quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Monumento da Vitória

 
Monumento da Vitória. Macau, Dezembro 2010


Inaugurado a 26 de Março de 1871 pelo Governador António Sérgio de Sousa, na então designada Praça da Vitória*, o monumento é da autoria do escultor Manuel Maria Bordalo Pinheiro (1815-1880).

Nele encontra-se a seguinte inscrição:

"No mesmo local onde uma pequena cruz de pedra comemorava 
a acção gloriosa dos portugueses mandou 
o Leal Senado levantar este monumento 
no ano de 1864**".

Numa outra inscrição, lê-se:

"Para perpetuar na memória dos vindouros 
a vitória que os portugueses de Macau
por intercessão do Bem Aventurado S. João Baptista
a quem tomaram por padroeiro 
alcançaram
sobre oitocentos holandeses armados
que de treze naus de guerra capitaneadas pelo almirante Roggers
desembarcaram na Praia de Cacilhas
para tomarem esta cidade do Santo Nome de Deus de Macao
em 24 de Junho de 1622"


* A Praça da Vitória - hoje, Jardim da Vitória - situava-se no prolongamento da Avenida Vasco da Gama rasgada em 1898, com cerca de 500 metros de extensão, que ía desde a Calçada do Gaio até à Rua da Fonte da Inveja. Ficava entre a Estrada da Flora (actual Avenida Sidónio Pais) e a Estrada da Vitória.


** O Padre Teixeira - A Voz das Pedras de Macau, Imprensa Nacional, 1980 - corrige esta data, pois "o monumento foi erecto não em 1864, mas 1871".

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Quartel de S. Francisco

O Quartel de S. Francisco e, no topo da colina de S. Jerónimo, o Hospital de S. Januário.
Fotografia publicada na Illustração Portugueza de 28 de Dezembro de 1908


"O Quartel de S. Francisco, no extremo da Praia Grande, mandado edificar pelo benemérito governador Coelho do Amaral, espaçoso, bem arejado, em excelentes condições, é ocupado pelo batalhão do Regimento do Ultramar destacado em Macau. Mais acima, no alto de uma pequena colina assenta o Hospital S. Januário, magnífico e elegante estabelecimento que Macau deve, entre outras muitas coisas, à larga iniciativa do conde de S. Januário". 
Conde de Arnoso. "Em Macau", Jornadas pelo Mundo* (1894). in Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo II. ICM, 1998

*Jornadas pelo Mundo, editado em 1894, resultou de uma missão diplomática de Tomás Rosa a Pequim, da qual o Conde de Arnoso fazia parte. Bernardo Pinheiro Correia de Melo (1895-1911), Conde de Arnoso, título com que foi agraciado em 1895, era também conhecido como Bernardo Pindela, por ser filho do visconde de Pindela. 
"O Sr. conde de Arnoso tem colaborado em diversos jornais, e está publicando actualmente uns artigos na Arte e a Natureza, publicação quinzenal do Porto, editores Biel & C.ª. Nas Novidades inseriu as suas notas da viagem a Pequim, em 1887, as quais reuniu depois num livro com o título de Jornadas pelo mundo, que publicou em 1895. É uma obra curiosíssima em que descreve a China e o Japão. A edição foi feita pela casa editora Magalhães & Moniz, do Porto. Pelo decreto de 28 de Setembro de 1895 foi agraciado com o título de conde de Arnoso. Até então assinava-se sempre Bernardo Pindela em todos os seus trabalhos literários. O primeiro livro que publicou têm por titulo Azulejos, impressões da sua vida de estudante na Universidade Coimbra. De braço dado, escrito de parceria com o primoroso poeta Sr. Conde de Sabugosa, edição da livraria Gomes, Lisboa, em 1894; A primeira nuvem, comédia em 1 acto, representada no teatro D. Amélia em Maio de 1902, editada pela casa Ferin, de Lisboa, Suave milagre, em 6 quadros, de colaboração com o distinto escritor Sr. Alberto de Oliveira. É um delicado trabalho, baseado num conto de Eça de Queirós, que se representou no teatro de D. Maria, pela primeira vez, em 28 de Dezembro de 1901, e se repetiu em bastantes noites, obtendo sempre aplausos. O Suave milagre foi também publicado, pela casa editora Feriu, em 1902, numa bela edição adornada de lindas ilustrações."

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Colégio D. Bosco


 Colégio D. Bosco. Macau, 2010


Os salesianos chegaram a Macau em 1906, para cuidar do Orfanato da Imaculada Conceição, inicialmente apenas para órfãos chineses e, a partir de 1941, também para órfãos portugueses. Em 1939, o bispo D. José da Costa Nunes concede licença para os salesianos erigiram uma "Casa Salesiana em Macau". Com o lançamento da primeira pedra a 6 de Fevereiro de 1949, o Colégio Dom Bosco era inaugurado a 10 de Fevereiro de 1951. Ainda nesse ano, a 30 de Novembro, foi lançada a 1ª pedra da nova ala do colégio, a qual incluía oficinas, salão de teatro e refeitório. Sendo o Colégio fundamentalmente uma escola industrial (oficializada em Julho de 1960), nele funcionaram todos os níveis de ensino não superior e, inclusive, até 1997, o ensino pré-escolar em português, data em que docentes e crianças foram transferidos para o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes.
Encerrou a secção portuguesa no final do ano lectivo de 1998/99, passando dos salesianos portugueses para os salesianos chineses. Designa-se, actualmente, Colégio Dom Bosco Yuet Wah, tendo apenas a secção inglesa e chinesa, tal com o Colégio de Santa Rosa de Lima.


