quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Quadros de Macau: Fausto Sampaio e Jaime do Inso (3)

Porto Interior. Macau, 1936

"(...) desdobra-se um curiosíssimo aglomerado de casario, a parte central e mais comercial de Macau, junto do Porto Interior, ao fundo do qual se avista a ilha da Lapa e a imensidão da terra china.
Este retalho garrido da policromia tão característica das terras portuguesas constitui uma verdadeira nota de arte puramente nacional, jóia perdida naquele Oriente onde os grandes centros europeus e cosmopolitas oferecem um conjunto de tonalidades bem diferentes, banais e sombrias, onde falta a alegria das cores de Macau".
Rua 5 de Outubro. Macau, 1936

"A Rua 5 de Outubro é o coração  do bairro china de Macau, onde ressalta, com extraordinário brilho, todo o pitoresco desconcertante da vida chinesa das ruas, alacre de cores, com as suas casas de tabuletas características que são um dos atractivos que nos enfeitiçam nos meandros do Bazar" 
Rua no Bazar. Macau, 1936

"As varandas das janelas, com vasos de flores, que os chineses tanto apreciam, um jerinxá ao sol, tudo mergulhado num dia de esplêndida luz, constitui um singular documentário da vida chinesa onde há muito que observar e aprender.
O quadro da velha Rua do Bazar, como que nos transporta a um outro mundo, o mundo chinês de antanho - é um documentário precioso, pode dizer-se, uma relíquia de Macau". 
 
Avenida Almeida Ribeiro à noite. Macau, 1937

"Finalmente, vamos parar ante um quadro (...) que representa um aspecto nocturno daquilo a que podemos chamar a Baixa de Macau, num canto de luz e de prazer.
É estupenda de interpretação e de verdade chinesa!
Só um artista da sensibilidade de Fausto Sampaio, que soube sorver, aspirar e dar-nos em notas de cor estes cambiantes do mistério da China, poderia apresentar-nos a realidade nocturna deste grande, do maior coulau de Macau.
A nossa necessidade e sensação de prazer da luz, comparadas com iguais fenómenos passados com os chineses, podem representar-se pelo confronto estabelecido entre a claridade duma vela acesa e duma luz de incandescência, e encontra-se bem patente nesta tela pela intensidade luminosa que se concentra naquele bocado de passeio - e só assim se satisfaz aquela verdadeira adoração que os chineses tributam à luz.
Das janelas dos andares emerge luz do interior, por toda a parte há muita luz - pois se até os telhados dos coulaus os chineses chegam a iluminar! - e deste delírio de luz com que eles - os epicuristas - sabem tingir o prazer evolam-se as notas arrastadas, doloridas, das cantigas das pi-pa-t'chai...
Noites da China, noites de Macau..."

Excertos de uma conferência de Jaime do Inso, publicada em livro com o título Quadros de Macau, sobre a pintura de Fausto Sampaio dedicada a Macau. 
Texto retirado de Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo III. ICM, 1996

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Quadros de Macau: Fausto Sampaio e Jaime do Inso (2)

Cais do Porto com chuva. Macau, 1936

"(...) Cais do porto com chuva, onde se vê um interessante tipo de barco fluvial chinês - um flower boat, ou barco de flores - uma novidade que não existia há dez anos no Porto de Macau mas tradicional no Porto de Cantão, onde se encontravam, às dezenas, formando um verdadeiro bairro aquático de prazer, cujo acesso aos europeus nem sempre era livre de escolhos. 
Dentro daqueles barcos  era um cenário de fantasia, daquela fantasia que a gente aqui sonha que seja tudo na China e que tanta desilusão nos acarreta quando lá chegamos; uma fantasia mergulhada num mar de luz - da luz tão querida dos chineses - em sedas brilhantes, em cores garridas, em decorações vermelhas e doiradas, lanternas, música e pi-pa-t'chai galantes que servem aos chineses para dissipar as agruras da vida (...) "


Lorchas e Tancares. Macau, 1937

" (...) São uns barcos típicos (as lorchas), estranhos, que à primeira vista parecem andar para trás, de excelentes qualidades náuticas, onde os mestres chinas realizam prodígios de manobra, e que imprimem uma nota muito típica e de extraordinário interesse artístico à paisagem marítima de Macau.
As lorchas constituem uma indelével nota nostálgica da China, principalmente para quem lá passou a vida no mar."


Excertos de uma conferência de Jaime do Inso, publicada em livro com o título Quadros de Macau, sobre a pintura de Fausto Sampaio dedicada a Macau. 
Texto retirado de Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo III. ICM, 1996

Quadros de Macau: Fausto Sampaio e Jaime do Inso (1)

Entrada do Pagode da Barra. Macau, 1936

Porta da Lua no Pagode da Barra. Macau, 1936

Interior do Pagode da Barra. Macau, 1936

"(...) Sob o ponto de vista artístico, Macau não só é diferente das nossas colónias europeias, pela originalidade única do seu ambiente, como até das restantes colónias europeias na China, onde falta a pátina do tempo, o sugestivo da lenda e da tradição.
Está neste caso o famoso Pagode da Barra, ou Ma-Kok-Miu, aqui representado em três soberbas telas (...) que é como um símbolo, um brasão, um ex-líbris, de Macau.
Ao Pagode da Barra, interessantíssimo espécime de arquitectura chinesa, que se nos apresenta como um polo oposto de crenças e civilizações, em confronto com as majestosas ruínas de S. Paulo, o mais imponente monumento da fé cristã em todo o Oriente, ao Pagode da Barra está ligada a curiosa lenda da deusa A-Ma - uma das encarnações, chamemos-lhe assim, da deusa da Misericórdia, a criação mais humana e doce das crenças chinesas.
É curta a lenda e, por certo, muitos a conhecem. 
(...) 
 O Pagode da Barra foi construído, ao que parece, na época dos Mings - entre os séculos XIV e XVII - em sítio muito pitoresco, e é revestido, tanto interior como exteriormente, de magníficas ornamentações, pinturas representando cenas da vida chinesa e inscrições sínicas, embelezamentos para os quais contribuíram artistas célebres entre os quais se citam: Ho tam Sham, Kuan Lou Hin, Su Lok P'ang, etc.
Os telhados deste pagode, que serviu de inspiração e foi reproduzido na tela por vários artistas europeus, são duma magnificente beleza.
Dele disse o falecido Dr. Silva Mendes, que à China e a Macau dedicou entranhado culto: "É a residência ideal de todo aquele que aspire a viver com a Natureza, com a poesia, com os deuses...".
(...)
Assim se explica porque o Pagode da Barra, ou Ma-Kok-Miu, se encontra representado nesta exposição, em três quadros (...). Ali se observam as duas lorchas gravadas a cores, nas rochas que servem de alicerce, por assim dizer, a uma parte daquela construção, e que simbolizam a lendária interferência da deusa A-Ma na origem do santuário".

