segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Natal Sã Festa Grándi

Natal Macaense

NATAL SÃ FESTA GRÁNDI

"Quelora piquinino, iou muto contente esperá dia di Natal. Têm rópa co sapato nôvo pa usá, lôgo achá tánto pisente, na casa têm bom-bom ancuza pa comê, quim nádi contente?
Natal sã unga festa divera grándi pa nôs cristám.
Dia 24 anôte, tudo gente crescido lôgo vai Missa-Galo. Quelê frio, quelê sono tamêm ilôtro nádi faltá. Cavá missa, sã ta corê vai casa ravirá co laia-laia comizaina, fazê cea. Nôs quiança-quiança sã trepá cáma durmi, ánsia esperá manhã-cedo chegá. Educado pa pai-mai cristám, nôs nunca crê na estória di pai-natal vem largar pisente na chaminé, j'olá? Nós sômente crê qui Natal sã dia qui Jesus já nacê; sã dia qui Jesus fichá áno. Quim bom quiança, obibiente, nunca fazê tánto arvirice, Jesus Piquinino lôgo ficá contente, lôgo nós achá tudo pisente qui nôs más gostar.
Chegar Natal pramicedo iou costumado quelê azinha erguí di sono, sai di cáma, corê vai diante di pesépio pa rezá. Si nom têm ninguim na perto, ioulôgo conversá co Minino Jesus; lôgo falá co Êle qui iou, na róda di ano, já ficá unchinh arviro na-más; quánto vez já falá mentira, já tasquinhá ancuza comê. Cavá pedi Minino Jesus nunca-bom reva, iou lôgo prometê qui náda más falá mentira, lôgo ficá bom quiança."
(...)
"Dia di Natal, cási tudo casa di cristám lôgo armá pesépio. Lôgo tem bom-bom ancuza pa comê. Alua, impada, coscorám com fárti sã ancuza qui nádi pode faltá. Chegá ora di jantá, qui bom olá: Pai-Mai co tudo catravada, co Chacha, Avô-cong juntado, sentá na roda di mésa saboreá laia-laia carniça, frutázi co merenda. (...)"
José dos Santos Ferreira."Natal Sã Festa Grándi". in Poéma di Macau. Fundação Macau, 1996


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Ancuza - Coisa; alguma coisa. Seléa ancuza: semelhante coisa.
Arvirice - Brincadeira; maldade; partida de crianças.
Arviro - Mauzinho; brincalhão; que gosta de fazer partidas.
Bafá - Abafar; cozer. Bafá aroz: cozer arroz; Bafá na casa: Fechar-se em casa. Bafá é também o nome de um jogo com pedras de dominó.
Catravada - Grupo de pessoas, geralmente todas da mesma família.
Carniça - conjunto dos pratos de carne (perú, capão, faisão, presunto, carne de vaca, lombo de poco, etc.)
Cavá - de "acabar". Depois; em seguida; acabar; terminar.
Chacha - Avó; mulher idosa. Chacha-chacha: velhinhas.
Coscorám - Coscorões. Doce de farinha com melaço, em forma de concha, próprio da quadra do Natal.
Cristám - Cristão; católico. Cristám-novo: chinês feito católico, quando adulto. Língu cristám; língua portuguesa ou dialecto macaense.
Fárti - Doce próprio do Natal, feito com farinha (massa) e com recheio de pinhões, amêndoas e coco.
Frutázi - Várias espécies de fruta.
J'olá - Já olá: ver, no passado. Viu? compreendeu?
Laia - Espécie; maneira. Laia-laia: de várias espécies; de muitas maneiras; Tudo laia: toda a sorte; toda a qualidade. D'estunga laia: desta maneira; deste modo.
Na-más - Não mais; apenas
Nunca - Não. Indica o passado na forma negativa. Êle nunca fazê: ele não fez. Nôs nunca olá: nós não vimos.
Pramicedo - De manhã cedo.
Quelê - Qual; qualquer; que.
Quiança - Criança; Quiança-Quiança: Crianças
Ravirá - Revirar; virar; correr de ponta a ponta; fartar-se.
Reva - Zangado; amuado. Ne-bom reva: não se zangue.
Sã - Verbo ser. Iou sã filo di Macau: sou natural de Macau; Macau sã assi: Macau é assim. Nós sã gente bem-fêto: somos gente séria.
Tasquinhá - De tasquinhar, mas com significado diferente. Furtar; subtrair; tirar às escondidas.
Unchinho - pouco; muito pouco; poucochinho. Já faltá unchinho: faltou muito pouco