Estátua de S. João Bosco no Jardim da Montanha Russa. Macau, 2010

João Bosco (Castelnovo de Asti, 16 de Agosto de 1815 - Turim, 31 de Janeiro de 1888), fundador da Sociedade de S. Francisco de Sales (1859), conhecida por salesianos, composta por sacerdotes e leigos e vocacionada para a educação infantil, juvenil e ensino profissional, foi criador do designado "sistema preventivo" em educação. Foi canonizado em 1934.


Fontes:
Amadeu Gomes Araújo. Diálogos de Bronze. Memórias de Macau. Livros do Oriente, 2001
Aureliano C. da Rosa Barata. "Colégio D. Bosco" in Ditema. Dicionário Temático de Macau, Vol.I, 2010

domingo, 5 de dezembro de 2010

Gravura Antiga di Macau

Nhonha recebe com chá
E sab'roso surang-surave
As amigas do bafá,
Chacha-chacha nos seus dós,
De jeito gentil e grave,
Que chegam de riquexós.

Nhonha veste um baju leve
Moldando os limões do peito,
A que a mão do nhom se atreve.
Não receia as pei-pá-chais:
No escurinho do leito,
Ambos são risos e ais.

Nonha deixa o arrebique
Com face de loiça fina.
Passo breve, tique-tique,
Vai à janela, abre as reixas.
E, entre a boa e a má sina,
Diz amores e escuta queixas.

Nhonha compõe a saraça,
Sentadinha na cadeira,
Toda atenta ao que se passa,
Alegre de malinguar
Pés na frecura da esteira
Que a bicha cansa a esfregar.

(Que saudade, esta Macau
Que eu adivinho feliz,
Morando ali ao Lilau,
Com respeito, dengue e ardor:
Jardim de mulher-raiz
Com chiste de mulher-flor.)

Glossário:
Arrebique - toucador
Bafá - antigo jogo de cartas chinesas de Macau
Baju - blusa de pano fino
Bicha - criada ou escrava
Chacha-Chacha - mulheres velhas
Dó - manto ou mantilha preta
Malinguar - fazer má-língua
Mulher-flor - prostituta
Nhom - filho de europeu e de filha da terra
Nhonha - senhora filha da terra
Pei-pá-chai - cantadeira profissional
Saraça - pano de seda estampada que servia de saia
Surang-surave - doce típico de Macau 

António Manuel Couto Viana. Gravura Antiga di Macau 
in RC - Revista de Cultura, Nº 25 (II Série), Outubro / Dezembro, 1995

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

"Era quase uma ilha..."

Pormenor de um desenho de Carlos Marreiros 
para "O Topos Sagrado" L.S.C.
Mitografia de Macau (Série "A Cidade e o Poeta"), Macau, 1997
publicado na RC- Revista de Cultura, nº 34 (II Série) Janeiro / Março de 1998. 


" (...)
Para o "Porto de Macau na China", há especiais factores que confluem à necessidade  de sagraçõe do lugar, de projectar o céu e a terra, de convocar forças benéficas e repudiar influências nefastas. De fundar  a continuidade na mais remota memória.
Há, em primeiro lugar a consciência do estatuto precário do estabelecimento, que é constante ao longo dos séculos. A terra não é portuguesa. A cartografia refere Macau "nas partes da China". O senhor da terra é o Imperador da China. "Não estamos aqui em nossa terra, conquistada por nós, como são as mais fortalezas da Índia onde somos senhores (...) senão em terra do Rei da China, onde não temos um palmo de chão (...)" (Carta do Leal Senado de 1637). O chão tem de ser garantido pelo pagamento de um foro, sempre sujeito à negociação e à volubilidade do arrendatário."
(...)
"Assiste à origem do topos macaense a regra de que o que sacraliza um lugar é o seu isolamento (de isola, ilha)."Ce qui sacralise avant tout un lieu c'est la fermeture", Gilbert Durand. 
A tentação do isolamento é a tentação da pura razão. Delinear um círculo é concluir o receptáculo próprio à manifestação divina". 
(...)
"Toda a ilha é redonda, e idealmente se presta ao símbolo, à viagem da imagem para o conceito, por oposição contrastante ao elemento caótico que a circunda, da indiferenciação e do que não tem forma, das "águas inferiores" que não foram ainda penetradas do supremo espírito movente. Na ilha se dá a representação ou actualização do arquétipo, e as urbes, como outros microcosmos, são a projecção de geometrias celestes e expandem-se na declinação de círculos infinitos, sempre pressupondo a referência ao centro original."
"Depois de tantas deambulações por sedes efémeras, por certo que a escolha de Macau para o lugar do "assentamento", com expectativas de continuidade, obedeceu a razões de carácter e condições práticas. Oferecer o recorte adequado ao abrigo portuário, o acesso a abastecimentos, e a aguadas - foram com certeza as primeiras vantagens pragmáticas vistas na terra."
"Fisicamente, a geografia não é a de uma ilha, mas de uma península, cujo pequeno istmo lhe dá configuração de minúsculo pseudópode estirado à entrada do Rio das Pérolas."
"Mas figura na cartografia primeva, vulgarmente, como "ilha de Macau" ou "quase-ilha" (presqu'ile) de Macau.  A nosso ver, com clara intenção política de inculcar tranquilidade ao centro político do Império chinês; substante à cedência dos mandarins de Cantão residia o receio de intrusão dos fulangi em terra do continente, pelo que a autorização de fixação num lugar de comércio era dado para as ilhas do estuário. Pesados os factores, a península oferecia mais necessárias condições e era quase uma ilha..."
Excertos de "O Topos Sagrado. Esboço de Mitografia Macaense" de Luís Sá Cunha. RC - Revista de Cultura, nº 34 (II Série), Janeiro / Março, 1998.