Excertos de uma conferência de Jaime do Inso, publicada em livro com o título Quadros de Macau, sobre a pintura de Fausto Sampaio dedicada a Macau. 
Texto retirado de Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo III. ICM, 1996

Fausto Sampaio

Catálogo da Exposição de Pintura de Fausto Sampaio na Sociedade de Belas Artes, em Lisboa, 1939


Catálogo da Exposição Fausto Sampaio (1893-1956): Viagens no Oriente. 
Lisboa, Fundação Oriente, 2009


"(...) As suas impressões oscilavam entre as grandes panorâmicas da cidade e o enfoque de estreitas ruas ou monumentos importantes, entre o longínquo e o próximo, entre uma espacialidade bem determinada e a proximidade de um plano que captava o instantâneo de um momento, assinando estes seus trabalhos com um pincel chinês e "tornando memória viva o desconhecido, normalmente envolto em particularidades estranhas e diferenciadas emoções, numa visão variada do Oriente. Grandes panorâmicas da cidade e aspectos do porto de Macau, numa dimensão bem proporcionada, envoltas por uma atmosfera rarefeita e uma particular  sensibilidade de suaves tonalidades azuladas, tal como na Vista da Praia Grande, imagens muito próximas de clichés fotográficos pela visão alargada da paisagem, mas diferenciada da fotografia pelos matizes cromáticos e efeitos de luz, de outro modo estudados em Manhã nevoenta, de impressões subjectivadas em brumas, quase monocromáticas.
Em Macau produz intensamente e regista uma "odisseia citadina" no ritmo movimentado das "ruas, becos e escadinhas em que inúmeros estabelecimentos ostentavam tabuletas com complicados  caracteres chineses, as casas de chá, as centenas de tendas, nas ruas, onde se preparavam deliciosas iguarias de cozinha tradicional, os curandeiros e as típicas farmácias, os leitores de sina, os escribas, peritos em transcrever em belos caracteres as missivas dos clientes, as casas de Fan-tan, os fumatórios de ópio, a gente do mar, que nascia, vivia e morria nos airosos juncos (...)".
"O Beco das Galinhas, a Rua 5 de Outubro, a Rua do Bazar, a Avenida de Almeida Ribeiro à noite e as imagens do Pagode da Barra revelam a preocupação pelos valores da luz e da cor, de tal modo que, mais importante que a representação, importa ao artista exprimir-se através da pincelada e das manchas de cor, afastando-se da hábil exactidão que já explorara, especialmente no retrato de encomenda e na representação de uma ideia colonial. Uma luz brilhante, explosões de cor e uma espécie de impressionismo e uma marcação expressionista, por vezes com fortes pinceladas curvilíneas e gestuais, provavelmente influenciadas pela observação de obras chinesas, como nos labirínticos traços negros da ramagem das árvores do pagode da Barra."

Sala de Jogo de Fan Tan. Macau, 1937 

" (...) Aspectos diferenciados, entre Tancareiras, retratos anónimos de figuras serenas de bairros de pescadores, pormenorizadamente descritas, Lorchas e Tancares, Cais do Porto com chuva, onde se avista o "bairro aquático de prazer (...) fantasia mergulhada num mar de luz", também uma movimentada cena no porto, de ilustrativos quotidianos, e ainda uma sala de jogo expõem a  diversidade dos aspectos tratados em Macau. Neste Fan Tan, algumas figuras, calvas e de uma inexpressividade própria de jogadores, em fantasmagóricos jogos de luz, representam um poderoso e dinâmico mundo, observado numa visão crítica." 
Excertos do texto de Maria Aires Silveira para o catálogo da exposição "Fausto Sampaio (1893-1956). Viagens no Oriente". Fundação Oriente, Lisboa, Maio de 2009

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Rua da Palmeira


A Rua da Palmeira engalanada durante as festas em honra de Tou Tei, em Março de 2011


Artéria estreita e comprida, a Rua da Palmeira começa junto da Travessa da Saudade e da Calçada das Sortes e termina no ainda denominado Largo do Pagode do Patane, em frente ao Tou Tei Miu ou templo dos Deuses Locais. O largo, há muito desaparecido, mantém-se contudo na toponímia da cidade no nome da artéria que liga a Rua da Pedra e a da Palmeira à Rua da Ribeira do Patane. 

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Thomas Allom




Thomas Allom (1804-1872): (1) "The Pria Grande, Macao", (2) "Facade of the Great Temple at Macao", (3)"Chapel in the Great Temple, Macao", (4) "Macao, from the Forts of Heang-Shan". 