Natal ta chegá - Consoada co Missa-Galo

Natal Macaense

NATAL TÁ CHEGÁ

"Ta faltá sômente três dias pa chegá Natal. Na casa di Venáncio  tudo ta quelê ocupado.
Títi Chai, co quánto gente ajudá êle, cavá fazê unga porçám di fárti co coscorám, agora tá começá sai mám pa fazê quánto tachada di alua. Impada sã lôgo ficá pa dia 24 pramicedo. Quelê-môdo pôde  passá Natal si nom-têm bom-bom pitisquéra na casa? Sã têm-qui matá-morê, fazê laia-laia ancuza pa tudo ficá contente. Sômente Maria nunca muto contente. Êle têm-qui ficá na casa pa ajudá su mai, j'olá? Ficá quánto dia prendido, ramendá unga pastro na cajola, nom pôde vai rua olá su Juám.
Chico-Chai já vai gafinhá caxotám guardado na dispénsa, tirá tudo ancuza di pesépio vêm fora, pa armá na sala. Êle co Avô-công abrí pacote, contá qui contá, buscá vai, busca vêm, dá falta di unga ancuza: nom pôde achá image di Nos'Sióra, Mai di Jesus.
- Vai sossegá vôs, Chico-Chai - Avô-công ta rabujá. - Pesépio qui nom-têm Santa Maria, sã qui laia pesépio?
Chico-Chai virá respondê:
- Avô!  tamêm nôs têm Nos'Sióra na pesépio... Quelê-modo estunga  áno já disparecê? Ne-bom falá já perdê!
- Nos'Sióra têm na nôsso pesépio áno-passado, áno-trazado, tudo áno! - avô fala. - Quelora vôs nunca nacê, nôs já tem estunga pesépio. Únde têm Nos'Sióra, iou querê sabe!
Maria já uví papiaçám, já vêm perto ri, chapá bóca falá:
- Nos'Sióra nom sã têm na Ceu? Únde más lôgo têm?
- Aia, fila, nôs ta buscá image qui já disaparecê... Nom-têm na pacote...
- Nunca disaparecê! Iou sabe têm na únde! - Maria respondê.
- Ah?! Vôs sabe? Vai panhá, quiança! Bom-quiança, azinha vai panhá!
- Iou têm pisente di Natal? Si têm, iou ta vai panhá...
- Uví, fila! - Avô-công respondê - Qualunga Natal avô já isquecê dá pisente pa vôs? Azinha vai panhá image vêm!
Maria sai mám fazê festa na rosto di avô, azinha corê vai riva.  Unga estánte vêm di volta sala, co image di Nos'Sióra na mám.
- Ah?! Já vêm di únde estunga image?
- Têm na altar di Mamá, desdi áno-passado - Maria respondê. - Pó cósa di cai unchinho cor, Tio Padre já pegá pintá, cavá já botá na altar.
Avô-công co Chico-Chai, suspirá aliviado, agora começá armá pesépio. Siviço di Venáncio sã vai horta panhá arêa co fóli-fólia pa fazê chám di pesépio."

CONSOADA CO MISSA-GALO

"24 sã dia di consoada. Tudo na casa têm-qui lembrá qui sã dia di jenjum, nom pôde comê carne. Unga dia intéro sã ravirá co sópa di lacassá co camarám, comê laia-laia verdura crú champurado. Têm rodela di batata cozido, cenóra, rabo com cincomáz pa quim querê. Titi Chai cumprí su religiám com devoçám bem-fêto, sã lôgo viziá, olá quim astrevê panhá carne comê. Masquí êle assim jambulám duro, tamêm Venáncio, emado, já corê vai cozinha tasquinhá pisunto, pa capí com pám comê. Ai, si Títi Chai sabe...
Perto chegá mea-nôte, tudo já têm na Greza Sant'António pá uví missa-galo, dessá Chacha Sabina, Chacha Ambrósia co Mui-Mui tomá conta di casa.
Frio di rachá, ántis di vai, unga-unga já gafinha baul tirá rópa grôsso-grôsso pa encapelá, com lám pa enroscá na piscoço. Maria mêdo su Avô-công panhá frialdade, já obriga vêlo usá capotám pesado qui fazê êle nom sabe andá.
No meo-meo di missa, tentaçám di Venáncio dá quánto cabeçada, já cai co sôno. Chai, quelora repará qui êle tá concá, ramendá águ ta fervê  na panela, já arcuá su braço zinguá unga cotovelada na pêto di su nhum. Estunga môno soltá unga "Ai!" assi fórti, qui Sium Padre na altar tamêm já uví, faltá unchinho entorná vinho di cáliz. Padre virá cara, olá cuza já sucedê.
Chegá fim di missa, tudo cavá bezá Minino Jesus, ilôtro azinha corê vai casa, cartá ramatá  Títi Dinha co Lolita pa comê ceia. Intrá na casa, priméro ancuza qui ilôtro fazê sandê vela, vai diánte di pesépio rezá pa pedí graça co Filo di Dios co Virge Maria, Su Mai. Sigundo ancuza, sã Venáncio sentá uví papiaçám di siara.
Cavá pregá sarabanda, Títi Chai dá voz Maria pa ajudá vai cozinha panhá pirú, capám co pisunto botá na mésa pa tudo comê. Querola ta retalhá pisunto, Tití Chai, ôlo vivo, já sentí qui vánda-basso di pisunto já ficá lambiscado. Nancassá priguntá, êle sabe qui sã obra di su Venáncio. Lembrá qui sã Natal, dia grándi, êle abrí unga ôlo, fichá unga ôlo, já dessá vai-ia.
Cavá comê, barriga enchido, unga-unga já virá vai casa, ilôtro fichá bêm fêto tudo janela, trancá porta, apagá lampiám co candia-cera, cadunga recolê na sua quarto. (...)".

Da novela "Estória Di Maria co Alféris Juám". in José dos Santos Ferreira, Macau di Tempo Antigo. Edição do Autor, Macau 1985