Partie De L'Isle De Macao

Planta da Cidade e Porto de Macau, início do século XVII.
"Le Petit Atlas Maritime", 1767.
(in RC- Revista de Cultura, nº 34, 1998)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Desenhos de Chan Chi Lek

Templo de Lin Fong, 1998
Templo de Na Tcha na Calçada das Verdades, 1998
Calçada da Igreja de S. Lázaro, 1998

Bilhetes postais com desenhos de Chan Chi Lek publicados pelo Centro Unesco de Macau e Fundação Macau.

domingo, 28 de novembro de 2010

Descobre-se um belo panorama

Vista panorâmica de Macau
Fotografia publicada na Illustração Portugueza de 28 de Dezembro de 1908

"Do Farol da Guia - o primeiro que se acendeu em todo o mar da China - descobre-se um belo panorama. Vê-se a rade, as ilhas da Taipa, da Lapa e de D. João; a cidade subindo quase até à Penha de França; o Porto Interior com a Ilha Verde; Mong-Ha, a estreita língua do istmo, Passaleão e as azuladas distantes montanhas da China."
Conde de Arnoso. "Em Macau. Jornadas pelo Mundo (1894). in De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo II, ICM, 1988

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

É um panorama fulgurante

"Teatime patrons dancing on terrace of Bela Vista Hotel to music of Filipino swing band". 1949 . Fotografia de Jack Birns - Time Life Pictures / Getty Images.

"Dirigimo-nos, mais tarde, a um hotel, que espairece junto da colina da Senhora da Penha. (...)  O velho hotel, onde residem muitos funcionários lusitanos, está sobranceiro ao mar. Tem uma larga varanda de pedra e, ao lado, frondosas árvores. Dele se vêem, em frente, algumas ilhas, à esquerda a colina do Farol da Guia, mais abaixo a grande e rútila enseada, com a sua praia e o seu branco casario. É um panorama fulgurante (...)".
Ferreira de Castro. A Volta ao Mundo (1944). in De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo 3, ICM, 1996

Hotel Boa Vista

O Hotel Boa Vista. 
Fotógrafo não identificado. 
Illustração Portugueza de 14 de Dezembro de 1908


O Hotel Boa Vista foi fundado em 1890 pelo inglês William Edward Clarke.
O edifício, construído cerca de 1870 para residência da família Remédios, foi adquirido pelo capitão Clarke com o objectivo de o transformar num estabelecimento hoteleiro de qualidade, em especial para os visitantes da vizinha colónia britânica de Hong Kong.

Entre 1917 e 1923, acolheu o Liceu de Macau, onde leccionou Camilo Pessanha. Voltou a ser hotel, mas com o nome de Bela Vista. Mais tarde, de 1934 a 36, foi alojamento de oficiais britânicos que em Macau aprendiam cantonês e, durante guerra do Pacífico, residência de refugiados de Hong Kong e Xangai. Em 1948, regressou novamente à sua função hoteleira, como Hotel Bela Vista.

Com três pisos e traços do neoclássico local - "as arcadas, as colunas, os balaustres, os arcos de volta inteira, as molduras e, mesmo, um pequeno frontão"* -, o edifício é hoje residência oficial do cônsul-geral de Portugal em Macau. Está classificado como Edifício de Interesse Arquitectónico.


Fontes:
* Maria de Lourdes Rodrigues Costa. História da Arquitectura em Macau. ICM, 1997
Celina Veiga de Oliveira e Jorge Cavalheiro. Guia Histórico-Cultural de Macau. Instituto de Estudos Europeus de Macau, 1999
Pedro Dias. A Urbanização e a Arquitectura dos Portugueses em Macau. Portugal Telecom,  2005

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O Palácio do Governo

O Palácio do Governo. 
Fotografia publicada na Illustração Portugueza de 14 de Dezembro de 1908.
Fotógrafo não identificado.

"O Palácio do Governo, comprado à família Cercal, é um vasto edifício de bela aparência. Durante algum tempo estiveram nela diversas repartições; mais tarde, durante a última administração, todas se instalaram, com grande comodidade para o serviço público, no antigo Palácio do Governo, um óptimo edifício também, e onde principalmente se admira a sala do tribunal, que era a antiga sala do trono do palácio. (...) Ao lado fica o pequeno Correio estabelecido também durante o governo de Tomás da Rosa. Até então era coisa que não havia na província! Toda a correspondência se enviava, pelo vapor da carreira, ao correio de Hong Kong". 
Conde de Arnoso. "Em Macau". Jornadas pelo Mundo (1894). in De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo II, ICM, 1988

Em 1851, o governador Isidoro Francisco Guimarães, visconde da Praia Grande, mandou construir um palácio na avenida da Praia Grande, em frente do fortim de S. Pedro, para nele instalar o Palácio do Governo e diversos serviços. Em 1884, a sede do governo passou para o palácio do visconde do Cercal, ficando no anterior palácio apenas os serviços públicos. Em 1951, o Palácio das Repartições (demolido em 1946) foi substituído pelo Edifício das Repartições Públicas, que a partir da década de 80 albergou o Tribunal de Macau.


Fontes:
Maria de Lourdes Rodrigues Costa. História da Arquitectura em Macau. ICM, 1997

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A vila da Taipa

A vila da Taipa. À esquerda, a igreja de Nossa Senhora do Carmo.
Fotografia publicada ma Illustração Portugueza de 14 de Dezembro de 1908
Fotógrafo não identificado.

