante, sobressaía a maior árvore de pagode que jamais vi em Macau, à excepção da do Seminário de S. José. Eu chamava-a simplesmente a Árvore. Alta, tronco grossíssimo, bem copada, a ramaria espraiando-se largamente para o céu, a sombra hospitaleira e benigna em círculo, abrigando os passeantes da canícula ou da chuva. Em cima havia sempre chilreada dos passarinhos que construíam ninhos inacessíveis à garotada. O tronco secular tinha reentrâncias e nós que permitiam fácil escalada aos primeiros ramos. Eu costumava trepar por ele acima muito ágil e assentava-me num dos ramos gozando a altura e o panorama. (...) Mais tarde, homem feito, quando regressei de Portugal depois de uma ausência de oito anos e calhou visitar aquela parte do jardim, tudo estava praticamente irreconhecível. Existia ainda o gracioso edifício cilíndrico, mas a vegetação fora desbastada e não restava o mínimo vestígio da Árvore. Sabe-se lá porque tinha sido derrubada. Sofri um golpe doloroso na sensibilidade. Desaparecera para mim a mais nobre árvore de Macau».
Henrique de Senna Fernandes
, «Rua das Mariazinhas», Mong-Há. Instituto Cultural de Macau, 1998, págs. 75-76

sexta-feira, 26 de maio de 2006

Macau Património Mundial: Quartel dos Mouros

Quartel dos Mouros. Macau, Maio de 2006

«Este edifício foi construído, em 1874, na encosta da Colina da Barra para alojar um regimento indiano vindo de Goa para reforçar o Corpo da Polícia de Macau. Actualmente, nele está instalada a sede da Capitania dos Portos de Macau. O Quartel dos Mouros é um edifício distintamente neoclássio, com alguns elementos arquitectónicos de influência mongol». in «RC - Revista de Cultura», nº 15, Julho de 2005.

Horário: das 9:00 às 18:00 horas (Varanda)
O Centro Histórico de Macau

Cidádi di Nómi Sánto

«Nôsso Macau, nómi sánto,
Vosôtro olá!
Qui ramendá unga jardim;
Fula fresco na tudo cánto
Sã pa ispantá,
Sai semeado, nom têm fim.

Gente di Macau, na passado,
Co tánto lágri já regá
Su fula cherôso, abençoado,
Qui Dios já ajudá semeá.
No mundo assi transtornado,
Sã fazê triste coraçám
Olá gente falá cuidado,
Dessa fula muchá na chám.
(...)

José dos Santos Ferreira (Adé). Poémia di Macau.Obras Completas. Vol. IV. Fundação Macau 1996

quarta-feira, 24 de maio de 2006

A Fonte do Lilau

Largo do Lilau. Macau. Janeiro de 2006

«Quem bebe água do Lilau
Não mais esquece Macau:
Ou casa cá em Macau
Ou então volta a Macau

Lilau é nome que perdura no largo, e também, numa calçada, num beco e num pátio. Originariamente era Nilau, do cantonense Nei-lau - que significa «corrente de água do monte» -, e foi o primitivo nome da colina da Penha, designação que se manteve até à construção, em 1622, da ermida de Nossa Senhora da Penha.
Os chineses chamam-lhe o Poço da Avó (ou da Antepassada), designação particularmente interessante, já que o poço, ou fonte, localizava-se muito perto do
templo de A-Má, ou Tin Hau, a Rainha Celestial, e A-Má, ou Má-chou, é o nome que, curiosamente, se atribui à Avó paterna, a primeira antepassada. Tal como o poço da Avó ou de Má-chou, a Antepassada, que é também a Rainha do Céu, simbolizando a união entre o Céu e a Terra, o nome de Nilau ou Nei-lau, se afigura, igualmente, como a união entre o monte e a água, ou seja, das águas que escorrem dos montes, das nuvens e do céu e se juntam à Terra.