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Ancuza - Coisa; alguma coisa
Azinha - Depressa. É termo português antigo. Azinha-azinha: muito depressa.
Baul - Baú; Arca; Mala de madeira de tampa convexa.
Capí - Entalar; apertar. Capí mám: acenar com a mão. Capí mám na porta: entalar a mão na porta. Capí pám co pisunto: introduzir presunto entre fatias de pão.
Cartá - Transportar; trazer ou levar. Carté vai: levar. Cartá vêm: trazer.
Cavá - Vem de acabar: terminar, acabar; depois; em seguida
Cajola - Gaiola. Pastro na cajola: pássaro na gaiola
Champurá - Misturar; guisar. Champurá bredo co vaca: guisar hortaliça com carne de vaca.
Emado - Guloso
Encapelá - Cobrir-se com capa ou outra roupa qualquer. Agasalhar.
Estunga - Este ou esta.  Estunga quánto: estes ou estas. 
Fólia - Folha. Fólia-Fólia: folhas. Também significa página ou jornal. Já  sai na fólia: foi publicado no jornal.
Gafinhá - Procurar; esgravatar
Jambulám - Nome de uma fruta; jambulão
J'olá - Já Olá: ver (no passado). J'olá? Viu? ou então, compreendeu?
Lacassá - Aletria.
Laia - Espécie; maneira; casta. Laia-laia: de várias espécies; coisas sortidas. Tudo laia: toda a sorte; toda a qualidade. D'estunga laia: desta maneira; deste modo.
Mám - Mão. Mám fichado qui fichado: mão sempre muito fechada, avarento, mesquinho. Mám-tanto: aquele ou aquela que mexe em coisas que não lhe compete.
Masqui - Termo que vem do malaio e significa apesar de, embora. Masqui seza: embora seja.
Matá-morê - Esforçar-se muito; trabalhar até se cansar; aplicar-se; esmerar-se.
Nacanssá ou Nuncassá - Não é preciso; não esteja com. Nancassá cerimónia: não esteja com cerimónias. Nancassá inventaçám: não venham com mentiras.
Nhum - Rapaz, homem novo. Nhum nutrido: gordo, robusto. Nhu-nhum: senhores ou homens.
Papiá - Papear; papaquear; Falar, dizer. Papiá bem-fêto: falar bem. Qui cuza vôs ta papiá? Que está V. a dizer? Papiá nôsso língu: falar a nossa língua.
Papiaçám - Papiá originou papiaçám. Significa: fala, paleio; o falar. Um-cento papiaçám: muito paleio. Sã nosso papiaçám: é o nosso falar.
Qualunga - Qual; qual deles.
Quelê - Qual; qualquer; que.
Quelê-modo - Como; de que modo; de qualquer modo.
Quelê-tanto - Qualquer que seja a quantidade; grande quantidade; muito.
Quelora - Qual hora; quando; no momento em que.
Quiança - Criança. Quiança-quiança: crianças
Ramatá - Rematar; concluir; acabar.
Ramendá - Parecer; semelhante a; tal como. Ramendá unga pastro na cajola: Tal como um pássaro na gaiola.
Ravirá - Revirar. Virar; correr de ponta a ponta; fartar-se. Comê qui ravirá: fartar-se de comer. Ravirá cabéça: dar voltas à cabeça.
Riva - Cima; em cima.
Siara - Senhora; mãe de família; dona de casa. Esposa.
Títi - Tia. Títi-títi: Tias. Títi-dinha: tia madrinha. 
Unchinho - Poucochinho; muito pouco. Já faltá unchinho: faltou muito pouco. Iou querê unchinho na-más: quero apenas poucochinho. Unchinho-unchinho ora: de volta e meia.
Únde - Onde. Únde já vai? Onde foi? Únde lôgo têm? Onde estará? ou onde haverá? Nôs sabe sã únde: nós sabemos onde é.
Unga - Um ou uma.
Vánda - Banda; lado. Pa estunga vánda: por estes sítios. Vánda di trás: parte traseira; parte posterior.
Zinguá - Zingar; golpear; desfechar golpes; arrear.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Feliz Natal


Feliz Natal e Próspero Ano Novo 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Um pagode pitoresco

Templo junto às Portas do Cerco (Templo de Tin Hau)
Auguste Borget (1808-1877). Litografia colorida por Eugène Cicéri.
(in Quadros Históricos. Colecção do Museu de Arte de Macau)

"22 de Setembro de 1883 - Fui hoje, sob um calor intenso, inspeccionar os hidrómetros instalados. Às três horas da tarde dirigi-me ao da enseada de D. Maria II, acompanhado por Cinatti, Talone e Cunha. Para se chegar a este hidrómetro, assente na extremidade de uma restinga, foi mister entrar em uma pequena champana de pescador, onde o mar nos molhou a todos. Foi agradável aquele banho.
Há ali um sítio encantador. Pequenas cabanas de pescadores orlam a costa. Muito próximo, sobre umas rochas cortadas a prumo e batidas pelo mar, olhando para a enseada e para as nove ilhas, fica o pitoresco pagode chinês cercado de muros pintados de amarelo e com um pequeno jardim ensombrado por alguns formosos exemplares da árvore do pagode. É esplêndida de mimo e de poesia aquela situação do modesto templo. (...)"
Adolfo Loureiro. No Oriente, de Nápoles à China. in Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo II. ICM, 1998

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Monumento da Vitória

Praça e Monumento da Vitória. Ca. de 1900.
in Fotografias Antigas de Macau, Instituto Cultural de Macau e Museu de Macau, edição de 1999

Monumento da Vitória

 
Monumento da Vitória. Macau, Dezembro 2010


Inaugurado a 26 de Março de 1871 pelo Governador António Sérgio de Sousa, na então designada Praça da Vitória*, o monumento é da autoria do escultor Manuel Maria Bordalo Pinheiro (1815-1880).

Nele encontra-se a seguinte inscrição:

"No mesmo local onde uma pequena cruz de pedra comemorava 
a acção gloriosa dos portugueses mandou 
o Leal Senado levantar este monumento 
no ano de 1864**".

Numa outra inscrição, lê-se:

"Para perpetuar na memória dos vindouros 
a vitória que os portugueses de Macau
por intercessão do Bem Aventurado S. João Baptista
a quem tomaram por padroeiro 
alcançaram
sobre oitocentos holandeses armados
que de treze naus de guerra capitaneadas pelo almirante Roggers
desembarcaram na Praia de Cacilhas
para tomarem esta cidade do Santo Nome de Deus de Macao
em 24 de Junho de 1622"


* A Praça da Vitória - hoje, Jardim da Vitória - situava-se no prolongamento da Avenida Vasco da Gama rasgada em 1898, com cerca de 500 metros de extensão, que ía desde a Calçada do Gaio até à Rua da Fonte da Inveja. Ficava entre a Estrada da Flora (actual Avenida Sidónio Pais) e a Estrada da Vitória.