A Taipa, que em chinês é conhecida por  Tâm Tchai ou Pequeno Lago, estava, ainda no início do século XX, dividida em duas ilhas - a Taipa Grande ou Taipa Quebrada e a Taipa Pequena - separadas por uma estreita língua de mar. Foram, mais tarde, unificadas por assoreamentos naturais e, posteriormente, por aterros. Foi junto a uma das suas colinas - na Taipa Pequena - que se constituiu a povoação da Taipa, com um ancoradouro. Aqui, desde o século XVII, "os barcos estrangeiros que se dirigiam a Cantão, subindo o rio das Pérolas e que deviam tomar a bordo, em Macau, piloto e intérprete, apenas eram autorizados a seguir viagem depois de fundearem na Taipa, local portanto bem conhecido dos marinheiros, a ponto de algumas cartas marítimas se referirem a Macau como 'porto da Taipa'"*.

Em 1869, foi criado o concelho municipal das ilhas, que esteve instalado na fortaleza da Taipa durante dez anos, altura em que passou para um edifício próprio, na vila da Taipa. Em 1875, o comandante militar da Taipa expôs a necessidade de construção de uma capela em cada ilha, sendo a da Taipa a primeira a ser construída, localizada numa pequena elevação junto à vila e dedicada a Nossa Senhora do Monte do Carmo. Com o projecto elaborado em 1882, a igreja ficaria concluída em 1885.
Data também de 1882 o início do processo de arborização da Taipa.
Até  1974, quando foi inaugurada a ponte Governador Nobre de Carvalho, a ligação entre Macau e a Taipa era feita apenas por barcos da carreira ou de pescadores.


* Maria de Lourdes Rodrigues Costa. História da Arquitectura em Macau. Instituto Cultural de Macau, 1997

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Fortaleza da Taipa

 A Fortaleza da Taipa  e o monumento em memória das vítimas da explosão da fragata D. Maria II. 
Taipa, Novembro de 2010


Fortaleza da Taipa


Fortaleza da Taipa, 1908. 
Fotografia publicada na Illustração Portugueza de 14 de Dezembro de 1908.
Fotógrafo não identificado.


O Forte da Ilha da Taipa foi construído em 1847 sob a direcção do 1º tenente da Marinha Pedro José da Silva Loureiro, por ordem do governador Ferreira do Amaral e a pedido da população local, sendo por ela custeado. 
Localizada na costa oeste da ilha e, primitivamente, junto às águas, a fortaleza controlava o tráfego marítimo entre a Taipa e a Ilha de D. João e defendia a população local contra os constantes ataques dos piratas. Era um forte costeiro que, actualmente, se encontra afastado do mar devido aos aterros. O pequeno edifício situado no interior da fortaleza serviu de residência de Verão dos governantes de Macau. Desde 1999, é a sede da Associação dos Escuteiros de Macau.
Em 1851, foi levantado um monumento em memória das vítimas da explosão da fragata D. Maria II, ocorrida no ano anterior (a 29 de Outubro). A fragata encontrava-se fundeada no ancoradouro da Taipa e a explosão foi devida ao incêndio do paiol de 300 barris de pólvora. O monumento encontra-se  situado no topo de uma escadaria, no pequeno jardim junto à fortaleza.


Fontes:
Maria de Lourdes Rodrigues da Costa, História da Arquitectura em Macau, Instituto Cultural de Macau, 1997
P. Manuel Teixeira. A Voz das Pedras de Macau. Macau, Imprensa Nacional, 1980
Pedro Dias, A Urbanização e a Arquitectura dos Portugueses em Macau 1557-1911. Ed. Portugal Telecom, 2005

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Uma casa privada na Praia Grande

"Uma casa privada localizada na Praia Grande". Macau, década de 1900
Colecção: Fotografias Antigas de Macau. 
Edição: Instituto Cultural de Macau, 2009


"Em geral as casas dos moradores de Macau são muito boas, e mais vastas, elegantes e cómodas do que aquelas que em Portugal habitam pessoas de igual condição; têm belas entradas e escadarias, largas venezianas nas janelas ou varandas e boas mobílias: em Macau há bastante gosto neste ponto, e o maior luxo consiste em ter mobília, loiças e vários objectos da Europa; as escadas e os sobrados são pitados a óleo com diferentes debuxos, o que é de bonito efeito".
Carlos José Caldeira.  Apontamentos de uma viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa. in Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. ICM, Tomo II, 1988

Farol da Guia

Farol da Guia, 1908. 
Fotografia publicada na Illustração Portugueza de 14 de Dezembro de 1908.
Fotógrafo não identificado.

Iniciada a construção em 1864 e concebido pelo macaense Carlos Vicente Rocha, o Farol da Guia acendeu-se, pela primeira vez, a 24 de Setembro de 1865. Foi construído sob a direcção do governador Coelho do Amaral e custeado pela comunidade estrangeira de Macau.

É o farol mais antigo da China e encontra-se situado na latitude de 21º 11' Norte e na longitude de 113º 33' a Leste de Greenwich. A torre mede 13,5 metros, da base à cúpula, e a sua luz eleva-se a 101,5 metros acima do nível do mar, nas mais altas marés de tempo calmo. A luz é branca e visível, em tempo claro, a 20 milhas.

O primeiro farol funcionava com um candeeiro a petróleo, cujo autor do maquinismo era o hábil macaense Carlos Vicente da Rocha. "Tão curioso era o modelo desse farol que o seu autor o enviou para Lisboa, onde se conservou muito tempo na Sala do Risco do Ministério da Marinha até que um incêndio o devorou"(Teixeira, 1997).

O tufão de 22 de Setembro de 1874 causou várias avarias, tendo sido reconstruída a sua torre. Em 1910 foi substituída a aparelhagem por outra moderna a energia eléctrica.
O seu primeiro faroleiro foi um velho soldado reformado chamado Diogo, que acumulava também as funções de fiel da fortaleza.