Os nomes das ruas

Rua dos Bem Casados. Taipa. Janeiro de 2006

«Os nomes dessas ruas desvendam aos nossos olhos, ávidos de curiosidade, as imensas perspectivas etnográficas, etnológicas e folclóricas de duas raças, numa simbiose quadrissecular, assombram-nos com o seu ineditismo, abrem-nos os portais dos seus templos e pagodes, introduzem-nos na sua culinária, no seu comércio e indústria, revelam-nos certos tipos de costumes, a etnografia das águas, a Bica do Lilau, as fontes da Inveja e da Solidão, a fauna e a flora, os pregões populares, as velhas lendas, a hagiografia católica e o panteão budista, a Senhora da Piedade e a Kun Yam - "deusa da misericórdia", vivendo lado a lado, num diálogo interessante, numa coexistência pacífica».
P. Manuel Teixeira na Explicação Prévia à obra Toponímia de Macau.

Macau Património Mundial: Largo do Lilau

Largo do Lilau. Macau. Janeiro de 2006


«Os depósitos de água subterrânea da zona do Lilau constituíam a principal fonte de água natural em Macau. A popular frase "Aquele que beber da água do Lilau, jamais esquecerá Macau" expressa bem a ligação nostálgica dos habitantes com o Largo. Esta área corresponde a um dos primeiros bairrros residenciais portugueses em Macau». in RC - Revista de Cultura, nº 15, Julho de 2005

terça-feira, 23 de maio de 2006

Má-Káu-Seak, o Rochedo do Cavalo no Coito

Macau Seac foi o nome de uma via, que hoje é conhecida por Avenida do Almirante Magalhães Correia, na Areia Preta, entre a Estrada da Areia Preta e a Rua dos Pescadores. Uma outra via pública, para os lados da Bela Vista, teve, em tempos, também essa designação (1). Diz-nos o Padre Teixeira que Má-Káu-Seak significa «Rochedo do Cavalo no Coito», «pois essa pedra tinha a forma de dois cavalos a cobrir-se um ao outro; ficava na Areia Preta, sendo destruída há vários anos, durante os trabalhos das Obras dos Portos» (2).
Também Almerindo Lessa (3) se refere a este rochedo, designando-o por «Rochedo do Dragão-Cavalo»: «diminuto, áspero e sem base, pois é sustentado por três pequenos blocos de pedra, que têm sido conservados até hoje, alisados pelas vagas do mar.»
Este rochedo do «Dragão-Cavalo» ou do «Cavalo no Coito», Má-Káu-Seak, há muito desaparecido e sepultado debaixo dos aterros, deu azo a que se lhe atribuísse a origem do nome de Macau (4), hipótese actualmente posta de lado, prevalecendo «a que nos dá Mateus Ricci dizendo que os mandarins deram licença aos portugueses de se fixar na península de Macau, dove era venerata una pagoda, che chiamano Ama. Per questo chiamavam quel louogo Amacao (...)» (5). Almerindo Lessa diz que os chineses dão a Macau, entre outros, o nome de Ou-Mun ou «Porta da Baía», sendo este o mais corrente. De outras designações que lhe são atribuídas, salienta-se a de Sap-Tchi-Mun ou «Porta em forma da letra dez», nome curioso que deriva do facto de existirem quatro ilhas ao sul da baía, separadas umas das outras por forma a criarem a imagem da letra sap (dez).
____________________
(1) O nome Ma Kau Seak persiste hoje numa travessa, entre a Av. do Dr. Francisco Vieira Machado e a Rua dos Pescadores.
(2) Padre Manuel Teixeira. Toponímia de Macau, tomo 1, págs. 38-39
(3) Almerindo Lessa, citado por P. M. Teixeira.
(4) Em Sino-Portuguese Trade from 1514-1644: a Synthesis of Portuguese and Chinese Sources, 1934, T'ien-Tsê-Chang atribui o nome de Macau ao famoso rochedo «chamado Má-chião (...) ou Ma-Kao em cantonês».
(5) Padre Manuel Teixeira, ob. citada. pág. 39