** O Padre Teixeira - A Voz das Pedras de Macau, Imprensa Nacional, 1980 - corrige esta data, pois "o monumento foi erecto não em 1864, mas 1871".

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Quartel de S. Francisco

O Quartel de S. Francisco e, no topo da colina de S. Jerónimo, o Hospital de S. Januário.
Fotografia publicada na Illustração Portugueza de 28 de Dezembro de 1908


"O Quartel de S. Francisco, no extremo da Praia Grande, mandado edificar pelo benemérito governador Coelho do Amaral, espaçoso, bem arejado, em excelentes condições, é ocupado pelo batalhão do Regimento do Ultramar destacado em Macau. Mais acima, no alto de uma pequena colina assenta o Hospital S. Januário, magnífico e elegante estabelecimento que Macau deve, entre outras muitas coisas, à larga iniciativa do conde de S. Januário". 
Conde de Arnoso. "Em Macau", Jornadas pelo Mundo* (1894). in Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo II. ICM, 1998

*Jornadas pelo Mundo, editado em 1894, resultou de uma missão diplomática de Tomás Rosa a Pequim, da qual o Conde de Arnoso fazia parte. Bernardo Pinheiro Correia de Melo (1895-1911), Conde de Arnoso, título com que foi agraciado em 1895, era também conhecido como Bernardo Pindela, por ser filho do visconde de Pindela. 
"O Sr. conde de Arnoso tem colaborado em diversos jornais, e está publicando actualmente uns artigos na Arte e a Natureza, publicação quinzenal do Porto, editores Biel & C.ª. Nas Novidades inseriu as suas notas da viagem a Pequim, em 1887, as quais reuniu depois num livro com o título de Jornadas pelo mundo, que publicou em 1895. É uma obra curiosíssima em que descreve a China e o Japão. A edição foi feita pela casa editora Magalhães & Moniz, do Porto. Pelo decreto de 28 de Setembro de 1895 foi agraciado com o título de conde de Arnoso. Até então assinava-se sempre Bernardo Pindela em todos os seus trabalhos literários. O primeiro livro que publicou têm por titulo Azulejos, impressões da sua vida de estudante na Universidade Coimbra. De braço dado, escrito de parceria com o primoroso poeta Sr. Conde de Sabugosa, edição da livraria Gomes, Lisboa, em 1894; A primeira nuvem, comédia em 1 acto, representada no teatro D. Amélia em Maio de 1902, editada pela casa Ferin, de Lisboa, Suave milagre, em 6 quadros, de colaboração com o distinto escritor Sr. Alberto de Oliveira. É um delicado trabalho, baseado num conto de Eça de Queirós, que se representou no teatro de D. Maria, pela primeira vez, em 28 de Dezembro de 1901, e se repetiu em bastantes noites, obtendo sempre aplausos. O Suave milagre foi também publicado, pela casa editora Feriu, em 1902, numa bela edição adornada de lindas ilustrações."

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Colégio D. Bosco


 Colégio D. Bosco. Macau, 2010


Os salesianos chegaram a Macau em 1906, para cuidar do Orfanato da Imaculada Conceição, inicialmente apenas para órfãos chineses e, a partir de 1941, também para órfãos portugueses. Em 1939, o bispo D. José da Costa Nunes concede licença para os salesianos erigiram uma "Casa Salesiana em Macau". Com o lançamento da primeira pedra a 6 de Fevereiro de 1949, o Colégio Dom Bosco era inaugurado a 10 de Fevereiro de 1951. Ainda nesse ano, a 30 de Novembro, foi lançada a 1ª pedra da nova ala do colégio, a qual incluía oficinas, salão de teatro e refeitório. Sendo o Colégio fundamentalmente uma escola industrial (oficializada em Julho de 1960), nele funcionaram todos os níveis de ensino não superior e, inclusive, até 1997, o ensino pré-escolar em português, data em que docentes e crianças foram transferidos para o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes.
Encerrou a secção portuguesa no final do ano lectivo de 1998/99, passando dos salesianos portugueses para os salesianos chineses. Designa-se, actualmente, Colégio Dom Bosco Yuet Wah, tendo apenas a secção inglesa e chinesa, tal com o Colégio de Santa Rosa de Lima.


Estátua de S. João Bosco no Jardim da Montanha Russa. Macau, 2010

João Bosco (Castelnovo de Asti, 16 de Agosto de 1815 - Turim, 31 de Janeiro de 1888), fundador da Sociedade de S. Francisco de Sales (1859), conhecida por salesianos, composta por sacerdotes e leigos e vocacionada para a educação infantil, juvenil e ensino profissional, foi criador do designado "sistema preventivo" em educação. Foi canonizado em 1934.


Fontes:
Amadeu Gomes Araújo. Diálogos de Bronze. Memórias de Macau. Livros do Oriente, 2001
Aureliano C. da Rosa Barata. "Colégio D. Bosco" in Ditema. Dicionário Temático de Macau, Vol.I, 2010

domingo, 5 de dezembro de 2010

Gravura Antiga di Macau

Nhonha recebe com chá
E sab'roso surang-surave
As amigas do bafá,
Chacha-chacha nos seus dós,
De jeito gentil e grave,
Que chegam de riquexós.

Nhonha veste um baju leve
Moldando os limões do peito,
A que a mão do nhom se atreve.
Não receia as pei-pá-chais:
No escurinho do leito,
Ambos são risos e ais.

Nonha deixa o arrebique
Com face de loiça fina.
Passo breve, tique-tique,
Vai à janela, abre as reixas.
E, entre a boa e a má sina,
Diz amores e escuta queixas.

Nhonha compõe a saraça,
Sentadinha na cadeira,
Toda atenta ao que se passa,
Alegre de malinguar
Pés na frecura da esteira
Que a bicha cansa a esfregar.