"Nascido em Londres, Thomas Allom foi arquitecto, ilustrador das empresas Virtue & Co. e Heath & Co., autor de várias obras literárias e "artista topográfico", tendo estagiado no atelier de Sir Francis Goodwin. Foi também membro fundador do Royal Institute of British Architects, colaborou com Sir Carles Barry nos planos arquitectónicos do edifício do Parlamento inglês e expôs na Royal Academy of Arts, tornando-se conhecido pelos seus trabalhos topográficos utilizados para ilustrar narrativas de viagens. Sendo Allom um viajante ávido, não se sabe ao certo quando e como (ou se) terá visitado o Extremo Oriente, tendo "bebido influências" nas obras de William Alexander e de Augusto Borget, relativamente a este último no que diz respeito às paisagens do Templo da Barra e de Macau vista das fortalezas de Heang-Shan. Esta mesma semelhança dá origem à teoria de que Allom nunca visitara a China. O artista ilustra o texto China Illustrated, its Scenery, Architecture, Social Habits, Etc. (1845, prefácio de 1843) do reverendo George Neweham Wright, publicado pouco depois da primeira Guerra do Ópio. Das obras do ilustrador, destacam-se "The Pr(a)ia Grande, Macao", "Façade of the Great Temple, Macao", "Chapel in the Great Temple, Macao", "Macao, from the Forts of Heang-Shan", "Dinner Party at a Mandarin's House", "Festival of the Dragon-Boat, 5th Day of the 5th Moon" e "China Opium Smokers" em China Illustrated (1843-1847), entre outras paisagens de Cantão e diversas localidades chinesas. Thomas Allom viria a falecer em Barnes, decorria o ano de 1872."
Texto de Rogério Miguel Puga in Ditema - Dicionário Temático de Macau. Vol. I, Universidade de Macau, 2010.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Vistas aéreas de Macau








Bilhetes Postais Ilustrados editados por Sanyutang, Ltd. (Hong Kong).  
As fotografias são de Wong Wai Hong.

Embora editados em 1992 (os 4 primeiros) e em 1995 (os 3 restantes), as fotografias são anteriores a essas datas. Provavelmente dos finais dos anos 80 ou início dos anos 90. Os lagos - Nam Van e Sai Van - ainda não tinham sido construídos (só foram projectados em 1991). A ponte da Amizade foi inaugurada em 1994 e na fotografia (penúltimo postal) é visível o início da sua construção, que ocorreu em Junho de 1990. Quanto ao aeroporto, só foi inaugurado em Novembro de 1995.


sábado, 24 de setembro de 2011

Casa do Mandarim






Casa do Mandarim. Setembro de 2011

Foi a residência de Zeng Guanying (1842-1921) e terá sido construída na segunda metade do século XIX. É a Casa do Mandarim, que ocupa uma área com cerca  de 4 mil metros quadrados. O conjunto residencial é "composto por um edifício de entrada, pátios, casas para serviçais e a área residencial propriamente dita".
Predominantemente chinês, o conjunto de edifícios apresenta, contudo, influências ocidentais bem como indianas, nomeadamente no uso das placas de madrepérola nas janelas. 

domingo, 11 de setembro de 2011

Redes de pesca em Nam Van

Redes de Pesca. Nam Vam. 1982
Fotografia de Fong Chi Fung do catálogo da exposição Ontem para Sempre.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Fong Chi Fung, fotógrafo de Macau

Número de Circo. 1962

Tendinha de Comidas ao ar livre. Dai Pai Dong. 1967
in Ontem para Sempre. Fotografias de Macau por Fong Chi Fung.

Fong Chi Fung (1935-2008), galardoado com o título de "Artista Fotógrafo",  foi membro da Sociedade de Fotografia de Macau, da Royal Photographic Society of Britain, da Photographic Society of Kowloon, do International Salon of the Photographic Society of Wilmington, nos Estados Unidos, e membro da Sociedade de Fotografia de Shenzhen, na China. Professor na Escola Primária da Ilha Verde e, mais tarde, na Escola Secundária dos Filhos dos Operários, decidiu, nos anos 60, aprender fotografia de modo a registar as actividades dos estudantes, criando um vasto arquivo fotográfico. "Fascinado pela fotografia, no início dos anos 60 do séc. XX, Fong Chi Fung tornou-se membro da Sociedade de Fotografia de Macau, aprendendo, posteriormente, a revelação, impressão e técnicas fotográficas. Dedicou-se a esta arte, fazendo da fotografia a sua companheira de vida. A maioria dos 4 mil rolos tem Macau como cenário, sendo os primeiros trabalhos do mestre basicamente realistas. Para além das fotografias tiradas aos alunos da Workers' Children High School (Escola Secundária dos Filhos dos Operários), onde ele próprio foi professor, a lente de Fong captou o nascer e o pôr do sol, as ruas e vielas, a baía ou os aterros entre muitos e muitos temas". in Catálogo da Exposição Ontem para Sempre. Fotografias de Macau por Fong Chi Fung.

Pescador de Margem

Ah quem me dera
estar aí
ter um rio
só para mim
Lentamente
armar a rede
e içar a esperança
Firme
sem estar em terra
Estendido na água
sem andar à deriva
E viver!
De costas voltadas
como tu

Fernando Sales Lopes. Pescador de Margem. Livros Oriente. 1997

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

"Entrara num já raro mong-yu de pescador de margem"


"Deambulando pela marginal da Praia Grande, entre casas e rio, desperta-me a curiosidade uma tosca cabana com as traseiras para a rua e assente em estacas bons cinco metros acima da água. Como resistirá aos tufões, assim frágil, aquela estranha construção que um ventinho mais impetuoso parece capaz de derrubar?
O velho chinês que ali vive deixa-me entrar. Que cheiro a peixe e que confusão!... Tabuleiros de plástico, cestos de bambu, roupa, cordas, baldes - tudo a esmo. Numa gaiola saltita um pássaro. Uma panela fumega num fogãozito a petróleo, cozinhando-se sabe-se lá que esquisito alimento. À cabeceira da cama, retratos antigos de gente sisuda. A um canto, um altarzinho com uma divindade qualquer.
Entrara - como me informarão mais tarde - num já raro mong-yu de pescador de margem, todo aberto para a barrenta amplidão do rio, onde a ilha da Taipa se dilui à distância.
Uma sólida prancha também escorada em estacas alonga-se sobre a calma superfície líquida, com uma avantajada rede suspensa na extremidade. Através de uma roldana, o velho chinês faz descer a rede com lentidão. A técnica consiste em deixar o lado esquerdo um pouco acima do nível da água. Ao tocarem na rede, os peixes voltam para trás, provocando leves ondulações que alertam o velho. Então, do interior da cabana, ele iça a grande rede gotejante, manobrando a roldana à força de braços. Depois trota ligeiro pela prancha e, com uma rede mais pequena, retira os peixes debatidiços. (...)"
Altino do Tojal. "O Pescador", in Histórias de Macau, Edição Novosmeios, 1991