segunda-feira, 22 de maio de 2006

Leal Senado

Edifício do Leal Senado. Macau. Maio de 2006

O Padre Manuel Teixeira, na sua Toponímia de Macau, recorda o primitivo edifício, datado de cerca de 1584, que tinha anexo o tronco ou cadeia, razão pela qual se denominaram as vias públicas situadas junto ao Leal Senado de Calçada do Tronco Velho e Rua da Cadeia (1). O edifício actual, construído em 1783-84, «ficou tão danificado pelo tufão de 1874, que foi necessário reconstruí-lo», reconstrução que lhe trouxe grandes melhoramentos. Foi novamente restaurado em 1940, quando das comemorações do Duplo Centenário da Fundação e Restauração de Portugal, tendo decorrido a inauguração a 2 de Junho desse ano, «data em que foi benzida a Capela da sua Padroeira, N. Sra. da Conceição; está, ainda, nesta Capela, a estátua de S. João Baptista, que também é padroeiro da cidade» (in Padre M. Teixeira, Toponímia de Macau, tomo 1, pags. 62 e 63).

(1) Actualmente designada por Rua do Dr. Soares. José Caetano Soares (1887-1963), médico-militar até 1916, data em passa a exercer a direcção do Hospital de S. Rafael, da Santa Casa da Misericórdia.

sexta-feira, 19 de maio de 2006

Igreja de S. Lourenço

Igreja de São Lourenço. Macau. Maio de 2006

Ao certo, não se sabe a data da sua construção, mas o Padre M. Teixeira, citando Frei José de Jesus Maria – Asia Sínica e Japónica -, diz que a igreja foi erecta entre 1558 e 1560, referindo-se à construção desta igreja, à de Stº António e à de S. Lázaro, «em o seguinte anno de 1558 até o de 60». Se foi ou não construída nesse período de tempo, não se sabe. Mas já existia em 1576, pois dela escreve um padre jesuíta ao Geral da Companhia: «(...) chamao os nossos cõ cãpaqinha pola cidade, & se faz a doutrina christãa, & se fazem alguas exortações, e isto assi na nossa igreja como na outra q, he de S. Lço. Martir, cõcorre mta.».
Sobre a igreja de S. Lourenço escreve M. Hugo Brunt (1), professor de arquitectura da universidade de Hong Kong:«A diferença principal que a distingue de qualquer outra igreja de Macau reside no volume da nave e na completa ausência de naves laterais. Possui o tecto mais extenso e ininterrupto entre as mais antigas igrejas de Macau. O edifício salienta-se também por quatro elementos dominantes. A entrada apresenta um aspecto fortemente ocidental, formado por duas torres quadradas contendo o campanário e juntando-se à nave dum e doutro lado. O Altar-mor está colocado numa capela absidal, na linha central da composição; existem ainda duas capelas absidais formando assim uma fraca luz latina à esquerda e à direita da nave». (in Toponímia de Macau, tomo 1, pags. 92-93)

1) «The Parish Church of St. Lawrence at Macao», Journal of Oriental Studies, Volume VI, 1961-1964-Number 1 and 2. University of Hong Kong.

Macau Património Mundial: Igreja de S. Lourenço

Igreja de São Lourenço. Macau. Maio de 2006


«Construída pelos jesuítas em meados do século XVI, é uma das igrejas mais antigas de Macau. O seu presente aspecto é o resultado das obras efectuadas em 1846. Situada no litoral sul da cidade, na sua escadaria principal, na época com vista directa sobre o mar, costumavam reunir-se as famílias dos marinheiros aguardando o seu regresso, razão pela qual lhe foi dado o nome de Feng Shun Tang (Igreja dos Ventos de Navegação Calma). De estrutura neoclássica com um subtil tratamento decorativo de inspiração barroca, a sua escala e riqueza arquitectónica refletem a riqueza do bairro onde se inseria». in «RC - Revista de Cultura», nº 15, Julho de 2005.