(Que saudade, esta Macau
Que eu adivinho feliz,
Morando ali ao Lilau,
Com respeito, dengue e ardor:
Jardim de mulher-raiz
Com chiste de mulher-flor.)

Glossário:
Arrebique - toucador
Bafá - antigo jogo de cartas chinesas de Macau
Baju - blusa de pano fino
Bicha - criada ou escrava
Chacha-Chacha - mulheres velhas
Dó - manto ou mantilha preta
Malinguar - fazer má-língua
Mulher-flor - prostituta
Nhom - filho de europeu e de filha da terra
Nhonha - senhora filha da terra
Pei-pá-chai - cantadeira profissional
Saraça - pano de seda estampada que servia de saia
Surang-surave - doce típico de Macau 

António Manuel Couto Viana. Gravura Antiga di Macau 
in RC - Revista de Cultura, Nº 25 (II Série), Outubro / Dezembro, 1995

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

"Era quase uma ilha..."

Pormenor de um desenho de Carlos Marreiros 
para "O Topos Sagrado" L.S.C.
Mitografia de Macau (Série "A Cidade e o Poeta"), Macau, 1997
publicado na RC- Revista de Cultura, nº 34 (II Série) Janeiro / Março de 1998. 


" (...)
Para o "Porto de Macau na China", há especiais factores que confluem à necessidade  de sagraçõe do lugar, de projectar o céu e a terra, de convocar forças benéficas e repudiar influências nefastas. De fundar  a continuidade na mais remota memória.
Há, em primeiro lugar a consciência do estatuto precário do estabelecimento, que é constante ao longo dos séculos. A terra não é portuguesa. A cartografia refere Macau "nas partes da China". O senhor da terra é o Imperador da China. "Não estamos aqui em nossa terra, conquistada por nós, como são as mais fortalezas da Índia onde somos senhores (...) senão em terra do Rei da China, onde não temos um palmo de chão (...)" (Carta do Leal Senado de 1637). O chão tem de ser garantido pelo pagamento de um foro, sempre sujeito à negociação e à volubilidade do arrendatário."
(...)
"Assiste à origem do topos macaense a regra de que o que sacraliza um lugar é o seu isolamento (de isola, ilha)."Ce qui sacralise avant tout un lieu c'est la fermeture", Gilbert Durand. 
A tentação do isolamento é a tentação da pura razão. Delinear um círculo é concluir o receptáculo próprio à manifestação divina". 
(...)
"Toda a ilha é redonda, e idealmente se presta ao símbolo, à viagem da imagem para o conceito, por oposição contrastante ao elemento caótico que a circunda, da indiferenciação e do que não tem forma, das "águas inferiores" que não foram ainda penetradas do supremo espírito movente. Na ilha se dá a representação ou actualização do arquétipo, e as urbes, como outros microcosmos, são a projecção de geometrias celestes e expandem-se na declinação de círculos infinitos, sempre pressupondo a referência ao centro original."
"Depois de tantas deambulações por sedes efémeras, por certo que a escolha de Macau para o lugar do "assentamento", com expectativas de continuidade, obedeceu a razões de carácter e condições práticas. Oferecer o recorte adequado ao abrigo portuário, o acesso a abastecimentos, e a aguadas - foram com certeza as primeiras vantagens pragmáticas vistas na terra."
"Fisicamente, a geografia não é a de uma ilha, mas de uma península, cujo pequeno istmo lhe dá configuração de minúsculo pseudópode estirado à entrada do Rio das Pérolas."
"Mas figura na cartografia primeva, vulgarmente, como "ilha de Macau" ou "quase-ilha" (presqu'ile) de Macau.  A nosso ver, com clara intenção política de inculcar tranquilidade ao centro político do Império chinês; substante à cedência dos mandarins de Cantão residia o receio de intrusão dos fulangi em terra do continente, pelo que a autorização de fixação num lugar de comércio era dado para as ilhas do estuário. Pesados os factores, a península oferecia mais necessárias condições e era quase uma ilha..."
Excertos de "O Topos Sagrado. Esboço de Mitografia Macaense" de Luís Sá Cunha. RC - Revista de Cultura, nº 34 (II Série), Janeiro / Março, 1998.

Partie De L'Isle De Macao

Planta da Cidade e Porto de Macau, início do século XVII.
"Le Petit Atlas Maritime", 1767.
(in RC- Revista de Cultura, nº 34, 1998)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Desenhos de Chan Chi Lek

Templo de Lin Fong, 1998
Templo de Na Tcha na Calçada das Verdades, 1998
Calçada da Igreja de S. Lázaro, 1998

Bilhetes postais com desenhos de Chan Chi Lek publicados pelo Centro Unesco de Macau e Fundação Macau.

domingo, 28 de novembro de 2010

Descobre-se um belo panorama

Vista panorâmica de Macau
Fotografia publicada na Illustração Portugueza de 28 de Dezembro de 1908

"Do Farol da Guia - o primeiro que se acendeu em todo o mar da China - descobre-se um belo panorama. Vê-se a rade, as ilhas da Taipa, da Lapa e de D. João; a cidade subindo quase até à Penha de França; o Porto Interior com a Ilha Verde; Mong-Ha, a estreita língua do istmo, Passaleão e as azuladas distantes montanhas da China."
Conde de Arnoso. "Em Macau. Jornadas pelo Mundo (1894). in De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo II, ICM, 1988

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

É um panorama fulgurante

"Teatime patrons dancing on terrace of Bela Vista Hotel to music of Filipino swing band". 1949 . Fotografia de Jack Birns - Time Life Pictures / Getty Images.