Fontes:
Beatriz Basto da Silva. Cronologia da História de Macau, Século XIX, vol 3, 1995
Diogo Fernandes. "O mais antigo da China. Farol da Guia: uma luz no Oriente". Revista Nam Van, nº 16 de 1 de Setembro de 1985
Padre Manuel Teixeira. Toponímia de Macau, vol 1, ICM, 1997

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Rua da Casa Forte e Bazarinho

Rua da Casa Forte. Macau, Novembro de 2010

Começa junto à Rua de S. Lourenço, ao lado do Pátio da Casa Forte, e termina na Rua do Bazarinho, junto ao local onde se encontra o altar de Tou Tei, mesmo em frente à Travessa de Maria Lucinda.

Data de 1719 a fundação das "Casas Fortes" ou quartéis da Polícia. Eram três e encontravam-se instaladas nos bairros de S. Lourenço, Santo António e Sé Catedral. Cada uma tinha um capitão e sete praças ou ordenanças. Em 1754, o Senado requereu ao vice-rei da Índia a extinção das "Casas Fortes", "por serem escusadas e por não servirem de utilidade alguma para a segurança da terra, dando só despesa"*, mas não foram, então, extintas.

No termo da Rua da Casa Forte, a Travessa de Maria Lucinda e o altar de Tou Tei, o deus da terra. Macau, Novembro de 2010

Rua do Bazarinho. Macau, Novembro de 2010

A Rua do Bazarinho, assim designada para se distinguir do Bazar Grande em S. Domingos, começa junto ao Pátio da Ilusão, na Travessa do Mata-Tigre, e termina no entroncamento da Calçada de Eugénio Gonçalves com a Rua das Alabardas. Para os chineses é a Rua do Marinheiro, a oeste - Soi Sau Sai Kau -, pois existia outra rua do Marinheiro, esta a sul.

* Fonte: P. Manuel Teixeira, Toponímia de Macau, Vol 1, Instituto Cultural de Macau, 1997

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Os autos, ou o teatro chinês em Macau

The Theatre at Macao / O teatro de Macau
in The Illustrated London News, 17 March 1866
(imagem publicada em Oriente, nº 14, Fundação Oriente, Lisboa)


"Não há edifício permanente para teatro, e o mesmo sucede nas cidades chinesas: parece que só em alguns grandes pagodes há local e construção apropriadas para estes espectáculos, que, em geral, se representam num grande barracão com o tecto angular e muito elevado coberto com esteiras ou colmo; o madeiramento é formado de bambus, fortemente ligados com fios de rotim; é aberto por todos os lados, e só tem uma frágil parede de tábuas no fundo do que chamaremos palco, aos lados do qual correm, paralelas, uma espécie de varandas ou trincheiras com assentos para os espectadores que os querem pagar, e o seu preço para os europeus não excede a um maz de prata, ou um tostão; o espaço intermédio constitui a plateia, sem sobrado nem anfiteatro, com a entrada, toda aberta em frente do palco, gratuita para o povo, que vê o espectáculo de pé e que sempre concorre em multidão. Os indivíduos que ficam na primeira fileira da plateia são obrigados a apoiar-se com as mãos na extremidade do palco, que lhes fica na altura das cabeças, formando como um renque de escoras com os braços nus, para resistirem aos contínuos embates das ondas dos espectadores, os quais, vistos das varandas, formam, apinhados, uma espécie de pavimento composto de cabeças muito unidas,rapadas na maior parte do casco, e que ora são levadas todas numa direcção ora noutra, exactamente como as vagas de um mar banzeiro".
(...)
"Nestes teatros não há pano de boca: as decorações são muito singelas e grosseiras, e as poucas mutações na cena todas se fazem à vista do público; de noite são iluminados com fachos e luzes sobre o tablado. Duram as representações, de dia das onze às cinco da tarde e continuam das sete à meia-noite, ou mais. A representação é continua e não tem os intervalos  dos nossos actos; mas há cenas sucessivas que se vão anunciando por uma espécie de cartaz, ou tabuleta, que penduram nuns barrotes, na posição que corresponderia às colunas do proscénio".
(...)
"A orquesta está no fundo do palco e é composta de uma espécie de rebecas, de gaitas com forma e sons semelhantes à clarineta, e de bategas ou timbales, o que produz uma música estrondosa e infernal que acompanha quase constantemente a declamação; junte-se a isto o frequente rebentar dos panchões ou estalos sobre a cabeça dos actores, admiravelmente a propósito no fim das falas ou nas passagens de maiores afectos; e fazer-se-á ideia da bulha confusa e incómoda que se experimenta e que cobre a voz dos actores, apesar de berrarem às vezes extraordinariamente (...)".
Carlos José Caldeira. Apontamentos de uma viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa. in Carlos Pinto dos Santos e Orlando Neves, De Longe à China - Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. tomo II, Instituto Cultural de Macau, 1988.


Carlos José Caldeira (1811-1882) esteve em Macau em 1850-51 e da sua estadia no Oriente resultou o livro de crónicas, publicado em dois volumes em 1852 e 1853,  Apontamentos de uma viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa.