Horário: das 10:00 às 16:00 horas (acesso pela Rua da Imprensa Nacional)
O Centro Histórico de Macau

quinta-feira, 18 de maio de 2006

Macau Património Mundial: Leal Senado

Edifício do Leal Senado. Macau. Maio de 2006


«Construído em 1784, este edifício albergou a primeira Câmara Municipal de Macau, função que ainda mantém. O nome "Leal Senado" deriva do título "Cidade do Nome de Deus de Macau, Não Há Outra Mais Leal" atribuído à cidade por D. João IV, em 1645. O Edifício do Leal Senado, de estilo neoclássico, conserva ainda as paredes-mestras e o traçado arquitectónico originais, incluindo o jardim situado no pátio traseiro.
No interior do edifício, no primeiro andar, além de um salão nobre que dá acesso a uma exuberante biblioteca em madeira ricamente decorada, ao estilo da biblioteca do Convento de Mafra (Portugal), existe ainda uma pequena capela». in «RC - Revista de Cultura», nº 15, Julho de 2005

Horário: Galeria - das 9:00 às 21:00 (encerra à segunda-feira); Jardim - das 9:00 às 21:00
O Centro Histórico de Macau

quarta-feira, 17 de maio de 2006

Templo da Barra


O verde dos bambus mais altos é azul
ou então é o céu que pousa nos seus ramos.

Eugénio de Andrade. Pequeno Caderno do Oriente.

Macau Património Mundial: Templo de A-Má

Templo de A-Má. Macau, Janeiro de 2006


«Anterior ao estabelecimento da cidade de Macau, o Templo de A-Má é composto pelo Pavilhão do Pórtico, o Arco Memorial, o Pavilhão de Orações, o Pavilhão da Benevolência, o Pavilhão de Guanyin e o Pavilhão Budista Zengjiao Chanlin. Estes vários pavilhões, dedicados à veneração de diferentes divindades, formam um complexo único, o que faz do Templo de A-Má um caso exemplar da cultura chinesa inspirada pelo Confucionismo, Tauismo, Budismo e por múltiplas crenças populares». in «RC - Revista de Cultura», nº 15, Julho 2005.

Horário: das 7:00 às 18:00
O Centro Histórico de Macau

segunda-feira, 15 de maio de 2006

Jardim de Lou Lim Ieoc

Frangipana no jardim de Lou Lim Ieoc. Maio de 2006


Se andava no jardim,
Que cheiro de jasmim!
Tão branca do luar!
(...)
A hora do jardim...
O aroma de jasmim...
A onda do luar...

Camilo Pessanha. Clepsydra.

Macau di Tempo Antigo: o Porto Interior

Porto Interior. Illustação Portugueza de 14 de Dezembro de 1908

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Largo do Pagode do Bazar

Largo do Pagode do Bazar. Macau. Maio de 2006

quinta-feira, 11 de maio de 2006

Chunambeiro

«Xinamo, Chunname, ou Chunambo. Cal obtida pela calcinação de conchas de mariscos. O motivo de admissão do termo indiano é que a cal da Ásia se faz de outro material. O étimo é o malaiala Chunambra, relacionado com o neo-arcaico chunã, sanscrito churna. É de chunambo que deriva a palavra Chunambeiro, empregada em Macau para designar o antigo local, próximo da fortaleza de Bom Parto, no extremo sul da baía da Praia Grande. Nesse local havia antigamente fornos de cal de ostras, e também foi o local da antiga fundição de artilharia e a casa da pólvora organizada pelo célebre Manuel Tavares Bocarro, no século XVII» C.R. Boxer, Azia Sinica e Japonica.
A construção do aterro do Chunambeiro data de 1871; em 1873, iniciou-se a extensão da rua da Praia Grande, desde o aterro do Chunambeiro até ao Bom Parto. Até então, o percurso da povoação da Barra à Praia Grande fazia-se através da colina de Santa Sancha, um dos sítios mais isolados da cidade, onde existiam apenas algumas casas de campo.

San Má Lou

Avenida de Almeida Ribeiro (San Má Lou). Macau. Maio de 2006


Rasgada em 1915, a Avenida de Almeida Ribeiro - nome do ministro das colónias, que na altura sancionou a verba para a expropriação das casas e para a abertura da avenida - começa na Praia Grande, onde esta avenida cruza com a do Infante D. Henrique, e termina no Porto Interior, em frente à Ponte-Cais nº 16, na Rua do Visconde de Paço de Arcos. Os chineses designam-na por San Má Lou, a «avenida nova», «estrada nova» ou «caminho novo para os cavalos».
N
esta avenida, que veio cortar a zona do bazar chinês, vieram instalar-se os mais luxuosos hotéis e os melhores estabelecimentos comerciais, sobretudo as joalharias.