"Dirigimo-nos, mais tarde, a um hotel, que espairece junto da colina da Senhora da Penha. (...)  O velho hotel, onde residem muitos funcionários lusitanos, está sobranceiro ao mar. Tem uma larga varanda de pedra e, ao lado, frondosas árvores. Dele se vêem, em frente, algumas ilhas, à esquerda a colina do Farol da Guia, mais abaixo a grande e rútila enseada, com a sua praia e o seu branco casario. É um panorama fulgurante (...)".
Ferreira de Castro. A Volta ao Mundo (1944). in De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo 3, ICM, 1996

Hotel Boa Vista

O Hotel Boa Vista. 
Fotógrafo não identificado. 
Illustração Portugueza de 14 de Dezembro de 1908


O Hotel Boa Vista foi fundado em 1890 pelo inglês William Edward Clarke.
O edifício, construído cerca de 1870 para residência da família Remédios, foi adquirido pelo capitão Clarke com o objectivo de o transformar num estabelecimento hoteleiro de qualidade, em especial para os visitantes da vizinha colónia britânica de Hong Kong.

Entre 1917 e 1923, acolheu o Liceu de Macau, onde leccionou Camilo Pessanha. Voltou a ser hotel, mas com o nome de Bela Vista. Mais tarde, de 1934 a 36, foi alojamento de oficiais britânicos que em Macau aprendiam cantonês e, durante guerra do Pacífico, residência de refugiados de Hong Kong e Xangai. Em 1948, regressou novamente à sua função hoteleira, como Hotel Bela Vista.

Com três pisos e traços do neoclássico local - "as arcadas, as colunas, os balaustres, os arcos de volta inteira, as molduras e, mesmo, um pequeno frontão"* -, o edifício é hoje residência oficial do cônsul-geral de Portugal em Macau. Está classificado como Edifício de Interesse Arquitectónico.


Fontes:
* Maria de Lourdes Rodrigues Costa. História da Arquitectura em Macau. ICM, 1997
Celina Veiga de Oliveira e Jorge Cavalheiro. Guia Histórico-Cultural de Macau. Instituto de Estudos Europeus de Macau, 1999
Pedro Dias. A Urbanização e a Arquitectura dos Portugueses em Macau. Portugal Telecom,  2005

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O Palácio do Governo

O Palácio do Governo. 
Fotografia publicada na Illustração Portugueza de 14 de Dezembro de 1908.
Fotógrafo não identificado.

"O Palácio do Governo, comprado à família Cercal, é um vasto edifício de bela aparência. Durante algum tempo estiveram nela diversas repartições; mais tarde, durante a última administração, todas se instalaram, com grande comodidade para o serviço público, no antigo Palácio do Governo, um óptimo edifício também, e onde principalmente se admira a sala do tribunal, que era a antiga sala do trono do palácio. (...) Ao lado fica o pequeno Correio estabelecido também durante o governo de Tomás da Rosa. Até então era coisa que não havia na província! Toda a correspondência se enviava, pelo vapor da carreira, ao correio de Hong Kong". 
Conde de Arnoso. "Em Macau". Jornadas pelo Mundo (1894). in De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. Tomo II, ICM, 1988

Em 1851, o governador Isidoro Francisco Guimarães, visconde da Praia Grande, mandou construir um palácio na avenida da Praia Grande, em frente do fortim de S. Pedro, para nele instalar o Palácio do Governo e diversos serviços. Em 1884, a sede do governo passou para o palácio do visconde do Cercal, ficando no anterior palácio apenas os serviços públicos. Em 1951, o Palácio das Repartições (demolido em 1946) foi substituído pelo Edifício das Repartições Públicas, que a partir da década de 80 albergou o Tribunal de Macau.


Fontes:
Maria de Lourdes Rodrigues Costa. História da Arquitectura em Macau. ICM, 1997

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A vila da Taipa

A vila da Taipa. À esquerda, a igreja de Nossa Senhora do Carmo.
Fotografia publicada ma Illustração Portugueza de 14 de Dezembro de 1908
Fotógrafo não identificado.

A Taipa, que em chinês é conhecida por  Tâm Tchai ou Pequeno Lago, estava, ainda no início do século XX, dividida em duas ilhas - a Taipa Grande ou Taipa Quebrada e a Taipa Pequena - separadas por uma estreita língua de mar. Foram, mais tarde, unificadas por assoreamentos naturais e, posteriormente, por aterros. Foi junto a uma das suas colinas - na Taipa Pequena - que se constituiu a povoação da Taipa, com um ancoradouro. Aqui, desde o século XVII, "os barcos estrangeiros que se dirigiam a Cantão, subindo o rio das Pérolas e que deviam tomar a bordo, em Macau, piloto e intérprete, apenas eram autorizados a seguir viagem depois de fundearem na Taipa, local portanto bem conhecido dos marinheiros, a ponto de algumas cartas marítimas se referirem a Macau como 'porto da Taipa'"*.

Em 1869, foi criado o concelho municipal das ilhas, que esteve instalado na fortaleza da Taipa durante dez anos, altura em que passou para um edifício próprio, na vila da Taipa. Em 1875, o comandante militar da Taipa expôs a necessidade de construção de uma capela em cada ilha, sendo a da Taipa a primeira a ser construída, localizada numa pequena elevação junto à vila e dedicada a Nossa Senhora do Monte do Carmo. Com o projecto elaborado em 1882, a igreja ficaria concluída em 1885.
Data também de 1882 o início do processo de arborização da Taipa.
Até  1974, quando foi inaugurada a ponte Governador Nobre de Carvalho, a ligação entre Macau e a Taipa era feita apenas por barcos da carreira ou de pescadores.


* Maria de Lourdes Rodrigues Costa. História da Arquitectura em Macau. Instituto Cultural de Macau, 1997

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Fortaleza da Taipa

 A Fortaleza da Taipa  e o monumento em memória das vítimas da explosão da fragata D. Maria II. 
Taipa, Novembro de 2010


Fortaleza da Taipa


Fortaleza da Taipa, 1908. 
Fotografia publicada na Illustração Portugueza de 14 de Dezembro de 1908.
Fotógrafo não identificado.