"Uma sólida prancha também escorada em estacas alonga-se sobre a calma superfície líquida, com uma avantajada rede suspensa na extremidade".
Pesca com rede quadrada na Praia do Bom Parto. 
Fotografia de José Neves Catela (anos 30-40 do século XX) do catálogo da exposição Macau, Memórias Reveladas, Museu de Arte de Macau, 2001

quarta-feira, 20 de julho de 2011

"Derradeiro Refúgio"

 Calçada Central de São Lázaro. 1945
 Praça de Lobo d'Ávila, na Praia Grande, 1945
 Rua da Prata, 1945
Capela de São Tiago, 1945

George Smirnoff. Porto Seguro. Museu de Arte de Macau


"(...)
- Cem anos depois do inglês George Chinnery, veio parar a Macau um russo chamado George Smirnoff, George Vitalievitch Smirnoff. Nascido em Vladivostok em 1903, fugiu com a mãe para a Manchúria, aos doze anos de idade, para escapar à revolução que destruiria a Rússia dos czares. Veio a guerra sino-japonesa, iniciada, como sabe, com a invasão nipónica da Manchúria, e George Smirnoff refugiou-se no norte da China. Aí pintou as suas primeiras aguarelas. Mas as tropas japonesas avançavam e ele fugiu para Hong Kong. Em 1941 os japoneses ocuparam Hong Kong e o pobre russo escapou-se para Macau. Meu pai, que o conheceu bem, dizia-me que ele era uma figura triste, solitária. Para sobreviver dava lições de desenho e aguarela. Produziu uma enorme colecção de aguarelas, que estão hoje quase todas no museu Luís de Camões. Não há recanto de Macau daqueles tempos que George Smirnoff não tivesse pintado. Trabalhava febrilmente. Depois da guerra, em 1947, lançou-se duma janela alta para a rua. Contava apenas quarenta e quatro anos.
- Esse salto foi o seu último refúgio - comentei.
Alberto Kuan concordou gravemente:
- Bem se pode dizer que foi. George Smirnoff tinha uma solidão gelada dentro dele, a solidão do desterrado. Minha filha diz que os russos têm uma sensibilidade especial e sofrem mais do que a outra gente quando longe do seu país. Smirnoff sofria decerto mais agudamente ainda, porque era artista, um artista faminto. A suacvida aqui foi de solidão e de fome. A fome dele amansou-a algumas vezes meu pai com umas tigelas de arroz. Como lhe disse, meu pai conhecia-o bem e chegaram a ser amigos. Meu pai fazia sabão, um sabão grosseiro, e vendia-o de porta em porta. Nunca me contou como nasceu a amizade com o russo, mas ela existiu e foi sólida. Um dia, George Smirnoff presenteou meu pai com uma aguarela, confidenciando-lhe que era o seu trabalho mais conseguido. Meu pai guardou-a sem ligar muito, pois era um pobre chinês sem luzes e nada percebia de arte. Uma semana depois o russo atirou-se da janela. A partir daí meu pai sentiu um respeito muito grande pela aguarela. Em criança surpreendi-o mais de uma vez ajoelhado diante dela, batendo cabeça, como aqui se diz, que é o mesmo que curvar-se perante imagens sagradas. À hora da morte recomendou-me que nunca me desfizesse daquela aguarela, porque era o grito dum amigo do peito. Ele disse mesmo assim: "o grito". Vou mostrar-lhe agora a aguarela de George Smirnoff.
O meu anfitrião ausentou-se e voltou pouco depois. Estendeu-me com extremos cuidados uma aguarela. Também eu, com extremos cuidados, lhe peguei.
Era uma ruela de casas sórdidas, feita de pinceladas sombrias. As janelas eram avermelhadas, como se dentro lavrassem incêndios. Da janela mais alta precipitava-se um corpo de fumo, esguio, de braços abertos, como se pretendesse voar, ideia transmitida de forma tão sugestiva que cortava a respiração. Mas o mais impressionante era a cabeça. Destacava-se, desgrenhada, desmesuradamente grande, e os olhos arregalados pareciam entranhar-se avidamente nos meus.
- Como se em mim vissem a Rússia... - surpreendi-me a murmurar.
- George Smirnoff  pintou esta aguarela poucos dias antes do suícidio, pelo que bem pode dizer-se que antecipou artisticamente, com o pincel, a sua própria morte - disse Alberto Kuan. - Os museus e os coleccionadores particulares desconhecem a existência duma tal relíquia. Porque é uma relíquia... Por dinheiro nenhum a venderia, fosse a quem fosse. Quando eu morrer, ficará para minha filha, que é uma rapariga sensata e - aiá!... - sabe mais de pintura do que eu e tem mesmo uma certa habilidade para o desenho (...)"
Altino do Tojal. "Derradeiro Refúgio", in Histórias de Macau. Editora Novosmeios, 1991



Pátio da casa onde residiu George Smirnoff na Rua da Prata. 1945.

Em Macau, tal como muitos outros refugiados, Smirnoff permaneceu alojado no Hotel Bela Vista até se estabelecer na Rua (Pátio ?) das Seis Casas, mudando-se, depois, para a Rua da Prata, "rua que o artista pintaria em duas aguarelas e um pátio, o seu próprio". Com formação em Arquitectura, Smirnoff era exímio no desenho e as suas pinturas, sobretudo de edifícios e igrejas de Macau, retratam o ambiente da cidade nos anos 40 do século passado. Foi seu patrono o Dr. Pedro Lobo, líder da comunidade portuguesa e grande mecenas das artes, que lhe encomendou várias pinturas, que foram depois doadas à Secção Artística e Etnográfica do Museu Comercial e Etnográfico de Macau (que mais tarde, em 1960, passa a designar-se Museu Luís de Camões).

sábado, 16 de julho de 2011

Pátio da Pomba

Pátio da Pomba, junto à Calçada das Verdades. Macau, Julho de 2011


Pátio da Pomba

Que mensagem nos traz no peito
que céus
que canto
que migalhas?