terça-feira, 9 de maio de 2006

O dragão embriagado

No templo de Sam Kai Vui Kun ou Kuan Tai. Maio de 2006


Dia de festa, este 5 de Maio: foram as festividades do banho do Buda, foi a festa do dragão embriagado no templo de Sam Kai Vui Kun, ali junto ao Mercado de S. Domingos. E foram as festividades de Tam Kung, em Coloane.
A festa do Tchoi-Long, o dragão embriagado, que se realiza no oitavo dia do quarto mês lunar, está associada a uma lenda.
Segundo essa lenda, Buda terá esquartejado o dragão enquanto este se banhava num rio; mais tarde, a cabeça e a cauda do dragão seriam encontradas por um pescador embriagado, que, por mais buscas que fizesse, nunca chegou a encontrar o resto do corpo do animal. Nesta festividade, que se deveria chamar do «pescador embriagado», e não do dragão, pois este nem uma pinga terá bebido, os pescadores, estes sim, embriagados, percorrem algumas ruas de Macau transportando apenas a cabeça e a cauda do dragão, numa animada dança em busca do corpo do dragão.
O templo de Kuan Tai, que se situa numa das ruas de acesso ao mercado de São Domingos (Rua Sul do Mercado de São Domingos), é um pequeno templo, construído em 1750 e restaurado por diversas ocasiões, também conhecido por Sam Kai Vui Kun, pois foi sede da associação Sam Kai – ou das três ruas: dos Mercadores, das Estalagens e dos Ervanários -, a associação mais antiga de Macau. No espaço que defronta o templo, normalmente ocupado por bancos e vedado para impedir o estacionamento de motorizadas, montou-se um palco onde, uma enorme azáfama se manteve ao longo do dia, sobretudo por parte das mulheres, em volta de enormes tabuleiros de comida. Duas enormes filas de pessoas aguardavam a distribuição da parte do repasto que lhes cabia. Uma espécie de bodo, como nas nossas festas do espírito santo, só que aqui não se come no local, cada qual leva a sua parte da refeição, em embalagens próprias.

terça-feira, 2 de maio de 2006

Viola Chinesa

Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a parlenda
Sem que amadornado eu atenda
A lenga-lenga fastidiosa

Sem que o meu coração se prenda,
Enquanto nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda.

Mas que cicatriz melindrosa
Há nele que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?

Ao longo da viola, morosa...

Camilo Pessanha. Clepsydra.

domingo, 30 de abril de 2006

«O chique era a missa das onze horas»

«No Largo [da Sé], todo rodeado de casas assobradadas, ainda adormecidas, escutavam-se os primeiros pregões do vendedor de pão fresco e o encarregado da iluminação pública apagava os últimos candeeiros de petróleo. Havia poucos madrugadores na missa. Só algumas mulheres de do, correndo as contas do rosário ou debruçadas sobre o confessionário, e ainda grupos que iriam passar o domingo em piqueniques, na terra-china, ou à Praia da Boa Vista, à Areia Preta, ou à Praia de Cacilhas, famosa pela transparência das suas águas. O chique era a missa das onze horas e depois o passeio à Rua Central onde os mouro-mouros tinham os seus estabelecimentos, pejados das últimas novidades da moda, e dali se descia a Calçada de Stº. Agostinho, mais conhecida pela Travessa das Onze Horas, para a Praia Grande».
Henrique de Senna Fernandes
. «Uma Pesca ao Largo de Macau». Nam Van.

Macau di tempo Antigo: «A sahida da missa»

«A sahida da missa». Fotografia da Illustração Portugueza de 28 de Dezembro de 1908.

Macau di Tempo Antigo: Clube Militar

«Clube Militar». Fotografia da Illustração Portugueza de 14 de Dezembro de 1908

Macau di Tempo Antigo: a Praia Grande

«Correios e Hotel Macau». Fotografia da Illustração Portugueza de 14 de Dezembro de 1908

A Praia Grande

A Praia Grande, que foi a avenida marginal de Macau, desde a Calçada do Bom Jesus até à Estrada de S. Francisco, é, em conjunto com a Avenida da República, património de Macau.