O Forte da Ilha da Taipa foi construído em 1847 sob a direcção do 1º tenente da Marinha Pedro José da Silva Loureiro, por ordem do governador Ferreira do Amaral e a pedido da população local, sendo por ela custeado. 
Localizada na costa oeste da ilha e, primitivamente, junto às águas, a fortaleza controlava o tráfego marítimo entre a Taipa e a Ilha de D. João e defendia a população local contra os constantes ataques dos piratas. Era um forte costeiro que, actualmente, se encontra afastado do mar devido aos aterros. O pequeno edifício situado no interior da fortaleza serviu de residência de Verão dos governantes de Macau. Desde 1999, é a sede da Associação dos Escuteiros de Macau.
Em 1851, foi levantado um monumento em memória das vítimas da explosão da fragata D. Maria II, ocorrida no ano anterior (a 29 de Outubro). A fragata encontrava-se fundeada no ancoradouro da Taipa e a explosão foi devida ao incêndio do paiol de 300 barris de pólvora. O monumento encontra-se  situado no topo de uma escadaria, no pequeno jardim junto à fortaleza.


Fontes:
Maria de Lourdes Rodrigues da Costa, História da Arquitectura em Macau, Instituto Cultural de Macau, 1997
P. Manuel Teixeira. A Voz das Pedras de Macau. Macau, Imprensa Nacional, 1980
Pedro Dias, A Urbanização e a Arquitectura dos Portugueses em Macau 1557-1911. Ed. Portugal Telecom, 2005

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Uma casa privada na Praia Grande

"Uma casa privada localizada na Praia Grande". Macau, década de 1900
Colecção: Fotografias Antigas de Macau. 
Edição: Instituto Cultural de Macau, 2009


"Em geral as casas dos moradores de Macau são muito boas, e mais vastas, elegantes e cómodas do que aquelas que em Portugal habitam pessoas de igual condição; têm belas entradas e escadarias, largas venezianas nas janelas ou varandas e boas mobílias: em Macau há bastante gosto neste ponto, e o maior luxo consiste em ter mobília, loiças e vários objectos da Europa; as escadas e os sobrados são pitados a óleo com diferentes debuxos, o que é de bonito efeito".
Carlos José Caldeira.  Apontamentos de uma viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa. in Carlos Pinto Santos e Orlando Neves. De Longe à China. Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. ICM, Tomo II, 1988

Farol da Guia

Farol da Guia, 1908. 
Fotografia publicada na Illustração Portugueza de 14 de Dezembro de 1908.
Fotógrafo não identificado.

Iniciada a construção em 1864 e concebido pelo macaense Carlos Vicente Rocha, o Farol da Guia acendeu-se, pela primeira vez, a 24 de Setembro de 1865. Foi construído sob a direcção do governador Coelho do Amaral e custeado pela comunidade estrangeira de Macau.

É o farol mais antigo da China e encontra-se situado na latitude de 21º 11' Norte e na longitude de 113º 33' a Leste de Greenwich. A torre mede 13,5 metros, da base à cúpula, e a sua luz eleva-se a 101,5 metros acima do nível do mar, nas mais altas marés de tempo calmo. A luz é branca e visível, em tempo claro, a 20 milhas.

O primeiro farol funcionava com um candeeiro a petróleo, cujo autor do maquinismo era o hábil macaense Carlos Vicente da Rocha. "Tão curioso era o modelo desse farol que o seu autor o enviou para Lisboa, onde se conservou muito tempo na Sala do Risco do Ministério da Marinha até que um incêndio o devorou"(Teixeira, 1997).

O tufão de 22 de Setembro de 1874 causou várias avarias, tendo sido reconstruída a sua torre. Em 1910 foi substituída a aparelhagem por outra moderna a energia eléctrica.
O seu primeiro faroleiro foi um velho soldado reformado chamado Diogo, que acumulava também as funções de fiel da fortaleza.


Fontes:
Beatriz Basto da Silva. Cronologia da História de Macau, Século XIX, vol 3, 1995
Diogo Fernandes. "O mais antigo da China. Farol da Guia: uma luz no Oriente". Revista Nam Van, nº 16 de 1 de Setembro de 1985
Padre Manuel Teixeira. Toponímia de Macau, vol 1, ICM, 1997

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Rua da Casa Forte e Bazarinho

Rua da Casa Forte. Macau, Novembro de 2010

Começa junto à Rua de S. Lourenço, ao lado do Pátio da Casa Forte, e termina na Rua do Bazarinho, junto ao local onde se encontra o altar de Tou Tei, mesmo em frente à Travessa de Maria Lucinda.

Data de 1719 a fundação das "Casas Fortes" ou quartéis da Polícia. Eram três e encontravam-se instaladas nos bairros de S. Lourenço, Santo António e Sé Catedral. Cada uma tinha um capitão e sete praças ou ordenanças. Em 1754, o Senado requereu ao vice-rei da Índia a extinção das "Casas Fortes", "por serem escusadas e por não servirem de utilidade alguma para a segurança da terra, dando só despesa"*, mas não foram, então, extintas.

No termo da Rua da Casa Forte, a Travessa de Maria Lucinda e o altar de Tou Tei, o deus da terra. Macau, Novembro de 2010

Rua do Bazarinho. Macau, Novembro de 2010

A Rua do Bazarinho, assim designada para se distinguir do Bazar Grande em S. Domingos, começa junto ao Pátio da Ilusão, na Travessa do Mata-Tigre, e termina no entroncamento da Calçada de Eugénio Gonçalves com a Rua das Alabardas. Para os chineses é a Rua do Marinheiro, a oeste - Soi Sau Sai Kau -, pois existia outra rua do Marinheiro, esta a sul.