"Homem dedicado às letras, distinguiu-se com escritor e jornalista, tendo colaborado no Diário de Notícias, Jornal do Comércio, Arquivo Pitoresco, Correio da Europa, Arquivo Universal, Ilustração Luso-Brasileira, Ocidente e Revista Peninsular. Das obras que nos deixou, contam-se, entre outras, Considerações Sobre o Estado das Missões e da Religião na China (1851) e Apontamentos de uma Viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa (1852-1853). Esta última obra, dividida em dois volumes, resultou da viagem que realizou à China, quando contava cerca de 40 anos de idade. Partiu em Julho de 1850 com destino a Macau, numa viagem que durou 50 dias, e permaneceu no Oriente até finais de 1851.  Os seus Apontamentos são, ainda hoje, uma obra de consulta obrigatória para todos aqueles que se dedicam ao estudo de Macau oitocentista, traçando um interessante retrato sobre aquela cidade e apresentando vivas descrições e profundas reflexões sobre outros espaços onde se fazia sentir a presença portuguesa, quer no Oriente quer em África".  Alfredo Gomes Dias. Ditema - Dicionário Temático de Macau, Vol. I, 2010.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Carlos Frota: Três poemas em homenagem a Henrique de Senna Fernandes

I
AMOR E DEDINHOS DE PÉS
Oh a Rua Central
depois da missa das onze de domingo na Sé
com as montras vistosas
das novidades de Paris

oh as casas da minha amada
no Largo do Lilau  na Ilha Verde
onde amei a minha noiva
feia noiva bonita como escreve

o contador de histórias o cronista
desse Macau que foi meu pelos seus livros

e num canto suave da memória
fica a história da sua cidade
minha


II
TANCAREIRA
"Amou seu homem
num alto mar poético e sem lua
e aí gerou a filha
que partiu
para não ser sua
a mesma escravidão
de amarrada ao seu tancá
não ter mesmo outro futuro
que o futuro que o rio dá"

Não sei se chorei Amigo
a tristeza desta história
ou se fui buscar contigo
em igual arca da memória
pedaços de vida vivida
laivos de vida esquecida
doutras terras doutras gentes


III
NO JARDIM DE S. FRANCISCO
Numa tarde serena e ociosa
embrenho-me pensativo pelo jardim
procurando ouvir as histórias
que me quer contar
o tronco silencioso
de velha árvore frondosa

de repente pressinto
dois vultos de jovens namorados
ternamente enlaçados

ele meio oculto meio envergonhado
ela muito bela de uma beleza trigueira

e então pressinto que ela é
a jovem da trança feiticeira

Carlos Frota. Dos Rios e Suas Margens. Macau, 1998

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O Edifício Verde do Museu Marítimo

O "Edifício Verde", no Largo do Pagode da Barra, onde foi inaugurado, em 1987, o Museu Marítimo de Macau (fotografia de Maio de 2010)


Data de 1919 a primeira iniciativa de criação de um museu dedicado às actividades relacionadas com o mar. Artur Leonel Barbosa, que na época desempenhava funções de Adjunto do Capitão dos Portos de Macau, organizou o acervo inicial do Museu Marítimo e de Pescarias, que "constava de diferentes tipos de redes de pesca, alguns modelos de pangaios de Timor existentes no Museu Luís de Camões, e diversos modelos de embarcações chinesas, que tinham estado na Exposição de Paris, em 1900, e se encontravam então depositados no Liceu"*. 
Inicialmente instalado numa sala do edifício da Capitania, o espólio do Museu Marítimo e de Pescarias foi transferido, em 1934, para um hangar da aviação naval situado no Porto exterior. Todo este espólio seria destruído durante o bombardeamento de 16 de Janeiro de 1945.

O Museu e Centro de Estudos Marítimos de Macau é criado em Março de 1987. Iniciativa do Comandante António Martins Soares, o Museu foi inaugurado no dia 7 de Novembro de 1987, no "edifício verde" situado no Largo do Pagode da Barra. Em 1990 foi inaugurado o novo edifício, localizado no mesmo largo e o "edifício verde" transformado em Edifício Administrativo do Museu Marítimo.


* Manuel Bairrão Oleiro e Rui Brito Peixoto, Museu Marítimo de Macau. Edição do Museu Marítimo de Macau, 1992

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O Espírito Protector da Cidade

Kun Iam Ku Miu ou Kun Iam Chai (Pequeno templo da Deusa Kun Iam).
Macau, Agosto de 2009