Os sucessivos aterros afastaram-na do mar, e se hoje é marginal deve-se aos dois lagos artificiais que aí foram construídos.
Quando, em 1831, Macau foi devastado por um violento tufão, que causou grandes estragos na cidade e na «principal praia chamada - grande - como das partes juntas», propôs, então, o Senado, que na Praia Grande se alargasse «mais o dito caminho para o mar». Em 1857, escrevia o autor do diário de viagem da embarcação americana Sara N. Snow: «o lugar do desembarque é uma praia ou baía e a rua que corre ao longo num oitavo de milha é muito linda, mas sem uma só árvore e o sol do meio dia era calcinante»(1). Não sei quando lhe colocaram as árvores, nem o Padre Teixeira o informa, mas chama a atenção para uma pintura de Chinnery datada de 1830 - «A Praia Grande Vista do Norte» - onde se erguem frondosas árvores por detrás de algumas casas. Árvores que lá existiam em 1869, quando um tufão as arrancou. Nesse mesmo ano, foi construído um aterro que estendeu a Praia Grande até ao Bom-Parto, enquanto a actual Avenida da República, seria construída no início do século XX.
Por volta de 1910, escrevia Álvaro de Melo Machado, então governador de Macau: «Está-se na avenida da praia grande, a curva naturalmente graciosa como poucas, que a bordo se avistou. A rua é larga; de um lado contornada por uma muralha contínua, onde as ondas vêm bater salpicando as árvores desenvolvidas e frondosas que a acompanham, e do outro por uma longa fila de casario onde se destacam a residência do Governador, o edifício das repartições públicas e algumas casas de arquitectura chinesa.(...) A cidade tem aqui um aspecto muito diferente. Acabou a aglomeração de gente e desapareceram as lojas e os toldos sujos; apenas alguns peões passam descuidadamente, um ou outro vendedor circula procurando atrair as atenções dos moradores ocultos e os jerinkshas particulares, puxados a dois culis em trajos coloridos, rodam silenciosamente e ligeiros no leito macio da avenida plana»(2).
Na praia grande situavam-se as mansões mais elegantes - dos condes de Senna Fernandes, de Pais de Assunção, de Floriano Álvares, de Gonzaga de Melo e de muitos outros, incluindo famílias chinesas ricas. Da casa dos condes de Senna Fernandes, à Praia Grande, que possuía uma «varanda invejável, como já as não há em Macau, admirava-se toda a graciosidade da baía, cujo traçado curvilíneo se estendia do Fortim de S. Francisco até aos granitos do Bom Parto», recorda Henrique de Senna Fernandes(3).
Nesta artéria chique situou-se o Hotel Riviera, demolido em 1971. Era um «imponente edifício», nas palavras do Padre Teixeira, do início dos anos 80 do século XIX, então conhecido por Macao Hotel, e dirigido por Pedro Hing Kee. Senna Fernandes refere-se ao hotel como «Hotel Hing Kee», onde «bebericavam os ingleses», e no Tourist Book de Hong Kong, por volta de 1900, o hotel aparece referenciado como «Macao Hing Kee's Hotel». Um outro escritor, Emílio de San Bruno, descrevia-o assim: «Não era um Hotel de luxo, mas havia em todos os seus serviços, o conforto sólido, sadio, disciplinado e limpo do Hotel inglês. E era china o seu proprietário! Mas tão bem educado na profissão hoteleira que a sua casa faria inveja a mais de um hotel de Lisboa, mantido por lusos e galegos»(4).
Depois da morte de Pedro Hing Kee, e com nova gerência do chinês Kuan Ioc Chan, isto por volta do ano de 1923, passou a ser conhecido por New Macao Hotel. Durou poucos anos, encerrando em 1927. Foi o «empreendedor e activo comendador chinês Lou Lim Ioc»(5) que tomou a iniciativa de reabretura do hotel, então com a designação de Hotel Riviera. Lou Lim Ioc faleceria pouco depois, em Junho desse ano, não assistindo à reabertura do hotel, cujas obras de remodelação prosseguiram sob a orientação do seu irmão Loo Huen Chong. Inaugurado a 15 de Janeiro do ano seguinte, contou entre os convidados com a presença do Governador Tamagnini Barbosa e do Bispo de Macau D. José da Costa Nunes.
Quando da sua estadia em Macau, em 1927(6), Jaime do Inso(7) se intala no «renovado Hotel Riviera, cheio de conforto e bem estar», recorda, ao penetrar «no hall luxuoso e moderno do famoso hotel, o seu antecessor, «triste e frígido, de tectos rotos, solitário como um convento desmantelado». Por essa altura já a Avenida da Praia Grande se encontrava pavimentada - obras que decorreram entre 1924 e 1925 -, «desde a Rua do Campo até à Calçada do Tanque dos Mainatos»(8), como também o jardim de S. Francisco, que Senna Fernandes recorda ter sido o Passeio Público, havia já sido mutilado. «A Fortaleza de S. Francisco, de bataria descoberta, onde algumas velhas peças negrejavam, ainda, pelas ameias, tinha já sido inutilizada pelos aterros que lhe subiam pelas muralhas, e até o pitoresco jardim (...) também já tinha sofrido o carmatelo demolidor do progresso e, cortado, mutilado e devassado, perdera aquele ar de recatado retiro provinciano onde se acolhe o bom burguês a escutar as bandas marciais quando tocam nos coretos»(9).
Com os aterros da Praia Grande, na década dos trinta do século passado, perdeu-se, então, parte da encanto da baía e o Hotel Riviera, que até então se situara à beirinha do mar, viu-se bastante recuado deste.