* Fonte: P. Manuel Teixeira, Toponímia de Macau, Vol 1, Instituto Cultural de Macau, 1997

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Os autos, ou o teatro chinês em Macau

The Theatre at Macao / O teatro de Macau
in The Illustrated London News, 17 March 1866
(imagem publicada em Oriente, nº 14, Fundação Oriente, Lisboa)


"Não há edifício permanente para teatro, e o mesmo sucede nas cidades chinesas: parece que só em alguns grandes pagodes há local e construção apropriadas para estes espectáculos, que, em geral, se representam num grande barracão com o tecto angular e muito elevado coberto com esteiras ou colmo; o madeiramento é formado de bambus, fortemente ligados com fios de rotim; é aberto por todos os lados, e só tem uma frágil parede de tábuas no fundo do que chamaremos palco, aos lados do qual correm, paralelas, uma espécie de varandas ou trincheiras com assentos para os espectadores que os querem pagar, e o seu preço para os europeus não excede a um maz de prata, ou um tostão; o espaço intermédio constitui a plateia, sem sobrado nem anfiteatro, com a entrada, toda aberta em frente do palco, gratuita para o povo, que vê o espectáculo de pé e que sempre concorre em multidão. Os indivíduos que ficam na primeira fileira da plateia são obrigados a apoiar-se com as mãos na extremidade do palco, que lhes fica na altura das cabeças, formando como um renque de escoras com os braços nus, para resistirem aos contínuos embates das ondas dos espectadores, os quais, vistos das varandas, formam, apinhados, uma espécie de pavimento composto de cabeças muito unidas,rapadas na maior parte do casco, e que ora são levadas todas numa direcção ora noutra, exactamente como as vagas de um mar banzeiro".
(...)
"Nestes teatros não há pano de boca: as decorações são muito singelas e grosseiras, e as poucas mutações na cena todas se fazem à vista do público; de noite são iluminados com fachos e luzes sobre o tablado. Duram as representações, de dia das onze às cinco da tarde e continuam das sete à meia-noite, ou mais. A representação é continua e não tem os intervalos  dos nossos actos; mas há cenas sucessivas que se vão anunciando por uma espécie de cartaz, ou tabuleta, que penduram nuns barrotes, na posição que corresponderia às colunas do proscénio".
(...)
"A orquesta está no fundo do palco e é composta de uma espécie de rebecas, de gaitas com forma e sons semelhantes à clarineta, e de bategas ou timbales, o que produz uma música estrondosa e infernal que acompanha quase constantemente a declamação; junte-se a isto o frequente rebentar dos panchões ou estalos sobre a cabeça dos actores, admiravelmente a propósito no fim das falas ou nas passagens de maiores afectos; e fazer-se-á ideia da bulha confusa e incómoda que se experimenta e que cobre a voz dos actores, apesar de berrarem às vezes extraordinariamente (...)".
Carlos José Caldeira. Apontamentos de uma viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa. in Carlos Pinto dos Santos e Orlando Neves, De Longe à China - Macau na Historiografia e na Literatura Portuguesas. tomo II, Instituto Cultural de Macau, 1988.


Carlos José Caldeira (1811-1882) esteve em Macau em 1850-51 e da sua estadia no Oriente resultou o livro de crónicas, publicado em dois volumes em 1852 e 1853,  Apontamentos de uma viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa.

"Homem dedicado às letras, distinguiu-se com escritor e jornalista, tendo colaborado no Diário de Notícias, Jornal do Comércio, Arquivo Pitoresco, Correio da Europa, Arquivo Universal, Ilustração Luso-Brasileira, Ocidente e Revista Peninsular. Das obras que nos deixou, contam-se, entre outras, Considerações Sobre o Estado das Missões e da Religião na China (1851) e Apontamentos de uma Viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa (1852-1853). Esta última obra, dividida em dois volumes, resultou da viagem que realizou à China, quando contava cerca de 40 anos de idade. Partiu em Julho de 1850 com destino a Macau, numa viagem que durou 50 dias, e permaneceu no Oriente até finais de 1851.  Os seus Apontamentos são, ainda hoje, uma obra de consulta obrigatória para todos aqueles que se dedicam ao estudo de Macau oitocentista, traçando um interessante retrato sobre aquela cidade e apresentando vivas descrições e profundas reflexões sobre outros espaços onde se fazia sentir a presença portuguesa, quer no Oriente quer em África".  Alfredo Gomes Dias. Ditema - Dicionário Temático de Macau, Vol. I, 2010.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Carlos Frota: Três poemas em homenagem a Henrique de Senna Fernandes

I
AMOR E DEDINHOS DE PÉS
Oh a Rua Central
depois da missa das onze de domingo na Sé
com as montras vistosas
das novidades de Paris

oh as casas da minha amada
no Largo do Lilau  na Ilha Verde
onde amei a minha noiva
feia noiva bonita como escreve

o contador de histórias o cronista
desse Macau que foi meu pelos seus livros

e num canto suave da memória
fica a história da sua cidade
minha


II
TANCAREIRA
"Amou seu homem
num alto mar poético e sem lua
e aí gerou a filha
que partiu
para não ser sua
a mesma escravidão
de amarrada ao seu tancá
não ter mesmo outro futuro
que o futuro que o rio dá"

Não sei se chorei Amigo
a tristeza desta história
ou se fui buscar contigo
em igual arca da memória
pedaços de vida vivida
laivos de vida esquecida
doutras terras doutras gentes


III
NO JARDIM DE S. FRANCISCO
Numa tarde serena e ociosa
embrenho-me pensativo pelo jardim
procurando ouvir as histórias
que me quer contar
o tronco silencioso
de velha árvore frondosa

de repente pressinto
dois vultos de jovens namorados
ternamente enlaçados

ele meio oculto meio envergonhado
ela muito bela de uma beleza trigueira

e então pressinto que ela é
a jovem da trança feiticeira

Carlos Frota. Dos Rios e Suas Margens. Macau, 1998