"A pequena capela de Seng Wong foi construída num terreno da Família Sam, originária de Fok Kin, uma das famílias fundadoras daquela aldeia, que a história sempre deixou apagada.  Porém, foi nesse pequeno aldeamento que se desenrolaram factos da maior relevância e se urdiram várias conspirações, que o seu isolamento favorecia.
Não se procure, porém, Seng Wong, o Espírito Protector da Cidade de Macau, no templo de Kun Iam anexo à Bonzaria, um dos cartazes turísticos locais. Procure-se, sim, mais adiante, na capela anexa ao Kun Iam Ku Miu, o mais antigo dos templos chineses daquela velha aldeia, segundo consta dos velhos chôk pou das famílias de alguns dos seus fundadores. O Kun Iam Ku Miu, conhecido também por Kun Iam Chai, pela sua modéstia em relação ao Kun Iam Tong, foi erigido antes da chegada dos portugueses, segundo é tradição popular, sobre três tijolos que abrigaram primeiro uma imagem de Pou Sat toda Misericordiosa, a que ouve todas as preces - Kun Iam, a Nossa Senhora dos chineses budistas. Esta imagem foi encontrada a boiar nas águas do rio nos fins da dinastia Song ou nos fins da dinastia Un por crianças que guardavam cabras, perto do local onde hoje se ergue o Lin Fong Miu. A lenda, que a tradição oral e os chôk pou fizeram perdurar, assim o conta.
E Seng Wong? Sen Wong foi entronizado mais tarde. Segundo alguns informadores, a sua capela apenas foi construída nos fins do século XVIII, quando Macau, reconhecida cidade pelas entidades chinesas, passou a ter um mandarim que se instalou em Mong Há, embora sejam muito mais recentes as lápidas com os nomes dos beneméritos que promoveram a sua beneficiação, se não reconstrução, na segunda metade do século XIX.
Nessa altura, como era habitual em todas as cidades chinesas, a estátua de Seng Wong tornou-se indispensável à harmonia, ao bem estar e... à consciência dos magistrados locais.
Seng Wong não é uma divindade como Kun Iam ou como Kuan Tong, por exemplo. Seng Wong, tal como Tou Tei - o guardião tutelar do solo, de cada localidade, de cada sítio -, é uma entidade abstracta e plural. Cada cidade tem o seu espírito protector, só dela, a quem, dantes, todos os anos, se prestava homenagem, com mais ou menos luzida procissão, acompanhada de ruidoso estralejar de panchões.
O nome desta entidade tutelar significa, aliás, literalmente, Rei da cidade muralhada, sendo o muro ou o fosso os limites impostos às grandes cidades chinesas para sua defesa contra as frequentes incursões de exércitos inimigos ou simplesmente de piratas.
O Imperador de Jade, entidade criada pelo tauísmo popular e equivalente ao Soberano Celestial da velha teologia da China Arcaica, que se perde na aurora da sua civilização, teria criado magistrados seus para protegerem as diferentes cidades, servindo como juízes imparciais dos seus moradores." 
Capela de Seng Wong no Kun Iam Chai (Agosto de 2009)
(...)
"Em meados do século XX havia, ainda, na pequena capela de Seng Wong, um belíssimo ábaco em pau-preto, que é um dos emblemas das capelas que são dedicadas a esta divindade, pois pertence à imaginação popular a crença de que é com este instrumento que o magistrado celeste contabiliza as boas e más acções dos moradores seus súbditos."
Capela de Seng Wong no Kun Iam Chai (Agosto de 2009)
(...)
"Com a retirada do Mandarim de Macau, em meados do século XIX, e com o passar do tempo, o papel de Seng Wong como magistrado celeste foi-se apagando e já nos anos 60-70 era, apenas, uma divindade como tantas outras com que os tauistas povoaram os templos da cidade e a quem os devotos budistas iam  pedir principalmente paz, saúde, riqueza e êxito no negócio.
A capela estava, naquela altura, relativamente abandonada e Seng Wong bastante esquecido. No entanto, havia sempre alguém que ia pedir-lhe justiça e acender pivetes em sua honra, quando acabava por perder a crença na integridade dos juízes terrenos. E Seng Wong parecia sorrir ironicamente do alto do seu nicho de talha, onde o ouro perdera já o brilho, como bom conhecedor dos homens e... da cidade."
Ana Maria Amaro. "O Espírito Protector da Cidade". Revista MacaU, nº 16 de Agosto de 1993

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Long Mou, a Mãe do Dragão

Long Mou, a Mãe Dragão (à esquerda) e Choi Pak, o deus da prosperidade e riqueza, no  Fôk Tak Chi ou Tou Tei Miu (Templo da Felicidade e da Virtude), na Rua da Barca de Lenha.


Long Mou, a Mãe Dragão, a deusa que todos ouve e todas as preces concede, excepto os pedidos de riqueza. A seu lado, Choi Pak, o deus da prosperidade e distribuidor da riqueza. Prosperidade e Riqueza. A este propósito, comenta o Padre Teixeira*: "Quem dirá que os chineses não são espertos? Estes dois deuses completam-se um ao outro (...)".

A deusa Long Mou ou Mãe do Dragão, adorada pelos pescadores e padroeira do Rio das Pérolas, ganhava a vida a pescar no rio da sua terra natal, Yuet Shing. Um dia encontrou um grande ovo, que decidiu chocar. Nasceu um dragão, e Lou Mou foi chamada à corte imperial para relatar o acontecimento. Mas, a viagem era longa e cansativa e Long Mou saudosa da sua terra resolveu regressar. Surge-lhe, então, o seu dragão alado que a transportou no seu dorso até à corte.

O templo que acolhe a Mãe Dragão fica situado na Rua da Barca da Lenha. Dedicado a Tou Tei, o Deus da Terra, é constituído apenas por uma pequena capela, com um mesa sobre a qual se encontram os perfumadores de pedra e as jarras de flores. 


* Padre Manuel Teixeira. Pagodes de Macau, 1982.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Lota do Patane

Legenda: "Lota do Patane. Séc. XX, anos 70". 
Fotografia de Lei Chiu Vang.
Colecção: "Memória Colectiva dos Residentes de Macau - Imagens Antigas de Macau"

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O bairro do Patane

O Largo do Pagode do Patane e o templo de Tou Tei. 
Fotografia de Lei Iok Tin, ca. de 1949 (publicada no catálogo da exposição Macau: 150 anos em Fotografia, Leal Senado, 1991)