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Notas:
(1) in P. Manuel Teixeira. Toponímia de Macau. Instituto Cultural de Macau. 1997.
(2) Álvaro de Melo Machado foi Governador de Macau de 1910 a 1912; in Coisas de Macau, citado por P. Manuel Teixeira, Toponímia de Macau. Instituto Cultural de Macau. 1997.
(3) Henrique de Senna Fernandes. Nam Van. Instituto Cultural de Macau. 1997
(4) Emílio de San Bruno. O Caso da Rua Volong. Scenas da Vida Colonial. Lisboa. Tipografia do Comercio. 1928, citado por P. M. Teixeira.
(5) P. Manuel Teixeira. ob. citada. Lou Lim Ioc faleceu a 15 de Junho de 1927, antes de as obras de restauro estarem completas.
(6) Existe uma discrepância entre a data mencionada por Jaime do Inso - 1927 - e a inauguração do Hotel Riviera - 15 de Janeiro de 1928, data mencionada pelo Padre M. Teixeira.
(7) Jaime do Inso. Cenas da Vida de Macau. Instituto Cultural de Macau. 2ª edição. 1997. A primeira edição desta obra data de 1941 (Edições Cosmos, Colecção Cadernos Coloniais)
(8) P. M. Teixeira, ob. citada, p. 72-73.
(9) Jaime do Inso, ob. citada, p. 11

sexta-feira, 28 de abril de 2006

A festa do tempo em terras da China

«A festa do tempo em terras da China. A Lua, que contou os dias e os meses, marca enfim a data, e o ano vai nascer. Toda a gente sai para a rua. Estalam panchões para afastar os demónios e purificar o ar. É o primeiro dia da semana comemorativa da criação do mundo.
Pregões em chinês: «Compre o ramo da sorte! O ramo da felicidade!»
Tendas de achares; barracas de frituras de peixe e de porco; sementes e frutas cristalizadas em açúcar; bolos de coco, de melaço, de feijão, de batata-doce, de gergelim; crisântemos, dálias, flor de pessegueiro.
(...)
Noite de Ano Novo chinês. Meio oculto no vão da porta, e imperturbável, o herbanário assiste ao espectáculo das ruas: homens e mulheres passando, eufóricos, com o ramo de pessegueiro erguido alto, como meninos pequenos segurando a amarra dos papagaios. Vão ao pagode apresentar oferendas, trocam presentes entre si, compram bolos pesados e enjoativos, comem e bebem, jogam jogos de azar, amam. (...) Rebentam com mais estrondo os panchões. O ar vai ficar completamente limpo à meia-noite, hora marcada para o nascimento do ano, quando o relógio da praça deixar cair solenemente as doze badaladas. Kung Hei Fat Choi - Festas Felizes!
».
Maria Ondina Braga
. «O Dia do Grande Frio», A China Fica ao Lado.