Arrulha
semicerra os olhos
às verdades que ali caíram
e se esticaram pela Calçada

Nada traz
nem tem que trazer
basta-lhe ser pomba.

João Rui Azeredo. Pátio das Palavras. Edições Mar-Oceano. Macau,1995


Pequena nota biográfica de João Rui Azeredo inserida na Antologia de Poetas de Macau (1999):
"Nasceu em Moçambique, a 13 de Dezembro de 1955.
Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, é docente do ensino secundário desde 1979.
Em Macau, onde residiu entre 1988 e 1997, foi sendo editada a sua obra poética de que Pátio das Palavras é o terceiro título, depois de Salpikos, 1992,com ilustrações do pintor Jorge Costa, iniciada com PoeMacau, editado por Livros do Oriente.
É autor de algumas letras e músicas interpretadas pelo grupo musical A Outra Banda.
Tem colaborado com artigos diversos na revista Macau e fez parte da Comissão Organizadora do I Encontro de Poetas de Macau, realizado em 1994"

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Loja encerrada

No Mercado de S. Domingos: tendinha de venda de artigos de culto encerrada durante os feriados do Ano Novo Lunar. Fevereiro de 2011
Macau sã assi...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Traços Impressionistas de Macau

"(...) as nobres ruínas de S. Paulo que, duma eminência, um memento moris, dominam, entre tantas coisas risonhas e belas, a cidade." (Bella Sidney Woolf)

Panorama da cidade de Macau, incluindo ruínas de S. Paulo e Fortaleza do Monte. 
Cerca de 1930.
in João Loureiro. Postais Antigos de Macau.



Bella Sidney Woolf (1)
Traços Impressionistas de Macau 


"Terras há que se impõem à nossa atenção por certa feição particular. Macau acha-se neste caso, - com o exotismo que a caracteriza. Além disso, Macau sugere-nos a acção de todos esses velhos navegadores portugueses por mares desconhecidos, como o grande Vasco da Gama. A Inglaterra é também uma nação de navegadores e esta circunstância leva-nos a sentir que um elo nos prende a eles. E quanto de interessante há em ver, em mais dum ponto do Extremo Oriente, associados, com os vestígios e as recordações dos seus feitos, aos nossos compatriotas, os velhos nautas lusitanos! A dentro da sua baía, como nas colinas que a cercam, - Macau tem mantido apesar do seu exotismo um puro espírito português que ao longo dos séculos tem conservado inalteravelmente os seus traços. Assim, ao percorrer as suas ruas, numa breve visita, os meus olhos pousando nas frontarias das casas, de graciosas taboínhas verdes corridas sobre as janelas, me ocorreu este velho dizer: Il ne change pas de pays celui qui voit toujours le soleil."
Os portugueses fizeram de Macau, tão cheia de sol, uma pequena réplica da sua pátria. E a verdade é que é deveras admirável que, a poucas horas de jornada, se possa encontrar naquelas colónia um ambiente completamente diverso. Macau vibra de sonoros nomes portugueses; são os das ruas, ao longo das quais fizemos algumas milhas, a Praia Grande, Estrada de Flora, rua de S. Lourenço; e as denominações de certas instituições, como a Escola de Artes e Ofícios, o Orfanato da Imaculada Conceição, a Santa Casa da Misericórdia. A despeito da vizinhança do vasto país que é a China, a que geograficamente está ligada, - Macau não perdeu nenhuma das suas características rigidamente portuguesas, tanto que hoje, como à data da sua fundação, isto é, há quatro séculos aproximadamente, - não deixa de ser uma colónia em absoluto portuguesa. Os confortáveis salões do palácio, onde o Governador e a sua esposa (2) nos fazem uma recepção amável e cortês, - ainda mais avivam, na nossa imaginação, a encantadora sugestão dos países do sul da Europa. Sobre o brunido pavimento em mosaico dessas salas, decoradas de mobília dourada e de velhos brocados, - homens e mulheres, que, pelos nomes que usam, representam algumas das famílias mais ilustras de Portugal, passam conversando na sua língua de sonoro timbre - espectáculo este que tem o que quer que seja dum estranho e fascinante sonho.
Sonho que prossegue... cá fora, ao percorrer-se as ruas, ao observar-se o admirável panorama que proporciona a Praia Grande, sob cujas frondes, ao longo de esbeltas avenidas, muitos moços de barba negra passeiam a par de raparigas de negros olhos; e ao visitar as nobres ruínas de S. Paulo que, duma eminência, um memento moris, dominam, entre tantas coisas risonhas e belas, a cidade. De resto, esplêndidos hotéis, escolas, hospitais, estabelecimentos de comércio. Tudo isto vão vendo os nossos olhos, até que chegamos a um jardim de recolhido aspecto, onde as árvores dizem uma venerável velhice, de longos ramos frondosos. Diante de nós está o busto de Camões, o grande cantor dos Lusíadas, que, neste local, longe dos seus, na solidão, compôs aquele poema mundialmente famoso. Da árvore que ensombra o monumento mão amiga ofereceu-me então uma vagem contendo umas sementes castanhas, luzidias, a que os botânicos, na sua peculiar indiferença, pela beleza, dão o nome de Sterculia Lanceolata ...
Para mim, - que me importa? - representa Macau, - a leal cidade, que através dos tempos brilha, forte e altiva como o génio dos homens que a fundaram.
Bella Sidney Woolf. "Traços Impressionistas de Macau", in Boletim Geral das Colónias,  nº 53, Vol. V, 1929.