Diz-nos Gonzaga Gomes* que, entre os residentes chineses, o bairro do Patane encontra-se subdividido em duas zonas: a de Sá Lei T'âu (ou Cabeça de Pera), "que abrange o emaranhado labirinto de travessas, calçadas, becos e pátios que existem nas ruas da Pedra, da Palmeira e da Ribeira do Patane" e a de Sân K'iu, na qual "se entrecruzam as ruas da Espectação de Almeida, de Corte Real, do Capão, da Erva, da Barca, de Inácio Pessoa, de Marques de Oliveira, da Alegria, de Martinho Montenegro e a Estrada do Repouso". A separar, mais ou menos, as duas zonas, a Rua de João Araújo. 
Refere ainda o mesmo autor que a zona de Sân K'iu foi, em tempos bastante recuados, terreno baldio "onde só medravam a esteve, a urze e quejandas plantas agrestes", o que justifica a designação atribuída a duas das principais artérias da zona: a Rua da Erva e a Rua de Entre-Campos. Este terreno, posteriormente transformado numa alagadiça várzea, era irrigado por uma pequena ribeira, a Ribeira do Patane ou Canal de Sân K'iu.
Esta Ribeira do Patane ou Canal de Sân K'iu possuiu uma ponte, primeiro construída em madeira e bambú, de foma enviesada - designava-se por K'ók K'iu ou Ponte Sinuosa -, destruída por um tufão e substituída por outra que passou a designar-se por Ponte Nova ou de Sân K'iu. Da ponte, já há muito desaparecida, perdura apenas o nome numa pequena travessa, a Travessa da Ponte.
Muitas destas ruelas, travessas e becos recordam, na sua toponímia, quer a sua anterior localização ribeirinha - Becos do Coral e da Concha, da Doca e da Ribeira, por exemplo - ou antigos ofícios ligados às actividades marítimas, à pesca e à construção naval, tais com as Travessas dos Calafates, dos Cordoeiros e dos Estaleiros, o Largo da Cordoaria ou o Beco dos Anzóis.


* Luís Gonzaga Gomes. Lendas Chinesas de Macau. Notícias de Macau, 1951.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

navegação

rio do Oeste, em cujas águas pardas
lavo o olhar errante, faço dos dias barcos
e das noites com luzes, nas Cem Ilhas
lugar-comum do meu pranto.
Fernanda Dias. chá verde. Círculo dos Amigos da Cultura de Macau, 2002 

Areia Preta

Praia de Hac Sá ou da Areia Preta. Coloane, Setembro de 2010

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Auguste Borget: gentes e costumes de Macau

"Jogadores". Cerca de 1839.
Lápis sobre papel.
Auguste Borget (1808-1877)
Colecção Quadros Históricos. Museu de Arte de Macau

"Vagabundo". Cerca de 1839.
Lápis sobre papel.
Auguste Borget (1808-1877)
Colecção Quadros Históricos. Museu de Arte de Macau


Durante dez meses, nos anos de 1838-39, o artista francês Auguste Borget (1808-1877) permaneceu em Macau onde, tal como o pintor inglês George Chinnery, se dedicou a desenhar a cidade, as suas ruas e edifícios, templos e igrejas, acompanhando os seus desenhos e esboços de observações ou pequenas descrições sobre a cidade, as suas gentes e os seus costumes.

Auguste Borget: na Wikipédia (em francês) e no Museu de Arte de Macau

Bocage

"É quanto Portugal tem em Macau."
Bocage

Naquele ano fatal da Grande Perdição
Que deflagrou, no mundo, un nouvel âge,
Chegou aqui, surgido de Cantão,
Pra onde o arrebatara o furor de um tufão,
O poeta Bocage.

Achou a terra decadente e estranha
E a gente ora mendiga ora devassa.
E enquanto, num soneto, a satiriza, entoa
Meigas estrofes à "magnânima Saldanha"
(Marília, ao celebrar-lhe a formosura e a graça)
E um hino de lisonjas à "preclara Hulhosa"

Quase um ano inteiro (quase uma vida inteira!)
Por Macau bocejou e vagueou à toa.
Mas, por mercê de Lázaro Ferreira,
Um dia, enfim, pôde enrolar a esteira
E voltar a Lisboa.

A cidade, porém, não lhe esqueceu o vulto
(Esqueceu o soneto que é justo, sem ser mau):
Hoje, uma rua, rende-lhe culto.
- É quanto o poeta tem em Macau.

António Manuel Couto Viana. "Bocage", No Oriente do Oriente. in Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. ICM, 1996

sábado, 11 de setembro de 2010

Panorâmica de Macau


Legenda: "Vista panorâmica da cidade de Macau e da Colina da Guia" 
Fotografia: Santana. Edição: Livraria Kuong Meng. Data: s/ data (c. 1970)

Vista da Baía da Praia Grande - a partir da igreja da Penha - já prolongada com os aterros do Porto Exterior, concluídos por volta de 1938. A estátua do governador Ferreira do Amaral foi inaugurada em 1940, o Liceu Infante D. Henrique em 1958 e o Hotel Lisboa em 1970.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Lugar dourado e encantador

Macau sã assi, com lugares como este: dourado e encantador...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O edifício dos Correios de Macau

O edifício dos Correios e as avenidas de Almeida Ribeiro e Infante D. Henrique, nos anos 30 do século XX. 
(Bilhete Postal publicado por Plaza Cultural Macau, Lda,  Colecção The past. Romantic memories)

"Estava na forja a construção doutro edifício considerado imponente: o dos Correios e Telégrafos no Largo do Senado, considerado na altura majestoso e pleno de modernidade. Ninguém apontou, então, que o seu perfil pesado, sem estilo arquitectónico definido, iria contrastar com a fachada do Leal Senado, nem com outros edifícios do largo, todos cheios de arcadas e varandas, duma airosidade que só agora se reconhece".
Henrique de Senna Fernandes. "O Cinema em Macau - II. 1930-31. A Emoção do Sonoro. in RC - Revista de Cultura, nº 18, II Série, Janeiro / Março 1994


O edifício dos Correios, projecto do arquitecto Chan Kun Pui, foi construído em 1929 e aberto ao público em 1931. Encontra-se classificado "Edifício de interesse arquitectónico".


quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O tio Lam


O "tio Lam" e os seus bonecos de farinha.
Fotografia de Lei Iok Tin (ca. 1960), publicada no catálogo da exposição Reminiscências - Fotografias de Macau Antigo. Museu de Arte de Macau.