Macau di Tempo Antigo: a Rua da Praia Grande

«Palacio das Repartições»(1). Fotografia da Illustração Portugueza de 14 de Dezembro de 1908


«A Rua da Praia Grande era a artéria chique, onde residia a gente mais abastada do tempo. Ao cair da tarde, os dandies percorriam-na, caracolando os seus alazões ou a pé, até ao Passeio Público que era o Jardim de S. Francisco, na época, um jardim fechado e muito frondoso, cumprimentando e derriçando as donzelas que vinham de cadeirinha, acompanhadas dos papás circunspectos ou da inevitável chaperone. Ao lusco-fusco, assistia-se ao acender dos candeeiros de petróleo públicos que o encarregado fazia, subindo por uma escada que arrastava consigo, às costas. Nos dias em que a banda do regimento tocava no coreto de S. Francisco, a música chegava claramente até à varanda, à mistura com os pregões tristes dos vendilhões de canja e sopa de fitas e dos achares chineses.
Nas águas da baía, agitava-se o mundo flutuante dos juncos, das lorchas, das sampanas e dos tancares. Escutava-se a cada passo, o estralejar dos panchões, havia sempre o sonido dos gongos e o carpir duma flauta, o murmúrio dos rezos votivos para qualquer morto, perdido no mar.
Às nove horas da noite, depois do toque das almas e dos clarins de recolher do quartel, a cidade começava a dormir. A Praia Grande esvaziava-se e ficavam só os embalos do mar de encontro às pedras da muralha, o sussurro das árvores de pagode, ao sopro da viração (...)».
Henrique de Senna Fernandes, «Uma Pesca ao Largo de Macau», in Nam Van, 1997

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(1) O «Palácio das Repartições», construído em 1872-74 e demolido em 1946, integrava o conjunto dos edifícios públicos situados na Praia Grande.

Macau di tempo antigo: a Praia Grande

«Palacio do Governo». Fotografia publicada na Illustração Portugueza de 28 de Dezembro de 1908.

quinta-feira, 27 de abril de 2006

Lin Fung Miu,o templo de Lótus

Templo de Lótus (Lin Fung Miu). Macau. Abril de 2006
Interior do corpo principal do templo, dedicado a Tin Hau, a Rainha Celestial, cuja imagem, que se encontra no altar principal, está protegiada por dois guerreiros armados.

O rabo do dragão

Templo de Lótus ( Lin Fung Miu). Macau. Abril de 2006


Uma outra lenda sobre a aldeia de Mong Há e os seus supersticiosos habitantes, narrada pelo Padre Teixeira(1) – citando as Curiosidades de Macau Antiga, de Gonzaga Gomes – conta que os aldeões, originários de Fók-kim, assim que se fixaram no povoado, trataram de construir um pequeno santuário, para nele prestarem culto aos seus antepassados. Sendo agricultores, esforçaram-se por lavrar as terras em volta da aldeia; contudo, a terra era ruim e nela apenas cresciam estevas e silvas. Ora, um belo dia – e aqui vem mais um milagre! – viram, no meio dos arbustos, um rabo de dragão e, logo a seguir, ouviram um tremendo rugido, a terra tremeu, ao mesmo tempo que dela saía uma negra coluna de vapor. Apavorados, os supersticiosos aldeões, entraram em pânico, maldizendo os deuses que os castigavam daquela maneira... Mas, refeitos do susto, viram, então, que a terra, no lugar onde aparecera o tal rabo de dragão, era agora negra e húmida, excelente para a agricultura. Fora este milagre, para os bons aldeões, obra do dragão. E por esse motivo passaram a designar a aldeia por Lông-T’in Tch’un, o que, traduzido para a nossa língua lusa, quer dizer «aldeia das várzeas do dragão».

(1) Padre Manuel Teixeira. Toponímia de Macau. Instituto Cultural de Macau. 1997