______________________________
(1) Autora de diversas obras, tais como The Twins in Ceylon (1909) e  How to See Ceylon (1914),  Bella Sidney Woolf (Lady Bella Southorn) - irmã de Leonard Woolf -  era casada com Wilfril Thomas Southorn que, de 1925 a 1936, desempenhou funções de Secretário do Governo da Colónia de Hong Kong.
(2) Artur Tamagnini Barbosa, no seu segundo mandato (1926-1931) e Maria Ana Acciaioli Tamagnini.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Chácara ou Vila Leitão

"A Vila Leitão"
Fotógrafo não identificado, 1908
in Illustração Portugueza de 14 de Dezembro de 1908


Ficava situada junto da Estrada de Cacilhas e era propriedade de Francisco Filipe Leitão.
Chácara é sinónimo de quinta, casa de campo ou chalet. Era "o nome atribuído às propriedades que a elite macaense possuía nas ilhas junto a Macau, como a Ilha da Montanha. Aparentemente não davam qualquer rendimento, serviam apenas para descanso e divertimento. Um documento do Leal Senado de 19 de Julho de 1690 faz referência a um problema relativo às estâncias de António Mesquita Pimentel, Catharina de Vargas e dos Padres de Santo Agostinho. (...) A palavra estância pode também aparecer sob a forma de chácara. Contudo, esta designação provém do Brasil, através do étimo do dialecto quíchua chacra." (in DITEMA - Dicionário Temático de Macau, vol, 1, 2010)

Wenceslau de Moraes: O Ano Novo

"Adultos e jovens junto a uma banca de coloridos peixes-dourados".
Fotografia de José Neves Catela (cerca de 1930-40) do catálogo da exposição
Macau - Memórias Reveladas. Museu de Arte de Macau, 2001



O Ano Novo

"Temos festa hoje, aqui. Acaba o ano velho, começa o ano novo. Mas não vão imaginar que seja do ano novo de que rezam os nossos calendários, a comemoração; tal comemoração, aqui, no fim do mundo, no seio desta colónia nostálgica, passa insípida, quase sem alvoroços íntimos de família, limitada à troca banal - troca sem cedilha e com cedilha - de algumas dúzias de bilhetes de visita, com as competentes boas-festas escritas, da pragmática. Trata-se do ano lunar que finda, do ano lunar que principia, o ano chinês enfim, a ampulheta que marca para o povo amarelo as suas horas de existência; vamos entrar no ano XXII do reinado de sua majestade imperial celestial, Kuang-Su."

*

"Temos festa hoje, aqui. A alma chinesa manifesta-se, evidencia-se, domina, hoje; ofusca, pela grande maioria dos rabichos, o pálido reflexo da civilização do Ocidente que logrou chegar a este Macau, a este exíguo penedo asiático, onde Portugal implantou a sua bandeira.
Meia noite. Ao meu obscuro albergue, chega, de além dos bazares, o ruído da bombardada amotinadora dos foguetes, e das mil e mil embarcações fundeadas no porto o clamor ovante das bátegas, vibradas pelas mãos rudes das companhas. Que irá lá por esses bazares, a esta horas, santo Deus!... Eu não me arredo do meu canto. Bem sei que a febre das massas sugestiona, contamina todos. Bem sei que não se dorme hoje; que não há chapéu de coco de amanuense ou kepi de militar, direi mesmo chapelinho de pelúcia com laçarotes de cetim e o seu competente pássaro empalhado, de menina, que não vá correr as vielas, perder-se na onda, confundir-se com os rabichos, gozar com eles. Mas está tanto frio, e as bagas de água zurzem-me tão desapiadamente os vidros das janelas... E, pior do que isto, é o frio da alma, é a apatia enervante do meu espírito, é o sorriso amargo que me enruga os lábios, provocado por esse mesmo jubilo do enxame, que aqui me retêm e me impedem de também ir galhofar.
Não, decididamente não serei da festa. Imagino-a daqui. Imagino essas ruas lamacentas, coalhadas de povo sujo, com as cabais negras ensopadas dos chuviscos; e imagino os lumes tremeluzentes das lanternas de papel, acendendo nas poças, pelo reflexo... grandes labaredas efémeras, ziguezagueando. As lojas estão escancaradas ao público; frutos, flores, doces, carniças, bonecos, coisas santas, estendem-se pelos caminhos em prodigiosas teorias, em coloridos quase estonteantes; e é comprar, e comprar já, porque não tarda em romper o glorioso dia de descanso, o único na China em que o camponês, o artífice,  o vendilhão, todos, cruzam os braços, não trabalham; e nem a peso de ouro se encontraria um linguado, uma caixa de fósforos, qualquer ínfimo objecto nos mercados. As espeluncas de jogo, em galas desusadas, oferecem-se, tentam a onda; e até pelas ruas o tabuleiro de azar se estende ao passeante. Que pechincha, se se apanha para a festa um acréscimo de pecúlio não esperado! O china adora o jogo - era preciso que ele adorasse alguma coisa! - mas hoje todos jogam, todos são chinas, e é isto um exemplo interessante da influência sugestiva das grandes maiorias; a mão mais circunspecta de funcionário, a mão mais mimosa de dama (de nhônha, em dialecto vulgar desta colónia) avançam sem pejo, arriscam à sorte vária umas pratinhas...
Quando bate meia noite; quando, junto do altar dos penates, se curvaram em piedosas adorações milhares de cabeças agradecidas, e se queimaram papéis místicos, e se acederam pivetes odoríficos; quando em plena rua um brado de aleluia os ecos acordou; dirige-se então a onda humana para o lar, já mercas feitas, já bolsas esvaziadas; e vai surgir um grande dia votado inteiro ao descanso, votado à glorificação dos deuses, cuja magnânima assistência se exalta pelas graças concedidas e pelas graças que vão esperar-se!...
(...)"
*

"Para o ano novo, tudo se prepara com antecedência, em prodigiosa azáfama; é para todos uma ocupação incessante e desusada, durante as últimas semanas do ano que vai findar. Lavam-se os covis, lavam-se as pobres mobílias. É o pó de um ano que se sacode, é a lama de um ano que se deita fora, é o piolho e é a pulga de um ano que se afogam na onda das barrelas; porque, durante os labores de cada dia, nunca a ideia de limpeza preocupou os espíritos durante um só instante.
 (...)
Conceda-se pois, por excepção, a este bom povo celestial, o capricho de lavar uma vez cada ano o antro onde se abriga. Depois, é ver a faina de colar pelas paredes, pelas portas, pelas janelas, papéis de bela cor escarlate, com negras inscrições cabalísticas, que são votos de ventura e de riqueza, que são preces aos deuses. E chega a ocasião de se adornarem os altares, de se irem comprar junquilhos em flor, que se dispõem em vasos gentis com água e seixos alvos, e assim vão enfeitar os aposentos, levando o viço e o perfume, por um dia, aos negrumes das alcovas. No meio do complicado rito das usanças, algumas práticas enternecedoras, de ingenuidade primitiva, interessam o curioso. Reparem por exemplo nas enormes celhas expostas pelos mercados, onde enxames de pequeninos peixes negros, carpas barbudas, estrebucham na gota de água do improvisado cativeiro; o povo compra-as, e vai lançá-las em seguida nas ribeiras, gozando na acção do resgate, por certo grata aos deuses, e que redundará em benefícios..."

Wenceslau de Moraes. "O Ano Novo".  Paisagens da China e do Japão. Lisboa, Livraria Editora Viúva Tavares Cardoso, 1906


terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O Corpo de Bombeiros de Macau

Edifício do Museu dos Bombeiros na Estrada Coelho do Amaral. 
Macau, Janeiro de 2011

Data de 1883 o primeiro Regulamento dos Serviços de Incêndio de Macau. E, embora a história dos Bombeiros de Macau comece, oficialmente, a 2 de Maio de 1883 com a criação do referido regulamento, existiam já serviços de incêndios que, tal como descreve Gonzaga Gomes no seu texto "Os Primitivos Bombeiros de Macau", eram prestados pelos próprios moradores, bem como pelo pessoal das fábricas e lojas. Existiam lugares próprios para guardar o material então existente de combate aos incêndios e o  pessoal afecto aos serviços de incêndios era recompensado com "um leitão assado e dois almudes da melhor aguardente chinesa".
Em 1851, já existia a figura de inspector de incêndios que dirigia as operações de combate aos incêndios; existia, também, uma bomba no quartel do Batalhão de Artilharia de S. Francisco e encontravam-se já estabelecidos os sinais de aviso de incêndio, dado por dois tiros de canhão, na Fortaleza do Monte. A bomba seria transferida, em 1874, para o Convento de S. Domingos em cujo edifício se instalou a Inspecção de Incêndios em 1883.
O Regulamento dos Serviços de Incêndio (publicado a 10 de Agosto de 1883) deu início à criação de um serviço organizado. Instalado no Convento de S. Domingos e constituído por um corpo activo de 60 pessoas, os serviços de incêndio possuíam quatro bombas, duas em Macau, uma na Taipa e a outra em Coloane. Num edital de 15 de Março de 1875, determinava-se a implementação de várias medidas, entre elas a identificação das casas que possuíssem poço, através da colocação de uma tabuleta com a palavra poço em chinês, a seguir a um P.
Em 1909, já existiam postos de incêndios junto das estações da Polícia, nomeadamente, na Rua da Caldeira, em Santo António e em Mong Há.
Em 1914, é publicado o Regulamento Orgânico da Direcção das Obras Públicas, cujo director exercia também, desde 1901, o cargo de Inspector de Incêndios. Contudo, em 1915, os serviços de incêndios são desvinculados das Obras Públicas e a sua reorganização fica a cabo do Major de Infantaria João Carlos Craveiro Lopes, sendo os elementos do Corpo dos Bombeiros recrutados entre os voluntários para a Polícia.
Em 1916, existiam em Macau três estações, estando a Estação nº 1 (Central) localizada em S. Domingos, e as outras duas na Avenida do Almirante Sérgio (Estação nº2) e Avenida Horta e Costa (Estação nº3).  A Taipa e Coloane possuíam os seus Postos de Incêndio.
O Regulamento Orgânico do Corpo dos Bombeiros é aprovado em Abril de 1919 e definidos os objectivos da corporação: prevenção e socorro de incêndios, desastres e calamidades; lavagens sanitárias e regas da cidade; execução de serviços em que fosse necessária a utilização do material da corporação.
Em 1920 é aprovado o projecto para a construção de novas instalações na Estrada Coelho do Amaral, cujo quartel seria inaugurado oficialmente a 3 de Outubro de 1923. Nesse ano de 1923 passou a designar-se por Corpo de Salvação Pública, saindo da dependência do Leal Senado (os serviços da cidade de Macau) e da Câmara Municipal das Ilhas (serviços da Taipa e Coloane) para regressar à dependência do Governo da Província.


Museu dos Bombeiros - Sala Principal
Logótipo dos Bombeiros Municipais de Macau e 
viatura de fabrico inglês, marca Denis de 1949: pronto socorro com bomba e escada.

Em 1939, o Corpo de Salvação Pública passa a ser uma corporação militarizada, transitando novamente, em 1946, para a tutela do Leal Senado (sem a brigada sanitária) e designando-se Corpo de Bombeiros Municipais.
A 1 de Janeiro de 1976, são criadas as Forças de Segurança de Macau que passaram a incluir o Corpo dos Bombeiros.

Na década de 1990, o edifício do Corpo dos Bombeiros - construído em 1920 e oficialmente inaugurado em 1923 - foi remodelado para nele se instalar o espaço museológico dedicado aos Bombeiros de Macau. Inaugurado em Dezembro de 1999, ocupa uma área de 350 m2, repartido por duas salas. Possui duas bombas manuais de fabrico chinês - de 1884 e 1908 -, uma bomba de fabrico inglês de 1877, duas viaturas de fabrico inglês, dos anos 50, bem como diversos objectos de grande interesse, para além fotografias, logótipos e bandeiras da Corporação, maquetes e manequins. O edifício do Museu encontra-se classificado como "edifício de interesse arquitectónico".




Fontes:
Anabela Nunes Monteiro. "Corpo de Bombeiros". Ditema. Dicionário Temático de Macau, Vol. 1, 2010
João Azeredo. "À Conquista do Fogo". in revista Macau de Maio de 1995.
Corpo de Bombeiros: http://www.fsm.gov.mo/cb/portugues/UntitledFrameset-22.htm

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Macau de Henrique de Senna Fernandes: Largo de S. Domingos

"Banca de um velho adivinho chinês, que ainda sem clientes descansa despreocupadamente". 
Fotografia de José Neves Catela (cerca de 1930-40) do catálogo da exposição
Macau. Memórias Reveladas. Museu de Arte de Macau, 2001


"(...) O Largo de S. Domingos, além de pertencer ao meu caminho para a Escola Primária, também me entretinha. Por baixo das suas arcadas, alinhavam-se os cegos adivinhos que "cantavam" a sina e os escribas que respondiam às cartas dos clientes analfabetos, depois de longas conversas. Eram letrados e escreviam os caracteres sínicos com elegância, possuídos duma caligrafia impecável, segundo os entendidos. Ainda se vêem hoje, nos lugares tradicionais, mas em número muito reduzido.
No Largo, estava instalada a Livraria Po Man Lau, à esquina para a Travessa de S. Domingos, ponto de paragem praticamente obrigatória para todo o aluno da Primária, o que a Livraria Progresso, à Rua do Campo, representava para o Liceu.
A Po Man Lau, mais papelaria que livraria, vendia livros para o ensino primário, como o Livro de Leitura de Ulysses Machado, da 1.ª à 4.ª classe, a Gramática do mesmo autor, a Geografia de Figueirinhas, a História de Portugal, de Jaime Séguier, a Tabuada e o Sistema Métrico, e uma obra muito interessante para os estudantes do último ano, denominada Coisas Geográficas, de cujo autor não me recordo o nome. (...)".
Henrique de Senna Fernandes. "Rua das Mariazinhas". in Mong-Há. Instituto Cultural de Macau, 1998

Macau de Henrique de Senna Fernandes: A loja do A-Chai na Rua da Palha


"(...) Na Rua da Palha, quase na embocadura para a Rua de S. Domingos, abria-se a popular loja do A-Chai que satisfazia fielmente a freguesia macaense, no domínio do paladar e da lambarice desta.
Vendia balichão, peixe esmargal e limão de Timor tratado, todos de fina qualidade, condimentos imprescindíveis para acompanhar as iguarias de Macau. O café de Timor, em grão ou em pó, cujo aroma embriagava. Latas de perada e goiabada e potes de barro do doce da camalenga (abóbora), de confecção caseira.
Manhã cedo, aglomerava-se um pequeno ajuntamento à espera dos tabuleiros de chilicotes, uma especialidade da casa, que vinham estaladiços e quentinhos directamente do forno e se esgotavam num abrir e fechar de olhos. Chegavam também rissóis e pães recheados, mas não tinham a voga dos chilicotes. Também vendia gostosa bolacha-manteiga, doce ou salgada, mas eu sempre preferi a que se vendia na Padaria Vo-Long, à Rua do Campo. O que a minha glutonice apreciava e tem saudades de crescer a água na boca, era do pão-de-casa, fofo e doirado, do fula-fula do A-Chai, um bolo de grãos de arroz tostado, em forma de cubo, amarelado com a doçura da calda de jagra. E também das broinhas de Macau, loiras e aveludadas, a desfazerem-se na boca, que nada têm que ver com as broas de Portugal (...)".
Henrique de Senna Fernandes. "Rua das Mariazinhas", in Mong-Há. Instituto Cultural de Macau, 1998

Macau de Henrique Senna Fernandes: a Travessa dos Anjos


"(...) A Travessa dos Anjos que comunica directamente a Rua do Campo com a Rua de S. Domingos, era no meu tempo da Primária* uma via típica de casario chinês, mas atapetada de calçada portuguesa. Paredes de tijolos cinzentos, portas de espaldar, casebres alternando-se com edificações de dois pisos, teia de vielas estreitas escoando para ela, muros cercando pátios interiores com outras tantas residências, formando verdadeiras ilhas que se isolavam, quando o portão se encerrava, às tantas da noite.
Como acontece ainda hoje, era um trilho movimentado e ideal para quem quisesse encurtar caminho. Os peões palmilhavam-no à vontade, embaraçados apenas pelos vendilhões ambulantes, o homem dos tin-tins e pelas aguadeiras de trança comprida que iam buscar água aos poços dos pátios. Uma ou outra lojeca mal amanhada quebrava a nota residencial. Casas de pasto não havia, pois a Rua de S. Domingos ficava mesmo à volta da esquina. A travessa era, em conjunto, um bocado de cidade chinesa encravado no coração da "cidade cristã".
Nalgumas portas, porém, velhinhas se sentavam, vendendo em tabuleiros rebuçados e achares chineses, amendoins e pevides de casca preta ou branca, tacos de cana-de-açúcar, cortados com mestria para serem iguais em comprimento. Eu tinha os meus tabuleiros favoritos. Um pelos achares, outro pelos tacos de cana-de-açúcar e outro pelos amendoins. As velhinhas conheciam-me. Tudo se pagava com cobres ou cens que pesavam incomodamente nas nossas algibeiras, cheirando mal. Uma moeda de prata de vinte avos tinha, pelo menos, vinte a trinta cobres ou pouco mais, conforme o câmbio do dia. A garotada só possuía cobres, uma moeda de prata era excepção e uma nota de uma pataca era sentir-se rei. (...)"
Henrique de Senna Fernandes. "Rua das Mariazinhas". in Mong-Há, Instituto Cultural de Macau, 1998

* anos 30 do século XX